As "sábias" palavras de Nobre Guedes
Nobre Guedes, em entrevista concedida à Antena1, declarou que o Sporting não tem salvação. Num sentido lato, filosófico, e até do ponto de vista do sustentado por alguma teoria económica, a afirmação não merece qualquer contestação: "a longo prazo estaremos todos mortos", logo não há salvação possível. Nesse sentido as palavras de Nobre Guedes encerram sabedoria, mas acabam
por ser inúteis porque não nos cabe tratar do fim mas de assegurar o
futuro.
A sabedoria popular também sustenta a mesma ideia: "vamos à vida que a morte é certa". Porém, sendo certa, não tem hora marcada e cada dia da nossa existência, a partir do momento em que nascemos, é um dia ganho a um destino certo.
O mesmo acontece com as instituições. No caso do Sporting é já uma história com mais de um século. Cada dia desses mais de 100 anos de vida foram uma finta à morte que todos temos como certa. Foi também o triunfo sobre muitos profetas da desgraça, oráculos fatalistas ou previsões de pitonisas catastrofistas. Não sei em que categoria encaixar as declarações de Nobre Guedes, mas que estas resultam de uma profunda falta de humildade e sensatez é bem evidente.
Não deixa de ser curioso, talvez digno de estudo, porque é que os Sportinguistas mudam a sua visão conforme o lugar que ocupam.
Nobre Guedes esteve 6 anos como responsável das finanças da SAD, as contas desse período são conhecidas de todos e não me lembro de então ter vindo exibir qualquer preocupação ou emitir qualquer aviso.
Entretanto o agora presidente passou os últimos 2 anos a dizer mais ou menos o mesmo que disse agora Nobre Guedes mas chegado à presidência tem-nos dito mais ou menos o mesmo que dizia então Nobre Guedes ou seus colegas de direcção, "este é que é caminho". Esperemos que tenha razão.
Comentando as declarações de Nobre Guedes, o presidente apelou à união, apelo muitas vezes repetido desde que tomou posse. Porém quando era apenas sócio não parecia reconhecer-lhe tanta importância. Ainda em relação a Nobre Guedes acrescentou que "as pessoas têm muito
a necessidade de dar nas vistas e de dar entrevistas. Muitas delas,
como é o caso de Nobre Guedes, faziam um trabalho melhor quer para o
Sporting, quer para elas próprias, que era estarem caladas". Não podia estar mais de acordo. Embora não esteja inibido de fazer declarações, Nobre Guedes teve muito tempo para "falar" no cargo que ocupou, os sócios demonstraram vontade de ouvir outras coisas. Mas lembro-me o quão prolífico em entrevistas foi o então apenas sócio Bruno de Carvalho nos anos anteriores.
A declarações comuns de um (Nobre Guedes) e outro (Bruno de Carvalho) têm outro ponto em comum: a sua situação perante o clube. Com um cargo no clube dizem uma coisa, sem exercer nenhum cargo dizem outra. O mesmo se aplica à generalidade dos Sportinguistas que os órgãos de comunicação escolhem para se pronunciar sobre qualquer matéria sobre o Sporting.
Infelizmente na hora de falar quase todos se esquecem que todos os Sportinguistas têm um cargo por inerência: lutar todos os dias por um Sporting maior e para isso não precisam de exercer um cargo no clube.
Infelizmente grande parte das declarações que fazem são orientadas em função de uma agenda pessoal de poder, de um grupo de interesses, ou por incompatibilidades pessoais ou de determinado grupo. Não será esta a razão principal do declínio desportivo do Sporting. Mas valia a pena apurar o quanto declarações como as citadas contribuem para tornar o caminho do Sporting mais difícil.