A missão difícil
Por certo que ninguém ignora que, se não conseguirmos o apuramento para fase de grupos da Liga Europa, grande parte desse insucesso de deverá ao jogo da 1ª mão, em casa. Assim, logo, a partir das 18:00 o Sporting bater-se-á contra vários adversários: i) a história, uma vez que nunca logrou contrariar fora de portas um resultado tão adverso em casa; ii) contra si mesmo, isto é, o seu próprio momento, tendo em conta o que têm sido as suas prestações em jogos oficiais; iii) o adversário propriamente dito, com as velas cheias do vento do resultado tão excelente como improvável, acrescido pela retaguarda entusiasmada e surpreendida dos seus adeptos. Complicado que foi o que já não era fácil, o que poderemos então fazer?
O general perdido no seu labirinto
O papel do treinador é primordial. E esse é neste momento o meu principal temor. Do que tenho visto, são vários os equívocos ainda por resolver no processo de jogo do Sporting, dos pés à cabeça. Paulo Sérgio tem-me feito lembrar, nas suas opções, os treinadores ingleses, para quem a táctica parece ser tratada como um mal necessário. O Sporting, na maior parte do tempo, se não tem jogado no pontapé para a frente, tem andado lá perto. E isto, meus caros, é a pré-história do futebol. Está para o futebol como os grelhados para a culinária.
A equipa tem dificuldade a jogar com bola: quando a tem em seu poder parece querer livrar-se dela o mais depressa possível. (O treinador e até alguns adeptos parecem querer inclinar-se para questões sempre perigosas como o carácter – a falta dele – dos jogadores. A mim parece-me que esta é uma questão de treino e de filosofia de jogo.). A distância que medeia entre os sectores transforma a equipa no continente que deveria ser num arquipélago de 3 ilhas. A movimentação interior quase não existe e a penetração pelos flancos é, em regra, uma miragem. A saída de Postiga agravou a falta de apoio frontal para oferecer linhas de passe e temporizações que permitam subir os blocos. O esquema de duplo pivot faz as arrastadeiras parecer aviões supersónicos.
E se se joga deficientemente com bola, sem ela o panorama não é melhor. Paulo Sérgio quer a equipa a pressionar alto mas até agora o que se tem visto é uma tentativa anárquica para o fazer. E fazê-lo a todo o tempo é desgastante, residindo talvez aí a explicação entre as razoáveis primeiras partes e os sofríveis 45 minutos finais. E talvez esteja também aí a explicação para a anarquia: a pressão é feita , quando a respiração permite, a espaços, de iniciativa individual e não em bloco. As brechas nas costas, resultantes da descoordenação, oferecem chip´s para as SCUT´s que se abrem entre linhas até à nossa baliza.
E, para agravar o cenário, o Sporting tem jogado, do ponto de vista táctico, umas vezes assim, outras vezes assado, mas nunca em função, não do adversário, mas das suas debilidades. O que também é muito típico na arrogância (ignorância) táctica britânica. E é pois, com particular apreensão, que vejo o diagnóstico do treinador recair quase em exclusivo na falta de eficácia a explicação para o insucesso: “O Sporting já fez coisas boas, e talvez por essa falta de eficácia não tenhamos atingido os resultados desejados.”
Como é insensato o coração
Talvez eu seja um adepto atípico. Acredito na razão, na inteligência - no treino, da táctica, e até na inteligência emocional – como o factor decisivo e primordial para ganhar. Por isso, em regra os bons treinadores fazem as melhores equipas e por isso o futebol é a modalidade onde os mais baixos, os mais baratos e os desconhecidos ganham com mais frequência aos mais altos, mais caros e às estrelas.
Antes e depois dos jogos sou levado pela razão e a frieza de raciocínio. Mas quando a bola começar a rolar os neurónios vão de férias. O coração bate descompassado, o sangue ferve, a emoção arrebata-me e acredito sempre. Eu ainda acreditava quando terminou os 3-6, eu ainda hoje acredito que é possível ganhar a Taça UEFA e o jogo já terminou há 5 anos. Como posso eu acreditar que não somos capazes de ganhar, a uns Viking´s de futebol desdentado, com táctica e sem ela, à Martim Moniz, à Padeira de Aljubarrota, à Miguel Garcia de Alkmar, e logo gritar como o Jorge Perestrelo: eu te amo meu Sporting? (Oh Jorge, nem que tenhas que descer lá de onde estás e marcar com a barriguinha…)