A selecção está no topo da actualidade mas obviamente que para um Sportinguista o clube nunca é remetido para segundo plano. Por força de algumas limitações de tempo e outras de carácter pessoal ficaram por abordar alguns temas cuja referência me parece incontornável. Fica aqui o registo das principais, em modo semi-telegráfico, sem que isso signifique que alguns dos assuntos não venham a constituir um ou mais posts exclusivos, assim o interesse o justifique.
Tiro no porta-aviões da "cultura de exigência e rigor"
Cultura de exigência e rigor têm sido das qualidades mais referenciadas pelos actuais corpos sociais, especialmente pelo presidente Bruno de Carvalho nas muitas alocuções que tem feito sobre clube. O triste episódio do vídeo de promoção da SportingTV, amplamente referido entre os Sportinguistas, é um exemplo muito concreto do que é precisamente fazer o inverso. O que me chocou mais na peça não foi tanto a falta de qualidade geral, o que até pode ser desculpado pela escassez de meios. Chocante é o plágio de um trabalho sobejamente conhecido e o desleixo de ainda assim publicar o vídeo na página oficial do clube.
As recentes mudanças há pouco efectuadas no sector de comunicação do clube - o despedimento do que restava do corpo de redacção do jornal, a entrega à empresa Youngnetwork e, quase em simultâneo, a nomeação de Bruno Roseiro como coordenador do novo projecto de média (que poucos dias antes(!) tinha lançado o livro de carácter autobiográfico sobre Bruno de Carvalho "O presidente sem medo" ) - levariam a supor que estes episódios com um "acentuado cheiro ao antigamente" não seriam de todo possíveis.
Esta peripécia é uma péssima saída de jogo que, pelo mau gosto revelado, deixa uma nódoa retinta, lançando dúvidas no ar sobre o que ainda nos possa estar reservado. É muito fácil agitar as águas nas redes sociais com soundbytes, muito diferente é promover a imagem de uma instituição centenária com as responsabilidades e o peso do Sporting.
Títulos em modalidades
Apesar da austeridade o Sporting continua a coleccionar títulos (judo, futsal) e, mesmo perdendo, a discutir até ao final a possibilidade de os ganhar, como aconteceu no andebol. Nesta modalidade há sobretudo que não esmorecer, porque há sinais evidentes de retoma de competitividade, face ao adormecimento à sombra da bananeira, que nos custou a perda de uma hegemonia que tanto nos orgulhava. No judo e futsal os ciclos vitoriosos falam pela qualidade do trabalho desenvolvido, não é possível ganhar tantas vezes por acaso. Notável que se aprofunde a nossa hegemonia nestas modalidades enquanto se aperta o cinto.
Não fecho este titulo sem prestar homenagem a Deo e Divanei cujo exemplo foi muito além do mero profissionalismo. E também a João Pina, um campeão de judo e de sofrimento que encerra a carreira de titulo ao peito.
"Um dos dias mais felizes da minha vida!"
Foi assim, com esta frase de tão profundo significado, que Gilberto Borges qualificou o regresso do Hóquei em patins ao seio do Sporting, depois do abandono da modalidade e do trabalho de ressuscitação absolutamente notável cuja etapa mais difícil agora termina. Um justo reconhecimento para a equipa de Gilberto Borges, a alma, o coração e sabe-se lá que mais deste projecto. Uma medida justa e, creio, há muito desejada, pelo que merece todo o nosso reconhecimento. O hóquei nacional precisa de um Sporting forte, não apenas pelos pergaminhos do clube na modalidade, mas também como lufada de ar fresco, face aos que foram os últimos anos de guerrilha SLB/FCP.
Muita formação, zero títulos
Muito curiosa a postura habitual dos Sportinguistas relativamente à formação: pouco interessados em suportar as dores de parto e crescimento, quando os míúdos, muitas vezes de forma extemporânea, são chamados a assumir responsabilidades de quem chega com fama de craque, mas cujo proveito pouco mais se faz sentir do que nas suas contas bancárias. Porém, uma vez que se vive em escassez de resultados (vitórias) lá se iça a bandeira da formação para lembrar que as bases das selecções são de alicerces verde e brancos e outras tretas do género.
A razão mais válida para se apostar em formação é fazer dela uma bandeira com títulos. De outra forma é pouco mais que mera cumulação de frustrações e desenganos. Esse é um desígnio possível não uma quimera. Mas a sua concretização requer muito mais do que os muitos ziguezagues estratégicos ao sabor de quem passa, quase sempre de forma fugaz, pela direcção técnica e institucional.
Pode parecer um contra-senso, mas onde a exigência de títulos menos se justifica é precisamente na formação, cuja principal missão deve estar obviamente centrada na missão de fornecer os melhores jogadores à equipa principal onde, aí sim, a orientação para vencer deve ser total.
A provar o que acima se afirma está o historial da competição de júniores e juvenis. Entre as décadas de 70 e 90 (inclusive) o Sporting logrou apenas 4 títulos de campeão nacional de júniores, 5 de tendo, nesse período, formado dois jogadores considerados os melhores do mundo (Figo e Ronaldo) e um rol notável de grandes jogadores, cuja nomeação seria até penosa. Nos anos seguintes o Sporting passou a dominar as competições nacionais de formação, sem que isso alterasse o rácio de títulos no escalão sénior. Isto é, exactamente na mesma do que sucedeu quando ganhou poucas vezes.
Isto dito não invalida a avaliação de percurso sempre necessária, mesmo quando se ganha mais do que se perde. Perguntas como:
Que competências têm os treinadores das camadas jovens, quem as avalia, "que", "como" e "quem faz" a prospecção e selecção estão sempre na ordem do dia e cujas respostas poderão ajudar a explicar os resultados ou uma tendência.
Após o segundo ano da B que balanço fazer? Quantos jogadores foram aproveitados ou podem vir a ser para a equipa B?
É justificável o corropio de entrada e saída de jogadores como a que se assistiu este ano, com jogadores de percurso de referência no clube e selecções verem os seus lugares ocupados por jogadores de qualidade e até idades duvidosas?
Que evolução se pode assinalar nos jogadores, sobretudo nos que, tendo mais talento, mais se espera? O meio que o Sporting lhes proporciona é o mais adequado ao seu triunfo ou o contrário?
Que significado e importância tem a ausência de títulos combinada com o aparecimento de novos actores (os titulos de Guimarães e Braga), bem como a perda de número de jogadores nas selecções nacionais?
Estamos a falar de o fim de um ciclo ou de ocorrências esporádicas, sem exemplo?
Guerra da Guiné perdida
Ninguém terá esquecido
o folhetim de Bruma, faz agora um ano. Muitos dos seus mais suculentos episódios estão ainda por revelar, pode ser até que nunca conheçam a luz do dia para a maior parte de nós. O que resulta de mais claro da guerra iniciada com Cátio Baldé é que o Sporting ganhou uma batalha com a venda de Bruma por valores quase impensáveis, mas que, de seguida acumulou 3 derrotas amargas com as saídas de 3 dos melhores e mais promissores jogadores que tinha na formação. Pior foi ter visto encerrado a exploração do filão da Guiné, que o empresário dominava quase em exclusivo e com relações privilegiadas com o Sporting. Os jogadores não perderam, porque permanecem intactas as possibilidades de progredirem nas carreiras. O empresário não deixou de fazer negócios nem coleccionar comissões. O que ganhou o Sporting?