Afinal o inferno de Dante (& Cia.) foi escrito por um alemão*
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| Capa da revista Lance, hoje |
“Cada povo tem a sua irremediável catástrofe nacional, algo assim como
uma Hiroxima. A nossa catástrofe, a nossa Hiroxima, foi a derrota frente
ao Uruguai, em 1950”. Assim descrevia Nelson Rodrigues, jornalista brasileiro, autor de poderosas crónicas sobre o futebol, o Maracanazo de 1950, quando o golo de Alcides Ghiggia impôs o mais ensurdecedor dos silêncios num estádio lotado de mais de 200 mil espectadores.
“Dizem que o silêncio não tem voz. Que silêncio é silêncio… Foi talvez o
barulho pior que ouvi na minha vida. Foi um silêncio que vem de dentro,
apocalíptico, de ‘amargedão’. Parecia que o mundo todo tinha parado.
Foi a primeira vez que como adulto eu chorei. Chorei com a impressão de
que não tinha mais nada para fazer na vida. Que os meus dias na terra
não contavam mais. Isso foi um sentimento geral e custou muito a
digerir.” Carlos Heytor Cony, escritor e jornalista
Parece um exagero comparar a derrota com um dos mais terríveis exemplos da bestialidade humana mas, como dizia também Bill Shankly "Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte.
Fico muito decepcionado com essa atitude. Eu posso assegurar que futebol
é muito, muito mais importante!". Se há algum sitio na terra onde esta asserção faz sentido talvez o Brasil seja o lugar perfeito. Porque talvez como em mais nenhum país do mundo quando a selecção nacional joga é todo o país que está em campo.
Por isso a derrota de 1950 também teve repercussões sociais, na forma como os brasileiros se viam como povom, quando o sentimento antecipado de vitória garantida correspondia ao da "maior vitória do povo brasileiro, depois da independência desde a independência, em 1822." redundou no maior fracasso. O Waterloo dos Trópicos, segundo Paulo Perdigão, autor do livro Anatomia da Derrota.
“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o
Estádio Municipal como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi
um povo derrotado e, mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu
no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida, reduzidos a
uma pobre cinza de fogo apagado. E, de repente, chegou-me a decepção
maior, a ideia fixa que se grudou na minha cabeça, a ideia de que éramos
mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias,
sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil
tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada têm que esperar seria
assim o alimento podre dos nossos corações." José Lins do Rego, escritor, da sua crónica "A derrota", escrita dois depois do fatidico dia 16 de Julho.
O que representará para o Brasil a humilhação a que a sua selecção foi ontem sujeita?
Não sabemos, estamos demasiado perto da "tragédia" para o perceber. Seguramente que não há tempo suficiente na vida humana para apagar da memória o "schrecklich Mineirazo" (horrivel Mineirazo). Porém ninguém como os brasileiros saberá tão bem sofrer profundamente, viver eternas quartas-feiras de cinzas, cantar a desgraça, dança-la e acabar a rir-se dela. E quem sabe, daqui por 64 anos, repetir a lição de fair-play, levando os sobreviventes alemães da actual selecção pelo braço a Belo Horizonte, como fizeram este ano com Alcides Ghiggia, eternizando o seu nome na calçada da fama no... Maracanã.
*post escrito tendo como base este artigo



