Viagem à Madeira: quando o resultado é tudo e as novelas seguem dentro de momentos
Não faltam elogios hoje à postura dos jogadores do Sporting no encontro da Madeira, ante o Nacional. Elogios que seriam exactamente o oposto, e provavelmente com a mesma origem, caso o resultado não se tivesse saldado por uma vitória. O que se está a validar hoje é o resultado, não a exibição ou a entrega dos jogadores.
Do ponto de vista da exibição ela esteve longe de ser vistosa e isso tem várias explicações: a primeira, a mais importante, o adversário que defrontamos e as suas peculiaridades. Os jogos com o Nacional sempre foram difíceis, basta olhar para o histórico dos resultados, em especial os que coincidem com o comando técnico de Manuel Machado. Essas dificuldades começaram a ficar bem patentes no inicio do encontro. Com os madeirenses a solicitarem Suk de forma directa e Matias e Rondon à procura da segunda bola, a importância da nossa superioridade técnica, em particular do meio-campo, ficava anulada, pelo menos parcialmente. Quando tínhamos a posse de bola não conseguíamos assentar o jogo, mercê quer da imprecisão no passe quer da pressão do adversário, que se concentrava sobre os nossos elementos capazes de construir.
A segunda explicação está no momento particularmente instável que se vive, por força dos resultados e da consequente classificação. A perspectiva que se colocava, em caso da vitória não se concretizar, era tudo menos animadora. O discurso recente do presidente, deixando em causa as decisões do treinador e o empenho dos jogadores, representando ameaças veladas sobretudo à continuidade do responsável técnico, dificilmente não pode ser considerado como amplificador da instabilidade que os resultados e classificação adversos representam inevitavelmente num clube com as nossas ambições. A explicação para tanto passe e recepções falhados também tem de ser encontrada aí. O estado miserável do relvado não será menos importante, embora este fosse o mesmo para ambas as equipas, mas o estilo de jogo do Nacional era obviamente o menos penalizado.
Do ponto de vista da entrega ou a tão famigerada atitude, não me parece que ela sirva de explicação para os resultados menos conseguidos. Nem ontem nem sequer no jogo com o Moreirense, por exemplo, ou o empate, que ocorreu nos últimos momentos do jogo, nunca ocorreria. Mas a este nível há pelo menos um jogador a precisar de rever alguns conceitos sobre a missão de um centro campista: João Mário. Entrou por azar de André Martins e o seu jogo foi a explicação prática para a cura de banco que Marco Silva lhe ofereceu. A forma como se desliga do jogo quando perde a bola é aflitiva e a falta de intensidade na hora de a recuperar é idêntica. João Mário tem grandes condições para ser um dos melhores médios nacionais da sua geração se conseguir corrigir este defeito que, no lugar que ocupa, é a diferença entre um bom jogador e um jogador vulgar. Há poucos treinadores - haverá mesmo algum? - que esteja disposto a dar muitas oportunidades a um jogador tão descomprometido.
No polo oposto colocaria Slimani. Entrega total, faltando-lhe a classe dos grandes matadores para ser grande. Muito desse "defeito" advém-lhe de um mau jogo com os pés, sobretudo ao nível do controlo da bola e passe. Pormenor que me parece poder ser senão eliminado pelo menos atenuado, se bem treinado. Se o conseguisse jogos como o de ontem teriam significado pelo menos mais um ou até mesmo dois golos e não dois falhanços comprometedores para ele e sobretudo para a equipa.
Referência individual também Paulo Oliveira, que jogou por dois. É um bom jogador, mas não tão bom como alguns elogios estratosféricos fazem crer. Beneficia da comparação com os colegas que tem tido ao lado, ficando muito por isso mais destacado. Nos defeitos que lhe detecto - a velocidade e a bola nos pés - podem ser um atenuado outro melhorado. A velocidade é uma característica inata. Não a tendo Paulo Oliveira é obrigado a jogar com mais atenção, em antecipação. A bola nos pés, tal como Slimani, pode trabalhá-la melhor. Como a qualquer outro central, para começar a construir jogo, tem de contar com a disponibilidade e inteligência dos que jogam à sua frente e ao lado, médios e laterais particularmente.
Carrillo é a última referência individual. Jogo intenso, menos preguiçoso do que era seu costume num passado recente na hora de defender, muito inteligente quando foi preciso segurar a bola longe da nossa baliza, permitindo à equipa respirar e fazendo o adversário perder a paciência. Vale sempre a pena esperar o melhor de quem tem muita qualidade e Carrillo tem-na e muita.
Não é costume as palavras do treinador fugirem dos habituais chavões e lugares comuns para adquirem a importância e a atenção que tiveram as de Marco Silva na conferência de imprensa. Para os que minimizaram o impacto das palavras e sobretudo o seu desacerto ficou ontem a devida demonstração prática.
Como sócio do clube lamento profundamente este espectáculo deprimente, em que o treinador se vê forçado a enviar recados para cima e sobretudo ensinar o "B"+"A"="BA" do relacionamento entre indivíduos, quando afirmou: "como treinador prefiro criticar ou elogiar cara a cara". Já todos percebemos que, se não houver quem medeie este problema a história vai acabar mal. Depois digam que a culpa é dos jornalistas.




