O adeus de Polga e os papagaios
O adeus de Polga
Polga disse hoje adeus ao Sporting numa cerimónia dedicada ao efeito e que marca o fim de uma ligação de cerca de 9 anos (327 jogos oficiais pelo Sporting, 2
Taças de Portugal e 2 Supertaças, finalista vencido
da Taça UEFA) e com a dignidade devida. O facto de no passado não se ter procedido de igual forma com jogadores cuja ligação afectiva dos adeptos mais justificaria não seria razão para agora se proceder de igual forma. Erros não se corrigem com a acumulação de novos erros.
Polga será dos jogadores cuja relação com a bancada será das mais difíceis, por razões que a racionalidade nem sempre conseguirá explicar. Olhando para o seu trajecto e o realizado pelo clube nestes anos em comum resta a sensação de que quer Polga quer nós como instituição desportiva ficamos aquém do que poderíamos ter alcançado. Pensar que Polga é o "culpado" (ou um dos) por muitas das decepções que coleccionamos é uma visão demasiado individualizada dos erros da qual não partilho e que apenas contribui para errar nos diagnósticos e, por isso, na cura. Como mais adiante se verá, e o primeiro golo sofrido com o Braga na última jornada é
apenas um vislumbre, o Sporting continuará a sofrer golos "difíceis de
explicar". Argumentos como a falta de golos para qualificar o central (quantos marcou Ricardo Carvalho na sua carreira?), tendo em conta que a missão principal de um defesa é não os sofrer são sintomáticos.
Do lote jogadores que por ora mantêm ligação ao clube era, para mim, juntamente com Carriço, os que me pareciam os melhores, se bem que não gostasse de ver jogar em simultâneo. Isto dito, quer dizer que, do meu ponto de vista, sem ir ao mercado, o Sporting ficará pior num sector ao qual foram dirigidas muitas criticas. Estas nem sempre tiveram em conta que sofrer golos ou marcá-los depende não exclusivamente de quem defende ou ataca, mas de todo um processo colectivo que deve envolver os 11 jogadores.
Rodriguez é um caso extraordinário, deve ter mais tempo de jogo pela selecção do seu país, onde está mais uma vez, do que pela equipa do clube que lhe paga os honorários. Onyewu é tão importante no jogo aéreo como é limitado com os pés. Xandão tem ainda muitas limitações mas a idade permite a esperança de ainda poder aperfeiçoar-se. Falta contudo um elemento (ou 2?) de categoria indiscutível.
Os papagaios
Para alguém como eu, que quase todos os dias tem "alguma coisa" a dizer sobre o Sporting, é-me difícil de chamar papagaio a quem, Sportinguista como eu, se pronuncia sobre o Sporting. Não falta porém quem o faça, não sei se o terei feito no passado, mas julgo que para se ter autoridade para tal é necessário que cada um faça o indispensável exercício de introspecção e com a devida humildade, sem descurar de avaliar se o que diz e escreve prejudica ou beneficia o Sporting.
É muito comum dizer-se que os dirigentes do Sporting não resistem a um microfone, ávidos de notoriedade. Certamente não será esse o caso de Ângelo Correia e muito menos de Santana Lopes, como já não havia sido no passado de Carlos Barbosa, a quem o ACP era já tribuna bem vistosa.
É também muito comum dizer-se que só no Sporting é que sabe quem é o roupeiro, o tratador da relva ou o motorista, como exemplo para um clube que tem demasiadas vozes, revelando falta de liderança. Importa contudo perceber que poucos são os clubes que se possam gabar de poder contar nos seus órgãos sociais com elementos com o percurso de muitos dos citados, ou outros que compõem os actuais corpos directivos do clube. A questão, parece-me, é saber reverter o potencial de todos de forma a criar sinergias que aproveitem ao clube e isso sim é que me parece um problema. O problema por isso não me parece tanto em falar mas quando o fazem e o que dizem.
As declarações de Santana Lopes são as de qualquer adepto Sportinguista que faz um balanço sobre uma época que começou e acabou mal, desiludindo-nos a todos. Inócuas, embora seja estranho que se pronuncie desde Maputo, o que até pode ser aceite, tendo em conta que, como ex-presidente e adepto os jornalistas lhe coloquem a questão.
Diferente é o caso de Ângelo Correia. Como PMAG da SAD fala como representante dos accionistas mas o seu discurso acaba por sair desse espectro. Não falou de questões importantes para os que detém titulos, como poderia ser a questão do financiamento, da dispersão em bolsa, etc, etc. Preferiu abordar questões como a do caso PPC, o que, atendendo a toda a envolvente e estado do caso, é uma auto-flagelação evitável. Pior parece-me é a contradição em que cai, o que num homem experimentado como ele, é um erro quase infantil.
Ângelo Correia diz que os entendidos são Carlos Freitas e Luis Duque, em quem confia. Mas logo a seguir não inibe de distribuir conselhos ou de imiscuir em actos anteriores, indo longe de mais ao pronunciar-se sobre jogadores que ainda são do Sporting e que podem muito bem continuar a ser na próxima época. Se isto é compreensível num adepto anónimo convenhamos que a exigência tem que ser maior para um PMAG.
Apesar de tudo há um ponto da entrevista concedida à RR que me merece saliência e motivo de reflexão para todos em particular neste período. O PMAG da SAD diz que "o Sporting precisa de estabilidade para criar valor. É uma questão de arrumação. Godinho precisa de apoio e de tempo". (Acrescentaria já agora que também precisa de espaço para se afirmar e que a descuidada entrevista de Ângelo Correia veio tirar o foco da carta que Godinho Lopes escreveu aos associados. Desnecessariamente se considerarmos que na próxima semana ou seguintes o efeito seria o mesmo).
Não posso concordar mais. Não porque é Godinho Lopes, como podia ser Bruno de Carvalho ou Dias Ferreira, ou outro. Porque é o presidente do Sporting, porque a situação deixada pelo seu antecessor é difícil e só um Sporting estável e agregador poderá fazer da força de cada um dos Sportinguistas uma força colectiva respeitada e vencedora.


