A razão nas palavras de Jorge Jesus
Deram brado, e provavelmente vão continuar a dar, as palavras de Jorge Jesus sobre a saída de Matic e a possibilidade de esta ser colmatada pela formação. Como é evidente Jesus tem razão: Matic era provavelmente o melhor na sua posição, talvez seguido de perto por Fernando, do FCP. Deste duo aproxima-se a passos largos, muito largos diga-se, William Carvalho que, contudo, tem que manter o nível já exibido para os igualar. Quem sabe até os supere, mas falta-lhe para já esse contraste que a continuidade confere.
O ranking que sugiro para os jogadores em causa pode até nem ser consensual, mas que o trio mencionado contempla os melhores daquela posição da nossa liga já o será. Não é por isso crível que o SLB, ou qualquer outro clube, conseguisse colocar no seu onze um jogador para, no imediato, fazer esquecer Matic, recorrendo à formação.
Isso é tão verdade que nem o próprio o conseguiria fazer se as suas performances fossem idênticas às que exibia quando chegou do Chelsea, em 2011. O que Matic que agora faz a viagem de regresso ao clube londrino é um jogador mais evoluído sobre qualquer ponto de vista a que nos proponhamos analisar. Ao fim e ao cabo também o sérvio teve que (re)nascer várias vezes para chegar ao que é hoje, conferindo razão às afirmações de JJ.
Se tudo isto é verdade, não é menos verdade que alguém que ocupe um cargo como o de Jesus não se pode pronunciar como ele o fez. Este não teve que esperar muito para ser confrontado com o seu próprio deslize. Aí estiveram muito bem os miúdos do clube encarnado quando afirmaram que, se preciso fosse, nasceriam mais nove vezes para igualar as dez que JJ entendia serem necessárias. Quem está a lutar para subir o longo e incerto calvário que é a afirmação de um futebolista profissional no seu clube de formação e muitas vezes de coração a última coisa que precisa é que lhe lembrem precisamente isso: que todo o esforço pode não valer de nada e ser obrigado a bater com a cara no peito de qualquer Matic de ocasião.
Como é óbvio o que passa do outro lado da segunda circular não me interessaria tanto se não pudesse ser aplicado algum paralelismo do lado de cá. É sabido que a aposta da formação no nosso clube é uma bandeira. Umas vezes apontada como estratégia, muitas outras como um mal necessário, à falta de recursos idênticos aos dos nossos rivais e muito raramente sendo usada como deveria ser.
Talvez não seja demais lembrar que, nos anos recentes, o que tem posto o nome do Sporting nas boas noticias no que ao futebol diz respeito é o futebol da formação. Não só pelos títulos conquistados, pelo foco recebido pelas participações na Next-Gen series, pelo número de jogadores que, com essa origem, fazem parte da selecção e um outro sem número de razões. Seria por isso um profundo erro e um desperdício de recursos não aproveitar o que algo que manifestamente fazemos bem.
Pensar que os jogadores que destacam entre os seus iguais de 19 anos vão conseguir no imediato o mesmo protagonismo entre jogadores já muito mais evoluídos e experimentados, tem sido um dos erros mais comuns de apreciação do valor dos jogadores recém-formados, especialmente entre os adeptos e talvez não menos entre os responsáveis. Não raras vezes as explicações para o que é diagnosticado como falhanço é a tradicional acusação de falta de esforço e aplicação, quando não é mais do que um esgrimir de argumentos em plano de desigualdade.
Perceber estas diferenças é fundamental para que, como tantas vezes tem sucedido, não seja a formação a pagar a factura das frustrações do futebol sénior. E dizer isto é assumir que fazer saltar jogadores da formação directamente para a titularidade, salvo raríssimas excepções, é partir um passo atrás dos nossos rivais, que seguem modelos diferentes, mais dispendiosos, mais directos para o êxito.
Isto é válido pelo menos enquanto não consigamos constituir um grupo em que talento e aptidão se conjuguem no ponto ideal e onde o jogadores acabados de formar não tenham que ser os "salvadores da pátria".
P.S:- JJ diz também hoje na entrevista ao Record que o clube que representa é o que melhor trabalha a prospecção. Isto pode ser considerado de várias formas face aos resultados e à formo como cada um os interpreta. Eu prefiro olhar para eles como um aviso e um desafio.

