De forma tão inesperada como havia surgido, a crise esfumou-se com um comunicado do presidente Bruno de Carvalho. Digo inesperada porque a generalidade dos Sportinguistas não têm a sorte de receber informação privilegiada sobre o que passa nos gabinetes de Alvalade e Alcochete e não parecia haver nada que indicasse que a posição do treinador estaria em causa. As mais das vezes a informação que nos chega é para nos lembrar que, para ser um bom Sportinguista, há que pagar as quotas, muitas promoções, bem como as demais actividades do clube que, de uma forma ou de outra, acabaríamos por saber.
Sportinguista que se preze está habituado a viver e sobreviver às
crises. Esta, além do carácter inesperado acima aludido, teve um tempero
especial patrocinado pelo consócio José Eduardo. Quem pensava já ter
visto de tudo no Sporting com esta não contava seguramente. Estava
inaugurada a "Era Eduardiana" no Sporting, com contornos tão únicos que
alguns deles ainda esperam por melhor compreensão.
Esta "Era Eduardiana", trouxe consigo um processo de despedimento de Marco Silva que figurará junto dos piores exemplos do género, só sendo compreendidas as suas razões por quem o iniciou e pelos seus fiéis seguidores. Pior ainda foram os métodos empregues: o lançamento da noticia para testar sensibilidades, seguido de um número de ventriloquia, com vários bonecos em simultâneo, quer nos órgãos de comunicação social, quer nas redes sociais, encarregues da nobre missão de nos revelar a verdade sobre o carácter de Marco Silva, um "diabo entre nós".
É também a era do julgamento permanente do Sportinguismo em função do seu comprometimento com a ordem estabelecida e da negação do direito a outra verdade que não a que é emanada superiormente, geralmente exercida de forma rude e até mesmo grosseira. Onde é que eu já vi isto?
O aparente fim da crise chegaria com o comunicado do presidente, o que veio provar que tinham razão todos aqueles - a maioria - que pediam um pronunciamento de Bruno de Carvalho. Tendo durado tempo demais, mais valeu ter chegado ao fim tarde do que nunca, pois nada do que se passou em Alvalade teria sido como foi se o silêncio tivesse continuado.
Digo o fim aparente porque o cumprimento que selaria as tréguas deixa várias leituras, está muito longe de ser tranquilizador, deixando, isso sim, que há ainda por ali muito mato por desbravar. Para lá da interpretação dos sinais, é fácil constatar que as acusações dirigidas a Marco Silva foram demasiado graves para não ter aberto feridas que possam sarar no imediato. Saúda-se para já, e também pela aparência, que pelo menos tenha sido encontrada uma plataforma de entendimento, que evite um desfecho que prejudicaria todos os envolvidos, em especial o clube.
Quem ganhou com este episódio?
Os principais vencedores foram indiscutivelmente os meios de comunicação social que, num período habitualmente de seca noticiosa como é o Natal, viram o Sporting oferecer-lhes uma suculenta consoada e ainda os presenteou com uma prenda como esta no sapatinho.
Não posso deixar de considerar que a generalidade dos adeptos do Sporting registaram uma vitória por, ao manifestarem-se de todas as formas que lhes foi possível, acabarem por não apenas defender o que lhes parecia serem os melhores interesses do clube neste momento, como por prestar uma preciosa ajuda a Bruno de Carvalho ao fazê-lo recuar nas suas intenções. É inevitável o paralelismo com a situação vivida com Domingos Paciência e que acabou por marcar o principio do fim de Godinho Lopes.
Ninguém sabe o que sucederia, mas vejo como muito difícil o sucesso de uma chicotada psicológica nesta altura. Não apenas porque parece evidente que os jogadores confiam no treinador - o que tem sido crucial para que a crise não se reflicta nos resultados - mas também porque há um largo espectro de opinião favorável ao trabalho de Marco Silva que não se centra apenas nos resultados - que no campeonato poderiam ser melhores - mas também nas condições que lhe foram disponibilizadas, nomeadamente o plantel posto à sua disposição. O que me parece estar a ser percepcionado aqui é que o treinador não é o problema, e pode vir a ser parte de uma solução que represente momentos mais felizes a curto/médio prazo.
Há quem aponte Marco Silva como vencedor, a mim parece-me apenas que o é a prazo e em circunstâncias muito especiais. Terá reforçado a sua imagem como líder de um grupo de trabalho, as suas qualidades técnicas continuam por beliscar. Mas estas pequenas vitórias podem ser também o seu maior problema, porque Bruno de Carvalho e os seus mais acérrimos apoiantes não parecem lidar muito bem com mais do que um protagonista. Se os resultados são sempre fundamentais para aferir o trabalho de um treinador, o caminho de Marco Silva de agora em diante será ainda mais estreito, porque terá sempre uma matilha aos calcanhares a cada empate ou derrota. Se assim for será lamentável especialmente para Bruno de Carvalho, porque teria mais a ganhar com um treinador com personalidade, que o confronte com outras opiniões e visão própria, do que com mais um a engrossar o séquito do "sim, senhor presidente".
Ganhou também com este episódio aqueles que perfilham a patética teoria, que já vi várias vezes defendida, de que tudo não passa de uma cabala dos órgãos de comunicação social, e/ou que isto foi uma estratégia adoptada por Bruno de Carvalho para desmascarar os infiltrados, etc, etc. É impossível derrotar este tipo de argumentação porque encontra sempre uma justificação para tudo e para o seu contrário.
Quem perdeu?
Perdeu o Sporting ao ver-se envolvido num processo manhoso, de contornos e protagonistas de filme de quinta categoria. Entre esses contam-se os Eduardos. O
Barroso e o José. Para quem tanto apregoava a mudança, este processo
figurará como uma nódoa que nos reporta ao pior do que vimos na chamada "Era Roquetista".
É difícil para mim dizer que José Eduardo perdeu porque isso seria considerar que ele teria algo para perder. Não deixo contudo de registar o vexame de, provavelmente, ter sido o primeiro homem a ter que ouvir o que o machismo mais exacerbado tornou célebre: o teu lugar é na cozinha! Mas é óbvio para todos que o que José Eduardo queria conseguiu e isso não era o melhor para o Sporting, mas sim para os seus interesses particulares.
Perdeu obviamente Bruno de Carvalho. Se a sua intenção era, como ficou evidente, despedir o treinador, tomava a decisão e vivia com as consequências. Ao deixar de forma voluntária ou por inacção que o processo lhe saísse das mãos e fosse conduzido por segundas figuras, deu uma fraca imagem de liderança, dando razão aos que desconfiavam dele, aos que não gostavam e alienando e/ou deixando desconfiados os mais moderados.
Como é óbvio todos temos direito ao erro, incluindo Bruno de Carvalho. Este seria mais facilmente esquecido se o presidente se tivesse demarcado das afirmações de José Eduardo. Ao não o fazer, deixa que a dúvida sobre este processo permaneça e que mais tarde ou mais cedo volte para o assombrar, como sempre o fazem os fantasmas que deixamos debaixo da cama ou o lixo que se esconde sob os tapetes. E claro, gostaria que um presidente do Sporting tivesse melhor conselheiro.
Está ainda registado na memória de todos a ferocidade com que o presidente defendeu o grupo de trabalho perante a mera opinião de Manuel Fernandes, sendo por isso mais difícil de entender que não só não se afaste das imputações graves de José Eduardo, como não desminta quer a sua autoproclamada condição de "ideólogo", "autorizado" ou "mandatado". É que sem o fazer José Eduardo falava por ele. Sem o desmentir fica a dúvida se Bruno de Carvalho recuou porque se sentiu obrigado pelos adeptos, percebendo que a decisão de despedir lhe era desfavorável ao seu projecto pessoal, ou se o fez por convicção de estar a tomar a melhor decisão para o clube.
Nestes âmbito puxo para aqui parte do post do
Rui Monteiro, da Insustentável Leveza de Liedson, e que me parece resumir muito bem o que todos esperamos:
Necessitamos de normalidade, de viver habitualmente. Não necessitamos de
estar sempre a questionar-nos. Não gosto da palavra estabilidade, mas,
se tiver que ser, que seja a estabilidade. Mas que não haja equívocos: o
principal responsável pela estabilidade, ou pela falta dela, é sempre a
Presidência do Sporting; pelo que faz e diz e, sobretudo, pelos
resultados que obtém. Não é desta Presidência em particular. É uma
responsabilidade de todas.
Oportunidades
Julgo que a maioria dos Sportinguistas "condenam" Bruno de Carvalho e Marco Silva ao entendimento. A um relacionamento profissional adulto, porque ambos têm tudo a ganhar com esse entendimento. E se eles ganharem ganhamos todos, ganha o Sporting. Apesar das perspectivas no campeonato não serem as melhores, há ainda muito para conquistar e sobretudo permitir o crescimento sustentado do clube, de forma que no próximo ano estejamos mais próximos do Sporting que todos desejamos.