Assisti com atenção à entrevista concedida por Godinho Lopes à RTPi. E, antes de ir directo ao assunto, devo dizer que estranhei a estratégia seguida: se o momento a recomendava, como meio para explicar as decisões tomadas, (que redundaram na saída de Carlos Freitas e Luís Duque e até para sentir o seu efeito no ânimo do presidente) não deixou de ser um risco fazê-lo a uma televisão e não a um jornal. Isto porque, como é mais ou menos consensual, Godinho Lopes não conta com a oratória no seu rol de qualidades.
O risco acabou por compensar, uma vez que GL se apresentou bem preparado e combativo, naquele que foi o seu melhor registo dentro do género desde a campanha eleitoral. E essa foi a principal virtude da peça, tendo em conta a postura da entrevistadora, que deve ter falado tanto quanto o entrevistado. Os espectadores não podem ter deixado de se sentir defraudados, pois não teriam sintonizado o canal para ouvir a Fátima Campos Ferreira.
Da substância do que foi dito fica a redefinição do modelo até agora seguido, com Godinho Lopes a assumir toda a responsabilidade do futebol. Sobram mais uns quantos pormenores que, por comparação com esta decisão, perdem importância.
A medida parece-me correcta e deve ter resultado de uma avaliação inevitável, feita pelo próprio, face ao que têm sido os resultados da equipa de futebol, e que estão na origem da actual crise. Godinho Lopes já percebeu que no futebol os maus resultados têm um culpado - ele - e as vitórias, se as houvesse, veriam os seus méritos divididos por uma infinidade de parcelas devidamente personalizadas. Ao chamar a si a responsabilidade da condução do futebol GL toma a opção correcta, viverá e morrerá com as decisões que lhe serão exclusivas ou pelas que dará a cara.
"Mas o que percebe GL de futebol?" foi a pergunta que surgiu imediatamente. Nada, foi a resposta da maioria. Ora isto no mínimo é um pouco sobranceiro: quem é que valida a autoridade na matéria do adepto comum que, presumo, divide com GL a mesmíssima qualidade de treinador de bancada?
Sempre tive as minhas dúvidas sobre esta tão propalada necessidade de
um presidente do clube perceber de futebol. Se isso fosse assim tão
óbvio não deveríamos estar à procura de um treinador para presidente,
resolvendo o problema de uma assentada?
Obviamente que
não. Um presidente é essencialmente um decisor. É do acerto das decisões
que toma que se constrói ou esboroa a grandeza de um clube. As áreas
de intervenção de um presidente são tão diversas que, se usássemos da
mesma exigência relativamente aos conhecimentos do futebol, um
presidente para o Sporting teria, no limite, de ser licenciado em
Economia e Gestão, Markting e Publicidade, Educação Fisica, nas mais
diversas engenharias, até à Agronomia, (para resolver os problemas da
relva), etc, etc. Um absurdo, como é bom de ver.
É inevitável que, quando se fala de presidentes e em regimes presidencialistas, que o nome que saia à colação seja o de Pinto da Costa, ou de LF Vieira, e até mesmo de António Salvador, do Braga, pelos êxitos recentes. Mas será que eles percebem assim tanto de futebol? E o que é perceber de futebol?
O caso de Pinto da Costa merece análise. Todo o seu percurso profissional, anterior à presidência do seu clube é algo cinzento, e se razões parece haver para qualquer menção, diz-se nos mentideros que seriam a da mediocridade como gestor de empresas. Tenho sempre alguma dificuldade em elogiar alguém como PdC, que não olhou a meios para atingir os fins que se propunha, mas é indiscutível que encontrou na presidência do seu clube a sua verdadeira vocação.
A sua capacidade de decidir não se esgota apenas no futebol, quem conhecia o que era o FCP antes da sua chegada e o conhece hoje percebe-o bem. A forma como rentabilizou o projecto imobiliário, as opções tomadas relativamente à academia, o pavilhão, etc, testemunham decisões de qualidade, mesmo nunca esquecendo a sua ética e moral duvidosas, e que podem ser enquadradas numa concorrência desleal. Provavelmente PdC ganharia sempre muitas vezes, mas talvez não tantas como ganhou.
Não podemos pôr LFV no mesmo nível. À procura do seu quarto mandato teve o seu golpe de asa quando foi buscar Jesus, tendo conseguido interromper um ciclo de 5 anos sem ganhar. Os benfiquistas fazem hoje o seu próprio balanço, mas parece-me consensual que a sua gestão está longe de poder ser considerada um modelo, e não apenas no futebol.
Mesmo Salvador, que conseguiu por Braga no mapa do futebol, não colecciona apenas êxitos. Hoje já ninguém se lembra, mas quem escolhe treinadores como Rogério Gonçalves, Jorge Costa, António Caldas (interinamente) ou Manuel Machado pode muito bem ver questionados os seus conhecimentos de futebol. E foi ele também que não quis renovar com Domingos.
Concluindo, Godinho Lopes não precisa de "perceber de futebol". Precisa sim de montar uma estrutura profissional, multidisciplinar, capaz de lhe fornecer toda a informação que necessita para tomar boas decisões. Porque, no fim do dia, são elas que pontuarão o que resta do seu mandato.
Para concluir, acrescentaria apenas que essa estrutura multidisciplinar, na medida do possível, e dentro das normas de uma gestão transparente, deveria ser o mais resguardada possível, mesmo que com isso os seus elementos ficassem fora do conhecimento público. Isto porque, nesta fase da vida do Sporting, continua-se a preferir discutir mais nomes do que competências, e sempre numa lógica subordinada às compatibilidades e incompatibilidades de ordem pessoal. E, como bem sabemos, o termo "balcanização" no Sporting tem contornos únicos e refinados.