E de repente todos se esqueceram do modelo Dortmund
Tantas vezes dado como exemplo e provavelmente tantas vezes ansiado, o outrora incensado "modelo Dortmund" deixou de ser apontado como ideal. Em particular pelos Sportinguistas que, há dois anos, reivindicavam a sua adopção. Esta constatação levou-me a um artigo que então escrevi e cuja actualidade me parece ser ainda hoje pertinente. Deixo aqui o que considero ser os seus pontos mais interessantes para eventual discussão:
"Precisamos de qualidade e resultados. Resultados sem qualidade é aborrecimento, qualidade sem resultados não faz sentido"*
Nota: este texto foi escrito em 17/05/2013
Tornou-se
motivo de conversa entre os Sportinguistas e objecto de desejo o
"modelo Dortmund", agora que o clube da Vestefália coroa o regresso à
ribalta com uma final da Liga dos Campeões. Depressa foi encontrado o
substituto do "modelo Barcelona" como exemplo de promessa de felicidade
ao virar da esquina, mas temo que nem um nem outro tenham sido
verdadeiramente conhecidos e entendidos.
Pergunto-me: e porque não o "modelo Ajax"?, que depois de um longo jejum de títulos se acaba de sagrar tri-campeão com uma equipa de jovens jogadores e um treinador que é também uma das referências da formação da casa?
A generalidade dos adeptos valida e valoriza o sucesso, raramente os métodos, o trabalho, bem como a perseverança necessários para alcançá-lo. Porém este raramente surge por acaso e, mesmo quando se estima fazer tudo bem, ele é tudo menos uma garantia.
Pergunto-me: e porque não o "modelo Ajax"?, que depois de um longo jejum de títulos se acaba de sagrar tri-campeão com uma equipa de jovens jogadores e um treinador que é também uma das referências da formação da casa?
A generalidade dos adeptos valida e valoriza o sucesso, raramente os métodos, o trabalho, bem como a perseverança necessários para alcançá-lo. Porém este raramente surge por acaso e, mesmo quando se estima fazer tudo bem, ele é tudo menos uma garantia.
Como Sportinguista não me aborrece apenas a superficialidade com que se
entende que um modelo é transplantável e facilmente enxertado de um
clube para outro, descurando as diferenças abissais entre qualquer uma
das realidades, especialmente a alemã. Mais do que isto é o desprezo a
que se vota a possibilidade de o Sporting construir o seu próprio
modelo. Ou até de este já existir, precisando apenas de ser levado às
últimas consequências, ao invés de ser constantemente recauchutado ao
sabor das tendências do momento.
Inclino-me para última das hipóteses mencionadas, nem tudo estará ainda por fazer. Esse modelo passa pela formação de jogadores, algo em que já somos uma referência, na qualidade e na quantidade. Não temos "apenas" 2 jogadores considerados como os melhores entre os melhores, por toda a Europa se encontram espalhados jogadores que testemunham uma aptidão invulgar: criar valor onde a natureza se esqueceu de deixar o talento. Fazer grandes jogadores de miúdos geniais é quase natural, uma consequência. Difícil é construi-los a partir da "normalidade" e é isso que talvez seja mais fascinante na nossa formação, mesmo que menos notório e elogiado.
A excelência da nossa formação e o que é hoje o nosso futebol profissional são tão dispares que quase se pode falar em mundos paralelos. Como estender esse bem-fazer à organização do seu departamento profissional, de forma a aproximar-se ou até igualar o que faz nos escalões de formação, é a pergunta óbvia e fácil. O que vale um milhão de dólares é a resposta.
Há pelo menos uma ideia base - o recurso à formação - que carece de sair do papel e ser praticada. Tem faltado também coerência, estabilidade e perenidade, uma linha condutora, sem curto-circuitos permanentes. Todos os clubes bem sucedidos tiveram esses valores na base do sucesso e foi isso que lhes permitiu mudar e/ou adaptar-se à mutação constante da realidade envolvente. Tudo aquilo que o Sporting não tem sido e não tem conseguido no futebol.
Precisamos de recuar aos anos 50 para encontrar a última vez que ganhamos de forma sustentada. O sucesso é isso e não um titulo em cada década. Na década de 40 fomos campeões por 5 vezes, o mesmo número de vezes na década seguinte. Os anos 60 anunciaram uma ligeira travagem - 3 títulos - que estabilizou na década seguinte - os mesmos 3 títulos - para aterrar num titulo por cada 10 anos que, na década em curso, nem sequer assegurámos. É a dureza dos números, mas é também a realidade e esta, quanto mais depressa é encarada mais perto estamos para perceber onde erramos e o que temos que mudar.
Continua a faltar um modelo de jogo que produza boas exibições com frequência. Não só porque é o caminho mais curto para a obtenção de bons resultados também com a frequência necessária para atingir títulos, mas porque é com o futebol de qualidade que os Sportinguistas se identificam. A escolha do treinador assumirá, mais uma vez, uma importância decisiva para a definição dos resultados.
O Sporting apresta-se, mais uma vez a começar um processo reconstrutivo. Praticamente a partir do zero. Assim é natural que os resultados não possam aparecer no imediato. Mas não podem ficar para as calendas. Desenganem-se aqueles que o Sporting pode fazer um intervalo e que o seu lugar fica reservado. A realidade detesta espaços vazios e o Sporting ou luta por reclamar o lugar que é seu por direito ou perderá o direito a ele. Não é fácil mas o caminho para ser grande nunca o foi, pelo menos para quem joga com as mãos limpas.
* Tradução livre de uma frase de Johan Cruyff,
Inclino-me para última das hipóteses mencionadas, nem tudo estará ainda por fazer. Esse modelo passa pela formação de jogadores, algo em que já somos uma referência, na qualidade e na quantidade. Não temos "apenas" 2 jogadores considerados como os melhores entre os melhores, por toda a Europa se encontram espalhados jogadores que testemunham uma aptidão invulgar: criar valor onde a natureza se esqueceu de deixar o talento. Fazer grandes jogadores de miúdos geniais é quase natural, uma consequência. Difícil é construi-los a partir da "normalidade" e é isso que talvez seja mais fascinante na nossa formação, mesmo que menos notório e elogiado.
A excelência da nossa formação e o que é hoje o nosso futebol profissional são tão dispares que quase se pode falar em mundos paralelos. Como estender esse bem-fazer à organização do seu departamento profissional, de forma a aproximar-se ou até igualar o que faz nos escalões de formação, é a pergunta óbvia e fácil. O que vale um milhão de dólares é a resposta.
Há pelo menos uma ideia base - o recurso à formação - que carece de sair do papel e ser praticada. Tem faltado também coerência, estabilidade e perenidade, uma linha condutora, sem curto-circuitos permanentes. Todos os clubes bem sucedidos tiveram esses valores na base do sucesso e foi isso que lhes permitiu mudar e/ou adaptar-se à mutação constante da realidade envolvente. Tudo aquilo que o Sporting não tem sido e não tem conseguido no futebol.
Precisamos de recuar aos anos 50 para encontrar a última vez que ganhamos de forma sustentada. O sucesso é isso e não um titulo em cada década. Na década de 40 fomos campeões por 5 vezes, o mesmo número de vezes na década seguinte. Os anos 60 anunciaram uma ligeira travagem - 3 títulos - que estabilizou na década seguinte - os mesmos 3 títulos - para aterrar num titulo por cada 10 anos que, na década em curso, nem sequer assegurámos. É a dureza dos números, mas é também a realidade e esta, quanto mais depressa é encarada mais perto estamos para perceber onde erramos e o que temos que mudar.
Continua a faltar um modelo de jogo que produza boas exibições com frequência. Não só porque é o caminho mais curto para a obtenção de bons resultados também com a frequência necessária para atingir títulos, mas porque é com o futebol de qualidade que os Sportinguistas se identificam. A escolha do treinador assumirá, mais uma vez, uma importância decisiva para a definição dos resultados.
O Sporting apresta-se, mais uma vez a começar um processo reconstrutivo. Praticamente a partir do zero. Assim é natural que os resultados não possam aparecer no imediato. Mas não podem ficar para as calendas. Desenganem-se aqueles que o Sporting pode fazer um intervalo e que o seu lugar fica reservado. A realidade detesta espaços vazios e o Sporting ou luta por reclamar o lugar que é seu por direito ou perderá o direito a ele. Não é fácil mas o caminho para ser grande nunca o foi, pelo menos para quem joga com as mãos limpas.
* Tradução livre de uma frase de Johan Cruyff,


