Se havia matéria em que, de forma rara, as opiniões dos Sportinguistas tendiam a coincidir, eram as relativas aos comportamentos dos presidentes e demais representantes, em relação aos seus homólogos rivais. Sobretudo quando estavam em causa respostas ou reacções a acções daqueles, no contexto das quase sempre tortuosas relações entre os grandes.
Na memória dos Sportinguistas estão, de forma genérica, a importância das acções do FCP, de Pinto da Costa, no sentido de menorizar o papel do Sporting, no que teve prestimosa colaboração interna, na inépcia de uma parte importante da nossa classe dirigente. Ou, de forma muito particular, em episódios como os da camisola de Rui Jorge, e referências insultuosas directas - "o cabelos brancos" a Bettencourt, ou "falou antes ou depois do almoço?" a Soares Franco - com os visados a ignorarem olimpicamente as ofensas, indo por vezes ainda mais longe, ao conviverem alegremente entre si, como se nada tivesse passado. A totalidade dos Sportinguistas que conheço indignavam-se e não se sentiam representados pelos seus eleitos, a quem muitas vezes acusavam de fazer a figura do "pateta alegre".
Com alguma razão os nosso vizinhos lisboetas iam-nos acusando de andarmos a reboque das estratégias de Pinto da Costa, acusação que se justifica pelo menos pela lassidão das reacções ou, por vezes, total inacção perante os vexames a que éramos sujeitos, sem a devida resposta.
A entrada de Bruno de Carvalho para a presidência do clube equivaleu, logo nos seus primeiros instantes, a uma altercação com uma das figuras gradas do séquito de Pinto da Costa, Adelino Caldeira. Não sei se estamos a falar de um acto casual ou estratégico nas relações com os clubes. E dizer isto é também confessar que qualquer uma das hipóteses sugeridas poderia ter origem em qualquer um dos lados. O que é facto hoje por todos testemunhado é que não há relações institucionais entre os dois clubes e o episódio acima referido assumiu um carácter determinante. Pior do que isso são os relatos do que têm sido as trocas de mimos entre as diversas comitivas, cada vez que os clubes se encontram.
Sobre esta matéria a minha opinião, como sócio e adepto do clube, é assumidamente ambivalente. Da minha vontade, o Sporting não daria nunca inicio a este tipo de confrontação, porque não me parece que tal honre o estatuto que detém ou o legado que recebeu dos que nos antecederam. Já no que às reacções diz respeito, não sou muito de dar a outra face muito menos a quem, de forma reiterada, não partilha dos mesmos critérios no que às regras de urbanidade, civismo e conduta desportiva diz respeito. E, no que concerne ao FCP, o histórico acumulado é tal, que nem sempre consigo manter a coerência relativamente aos princípios que me foram incutidos pela educação recebida e pelo que representa a responsabilidade de ser do Sporting.
Há no entanto excepções ou limites que convém manter, sob pena de perdermos a legitimidade. Por exemplo mencionar o "clube visitante" sem o nomear, não hastear a sua bandeira, não me parece correcto. O FCP é uma da maiores instituição desportivas nacionais que não deve ser confundida com a pequenez de quem a dirige. É assim que espero que o Sporting seja também sempre entendido e não confundido.
Ao nível do discurso do presidente referências pouco edificantes a "septuagenários" ou outras de estilo semelhante, merecem o meu total repúdio. E o acicatar de ânimos nas vésperas dos jogos deste teor, já de si com uma carga emocional normalmente elevada, é imprevidente. Ao contrário do que parece ser a preocupação do presidente, não é nos camarotes e balneários que ocorrem as situações de maior perigo para a integridade física das pessoas que frequentam os estádios. São os adeptos que muitas vezes tanto têm que fugir dos "ladrões" como dos policias. Certamente que BdC é já conhecedor de factos ocorridos recentemente na cidade do Porto, que pelo menos indiciam que o clássico pode, antes e depois do jogo, constituir um perigo para qualquer um que ostente o verde e branco, o que tornam as suas declarações pelo menos imprudentes.
Num contexto mais lato, apenas mais um ponto sobre a comunicação do presidente do clube: quantas vezes falou ou foi citado esta semana aos órgãos de comunicação social, sobre os mais diversos assuntos? Se, como julgo, o Sporting tem assessores de imprensa ou profissionais especializados em comunicação não será a altura de os ouvir?
Para finalizar uma breve reflexão sobre a estratégia de relacionamento que o clube adoptou, parecendo cada vez mais encaminhado para o "orgulhosamente só". Voltando ao passado recente, era também queixa comum entre nós verificar que o Sporting não lograva nem fazer-se ouvir nos órgãos de decisão nem deles fazer parte integrante. Os resultados e a factura que hoje ainda pagamos por isso são conhecidos de todos.
Esta senda de isolamento não vai conduzir, por um caminho diferente, ao mesmo destino? Caminho que, todos o sabemos, não é fácil, atendendo ao que é o futebol português.
Mas, um clube como o Sporting tem mais a perder ou a ganhar isolado, a correr por fora, do que participando e fazendo-se ouvir não apenas nos jornais, mas também nos centros de decisão? Ou estamos à espera que nos venham buscar a Alvalade e dizer que temos toda a razão?
Se a maioria dos clubes tem uma visão diferente da nossa relativamente à Liga, por exemplo, e para citar o caso mais recente, seria melhor o Sporting afastar-se, como parece ter acontecido, ou permanecer e procurar influenciar positivamente os demais com a sua própria visão?
Que peso tem este isolamento para um clube formador que teria muito a ganhar se conseguisse colocar alguns dos seus talentos emergentes (Esgaio, Iuri, Chabi ou até mesmo Rúbio, Zezinho e Semedo, que se arrastam por campeonatos sem expressão) a competir num escalão de nível mais exigente do que aquele que é a II Liga?
E que reflexos tem ou terá um excessivo acantonamento face à abrangência e universalidade da imagem que o Sporting Clube de Portugal deve projectar de si mesmo junto de futuros adeptos e até mesmo de parceiros e patrocinadores?