A capa do jornal "O Jogo" dá hoje destaque a Elias remetendo-nos para uma entrevista que está longe de justificar tamanha notoriedade, pela escassez do conteúdo. O interesse resumir-se-á precisamente à capa, onde estão condensadas talvez os pormenores mais interessantes: a evidência de que, pelo menos para alguns jogadores, o despedimento de Domingos não foi bem digerido e a profecia de que o Sporting nos próximos 5 anos não conseguirá competir com os seus rivais SLB e FCP. Vamos por partes.
As presentes declarações de Elias sobre o despedimento de Domingos à luz dos acontecimentos da presente época braqueiam a situação que se vivia na altura do despedimento do treinador e desresponsabilizam-no. O Sporting tinha feito o maior investimento da sua história recente, do qual não se pode ilibar as responsabilidades do treinador, quanto mais não seja por omissão.
Quando Domingos sai a equipa não jogava um caracol, acumulava lesões musculares atrás de lesões musculares e encontrava-se já no quinto lugar, atrás dos seus rivais, do Braga e do Marítimo. Hoje, face ao que se seguiu, e muito fácil dizer que teria sido melhor manter Domingos, à luz de então talvez sim, talvez não. A ideia era mudar para melhor, o que parece ter funcionado num primeiro momento, mas que se revelou o desastre que hoje se conhece, com implicações muito directas na crise institucional que hoje se vive.
Visto aos dias de hoje foi-nos fatal, mas não nos permite adivinhar o que se teria passado se Domingos tivesse permanecido. Isto porque ninguém sabe responder o que teria acontecido no final da Taça, ou se as meias-finais na UEFA teriam ocorrido. Isto é, se os resultados de Domingos se mantivessem a actual crise podia até ter surgido ainda mais cedo.
Quanto à profecia de Elias, que nos remete para cinco anos de duro penar, a comer o pó que os nossos rivais deixam para trás, tem alguma razão de ser face à realidade. Mas não tem o valor de uma condenação irremissível. Pode ser assim como pode ser pior, e não faltam exemplos que sustentem qualquer das teorias. O destino será traçado no que for feito no imediato.
O que fazer então para que a profecia não se cumpra ou pelo menos não veja o seu prazo dilatado?
Realismo, acima de tudo. É uma asserção "lapalissiana" bem sei, mas indispensável. Só a percepção do real valor - qualidades e fraquezas - e do valor relativo permite um bom diagnóstico e daí chegar às melhores soluções. E aí parece-me fundamental fazer 3 considerações:
1- Estamos muito atrás dos nossos rivais e, neste preciso momento, também do SCBraga. Em relação a este último é possível no curto prazo inverter posições. Atingiu o zénite com o segundo lugar de Domingos mas não tem massa critica para fazer mais do que isto: brilharetes esporádicos.
2- A importância da manutenção de Jesualdo. Desde logo no imediato. A sua saída agora podia-nos ser fatal e a sua continuidade evita ter que começar de novo. Ter coragem de não mudar o que está bem é tão importante como a necessária para fazer alterações dolorosas. Jesualdo pode ter a mesma importância para o Sporting e sobretudo para a próxima gestão como JJ teve para LFV. Isto mesmo considerando que o Sporting actual não poderá por ao dispor do seu treinador os meios que de que JJ pôde então beneficiar. Não vejo no universo Sporting quem, a nível técnico, ofereça melhor que Jesualdo.
3- Não fazer considerações precipitadas sobre o valor individual dos jogadores que compõem o plantel.
3.1 -É obrigatório ter em conta que este ano foi um ano perdido, fazendo com que alguns jogadores estagnassem ou até regredissem e todos, excepção de Patricio, ficassem aquém do valor que deles se esperava.
3.2 - A juventude em excesso do plantel - no último jogo Rinaudo era o jogador mais velho, mas tem apenas 25 anos! - tem do seu lado a possibilidade de evolução do já muito razoável valor mas, para um clube instável e à procura da sua identidade ganhadora, é também um problema adicional. O facto de não dispormos de grandes recursos pode até "ajudar-nos", por não ser possível uma nova revolução ao invés de ajustes necessários.
Mas as questões de maturidade não se põem apenas em abstracto, devem ligadas ligadas directamente à competição. Ontem o Miguel Nunes dizia-nos
aqui na caixa de comentários com alguma razão que o actual meio-campo
"nem para limpar as botas a Veloso, Moutinho, Izmailov, Romagnoli" que, com Paulo Bento, até nem conseguiram ser campeões.
Uma
meia-verdade seguida de
uma verdade incontestável:
"Não adianta ter bons gestores se depois à frente do que mais toca a
todos estão patetas a tomar decisões que prejudicam o futebol e
consequentemente todo o funcionamento do clube". Este tem sido "o problema-mãe" de quase todos os outros que dele nascem em cascata: a falta de resultados, os problemas financeiros, a contestação. Temas que de certa forma já tinham sido abordados aqui, no
Lateral Esquerdo.
Antes da análise a uma e a outra um parêntesis. Ajudará muito ao sucesso do clube resolver na cabeça dos seus adeptos o que parece ser uma crise de identidade. O Sporting não será mais pequeno se, neste processo, não conseguir ganhar no imediato. O Sporting é grande pelo seu passado e pela sua matriz, mesmo que esta esteja a precisar de lustro. O Sporting nunca se identificará como um clube formador - a excelência da sua escola é um valor incontestável - se os seus adeptos olharem apenas para o passado - Damas, Manuel Fernandes, Futre, Figo, Simão, Nani, Ronaldo, etc - ou para o futuros quiméricos se não souberem sofrer as dificuldades dos que, no presente, precisam do tempo e do espaço para se afirmarem. O Miguel Nunes fala-nos de um valor nunca reconhecido, especialmente de Pereirinha ou Carriço e concordo inteiramente com análises que faz.
Primeiro a meia-verdade. À época Moutinho, Veloso, Romagnoli e Izmailov tinham também o mesmo problema de que enfermam os actuais jogadores do actual plantel: eram jovens, o seu valor era também contestado, bem como os dirigentes que os comandavam. O seu valor adivinhava-se mas nem sempre o seu rendimento lhe era equivalente.
Moutinho só viu o seu valor inteiramente reconhecido quando mudou para uma equipa e clube estável, onde as suas preocupações se devem resumir em treinar, jogar, evoluir, ser melhor, ganhar. Sem isto, o valor facial do jogador diminui e o seu potencial será sempre uma promessa por cumprir. E isto é muito do que os jogadores do Sporting não têm tido, nem então e muito menos esta época. Isto é um dado objectivo que se sobrepõe a outras considerações com um grau de subjectividade muito maior.
Depois a verdade incontestável. Todo e qualquer dirigente tenderá a fracassar se não conseguir reconstruir o departamento de futebol. O Sporting tem sido um cemitério de ilusões, um pira permanente de profissionais e dirigentes. Olhando para os exemplos recentes de Izmailov ou até de Moutinho, podemos ser levados a concluir que o Sporting está sujeito ao karma de contratar apenas maus profissionais. Isto equivale a enterrar a cabeça na areia.
Repare-se no caso de Izmailov. Mal chegou ao FCP foi-lhe posto à disposição um tradutor. É de pasmar que um jogador que está há 6 anos em Portugal não saiba ainda falar português. Isso diz-nos alguma coisa sobre o seu insucesso relativo no Sporting, da sua pessoa como individuo, mas diz-nos muito como trabalham os dois departamentos de futebol. O FCP não se deteve em raciocínios mais ou menos "filosóficos" do género "mas que raio de gajo é este que há tanto tempo em Portugal não fala português" tratou de resolver o problema. Com isso protege o seu investimento, promove as condições para o seu mais rápido sucesso, revela profissionalismo.
Como é que ninguém se lembrou disto no Sporting? Pois... Isto ajudará muito a perceber como surgem casos como o de Stojkoivic, por exemplo. Lembro-me perfeitamente de uma entrevista em que o irmão e então empresário Vladan protesta contra o comportamento do Sporting, já decorria então o processo que levaria à sua saída, em que o jogador, acabado de chegar e sem saber falar português, não dominava os vários aspectos relacionados com as acusações que lhe eram feitas. Hoje damos graças à confirmação do valor de Patrício mas esta não teria que ser mutuamente exclusiva com o de Stojkovic, e em particular do clube, que não viu ressarcido o investimento realizado.
Juntamente com a incontornável questão financeira - sem dinheiro não há vicios e a necessidade dramática de um valor considerável é por isso um ponto crucial e não de somenos como alguns pretendem - estes serão os aspectos que levarão à ponderação do meu voto.
Estas é que são as questões cruciais para o Sporting, juntamente com a compreensão da matriz eclética do nosso clube. Mas, como também agora se vê, até podíamos ser campeões em todas as modalidades - o que nem vai ser o caso - que será sempre o futebol a decidir o destino dos próximos dirigentes como já decidiu os anteriores.
Infelizmente as mais acaloradas discussões andarão à volta do "croquetismo", do "terrorismo", do "verdadeiro sportinguismo" e outros "ismos", modalidade em que nos tornamos campeões sem outros adversários que não nós mesmos, os Sportinguistas.
Por vezes sou levado a pensar que tal sucede porque em relação a estas matérias há também um profundo desconhecimento do que propor e é por aí que se funda o reino do silêncio, das banalidades ou até o da asneira.