Quando o "caso Slimani" é mesmo um caso e o Sporting decide dar uma borla aos jornais
A "caxa" dos jornais na manhã de ontem, dando conta de uma pretensa recusa de Slimani em treinar é revelador do "estado da arte" na comunicação social especializada. Tal porém só acontece porque o Sporting preferiu reagir ao invés de agir, acabando assim por dar uma boa borla aos matutinos que difundiram o boato. Bastava ter comunicado oficialmente, atalhando os rumores que desde o final da tarde circulavam sobre a ausência de Slimani ao treino da tarde, para os jornais ficarem impossibilitados de, na manhã seguinte, gozarem com os seus leitores. Isto porque, pelos vistos - algo que não consegui confirmar - fonte não identificada do clube teria no próprio dia desmentido a noticia.
Se a ideia era expor os referidos jornais ao ridículo, o objectivo foi plenamente alcançado. Claro que para alguém ou uma instituição se sentir ridicularizada é preciso que o pudor, a vergonha estejam presentes na consciência individual ou ideário da organização. Acontece que a necessidade de vender e procurar lucro há muito se sobrepôs ao código deontológico da profissão. Aqui convém dizê-lo, porque está muito em voga bater nos jornalistas, há muito que estes deixaram de mandar nas redacções, imperando aí a voz do dono ou dos accionistas, sendo poucos os que gozam de estatuto que lhes permita viver indiferentes à pressão.
Nesta equação não entrou o interesse dos adeptos, que certamente prefeririam não se ter preocupado com a possibilidade de mais um caso e logo com o seu avançado mais habilitado para fazer golos. Apesar de não ter passado de um rumor ninguém duvida que ainda vamos voltar a ouvir o nome do argelino e não vai ser sobre a sua capacidade goleadora. Isto porque os indícios de que a possibilidade de eclodir um caso de facto são vários.
Convém lembrar que Slimani já no passado registou problemas com a SAD com origem em problemas contratuais. E, para quem como eu, assistiu ao último jogo da época em Braga, dificilmente não terá concluído que a vontade do jogador em rumar a outras paragens, quando se dirigiu sozinho aos adeptos, ficou bem expressa.
Obviamente que os clubes não podem estar reféns dos estados de alma ou vontades dos jogadores, e por isso é que se celebram os contratos entre as partes, penalizando-se quem deixa de o cumprir. Por outro lado, numa actividade com condições tão particulares, não há qualquer interesse em ter um jogador contra sua vontade. Muito menos um jogador com o valor de mercado como Slimani em conflito aberto, impedido de jogar, na equipa B, desvalorizando-se.
A forma mais avisada de lidar com estas questões é a antecipação, com uma avaliação correcta e prospectiva dos sinais por parte de quem lida directamente com os jogadores. Isso é o que se chama gerir: resolver com eficácia, antecipando potenciais dificuldades, possíveis problemas. Ora prevenção foi coisa que o Sporting não fez neste caso. Senão vejamos:
A substituição de Slimani nunca seria matéria pacifica. É o melhor goleador disponível e, não tendo surgido nenhum interessado em bater a claúsula de rescisão, o problema acabou por se agravar. Sem avançados disponíveis e ainda sem ninguém contratado para a posição, a vontade de o ver partir deve ser quase nula, porque ninguém pode prever o tempo de adaptação necessário para quem chegue entretanto e o campeonato vai ter pontapé de saída dentro de um par de dias.
Por outro lado há ainda o facto de haver, no pico do inverno, que normalmente coincide com tempos de decisão no campeonato, a famigerada Taça das Nações Africanas. Esta retirará o jogador da equipa por um período relativamente prolongado.
E, algo que me parece não estar a ser lembrado, a possibilidade de para o ano o atleta poder invocar a "Lei Webster", que permite que a ruptura unilateral do contrato a um atleta com mais de 28 anos, desde que tenha cumprido dois anos do
acordo e o clube seja recompensado com o valor remanescente estipulado. Provavelmente assistiríamos a uma batalha legal - qual contrato é que seria invocado para o efeito? - que independentemente do resultado final, não traria nada de bom para o clube.
Obviamente que em nenhum momento aqui se equaciona a possibilidade de ver o jogador partir sem que o clube fosse devidamente ressarcido. Mas perante todas as parcelas em apreço essa é uma possibilidade que, na eclosão de um conflito entre as partes, é uma possibilidade a ser encarada. Como quase sempre, uma solução com o acordo das partes é o que mais se deseja.











