Jogo da época, do tudo ou nada, do juízo final são algumas das expressões usadas para qualificar o jogo de amanhã frente ao Nacional. Obviamente que, tendo o Sporting "facilitado" no jogo da primeira mão, alguma da sorte da qualificação já está jogada e, até face ao momento da equipa, ninguém ficará surpreendido com nenhum dos resultados possíveis.
O que fazer em caso de fracasso (eliminação na prova) é o que muitos se interrogam e apontam já soluções.
O que fazer então?
Para responder a esta questão façamos uma avaliação prévia e sucinta ao papel dos principais protagonistas.
Clube/SAD
O trabalho efectuado no inicio de época mereceu o aplauso, interno e externo, a roçar a unanimidade. Subiu de tom por altura das vitórias consecutivas para conhecer o seu ponto mais baixo agora que se registam os piores resultados. Nada de surpreendente, afinal, de adeptos a analistas, o sentido critico tende a esgotar-se nas contas das vitórias, empates, derrotas, golos marcados e sofridos. Não percebo o que possa ter mudado assim tanto para mudar a agulha na apreciação a não ser a falta de coerência e a procura de bodes expiatórios. Senão vejamos:
- O Sporting adquiriu aquele que era dado como melhor treinador da Liga que estava disponível e incluído recentemente no top 10 mundial.
- Adquiriu um lote de jogadores quase todos internacionais, com provas dadas ou promissores.
- Soube criar o elan necessário junto dos adeptos na fase que antecedeu a época, fazendo com que Alvalade registasse as maiores assistências de sempre, desde a sua inauguração.
- Além das condições dadas ao treinador, o grupo de trabalho parece blindado, não se conhecendo registos de devassa até ao momento, e o período negativo já se alastra há algum tempo.
- Hoje tanto se acusa a SAD de falar muito, como de não falar. No essencial parece-me que, apesar de não ser inquestionável, tem falado quem de direito, em momento oportuno.
Obviamente que não há estratégias infalíveis. Pode-se questionar, como muito bem o fazia ontem Couceiro, se ter feito tábua rasa no plantel, recomeçando do zero, não é hoje um dos grandes problemas de Domingos, assim que começaram a surgir as lesões em jogadores chave. Mas é bom lembrar que não só não se conhece quem se tenha oposto a esta linha de orientação como havia muitos pediam que se fosse ainda mais longe.
Hoje, percorrendo os meses que nos trouxeram aqui o principal erro que aponto ao Clube/SAD foi a gestão da informação relativamente à auditoria interna. Em teoria, o cumprimento de uma promessa eleitoral deveria merecer a aprovação generalizada, mas quem julgava isso possível seguramente que não conhece o Sporting e as suas dinâmicas internas. Tornar públicos os resultados nesta altura só acrescentou ruído e cacofonia, para ser optimista.
Não me parece haver justificações para o isolamento de Luís Duque e os consequentes ataques. Goste-se ou não, ele tem sido uma das bases onde acenta o tripé do futebol leonino, depois de Godinho Lopes e antes de Domingos. Claro que daria muito jeito a quem não gosta do Sporting ver ruir este pilar e sentir os seus corredores mais desimpedidos. É que, como muito oportunamente alguém me lembrou, com Luis Duque no Sporting houve quem não visse o caneco durante 3 anos, por exemplo.
Treinador
Quem lê o que aqui vou escrevendo já percebeu que entendo que está na falta de resposta do treinador às dificuldades criadas pelos adversários a principal razão do actual momento. Querido por uma enorme franja de adeptos, teve recepção apoteótica nunca vista a nenhum treinador. Tem tido aquilo que se chama na gíria as costas forradas pela SAD, que o tem apoiado de forma inequívoca. Quem não gosta do Sporting já se apressou a afirmar que o problema está na matriz do clube, como se o Sporting tivesse perdido em definitivo o caminho para as vitórias. Quem não gosta de algumas pessoas que estão no Sporting, resguarda o treinador das criticas.
Mas quem vê o Sporting jogar dificilmente pode ignorar que é ao treinador que compete preparar a equipa para ultrapassar os adversários que comodamente se instalam em 2 linhas atrás da bola e desferem contra-ataques. Hoje até o Moreirense eo Gil Vicente podem ter êxito, de forma continuada, contra o Sporting o que é dificilmente justificável, face à diferença de valores.
O papel do treinador é crucial num clube de futebol, como todos certamente reconhecem. O exemplo de Jesualdo Ferreira no Panatinaikos na Grécia é paradigmático. Num país imerso no caos, num clube que emula o país e está sem direcção há mais de um ano e num campeonato canibalizado por um Olympiacos todo-o-poderoso, que beneficia da benevolência dos média e do poder federativo, o técnico tem conseguido liderar o campeonato. A derrota recente, surpreendente, e que o deixa muito perto de perder o lugar da frente não é suficiente para lhe retirar o mérito.
Com isto não quero fazer de Domingos um caso perdido ou a causa de todos os males. É a sua primeira época no Sporting, é a sua primeira época como treinador de um grande onde as exigências e a pressão são incomensuravelmente maiores que as que conheceu até hoje. Apesar dos sinais de evidente desorientação já dados, na escolha das equipas, nas substituições, nas conferências de imprensa e até nas suas expressões confio na sua inteligência e sagacidade para aprender com os erros.
Indiscutivelmente Domingos ainda não acertou no modelo para o nosso jogo é essa a sua principal falha mas é ele, para o bem e para o mal, o único a quem compete a tarefa.
Plantel
Não perderei muito tempo, apenas reafirmarei que é talvez, na sua valia técnica e humana, dos melhores que tivemos nos últimos tempos. Há desequilíbrios óbvios, de responsabilidades repartidas entre o treinador e SAD, mas nada que uma equipa bem preparada e treinada não consiga superar. E ajustes há sempre, mesmo até em equipas campeãs. Qualquer observação actual sobre a valia dos seus componentes tenderá a pecar por defeito, quase todos já demonstraram ou prometeram ser capazes de melhor ou até muito melhor.
Adeptos
Pode-se dizer que assumiram o protagonismo da época ao regressar em força a Alvalade. É sempre fácil gerir emocionalmente o sucesso, mas difícil é viver com o seu contrário. Mas é nos piores momentos que se pedem as melhores decisões. E em alguns deles o melhor é tão só não precipitar as decisões. Não me parece que, para o Sporting, que muitos gostam de cantar como "O Nosso Grande Amor" o melhor seja começar outra vez tudo de novo. Para poupar no latim, que isto já ai longo, socorro-me do que diz hoje Octávio Machado, no Jogo:
A época decide-se amanhã? Se for eliminado da
Taça de Portugal, que consequências devem existir e o que
resta ao Sporting até ao final da temporada?
A seguir há a Liga Europa, onde o Sporting tem feito uma
época extraordinária; há o terceiro lugar na Liga
para obter a qualificação para a Liga dos
Campeões; e, acima de tudo, tem de se construir uma equipa que
permita atingir patamares mais elevados no futuro. Em termos
desportivos, a época não acaba aqui, só a
possibilidade de ganhar uma competição, já que
ganhar a Liga Europa é muito complicado. Mas há muito
para além da meia-final da Taça de Portugal...