A autópsia ao cadáver de Légia
Vão ser precisas mais horas de distância sobre o jogo de ontem para poder restabelecer-me de mais um desaire que "não podia" ter acontecido. Dizer não podia não é aqui desrespeitar a equipa que nos venceu porque foi mais competente do que nós ou muito menos o futebol e o desporto em geral. Mas já passou o tempo suficiente para pelo menos poder olhar para o jogo e discorrer sobre ele e em particular sobre o levou a este desfecho, tão amargo para nós.
Mantenho o raciocínio que presidiu ao post anterior: o jogo começou por ser perdido na cabeça de Jorge Jesus. Mais uma vez me parece que foi vitima da sua sobranceria, ao não dar o valor devido ao adversário. A surpresa que julgava ir causar acabou por redundar naquilo que se costuma dizer "ir buscar a lã e acabar tosquiado".
Jorge Jesus não mudou apenas o sistema de jogo que a equipa tem mais tempo de treino e jogo, mas mudou também jogadores das posições que habitualmente jogam. A defesa nunca se conseguiu articular entre si, sendo notório o desconforto do trio, incluindo o de Coates, que terá feito um dos piores jogos com a nossa camisola. As hesitações de Semedo e Oliveira também denunciaram esse desconforto. Mas os três acabaram por ser sobretudo vitimas da anarquia que reinou no sector que os precedia no terreno.
Com duas penadas infelizes JJ desarticulou toda a equipa: falo das posições escolhidas para Bruno César e Gélson. Não apenas perdemos toda a profundidade e imprevisibilidade que Gélson dá ao flanco direito, bem como a ligação com as assistências a Dost, como perdemos a inteligência na ocupação de espaços como a ligação entre sectores que Bruno César tem oferecido. As acções de William e Adrien tornaram-se quase inúteis perante as saídas rápidas dos polacos nas suas costas, aparecendo facilmente em frente ao derradeiro trio defensivo.
O conforto que retirou aos seus jogadores ofereceu-o aos adversários, ao conceder-lhes espaço e liberdade de acção quando esta devia ter-lhes sido condicionado a que a nossa superioridade técnica actuasse como valência em nosso favor. Para se chegar à conclusão do erro cometido basta aliás o reconhecimento tácito de JJ, ao voltar à fórmula habitual, logo após o intervalo e a consequente melhoria registada, mas ainda assim insuficiente para repara o mal entretanto feito.
Infelizmente para o que aconteceu ontem já não há remédio. A ideia de que talvez até seja bom, porque a Liga Europa é uma maçada, tem jogos à quinta-feira, não dá muito dinheiro até é apelativa, se alguém conseguir explicar como é que sair com três míseros pontinhos, por uma porta das traseiras da competição, é mastigável e deglutível.
Ah, pois, temos as competições internas para nos afirmar como prioridade, é aqui que vamos escalar até ao topo do ranking da UEFA, o tal que nos permite "ter mais sorte" nos sorteios. Porque é nas competições internas que vamos conquistar os pontos que precisamos para continuar a aceder aos sorteios da Liga dos Campeões.
Ah, pois, é aqui, na tal "afirmação interna", que vamos encontrar o financiamento adequado e suficiente para sustentar o disparar dos custos da SAD, na busca de um nivelamento mais próximo dos orçamentos e consequente competitividade dos nossos rivais, de forma a interromper um ciclo "nem, nem" (nem dinheiro, nem títulos) que nos afastou dos da frente?
Ah, pois, temos as competições internas para nos afirmar como prioridade, é aqui que vamos escalar até ao topo do ranking da UEFA, o tal que nos permite "ter mais sorte" nos sorteios. Porque é nas competições internas que vamos conquistar os pontos que precisamos para continuar a aceder aos sorteios da Liga dos Campeões.
Ah, pois, é aqui, na tal "afirmação interna", que vamos encontrar o financiamento adequado e suficiente para sustentar o disparar dos custos da SAD, na busca de um nivelamento mais próximo dos orçamentos e consequente competitividade dos nossos rivais, de forma a interromper um ciclo "nem, nem" (nem dinheiro, nem títulos) que nos afastou dos da frente?
O discurso de JJ ontem no final é decepcionante. Porque não explicou as suas opções (o que se até se compreende, atendendo ao resultado) mas sobretudo porque já preparou a próxima desculpa, caso domingo volte a registar novo insucesso. Alguém tem que lhe explicar que de facto o futebol do Sporting não tem ganho assim tantas vezes como gostaríamos, mas foi precisamente para inverter esse rumo que o clube lhe dá a ele o que até agora nunca ninguém havia tido: dinheiro para gastar e autonomia para decidir.
E, lendo e ouvindo o que se vai dizendo por aí, parece-me que JJ já cá está há mais tempo do que parece: tal como muitos adeptos, parece já se ter especializado em álibis e desculpas: é o tempo que ora passa devagar ou a correr, a bola que infelizmente é redonda, o frio que é gelado, sempre um bocadinho mais para nós e contra nós do que para os outros.
E quando as desculpas se esgotam é a vez dos números de prestidigitação (sem esquecer as manobras evasivas com o rival, para entreter a populaça), acenando com amanhãs luminosos, porque o futuro é já a seguir, é o campeonato . Sim, esse mesmo que entregamos de bandeja no ano passado e cujo segundo lugar ainda foi ampla e ruidosamente festejado, com direito a voltareta presidencial e o treinador premiado com chorudo aumento.
Por isso é que quando nos perguntamos porque nos acontecem tantas vezes estes "episódios Légia" talvez a resposta não seja assim tão difícil de encontrar. É que para ganhar mais vezes, ser campeão, é preciso mais do que 90% de concentração. É preciso querer ganhar mais do que apenas nos títulos de jornais e falar menos e só depois de ganhar. É preciso trabalhar mais mas sobretudo melhor.











