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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Tio Patinhas de Alvalade analisa as contas do 3º trimestre

Estamos de volta, após um longo período de ausência. Mas, honra ao fundador deste blog, que apesar de compreender as razões da ausência (fundamentalmente a falta de tempo para acrescentar valor), nunca desistiu e todos os trimestres me lançava o Reminder para reativarmos a coluna de opinião das contas. Esperemos todos que o Tio Patinhas tenha voltado para ficar e assim contribuir para uma troca de ideias saudável sobre as Finanças do Sporting.

No último dia do mês de maio, o Sporting tornou públicas as contas do terceiro trimestre de 2019/2020 (recordemos que o exercício fiscal do Sporting é de 1 de julho a 30 de junho, ao invés do ano civil) e num comunicado, cheio de auto-elogios, destacou alguns pontos positivos (que os houve) e basicamente passou uma esponja sobre os aspectos menos positivos, nomeadamente a falta de um rumo sobre o core business da Sociedade que levou a que desportivamente, se trate de um ano para esquecer.

Existe um outro aspecto que se torna importante realçar. As contas do terceiro trimestre não foram sujeitas a auditoria (normalmente, o primeiro e terceiro trimestre não o são), pelo que não sabemos o que pensam os auditores externos de algumas opções contabilísticas tomadas pela Sociedade e que irei abordar no artigo. Não sendo nós donos da verdade, se quiserem poderão contribuir para uma discussão rica e saudável sobre o artigo (e até corrigindo algum aspecto / entendimento que considerem errado) nos comentários.

O volume de negócios atingiu o maior volume de sempre, 156,1M€, um aumento de cerca de 42,1% face ao período homólogo e assente na transacção de direitos desportivos de alguns jogadores, tendo inclusive reflectido a maior venda de sempre, nomeadamente de Bruno Fernandes. A receita com vendas de jogadores nos primeiros três trimestres do ano atingiu 96.593M€, um aumento de praticamente 100% face a igual período de 2018/2019. Tem sido tornado público que o Sporting tem empreendido uma Reorganização Financeira da SAD, pretensamente preparando-a para o futuro, tornando-a menos dependente das receitas extraordinárias. Esse trabalho ainda não se encontra reflectido nas contas (normalmente os custos da reestruturação são mais pesados no curto prazo, ganhando-se no futuro), mas verificamos que os Resultados Operacionais pioraram de um ano para o outro. Nestes primeiros 9 meses do ano, temos mais custos (+4%) e menos receitas correntes (-3%), estas últimas justificadas em grande parte pelo aumentos dos Fornecimentos e Serviços Externos (FSEs) e pelas provisões (principalmente relacionadas com a indemnização a Sinisa Mihajlovic).

Em termos de receitas, os pontos mais positivos são a alienação de alguns ativos por valores muito interessantes (Raphinha, Bruno Fernandes, Thierry Correia), o valor acordado por Daniel Podence e as Vendas e Prestações de Serviços, que demonstram uma fidelidade dos verdadeiros sócios em adquirir as GBs, comprarem merchandising Sporting, mesmo num contexto de uma época desportiva para esquecer. Por outro lado, devemos ficar apreensivos quando vemos que alguns dos principais ativos herdados já foram alienados (o que é natural, em inícios de mandato) e verificamos que não obstante termos despendido mais de 35M€ em novos jogadores, vemos uma baixa de valor de plantel em mais de 25% e menores possibilidades de atingirmos valores de vendas similares.

Na nota 09, são detalhados os rendimentos e gastos com as transacções dos passes de jogadores, que atingiram mais de 100M€. No caso de Bruno Fernandes, verificamos que os gastos mencionados incluem os gastos de intermediação mais os valores devidos pelo mecanismo de solidariedade. Pela análise rápida feita ao Relatório e Contas (R&C), não encontro nenhuma referência ao litígio com a Sampdoria e à possível contingência / provisão de que poderemos ter de vir a pagar, se as instâncias judiciais assim o determinarem. Refere apenas que a Administração, com base nos pareceres jurídicos internos, acredita que não haverá nenhuma condenação a pagar. No passado, já vimos isso acontecer, no caso Rojo. Em todos os R&C aparecia uma nota similar, foram apresentados resultados avultados inflacionados por essa não provisão e depois, acabou por mais tarde, se ser condenado e ter de reflectir isso em contas posteriores. Esperemos que desta vez, os serviços jurídicos tenham razão. E nesta nota em particular, aguardarei o que os auditores têm a mencionar.

Os custos com Pessoal diminuíram 3M€ (-5,8%) sendo muito influenciados pela rúbrica de indemnizações (que ascende a 7M€), reflectindo parte do desnorte da política desportiva, ao acumular treinadores que depois, naturalmente, exigem que se chegue a acordo para a respectiva rescisão. No relatório é mencionado que estas rescisões implicam uma poupança futura de 35M€ para a Sociedade, mas ignora que em compensação, existiram outros encargos (novas equipas técnicas, novos jogadores) que anularão parte ou mesmo a totalidade das supostas poupanças futuras. Esperemos que no ano 2020/2021 que se verifique uma queda acentuada dos gastos com pessoal, pois o que se verifica é uma diminuição do valor do plantel na ordem dos 25% (valia contabilisticamente 89.212M€ em 31 de março de 2019 e vale agora 66.717M€), sem que exista uma queda correspondente nos Gastos com Pessoal. Tal também se explica parcialmente pela aposta da Sociedade em empréstimos de jogadores caros – Bolasie e Jese - (que não aumentam o valor do plantel), mas que consomem a rúbrica de ordenados – Jese ainda teve um custo adicional de 1,5M€ pelo custo do empréstimo.

Um ponto muito importante e que parece estar a passar despercebido, é que o impacto da contratação do treinador Ruben Amorim na Demonstração de Resultados é zero ou quase nulo. E, apesar de no comunicado mencionar a contratação do Treinador por 10M€ (o All-in da actual Direção), não refere que na conta de resultados, o impacto é praticamente 0. Pois, como podemos aferir na nota 17, temos Gastos a Reconhecer de 10.393M€ (superiores aos 10M€), o que implica que neste lucro recorde do terceiro trimestre, teremos de reduzir o valor da contratação de Ruben Amorim. E assim, a pílula não será tão dourada pois, como verificamos, os resultados operacionais continuam bastante negativos e por conseguinte, consomem os resultados extraordinários positivos de uma forma bastante rápida. Só após a divulgação das Contas Anuais, poderemos perceber melhor a opção da Administração da SAD em não reconhecer já os Gastos da Contratação da Equipa Técnica. Se os vão reconhecer ao longo do contrato, se os vão imobilizar, etc.. Não sendo as mesmas auditadas (procedimento normal, refira-se, no que concerne a estas contas trimestrais), desconhece-se o que a Equipa de Auditores Externos referiria sobre tal opção.

Ainda haveria muito para escrever e comentar (análise mais detalhada das principais rubricas de balanço, etc), mas não queria que este primeiro artigo depois de uma grande ausência fosse demasiado extenso. E durante o curto período que passou entre a divulgação dos Resultados e esta análise, optei por ressalvar mais a análise da vertente económica em detrimento da financeira.

Back for good, é o sentimento. E por agora me despeço de todos os fiéis seguidores do A Norte de Alvalade.

Saudações Leoninas,

O sempre vosso Tio Patinhas de Alvalade

Nota: o documento relativo à demonstração financeira em apreço pode ser lido na integra [AQUI]

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Emissão Obrigacionista Sporting – Subscrever porquê?

NDR: este post foi escrito pelo meu amigo José Gomes 

Deixem-me iniciar este post com um preâmbulo. Eu, como muitos de vocês crescemos num mundo em que o desporto e os clubes eram paixão, seriam quiçá também negócio, mas esta ultima vertente era apenas a necessária para que o resto funcionasse.

O mundo mudou e as organizações desportivas como o Sporting também. Não há como fugir da realidade, mesmo que não gostemos dela. Mas há como nos adaptarmos a ela, sem perdermos a nossa identidade, os nossos princípios, a nossa ética pessoal e de grupo.

O Sporting Clube de Portugal tem sido ao longo destes últimos anos e quando a vertente negócio se sobrepôs à vertente paixão uma presa permanentemente alvo da atenção de alguns abutres que gostariam de a capturar. Até agora conseguimos resistir e o Clube é nosso. E com o Clube, o seu ativo mais precioso, a SAD, o futebol do Clube. A SAD tem sido um alvo mais apetecível que as dos rivais pela nossa desunião, pelo desespero que a falta de vitórias no futebol acaba por trazer, pelos seus problemas financeiros. Mas acima de tudo pela nossa incapacidade de traçarmos um caminho de exigência a quem nos tem liderado nas ultimas décadas. Desperdiçamos as nossas energias em permanentes lutas internas estéreis e não somos capazes de nos unir para exigir.

Queremos que o Nosso passado seja o Nosso Futuro?

Chegamos a este garrote financeiro por razões várias e não interessa agora estarmos a desperdiçar as nossas energias á procura de culpados. Porque isso não resolve o nosso problema. O problema é uma asfixia financeira grave que pode comprometer o futuro que queremos. E que acredito, mesmo não tendo votado na lista vencedora nas ultimas eleições, que esta Direção é capaz de oferecer muito ao Sporting. Acima de tudo, um rumo! Porque tem gente muito capaz, para lá do seu Presidente. Porque é uma equipa!

Para isso, é necessário que esta emissão obrigacionista seja um sucesso, mesmo relativo, não se atingindo os 30M€ inicialmente previstos. Essa almofada financeira vai ser a rampa de lançamento para todo o saneamento desportivo e financeiro que é necessário fazer. Sem ela, fica tudo mais difícil.

Foi lançada num momento particularmente difícil a todos os níveis. Principalmente para captar o investimento dos investidores institucionais que seriam o primeiro grande foco. Desde logo, o não reembolso da emissão anterior nos prazos inicialmente previstos retira confiança aos potenciais investidores. Depois, temos Alcochete, o cashball e a falta de confiança em que no curto prazo seja possível maximizar as receitas da sociedade, até pelas dificuldades em entrarmos no curto prazo no caldeirão da Champions.

Essas são as dificuldades. A mensagem de esperança é que os sportinguistas acreditam. E, racionalmente, têm razões para acreditar. Com a almofada financeira que esta emissão possa trazer e com mais alguns milhões que venham do Gelson, é mais que possível normalizar a sociedade e fazê-la seguir outro rumo,. Esta Direção já mostrou que é capaz disso e que está a trabalhar bem na sombra, sem ruído. A maneira como esta operação foi montada, contra ventos e mares é o melhor exemplo disso.

Ou seja, não vindo os investidores institucionais do modo como seria desejável, temos de ir NÓS. Porque o Clube é NOSSO, porque nós somos responsáveis pelo que lhe vier a suceder. Porque temos de ser nós a cuidar do que é nosso.

Além disso, a taxa oferecida por esta emissão é de quase 4% líquidos. E os custos, para quem já tenha ações comissionadas em qualquer banco são muito baixos (rondarão qualquer coisa entre 15 e 20 Euros, no total, para investimentos até €5.000,00).

Acreditar no Sporting é acreditar em nós. Porque nós é que somos o Sporting! E é construir um futuro sustentado que todos queremos. Quem não for agora a esta emissão, pode amanhã lamentar muito não ter ajudado o Sporting quando o Sporting mais precisava de ter a sua base para construir outro futuro. E pode estar a entregar o Sporting de bandeja a quem nos o quer roubar. Para ser sua propriedade. Quem acha que este pode ser o caminho, deve olhar para o Belenenses e tirar as devidas conclusões. Destruir é fácil e rápido. Reavermos o que é nosso pode ser uma tarefa praticamente impossível.

Acabo como comecei. A emissão será sempre um bom negócio para quem investir (obviamente tem um risco, mas não é a PT, nem é o BES). Mas acima de tudo, a participação dos sportinguistas pode evitar que o Sporting passe a ser SÓ e APENAS negócio….

Eu já subscrevi 6ª Feira. Agora passo-vos a palavra a vocês, meus irmãos da savana! Que é onde vive o Leão! Que todos queremos forte e bem alimentado, para capturar as suas presas como fez domingo no João Rocha!


José Gomes

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Tio Patinhas de Alvalade analisa o artigo de Bruno de Carvalho sobre as contas do Sporting

Olá a todos.
Tio Patinhas is back!!

Depois de algum tempo ausente, volto à escrita, depois do Presidente do Sporting ter publicado um artigo no DN, onde falava sobre o estado das finanças do Sporting e da recente polémica sobre as obrigações. Mas foi ainda mais longe e revelou alguns dados novos sobre a reestruturação financeira que, aparentemente, teve uma renegociação com os Bancos.

Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, abordar a polémica do empréstimo obrigacionista. Existe muita informação e desinformação sobre este assunto. Ainda ontem, lemos uma notícia do CM em que nos dizia que o prorrogar das obrigações, por um período de 6 meses, originou um custo de quase 1 Milhão de Euros. O que é verdade, mas este custo não é adicional. Se a emissão “velha” tivesse sido substituída por uma nova, este valor seria pago à mesma, pois as obrigações vencem juros e o Sporting não tem liquidez para simplesmente reembolsar as obrigações, sem fazer o “revolving” da emissão.

Várias pessoas questionaram a minha opinião sobre o prorrogar e principalmente sobre a nova autorização para pedir um novo empréstimo obrigacionista num valor que poderá ir até 60 Milhões de Euros. Não tendo qualquer informação sobre o que motiva esta autorização, tenho a convicção que, no contexto atual da banca, que o Sporting dificilmente teria autorização para aumentar a sua dívida num valor de mais 30 Milhões de Euros. A Banca quer reduzir a exposição aos Clubes de Futebol  e paulatinamente, o Sporting tem conseguido reduzir algum do seu passivo bancário. Por outro lado, todos sabemos que os investidores particulares representam uma fatia pequena dos subscritores das obrigações, pelo que são normalmente os Bancos, através dos seus fundos, que tomam a percentagem de leão dos mesmos. 

Com estes dados, leva-me a concluir que deveremos estar a observar uma substituição de dívida ou do valor necessário para recomprar as VMOCs, segundo informação prestada ontem, por Bruno de Carvalho. Aguardemos pelas contas do primeiro semestre de 2018/2019 para verificar como fica o passivo bancário do Sporting e se se confirma ou não a substituição de outras formas de endividamento bancário (factoring, empréstimos, contas caucionadas, descobertos, etc).

Antes de falar das VMOCs, é importante falarmos de uma questão:

Depois da entrada da oficial da Troika, os Bancos foram obrigados a rever as suas práticas e mais do que isso, a reconhecer como imparidades e por conseguinte, assumir as perdas, de uma série de dívidas que os seus devedores tinham. E durante estes últimos cinco anos, quase todos os Bancos Nacionais assumiram milhões e milhões de prejuízos. E entre os quais, muitas das dívidas de todos os Clubes de Futebol, principalmente daquelas que estavam “calcinadas”. E para agravar isso, tivemos a queda do Banco BES, um dos 2 bancos com exposição ao Sporting. E resta saber se as nossas dívidas, incluindo as VMOCs (a parte do BES), ficaram no Banco Bom ou Mau (Novo Banco ou BES). Mas independentemente disso e de acordo com as informações que tenho, os valores das VMOCs foram já reconhecidos como perda total no Balanço dos Bancos e o prejuízo já reconhecido nas diversas contas do BES e Millennium BCP.

Penso ser à luz destes dados que posso compreender as novas informações que saíram ontem. Que ao invés de exercemos a opção de compra de 44 Milhões por um preço de 1,2 X Preço de mercado (cotação), que as mesmas teriam um preço de 0,3 Euros por VMOC. A este preço, o Sporting fica obrigado a comprar a totalidade das VMOCs a um preço de 40,5 Milhões de Euros. O que lhe daria cerca de 88% do capital da SAD.

E porque será que os Bancos acordaram esta redução de preço?…

Penso ser explicado pela razão de que vale mais um pássaro na mão do que dois a voar. Ora vejamos. As VMOCs já devem estar valorizadas a 0, nas suas contas. Os prejuízos já foram assumidos. Recebendo 40,5 Milhões de Euros pelas mesmas, significa que irão reconhecer um ganho nesse montante, com a reversão das imparidades. Ganho esse que irá mostrar uma melhoria nas suas contas de resultados.

E porque é que isto acontece?

Porque naturalmente, se o Sporting só precisava de comprar os 44 Milhões de VMOCs até um valor máximo de 44 Milhões de Euros para manter a maioria, nunca iria comprar as restantes, mantendo-as cristalizadas no Balanço dos Bancos (e volto a referir que, já estão valorizadas a 0 nos mesmos). Assim e perante esse cenários, os Bancos preferem limpar as VMOCs do seu Balanço de uma vez por todas.

No caso destes pressupostos se concretizarem (e volto a referir de que não disponho de nenhuma informação privilegiada, limitando-me a formular as minhas opiniões com base nos dados que são públicos), existirá um haircut de 70% da dívida (constituindo assim um perdão), assumida sob a forma de VMOCs. O que será sempre uma boa notícia e partindo do pressuposto que estamos e iremos continuar a cumprir com os acordos estabelecidos com a banca. A Banca tem cada vez mais instruções para reduzir a sua exposição a Clubes de Futebol e temos de ir arranjando formas alternativas de financiamento e principalmente, aproveitar as milionárias transferências para diminuir as nossas responsabilidades com a mesma.

No meio do extenso artigo, uma confirmação: os 18 Milhões de Euros, do tal investidor que não poderiam divulgar o nome, nunca entraram nos cofres da SAD. Ao contrário do afirmado (e por mim, pessoalmente, no Multidesportivo) em Assembleia Geral do Clube, pelo Presidente Bruno de Carvalho e penso que por Carlos Vieira, Vice-Presidente, em diversas entrevistas. Nos mapas de fluxos de caixa, nunca tinha percebido onde poderia estar reflectida essa entrada, nem nas contas de Balanço. Agora, surge a confirmação. Só não era preciso era ter informado deste assunto de uma determinada entrada de fundos que nunca correspondeu à realidade. 

Em último lugar, confesso que não apreciei a “desavença” entre os maiores accionistas da SAD ser discutida em plena praça pública. Não sendo a Holdimo uma “santinha”, também é necessário recordar que esta aceitou a conversão de uma dívida em capital, permitindo a este acionista ter uma participação de quase 30% no capital da SAD do Sporting. Será vantajoso estarmos a “pisar” no segundo maior acionista e assumir que queremos provocar-lhe uma diluição de capital? Ou será que os actuais accionistas (que não o Sporting) poderiam comprar algumas das VMOCs ao preço estabelecido pelo Sporting?

Aguardemos pelos próximos capítulos, mas estou curioso para saber o que irá sair deliberado na próxima AG da SAD do Sporting.

Até lá que é hora de despedir de todos os sportinguistas que nos seguem, aqui no Blog A Norte de Alvalade

Saudações leoninas,

O Vosso Tio Patinhas de Alvalade

sexta-feira, 20 de abril de 2018

30 milhões é a factura pelo apuramento para a final da Taça?

Depois do pedido em plena crise do adiamento do reembolso do empréstimo obrigacionista, justificada então no ponto 3 do comunicado  pelas "recentes tomadas de posição públicas por terceiros” somos surpreendidos ontem, enquanto festejávamos ainda o apuramento para a final da Taça de Portugal, com a noticia de que a SAD vai agora pedir autorização aos acionistas para poder avançar com um empréstimo obrigacionista global num montante até 60 milhões de euros até final do ano.

Se isto é sério não parece.

Primeiro porque as tomadas públicas de posição referidas que poderiam por em causa o processo foram feitas pelo próprio presidente a partir daquele famoso post, que agora parece até que não aconteceu, e não por terceiros.

Depois porque um empréstimo obrigacionista que deveria conhecer a sua renovação ou devolução aos investidores teria que estar já praticamente fechado quando faltasse um mês para que tal ocorresse. Se problemas havia, e que agora se confirmam, eles já existiam e por isso não teriam a ver com as tais tomadas de posição públicas de terceiros (Holdimo e PMAG Marta Soares na linha de mira) Já as do presidente, que deram origem a todo o imbróglio, só contariam a partir do momento em que foram proferidas, mas ainda assim julgo não constituiria motivo suficiente para o adiantamento do pagamento das obrigações, bem antes pelo contrário. Era do interesse da SAD dar um sinal de normalidade, o que o adiamento acabou por desmentir, aprofundando os sinais de crise, deixando no ar  de que afinal o discurso das contas exemplares talvez não fosse bem assim.

É muito provável que este adiamento esteja relacionado com a dificuldade de um dos bancos, ou até mesmo de ambos - BCP e NB (ex BES) -  em sustentar o "revolving" do empréstimo obrigacionista de 30 milhões, que entretanto vence. Ambos os bancos têm contas a prestar aos accionistas e o NB em particular apresentou maus resultados muito recentemente [LINK], sendo por isso provável que o Estado, - isto é, todos nós, Sportinguistas ou não - seja de novo chamado a abrir os cordões à bolsa. Uma operação com elevados riscos políticos, é bom de ver.

E finalmente é pelo menos pouco transparente que se salte da posição inicial, invocando aqueles motivos, para ir agora até à possibilidade de duplicação dos valores iniciais,  invocando problemas adicionais de tesouraria e deixando a sensação de que se aproveita o momento de festa para ver se ninguém repara.

Veremos por quanto vai ficar valor final do empréstimo obrigacionista e especialmente como será feito o revolving e por quem. Não seria de todo surpreendente que a recente viagem do vice Carlos Vieira estivesse relacionado com este assunto. Assim como não seria propriamente uma surpresa que, viéssemos a ser confrontados com uma operação de cessão de créditos por parte de um dos bancos ou de ambos, o que poderia contribuir para o agravamento dos custos do crédito, a acrescer aos que já se estão a registar pelo adiamento do pagamento do reembolso no tempo acordado. A possibilidade de o ser o próprio clube a fazer cessão de créditos para abatimento de dívida (a la SLB...) também não pode ser de todo descartada.

Veremos o que irá determinar a AG da SAD agendada para o dia 11 de Maio, especialmente que posição publica irá tomar a Holdimo, até agora parceiro estratégico da SAD. Esta já tinha manifestado o seu desagrado com "o debate público sobre questões internas (...) que é "absolutamente dispensável e atentatória da melhor tradição da marca Sporting, com potencial prejuízo para os ativos da sociedade".

A seguir com atenção.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Tio Patinhas de Alvalade analisa o relatório da Soccerex Football Finance

Saudações leoninas a todos e muito obrigado pelas fantásticas reações ao meu primeiro post. Irei comentar em futuros posts, alguns dos aspectos importantes mencionados nos comentários ao mesmo, sem procurar ser consensual, pois a divergência de opiniões é salutar quando bem “praticada”. Mas vamos ao que me traz aqui hoje, o nosso Quinquagésimo Lugar no Finance Football Index da Soccerex.

Depois de mais um derby (com um resultado bem melhor que a exibição), a Soccerex lançou a edição 2018 do seu Relatório Football Finance, onde elenca, de acordo com um indicador criado por si, os 100 maiores clubes, em termos de poderio financeiro.

Este relatório refere-se à análise das contas dos Clubes referentes à época 2015-2016. O Manchester City aparece em primeiro lugar, estando algo surpreendentemente, o Arsenal em segundo. Apesar de futebolisticamente andar longe de um novo título de campeão inglês, a sobriedade da sua gestão origina a que não tenha praticamente dívida nenhuma e apresente resultados financeiros interessantes. No entanto, é de referir que um dos 5 sub-indicadores que constitui o FFI (Football Finance Index) é o do potencial de investimento pelos “donos” do Clube, o que favorece aqueles que têm accionistas fortes por trás em detrimento do modelo de sócios. 

Por isso mesmo, clubes como o Real Madrid (6º Lugar), Bayern Munique (10º Lugar) e Barcelona (13º Lugar) estão fora do top-5, porque neste sub-indicador são avaliados com 0. À imagem do que acontece com os 3 Clubes portugueses que aparecem no Top-100, o nosso Sporting (50º Lugar), Porto (52º Lugar) e Benfica (64º Lugar). Se expurgássemos este efeito, o topo do ranking seria certamente diferente, assim como os nossos 3 clubes subiriam uns bons lugares nesta tabela (que favorece o modelo inglês).

Analisando o FFI, verificamos que ele é constituído pelas seguintes variáveis:

• Activos (jogadores)

• Activos Fixos (estádios, academias, etc)

• Liquidez no Banco • Potencial de Investimento dos Donos

• Dívida Líquida

O nosso Clube aparece como tendo Ativos em jogadores de 196M€, Activos Fixos de 165 Euros, 3 Milhões de Liquidez, 0 em Potencial de Investimento e uma Dívida Líquida de 222 Milhões de Euros, dando um FFI de 0,469 atribuído pela Soccerex.

O Porto aparece como tendo o plantel mais valioso dos 3 Clubes nacionais – 206M€, mas tem menores ativos fixos (140M€), maior liquidez (13M€) e uma dívida maior (234M€).

Por seu lado, o Benfica aparece como o plantel menos valioso (175M€), ativos fixos de 169M€, com maior liquidez no banco de entre os 3 (30M€), mas uma dívida líquida de 339M€, superior em mais de 100M€ de Sporting e Porto.

Agora sabemos que indicadores como a valorização do plantel valem o que valem, porque realmente um jogador só vale aquilo que se especula, quando alguém se chega à frente em termos de compra de jogadores. E vemos que apesar de o Porto ter o plantel mais valorizado que, durante o período de 1 de julho de 2016 a 31 de agosto de 2017, teve muita dificuldade em realizar dinheiro com os seus ativos, enquanto que Sporting e Benfica encaixaram mais de 100M€ com ativos que estavam na valorização mencionada pela Soccerex.

De referir que este estudo apresentado pela Soccerex é apenas um exercício baseado nas variáveis e indicadores escolhidos pela mesma. Outros estudos que considerem variáveis diferentes (e pesos também) originarão resultados diferentes. Por exemplo, se ao FFI expurgássemos a capacidade de investimento dos donos / accionistas e considerássemos também a capacidade de geração de receitas, os resultados operacionais e o EBITDA gerado pelos diferentes clubes, muitas alterações ocorreriam. 

Estou curioso (mas esperarei pacientemente, porque deve ser daqui a um ano) para ver os resultados após contabilizarmos a época / ano fiscal 2016/2017, mas estou em crer que o Sporting manterá a dianteira neste campo, em particular.

E que juntemos o tão almejado título de campeão 2017/18 à liderança neste campo. Agora, encher Alvalade dia 7 de janeiro e empurrar a equipa para um bom final de primeira volta, com o Marítimo. 

Tio Patinhas de Alvalade

PS: pode encontrar o estudo [aqui]  para download

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Saiba o que diz o Tio Patinhas de Alvalade sobre as contas do Sporting

Saudações Leoninas a todos!! 

Inauguro hoje uma colaboração com o distinto “Leão de Alvalade” e começo por agradecer o honroso convite que me endereçou para assumir uma colaboração com o seu blog, versando sobre os aspetos financeiros do Futebol e do nosso Clube em particular.

Assim, começo esta colaboração escrevendo sobre as últimas demonstrações financeiras apresentadas pela SAD do Sporting e que apresentam um resultado positivo de 24,9M€. E prevejo (e se me enganar, estarei aqui para dar a mão à palmatória) que se não ocorrer uma venda neste mercado de Inverno ou antes do fecho do exercício (antes de 30 de junho), penso que o Sporting corre o risco de poder apresentar prejuízo ou algo muito perto disso. Mas vamos antes tentar dissecar alguns números.

Os nossos proveitos operacionais do trimestre foram de 34.79 M€, dos quais 17,04M€ dizem respeito à Liga dos Campeões, pelo que os proveitos expurgando a LC e transferências, devem rondar os 70 a 75 M € por ano. Com a boa prestação da UEFA, direi que será possível passar dos 100M€ sem transferências, pela primeira vez (no ano passado, foram cerca de 80M€). O aumento de cerca de 2M€ dos proveitos operacionais é explicado pelo facto de termos disputado a Pré-Eliminatória e pela receita de bilheteira acrescida, no mês de agosto (sem correspondência com o período homólogo).

E por falar em bilheteira e apesar de no início de cada época, a Direção ser criticada pela sua política de preços (estes têm subido a cada ano) e de muitos preverem a descida apocalíptica das vendas de lugares anuais, os números têm dado razão à política seguida, uma vez que temos um aumento de cerca de 15% das receitas com a venda de lugares anuais, as nossas Gameboxs.

Ao nível dos custos, existe mais um aumento da massa salarial (depois das duas primeiras épocas de apertar o cinto, têm crescido ano após ano). Mesmo descontando 0,8M€ respeitando a jogadores que já não se encontram no plantel, temos um aumento de pelo menos 7M€ neste ano. Atrevo-me a dizer que o impacto da massa salarial da SAD rondará os 70 a 75M€, sendo similar aos proveitos operacionais sem a Liga dos Campeões e receitas com alienação de passes.

No que concerne aos Bancos, verificamos que os depósitos à ordem restritos, totalizam já mais de 5M€. Para quem não lê os R&Cs, estes DO restritos servem para liquidação de dívida bancária, juros e constituição de conta reserva (pagamento de VMOCs). O “famoso” factoring reduziu cerca de 13,3%, para 26M€, sendo 22,4M€ referentes a épocas futuras (chegou a ser mais de 38M€ em 2014). Verificamos uma redução do passivo bancário num trimestre de 2M€ e uma reestruturação entre diversas dívidas, diminuindo os descobertos bancários e aumentando os empréstimos “normais”. Um dia, prometo escrever mais sobre o factoring, mas ressalvo que não deixa de ser mais um instrumento financeiros colocado à disposição das empresas e claro está, do Sporting. No entanto, ao contrário do que muitos afirmam, o facto de anteciparmos o recebimento de proveitos futuros não influencia a nossa Demonstrações de Resultados, pois estes proveitos serão diferidos e reconhecidos contabilisticamente, no período temporal a que dizem respeito.

Em resumo e para que este primeiro “escrito” não se torne demasiado longo, um primeiro trimestre em linha com o esperado e uma estrutura de custos, algo dependente da Liga dos Campeões (sem esta receita, nunca operacionalmente o Sporting atingirá o equilíbrio, com a atual estrutura de custos). Num ano sem LC, os prejuízos sem alienações de passe, podem atingir “facilmente” números acima dos 20M€. Ainda por cima, quando algumas rúbricas de receitas parecem ter deixado de ter espaço para crescer, nomeadamente Patrocínios, Loja Verde (variação de apenas 100 mil Euros de um ano para o outro), Direitos Televisivos (uma vez que já foram revistos em alta, há 2 épocas atrás).

Para terminar e porque muitas vezes me perguntam, confirma-se que o valor à Doyen já foi liquidado, pelo Tribunal Suíço, que havia solicitado a retenção das nossas receitas da Liga dos Campeões do ano transato, apesar de a “batalha” judicial ainda não ter terminado (e a provisão ainda não foi totalmente revertida). Assim, o pagamento desta dívida é a grande explicação para a diminuição do nosso passivo, face a 30 de junho de 2017.

Comentem e aguardem pelos novos capítulos!

O vosso “Tio Patinhas” de Alvalade

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A esperança que fica da Taça da Liga, o Relatório & Contas no que mais interessa, a querela com a RTP

Taça da Liga
Não foi um jogo particularmente agradável de se seguir e dificilmente poder-se-ia assistir a uma grande prestação colectiva, tendo em conta as alterações introduzidas por JJ. Tenho insistido aqui muito nisto:
- Jogadores que não jogam com assiduidade dificilmente se conseguem apresentar com ritmo e intensidade ao seu melhor nível, o que por vezes até distorce a noção do seu valor pelo que projectam;

- O facto de um elevado número de jogadores juntos na mesma equipa  pela primeira vez, ou tendo-o feito pouquíssimas vezes (a que se soma a tal falta de ritmo individual) é um factor determinante para a qualidade de resposta não poder ser igual.
A isto temos obviamente que juntar o facto de, por alguma razão, estarem a jogar aquilo que se convencionou chamar "segundas linhas". Mas era precisamente aqui que queria chegar pois, se o interesse do jogo propriamente dito se possa ter extinguido com a conquista dos três pontos e o derradeiro apito do árbitro, a avaliação do que estes jogadores ainda podem oferecer à equipa já não me parece. 

Acabamos de entrar num mês em que a sorte da equipa nas diversas competições será objecto de decisões, três delas de carácter eliminatório: Taça da Liga, Taça de Portugal, Liga dos Campeões. Até ao inicio de Janeiro (dia 3) temos ainda oito jogos para realizar, dois dos quais são para a Taça da Liga (Varzim, Setúbal) 1 para a Taça de Portugal (Setúbal) um para a Liga dos Campeões (Légia)  e os restantes para o campeonato (Setúbal (c) Benfica (f) Braga (c) Belenenses (f). 

Este excesso de agendamento abrirá certamente espaço para que jogadores com menos tempo e oportunidades se mostrem e alguns ganhem ritmo suficiente para se constituírem como opções para titulares. E há alguns, mesmo sem terem prestações relevantes, que deixaram indicações interessantes e que, com enquadramento a outro nível mais elevado, com os habituais titulares e nunca todos em simultâneo como agora, devem ser levados em linha de conta: Esgaio, Paulo Oliveira, Douglas, Petrovic, Elias, André e sobretudo Campbell. Na outra face da moeda a astenia de Markovic continua e mesmo Alan Ruiz, pese o golo, continua a desiludir.

Relatório & Contas do 1º trimestre
O Sporting apresentou o seu melhor relatório e contas de sempre e esta consideração é igualmente válida mesmo considerando que se trata de um relatório parcelar. Fossem sempre assim sempre os relatórios, mesmo que não fossem desta monta e a saúde financeira do clube seria outra.

É bom lembrar que apresentação deste relatório não foi imposta por nenhum preceito legal ou regulamentar, uma vez que a CMVM deixou de o exigir. Obviamente que, com estes resultados, e ainda por cima em véspera de ano eleitoral, seria um tontice desperdiçar este argumento poderoso. Mas a sua apresentação não passará de uma xico-espertice e um insulto à nossa inteligência se o mesmo não se verificar quando resultados menos favoráveis se venham a registar. De certa forma pode-se considerar que esta apresentação significa um compromisso para o futuro e se assim for não pode deixar de ser saudado.

Não farei aqui uma leitura fina aos resultados, mas não deixarei de proferir algumas considerações que interessarão mais à generalidade dos adeptos, de que faço parte, que não gostam de esmiuçar os números.
- Independentemente das necessidades que representam os compromissos a vencer no curto, médio e longo prazo, estes resultados apontam para uma gestão genericamente equilibrada. O crescimento dos custos tem sido acompanhado com o crescimento das receitas e ambos eram absolutamente essenciais para o acréscimo da nossa competitividade.

- Sem segredo para ninguém, este óptimo resultado é conseguido sobretudo "à custa" da  venda de Slimani e João Mário. A razão do inflacionamento do seu custo para os clubes compradores não reside apenas no seu valor como jogadores, mas assente numa prestação colectiva que em muitos jogos chegou a ser brilhante e que potenciou o valor de cada um deles. A fórmula é simples, a sua aplicação já não e no Sporting particularmente.
- Sintomaticamente, trata-se de dois jogadores com diferentes origens: João Mário da formação e Slimani do scouting. A prova que é possível e até desejável a convivência entre essas "politicas" e o nosso sucesso depende delas. 

- O relatório diz-nos também que, além da obtenção de mais-valias, por via da alienação de passes de jogadores, a presença na Liga dos Campeões é fundamental para suportar o também evidente disparar da actual estrutura de custos.  

- A questão primordial para a manutenção deste circulo virtuoso continua por isso a ser (outra vez!) a gestão desportiva. Quer ao nível da (1) composição do plantel (formação+scouting) quer ao (2) nível técnico, que é o rendimento que se adquire por via do treino. O recurso da gestão a engenharias financeiras e outros expedientes só acontecem quando a gestão desportiva está a falhar.

- Se o segundo se pode dizer aquirido, o primeiro este ano deixa dúvidas. Este ano foi particularmente notório que (a) o reforço do plantel foi tardio - facto já admitido por Jesus - (b) foi duvidoso no que diz respeito à oportunidade de muitas escolhas, (c) foi diminuto o recurso à formação  e (d) aparentemente excessivo no que diz respeito ao recrutamento externo, o que seguramente interferirá nos resultados globais, se rectificações não forem feitas. O rigor é sempre indispensável e os resultados são ainda melhores no futuro quando ele é aplicado em tempos de bonança.

- Há por isso duas questões que ficam no ar: a) quantos dos resultados desportivos a obter esta época não poderão ter ficado comprometidos logo à partida por via das decisões tomadas para a formação do plantel e, b) olhando para o actual plantel, é possível a manutenção deste modelo?
- Para assegurar um modelo diferente e quiçá mais equilibrado seria necessário fazer crescer outras fontes de receitas, de forma a que a necessidade de vender não fosse tão premente. Para os clubes portugueses esse é o ovo de colombo ainda por descobrir. Ainda assim há muito ainda por fazer e para melhorar e cuja 

A RTP e a promoção do Benfica
Fica apenas uma nota final de rodapé a recente querela com a RTP, por via de um spot promocional de um jogo do nosso rival. As questões de humor são sempre particularmente sensíveis, quantas vezes não assisti já a risos desbragados a acontecer em simultâneo com reações de indignação a propósito da mesma piada. 

A reacção parece-me excessiva face ao conteúdo do spot, que o Sporting considerou falta de respeito pelo clube. A referência ao Sporting é residual e nem sequer é ofensiva - se assim quisesse ter sido podia escolher a versão pior da "baforada". É também uma manifestação de incompetência e falta de segurança da RTP e desrespeito pelos funcionários.

Saber rir de si mesmo é uma manifestação do mais apurado sentido de humor. Reacções deste tipo, parecem-me, isso sim, uma manifestação típica de alguém com pouca segurança de si e com sua própria imagem, típico de gente complexada, e que, por isso, nada tem nem pode ter a ver com o Sporting.

Parece-me isso sim mais uma manifestação de excesso de atenção e reacção a tudo o que vem acoplado à palavra Benfica e que infelizmente faz cada vez mais escola. Quase sempre de forma primária e quando não grotesca, e não de forma inteligente e documentada (com muito poucas honrosas excepções  como p. ex. O Artista do Dia) o que só desqualifica não só quem o faz mas por via directa e indirecta o clube. Em grande parte são os Sportinguistas com o seu excesso de atenção ao rival aqueles que mais o promovem e mais o colocam nos assuntos do dia.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

No mais puro "croquete style"

A SAD do Sporting aproveitou as vésperas do jogo como o Real Madrid para divulgar a entrada de novos investidores, numa operação a rondar os 18 milhões de euros. Divulgar que é bem diferente de informar, uma vez que não são avançados os nomes das entidades ou pessoas envolvidas como obrigam as mais elementares normas de transparência. 

Quem são, o que fazem, ao que vêm? Qual a razão para manter o nome em segredo? Admitamos que o segredo é alma do negócio enquanto este está por concretizar. Mas se a razão é essa porque se divulga já? Enfim, um sem número de questões, estas e outras que se levantam. Mas o mais importante aqui é a "divulgação" de uma noticia, num timing claramente escolhido para se furtar à atenção dos interessados que somos todos nós, Sportinguistas.

Mas, para lá do aspecto formal, há que considerar as suas implicações. É que esta não é uma mera operação de aumento de capital, implica a emissão de mais um lote das já famosas VMOC´s, no valor 55 milhões de euros. Assim, o valor total de obrigações convertíveis cifrar-se-á em breve em 190 milhões de euros, isto para uma sociedade com um capital social de 85 milhões de euros. 

Entretanto, se nada for feito, em 2026 o clube está obrigado a recomprar 52% desses 190 milhões, o num valor a rondar os 99 milhões de euros. Os bancos, outrora uns ladrões, hoje amigos, já detêm um terço da SAD, que com esta reestruturação financeira tantas vezes elogiada como exemplar, alienou cerca de 40% do seu capital. 

A possibilidade de os bancos ficarem com dois terços no final da operação parece-me remota porque não têm interesse nem vocação para administrar SAD's pelo que, se o clube nada fizer, terá que se haver com quem os credores encontrarem para ficarem com as acções que então deterão.

Esta forma de onerar os vindouros e o método e o tempo escolhidos na sua divulgação fazem lembrar, para pior, o que muitos hoje chamam de "geração croquete". Infelizmente muitos desses deviam estar a dormir aquando das primeiras emissões e, pelo que se vai vendo, ainda não acordaram. Se nada for feito, em 2026 acordamos todos. Provavelmente aos gritos. 

Qual é o meu receio? É que em 2009, quando esta solução foi apresentada, "isto" ia ser resolvido, só que a maturidade da primeira tranche chegou em Janeiro deste ano e a solução encontrada foi empurrá-la, ela mesma, a solução, para 2026...

sábado, 1 de outubro de 2016

"Contas totais revelam mau estado das contas do Benfica e do Sporting"


Esta é uma noticia inserta hoje no Jornal Expresso:

O Grupo Benfica fechou o ano 2015/16 com capitais próprios negativos de €84 milhões. O número que mostra uma realidade diferente da das contas individuais da SAD, contrastando com capitais próprios positivos desta de €21 milhões — está nas contas consolidadas do clube, que o Expresso hoje torna públicas pela primeira vez. A não publicação das contas consolidadas pelo clube da Luz esteve na origem de fortes críticas do Sporting, que ainda não apresentou as suas.



Foi o próprio Benfica quem forneceu as contas consolidadas ao Expresso, assim pondo fim à polémica quanto à sua não divulgação. O clube diz que age com “total transparência”, que sempre teve contas consolidadas, e que só as forneceu agora porque nunca antes nenhum jornal as tinha pedido. “Sempre tivemos esta informação disponível para partilhar com os parceiros e sócios (tal como hoje [ontem] vai ser feito na assembleia [geral de sócios]), prática que já tem muitos anos”, diz o Benfica.

Já o Sporting, que num texto de opinião de Bruno de Carvalho publicado esta semana no “Diário de Notícias” lançou suspeitas sobre as contas totais do clube rival, respondeu ao Expresso não ter ainda as suas contas consolidadas de 2015/16 fechadas, garantindo que as dará logo que isso acontecer. E enviou, sim, as contas consolidadas do ano anterior, 2014/15 (que não estão no site do Sporting), que revelam também um capital próprio negativo, num valor que é quase o dobro do do Benfica: €163 milhões, resultantes de muitos anos de prejuízos anteriores. Tendo em conta que a SAD do Sporting teve prejuízos de €32 milhões este ano, os capitais próprios consolidados deverão ter fechado 2015/16 num valor próximo dos €190 milhões negativos.

O que são contas consolidadas
Imagine que é dono de um grupo que tem duas empresas, a X e a Y. Se a X vender uma mesa por €100 à Y e a Y vender uma cadeira à X por €100, ambas faturaram €100, mas o grupo ficou exatamente com o mesmo dinheiro. Em contas consolidadas, o grupo nada faturou: as operações anulam-se.

Agora imagine que a mesa e a cadeira vendidas tinham sido inicialmente compradas por €20. Então, X e Y teriam tido um lucro de €80. E os ativos de cada uma também subiriam €80, pois quem vendera a mesa que valia €20 comprara a cadeira que valia €100. Mas, em contas consolidadas, nem mais lucro nem mais ativos.

Estes exemplos simples demonstram a diferença entre contas individuais e consolidadas, que anulam operações dentro do grupo e as contabilizam na proporção que umas empresas detêm das outras (segundo o método de equivalência patrimonial). Nestas SAD, as contas individuais são públicas, as consolidadas não.

O Sporting lançou suspeitas sobre os verdadeiros ativos e passivos do Benfica, depois de a SAD da Luz apresentar o seu maior lucro de sempre, de €20,4 milhões. O Benfica, instado, não quis alimentar a polémica, mas fontes do clube falam de uma manobra de diversão do Sporting para “tapar” os seus prejuízos de €32 milhões.

As contas consolidadas 2015/16 do Sporting serão aqui analisadas depois de serem fechadas. O FC Porto ainda não divulgou resultados, embora o Expresso já tenha antecipado o que podem ser os maiores prejuízos de sempre da SAD portista. Entremos nas contas consolidadas do Benfica, as únicas fechadas — e agora disponibilizadas.

“Falência técnica”
Diz-se que uma empresa está em “falência técnica” quando tem capitais próprios negativos, isto é, quando o passivo (o que “deve”) é maior do que o ativo (o que “tem”). Tanto o Grupo Benfica como o Grupo Sporting estão nessa situação (assim como o Porto), em grande parte por causa dos prejuízos antigos acumulados. O Sporting parte de uma situação pior: tinha no ano passado resultados transitados (soma de lucros e prejuízos de anos anteriores) negativos em €267 milhões.

No Grupo Benfica, os resultados transitados no fecho de 30 de junho de 2016 são de €114,7 milhões negativos, ainda assim uma melhoria de 5,4% face aos €121,3 milhões negativos de um ano antes, no fecho de 2014/15. Daqui resulta o capital próprio negativo de €84 milhões, que melhorou 16% face aos €99,8 milhões negativos um ano antes. Na prática, isto significa que o Benfica ainda tem de “limpar” muitos anos de prejuízos passados.

É o legado Vale e Azevedo? A esta pergunta, o Benfica responde: “Os €114,7 milhões de resultados transitados devem-se ao legado Vale e Azevedo e aos custos de reconstrução e recuperação do Grupo SLB nos primeiros mandatos pós Vale e Azevedo, onde teve de se investir fortemente na construção de infraestruturas e na recuperação desportiva do Grupo SLB.”

Ativo cresce, passivo também
O ativo consolidado do Benfica é €417,6 milhões, mais €52 milhões do que no ano anterior. Analisando o balanço, conclui-se que a valorização resulta essencialmente do plantel dos jogadores (os ativos intangíveis são de €116 milhões, mais 22,6% do que um ano antes) e de liquidez (o grupo tem €32 milhões em caixa).

Crescendo menos do que o ativo, o passivo do Benfica continua, no entanto, também a crescer: mais €28,7 milhões num ano, para um total de €495 milhões a 30 de junho último. Neste caso, o aumento resulta sobretudo de dívidas a fornecedores e outros credores, que, confrontado, o clube explica assim: “O aumento surge em consequência do aumento do ativo e deve-se aos investimentos realizados na aquisição de atletas, sendo a sua variação (aumento/diminuição) decorrente dos prazos de pagamento acordados e da data da transação.”


Quando, dentro do passivo, se olha para os empréstimos, conclui-se que a dívida do Benfica quase não se alterou de um ano para o outro (o valor total de empréstimos é de €313,7 milhões, menos 0,4% do que um ano antes). Mudou sim, e muito, a sua composição. Por um lado, houve uma redução de empréstimos bancários por substituição por empréstimos obrigacionistas; por outro, há uma evidente reestruturação de prazos das dívidas, em que o Benfica substituiu dívida de curto prazo por dívida de longo prazo. Há um ano, três em cada quatro euros (75,9%) que o Benfica devia de empréstimos eram a curto prazo, o que revela uma pressão financeira enorme; este ano, essa pressão baixou, pois dois em cada quatro euros (49,8%) são devidos a curto prazo, os outros dois a longo prazo.

Auditores avisam
Esta pressão financeira leva a alertas dos auditores. As contas consolidadas de 2015/16 enviadas pelo Benfica ao Expresso ainda não estão auditadas, mas as do ano anterior, que o Benfica também disponibilizou, estão. As contas são aprovadas pela PricewaterhouseCoopers (curiosamente, a mesma auditora do Sporting, que tem reservas às contas) com uma ênfase (uma espécie de aviso): alertando para os capitais próprios negativos, a auditora salienta que o princípio contabilístico da continuidade das operações depende “do apoio das instituições financeiras na renovação das linhas de financiamento e do sucesso das operações e atividades futuras do grupo”.

Isto significa que a situação financeira do grupo é de forte pressão, mas tem sido lidada ano após ano. Não há razões para que a mesma ênfase não seja repetida no relatório deste ano, pese embora a situação financeira do grupo ter melhorado. O Benfica desvaloriza a ênfase: “Este tipo de pontos na Certificação das Contas emitida pelos auditores é normal e recorrente sempre que os capitais próprios são negativos ou se encontram perdidos em mais de 50%, em conformidade no art. 35º do CSC. Esta ênfase é recorrente nos nossos relatórios e contas.”

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Relatório & Contas: quando "aqueles" 80 milhões tinham evitado o prejuízo


A SAD reportou à CMVM o relatório e contas do exercício de 2015/2016, fechado com um prejuízo de 31.905 milhões de euros. Não tendo havido tempo para uma leitura fina ficam as impressões gerais:

A mensagem do presidente do Conselho de Administração é aquilo que se pode chamar de um verdadeiro slalom serpenteante de "ses"  
- "se tivéssemos ido à Liga dos Campeões" / "se tivéssemos feito mais dois pontos" / se não tivéssemos que fazer a provisão do Rojo
e de subterfúgios 
- indo buscar atrás (negócio Rojo) e à frente (negócio Slimani e João Mário) afastando-se o foco que é o exercício em causa, onde se registam os prejuízos 
e algumas observações descontextualizadas 
-  como a referência aos resultados da selecção nacional
 e contraditórias
- dando como concluída a reestruturação e especialmente a recuperação financeiras quando ambas estão por concluir e logo num exercício marcado por um prejuízo significativo.
Só faltou referir que caso a tão famosa proposta de 80 milhões tivesse sido aceite o sinal do exercício teria sido inverso e os resultados desportivos os mesmos.

Ironia à parte, este exercício é acima de tudo um poderoso aviso. O tempo dos prejuízos voltou mais depressa do que se poderia imaginar. Não faltam matérias a merecer explicação convincente como, por exemplo
a razão para os 16,914 milhões de prejuízo sem o "efeito Rojo", 
o preço da operação de aquisição do Alan Ruiz (vale assim tanto?...) 
ou a subida vertical dos custos gerais e em particular dos custos com pessoal.
Quando se espera que no próximo exercício os gastos continuem a aumentar, o que deve ser explicado aos Sportinguistas é se este trajecto é sustentável e como, de preferência com números do próximo orçamento demonstrativos das receitas esperadas para sustentar o acréscimo das despesas.

Nota importante: Já depois da publicação do post ficamos a saber que o Sporting, numa iniciativa inédita e que se louva, entregou na CMVM um quadro detalhado onde se incluem informações detalhadas sobre as compras e empréstimos de jogadores efectuadas desde Janeiro.

Parece-me no entanto continuar por esclarecer qual a situação contratual de Bruno Paulista. O jogador originalmente tinha chegado por empréstimo do Recreativo de Caala (!), tendo ficado de ser adquirido em Janeiro. A aquisição chegou mesmo a ser anunciada [LINK] [LINK], não tendo sido objecto de qualquer comunicado a negar a transacção, para aparecer agora no rol das aquisições depois de Junho (com os meus agradecimentos ao @OArtistaDoDia) :

P.S. - a propósito deste mesmo tema recomendo a leitura deste post [LINK]

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

VMOC's: vários anos a viver perigosamente

Criou algum alvoroço na semana passada a noticia de que o Sporting estava prestes a perder a maioria do capital da SAD. Tal sucederia caso os VMOC's (acrónimo de "valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis") detidos pelos bancos credores fossem imediatamente convertíveis em acções, conforme previsto no plano de reestruturação financeira de 2009. À época este instrumento financeiro foi aqui amplamente debatido, tendo alguma das consequências agora conhecidas sido então antecipadas.

Estamos a falar de um valor de 55 milhões de euros o que, por força da diluição percentual decorrente do aumento de capital para um total de 122 milhões de ações, reduziria a 32% a participação no capital da SAD, apesar do Sporting continuar a deter 42,8 milhões de acções. O BES e o BPI ficavam assim 45% da SAD, resultantes da transformação daquela divida em 55 milhões de ações. A Holdimo de Álvaro Sobrinho e Joaquim Oliveira são os restantes accionistas, sem contar com detentores de quantidades residuais de acções.

Ao contrário do que parece ter sido entendido, pelo menos a julgar pelo silêncio que se instalou sobre o tema, o perigo de perder a maioria da SAD ainda não se extinguiu, uma vez que, até sexta-feira, dia 15de Janeiro, os bancos envolvidos nesta operação têm que se pronunciar, através do envio de carta à SAD, dando conta da aceitação da prorrogação do prazo de pagamento dos VMOC's por mais dez anos. 

Não o fazendo a conversão em acções cumpre-se automaticamente e com ela a perda de maioria do capital. Porém, tal não é crível que venha a acontecer, uma vez que não se vê que vantagens decorreriam para aquelas instituições participarem do capital de uma sociedade que não distribui dividendos e ainda por cima tem um gordo passivo sujeito a apertada dieta.

Se não houver alterações do guião ao filme das VMOC's o problema que agora nos escaldava as mãos transitará para Janeiro de 2016, daqui a dez anos, portanto. Mas terá uma dimensão revista e aumentada, uma vez que já existe uma segunda temporada na "série VMOC's", com a necessidade de liquidar (até 16 de dezembro de 2026), aos mesmos bancos, 80 milhões de euros. 

Esta obrigação foi contratualizada em Dezembro de 2014 aquando da emissão de VMOC's pelo mesmo valor, com um prazo de maturidade de doze anos. Ou seja, se nada foi for feito até lá, em 2026 o Sporting, só por via das VMOC's, terá que desembolsar nada mais nada menos que 133 milhões de euros! Sim, leu bem, cento e trinta e três milhões de euros, não contabilizados os juros. Basta falhar apenas a liquidação de um dos valores em causa para a maioria da SAD se finar. E de fora ainda ficam os valores de despesa de gestão corrente ou do serviço da divida.

Face a estes números astronómicos é mais do que legitimo questionar o acerto das opções tomadas e qual o grau de exequibilidade real destas medidas. Tendo estas sido tomadas sempre sob o signo da emergência e como inevitável alternativa ao caos, não houve tempo nem discernimento para pensar em alternativas. Importa pelo menos agora que se perceba que, em nome da viabilização do presente possível, colocamos um grande ponto de interrogação no horizonte.

Na voz corrente dos entendidos é comum ouvir dizer e ler que, face às circunstâncias, o Sporting tem conseguido bons acordos com os bancos credores.  De tal forma que os nossos rivais, já enciumados pelo nosso lugar na classificação geral, descobriram aqui nova matéria para olharem para o Sporting com redobrado rancor. Sim, os mesmos que nos consideram pobres falidos e à beira da extinção reclamam tratamento idêntico ao que foi dispensado a eles, que se consideram ricos e exemplos de gestão. Enfim...

Se este é o acordo possível não será menos verdade considerar que, ao contrário do que sucedeu com a emissão dos primeiros VMOC's,  é agora vital para a sobrevivência da SAD planear meticulosamente o resgate daqueles valores aos bancos. Dez anos passam a correr, como agora verificamos. A alternativa é o adiar até não haver alternativa.

Vivendo um bom momento desportivo no futebol, é muito comum que matérias deste teor tendam a cair no esquecimento ou até sejam evitadas pelos adeptos e pelos responsáveis. A verdade é que dispomos de dez anos para poder alterar o curso de várias gerações a viver de forma perigosa e poder entregar aos vindouros um clube mais saudável e viável. O contrário é continuar a empurrar com a barriga. 

A próxima AG, onde é possível que este tema venha a ser tratado, é uma altura para tomar o pulso aos planos da direcção para gerir delicado dossier.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Bruno de Carvalho explica o negócio NOS (e outros assuntos)

Bruno de Carvalho concedeu uma entrevista ao Expresso, publicada na véspera do clássico, que teve como tema principal a recente assinatura de contrato com a NOS e onde aborda também outros assuntos.. É essa entrevista que hoje partilhamos com os leitores:

Expresso: Antes do Sporting-Paços de Ferreira, Bruno de Carvalho recebe-nos na SAD para nos explicar, afinal, que acordo é este que o Sporting acabou de assinar com a NOS. “É, de facto, o maior negócio da história do futebol português”, diz ele, frisando que quer continuar a engordar o currículo do clube e a emagrecer mais uns quilinhos. “Já perdi 13”. O presidente do Sporting fala dos contratos do Benfica e do FC Porto, da mentalidade do futebol português e explica porque é que, lá em casa, são os canais da NOS que passam na TV.

Quando começou a negociar?

Para o Sporting era importante perceber como se iriam posicionar o Benfica e o FC Porto. As conversações existiam, o Sporting nunca negou, mas há que esperar sempre pelo momento certo, sem pressas.

O Sporting beneficiou por ter sido o terceiro a chegar a acordo?

É como olhar para o futebol: se o mérito é de quem marcou mais golos ou o demérito de quem os sofreu. A minha estratégia foi esperar para ver o que acontecia nos rivais e, depois, a partir daí, fazer valer a dimensão do Sporting. Nunca tinha visto o Sporting fazer um negócio a este nível, de patrocínios e de direitos televisivos, melhor do que os rivais.

Acaba por ser irónico o que Luís Filipe Vieira disse na apresentação do acordo com a NOS — que os €400 milhões seriam um referencial e que os outros clubes iriam beneficiar.

Há os que querem fazer as coisas de uma forma apressada, ou porque têm estratégias específicas, ou porque têm eleições [2016, presidenciais no Benfica], dívidas de dezenas largas, ou mesmo centenas de milhões para pagar. O nosso acordo é de €515 milhões, é um negócio tripartido, com a NOS e a PPTV. E o valor resulta de contas simples: os ativos, os custos desses ativos e o resultado líquido de agora até final do contrato. O Benfica fez o negócio que achou que devia fazer e teceu os comentários que achou por bem tecer. E o Sporting fez o negócio dele: o maior negócio de sempre do futebol português.

É o terceiro presidente de um clube a dizer isso no espaço de um mês...

Havia uma história que se contava, dos seis milhões [de adeptos do Benfica], que depois eram 14 milhões, mais a capa do jornal em que o país era vermelho e o resto do mundo azul, como se o Sporting, que é verde e os marcianos são verdes, só tivesse adeptos em Marte. Isso não é real. O mercado reconhece a grandeza, credibilidade e solidez do projeto do Sporting.

É possível saber os valores associados a cada uma das parcelas? Patrocínio da camisola, publicidade, etc.

Não, por questões de confidencialidade. Mas não escondemos nada naquilo que foi transmitido à CMVM. O Sporting não pode ser o mais prejudicado por ser o que melhor explica os seus negócios. Quando nós discriminamos o contrato, é porque temos esta maneira de ser e de estar. E o comunicado deixou isto bem claro: o Sporting vendeu a publicidade de primeira linha e na camisola, direitos televisivos e a exclusividade do seu canal a partir de 1 de julho de 2017.

O canal será exclusivo da NOS?

Sim. Qualquer presidente gostaria de estar em todas as plataformas de Portugal e do mundo inteiro. Só que, depois, há a realidade do negócio.

Este dinheiro que recebe é para abater passivo, recuperar valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis em ações (VMOCS)...?

Este dinheiro é cash. Agora, vamos esperar para ver os relatórios e contas dos outros, para se perceber qual a real diferença entre os contratos. O dinheiro vai estar todo disponível para o Sporting, não vai para bancos ou comissões, que também são custos associados às receitas. O Sporting não está obrigado a destinar verbas para os bancos por causa deste contrato...

[interrupção] Que é o caso do Benfica?


Vocês é que o dizem, não sou eu. E no Sporting também não pagámos nenhuma comissão por este contrato...

[interrupção] Que foi o que aconteceu no FC Porto?


Não vou responder a isso.

Então refazemos a pergunta: foi-lhe proposto algum negócio que incluísse esse tipo de pagamentos?


Em termos de banca, não; em termos de comissões, sim.

De que operadora?


Não vou dizer.

O Sporting recebe já algum adiantamento financeiro com este acordo?

Houve renegociação dos contratos com a PPTV já para 2016. E os patrocínios são válidos já a partir de janeiro. Portanto, o Sporting joga já este clássico com a NOS na camisola.

Este contrato com a NOS também é válido por três anos e renovável anualmente a partir daí, como o do Benfica?

Tem que se entender o seguinte: com quem foram feitos os contratos e que duração tem a vigência com cada uma das entidades. Se calhar aí chega-se à conclusão de porque é que este contrato é apresentado de uma forma e o do Benfica de outra.

O que quer dizer com isso?

Nada. Só isso. Ouço dizer que o Benfica pode renegociar o contrato daqui a três anos e que vai rebentar a escala. Mas não estou preocupado com o que vai acontecer.

Este contrato permite-lhe respirar melhor, por causa do caso Doyen e da não entrada na Liga dos Campeões?

Ainda não aconteceu nada no caso Doyen, a não ser uma primeira decisão [do Tribunal Arbitral do Desporto (TAS)]. Estamos a trabalhar no recurso e não temos dúvida de que no mínimo há situações previstas na lei cível e na lei desportiva que tiram a validade ao contrato com a Doyen. Porque há questões de desproporcionalidade nos ganhos possíveis e porque não pode haver intromissão na gestão desportiva. A partir daí, o Sporting denunciou o contrato, pagou todo o valor que a Doyen tinha investido e foi defender os seus direitos. Quanto à não entrada na Liga dos Campeões, foi um revés, mas com este contrato [com a NOS], acho que resolvemos alguns problemas.

Há a ideia de que processa tudo.

Nós já cumprimos vários contratos hediondos. Mas não eram nulos ou anuláveis. Eram só péssimos negócios. Mas depois há casos mais falados. A Somague, por exemplo, veio fazer exigências de última hora, que contrariavam o próprio concurso; o que é que o Sporting podia fazer quando, depois, de aceitarem, vieram pedir coisas que não estavam previstas na adjudicação?

Qual a ordem de valores dos processos em tribunal?

Posso dizer-vos que quando entrámos no Sporting havia cerca de €21 milhões de assuntos que eram considerados na reestruturação financeira como contingências. Eram assuntos que estavam a decorrer, em tribunal ou ainda não, e que não seriam cobertos pela reestruturação. O Sporting teria de arranjar verbas pelos seus meios para os pagar. Dessas contingências de €21 milhões, até agora, sem custo nenhum para o Sporting, já foram resolvidos €19 milhões. Isto significa que o Sporting pela primeira vez está a dar lucro, está a pagar as suas dívidas aos bancos, está a amortizar capital em dívida e consegue ainda resolver €21 milhões de problemas herdados.

O Sporting e o Benfica eram a favor da centralização dos direitos televisivos. O que correu mal?

O Sporting era a favor da centralização, ponto. Fomos os primeiros a falar nisto. Mas, a partir do momento em que um dos clubes [Benfica] que faz parte da presidência da Liga e que assina um business plan em que estava escrita a centralização, depois avança para outro lado e fura o acordo... o Sporting tinha de ir para o mercado.

E como fica Pedro Proença, presidente da Liga, neste filme?


Quando um clube lhe puxa o tapete, depois de assinar um contrato, vai fazer o contrário e ele vem dar os parabéns, porque é um bom sinal para o futebol português... A partir daí, deixa de haver compromisso. Não podemos agradar a gregos e troianos. No futebol, não dá. Quando alguém quebra um compromisso tem de ser avisado. O Pedro errou e muito.

Diz que gosta de pensar a longo prazo. Estamos a chegar ao final de 2015. No início do ano pensava em contratar Jesus e ter este contrato com a NOS?

Tenho duas características: ambição e amor ao clube desmedidos. E se não tivesse essas duas características, não estava onde estou hoje. Se me perguntasse que tinha isto pensado exatamente assim, não, mas queria pôr o Sporting no lugar em que ele deve estar. No dia em que deixar de ser uma mais-valia, o sócio Bruno de Carvalho dará um pontapé no rabo do presidente Bruno de Carvalho. Quero um Sporting vencedor, campeão, com mais sócios ainda, e tudo farei para chegar aí. Quero fazer melhor, melhor, melhor...

€515 milhões é mais do dobro do passivo atual do Sporting. Este negócio permite repensar o projeto para o clube no médio prazo?

O Sporting precisava de ousadia e coragem. Costuma dizer-se que a sorte protege os audazes e que a sorte dá muito trabalho. Ora, como trabalhamos muito, temos sorte, e temos sorte porque somos audazes. Este contrato não muda nada. A nossa ambição mantém-se.

Relativamente às VMOC, este negócio pode acelerar a recompra?

O Sporting tem até 2026 para ter o dinheiro suficiente para manter a maioria da SAD. Sempre assumimos que essa é a vontade desta administração. Porque acreditamos que é importante manter essa posição.

Que operador tem em casa?

É a NOS. Já tinha antes. O Sporting respeita todos os seus parceiros, sejam atuais ou antigos e a PT foi parceira do Sporting durante muito tempo. Mas, para mim, desde o primeiro dia foi fácil escolher o operador em minha casa, porque a MEO tinha o canal do Benfica...

Curiosamente, a MEO tem agora o Cristiano Ronaldo, a pérola da formação do Sporting, como novo rosto.

É uma forma de limparem a imagem com que ficaram por terem sido os primeiros a ter o canal do Benfica... Estou a brincar, mas é verdade: foi por isso que escolhi a NOS. Podem dizer que sou um obcecado, mas não me apetecia ter esse canal.

“Não ganhar o título será grande desilusão”


Este contrato com a NOS também permite não ter de vender nenhum jogador?

Já tinha dito que não sairia ninguém do Sporting que o Sporting não quisesse. Isso era claro e evidente antes desse negócio.

Este dinheiro pode acelerar o projeto desportivo?

Em quê? Temos o melhor treinador, o plantel que é considerado como o mais valioso, o pavilhão está em crescimento, voltou uma modalidade histórica como o hóquei que ganhou logo uma taça europeia no regresso, volta agora o ciclismo para honrar a memória do Joaquim Agostinho... o que é que quer que se faça mais?

Será uma desilusão se não for campeão?

Tendo em conta a onda verde que se criou, a alegria que se vê nos olhos dos sportinguistas, a fé e a crença que se sente, estaria a ser hipócrita se não dissesse que seria uma grande desilusão.

O clássico Sporting-FC Porto é decisivo?

É um jogo muito importante, são duas excelentes equipas e estamos a falar de um jogo que pode mudar ou sedimentar posições no campeonato. Tem esses dois picantes, mas muitas vezes os campeonatos ganham-se ou perdem-se nos outros jogos. E é nisso que a equipa tem de estar focada.

Levou a mal que Jorge Jesus tenha falado do FC Porto na entrevista à TVI e dito que gostava de ser campeão nos três grandes?

Ele não disse propriamente isso, porque eu também vi a entrevista. Mas quando lhe perguntam 50 vezes se fecha a porta, se fecha a porta e se fecha a porta... bem, a mim bastava perguntarem uma vez e eu diria logo que fechava a porta a tudo o que não fosse o Sporting, porque o meu grau de gosto só tem o Sporting. Mas eu percebo, porque ele é um profissional e estamos a falar de um clube grande e nunca se sabe o futuro.

Como está o assunto Carrillo?

Já disse várias vezes que o Carrillo é um assunto delicado. Não é fácil. As coisas têm uma velocidade vertiginosa na vida e o que ontem era verdade hoje já é mentira. Ontem o Sporting precisava de muito dinheiro e hoje se calhar já não precisa. Temos de ter a sensatez de estar calados. As pessoas podem dizer que eu nunca estou calado e que agora venho falar na sensatez de estar calado. Mas uma coisa é falar e saber do que se está a falar e tirar consequências positivas do que se fala. Outra coisa é falar por falar e aí a coisa corre mal.

Está preparado para que o Carrillo fique sem jogar?


Estou a dizer que ele está num processo disciplinar. Sei que o comunicado que emitimos sobre o caso era maçudo, mas quem quiser ficar a saber tudo, é dedicar meia hora a lê-lo.

ACERCA DE...

CENTRALIZAÇÃO DOS DIREITOS

“Continuo a achar que era melhor negociar em bloco e espero que um dia o futebol português tenha a maturidade suficiente para distinguir a rivalidade entre clubes do negócio onde estão”

FOSSO ENTRE GRANDES E PEQUENOS

“A resposta mais simples é que estes novos contratos podem agudizar esse fosso. Mas a resposta mais honesta é que isto já está agudizado há muito tempo”

MUNDO DO FUTEBOL

“A cultura do nosso futebol não tem base de sustentação, é o amigo do amigo, que conhece este e aquele, que deve um favor que vai cobrar, e por aí fora. Não há valores, nem leis, nem princípios”

CANAL QUE EMITIRÁ O SPORTING

“É-nos indiferente se será na Sport TV ou noutro qualquer. Só queremos que seja num canal dignificante. E vai ser, com certeza absoluta”

LITÍGIO COM A GALP

“Estamos a falar de um negócio com uma garantia bancária dada por direções anteriores, de €5,25 milhões, e esperamos que fique resolvido entre janeiro e fevereiro sem consequências financeiras para o Sporting”

OS três contratos

Sporting

O valor global é de €515 milhões e resulta da combinação de dois acordos. O maior é com a NOS, de €446 milhões, e inclui os direitos de TV e de exploração publicitária nos jogos em Alvalade a partir da época 2018/19, a transmissão exclusiva da Sporting TV a partir de julho de 2017 e o patrocínio das camisolas já a partir de janeiro. Todos os contratos terminam em 2028. Além disso, o Sporting renegociou o contrato com a PPTV (de Joaquim Oliveira, que divide com a NOS a propriedade da Sport TV), válido até 2018, por €69 milhões

FC Porto

O valor do contrato com a PT é de €457,5 milhões e abrange os direitos de transmissão e de exploração comercial dos jogos do FC Porto por 10 épocas a partir de 2018, o direito de transmissão do Porto Canal no MEO por 12 anos a partir de 2016 e o patrocínio das camisolas por sete épocas e meia a partir de janeiro

Benfica

O acordo com a NOS foi fechado por €400 milhões, e envolve a cedência à operadora dos direitos de emissão dos jogos do Benfica na Luz durante 10 anos, a partir da época 2016/17, e os direitos de transmissão e distribuição da Benfica TV pelo mesmo período

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Estás satisfeito com o tamanho do teu contrato?


"O tamanho importa?" é uma discussão muito frequente sobre as mais diversas matérias e cedo se percebeu que, no que ao valor dos contratos televisivos dos três grandes diz respeito, ela seria recorrente. Agora que é já conhecido também o valor (515 milhões de euros) e o operador (NOS) há razões para perguntar: 

Estás satisfeito com o tamanho do teu contrato?


Numa leitura ainda que superficial parece-me que o Sporting trabalhou muito bem a comunicação do contrato, procurando que o bolo final fosse um valor significativo e que se equiparasse aos dos seus rivais. Será esse o valor a presidir à maior parte das discussões, há no entanto que perceber o que dá o Sporting em troca, e que é um negócio diferente dos seus congéneres em alguns aspectos:

- O Sporting vende por 446 milhões as transmissões e a publicidade do estádio por um período de 10 anos, os direitos da Sporting TV por 12, 5 anos e camisola para publicidade também por 12,5 anos e meio. Acrescenta ao negócio o valor de 69 milhões que são respeitantes à renegociação do contrato ainda em vigor, acrescidos da publicidade no estádio e até ao momento em que o novo contrato passa a vigorar (2018). 

- Por 457, 5 milhões o FCPorto vendeu as transmissões dos seus jogos por 10 anos, o Porto Canal por 12,5 anos e terá patrocinador nas camisolas por 7,5 anos. Isto é, por um valor superior aos nossos 446 milhões, vendeu menos por menos tempo.

- O SLBenfica tem um contrato diferente, uma vez que a sua extensão não está ainda definida (pode durar até 10 anos) o que obviamente interferirá no valor a receber. Acresce que a alienação dos direitos no canal comportam também a transmissão da Liga Inglesa e Italiana, cujo valor, sobretudo da primeira, é considerável.

Uma dúvida que pode assaltar quem lê o comunicado do Sporting poderá ser o porquê da negociação com a PPTV, já detentora dos direitos de transmissão. Isto é, porque paga mais pelos direitos de transmissão que já detinha até 2018? Porque certamente os 69 milhões referem-se à publicidade no estádio que não estava contemplado no contrato anterior e que agora foram incluídos no mesmo pacote.

Numa leitura fina destes números, e não a feita de forma depreciativa e muitas vezes parcial  do contrato do nosso novo patrocinador com o SLB, é muito provável que a conclusão se aproxime da ideia de que as operadoras se estão a aproveitar-se do estado de necessidade dos clubes, continuando estes, para resolver os problemas, a antecipar receitas, condicionando o futuro das gerações vindouras. Como se costuma dizer os casamentos mais duradouros são os que juntam os interesses dos nubentes e não tanto os que ocorrem por paixão.

Para sustentar o que é dito no parágrafo acima deixo à consideração o seguinte valor: pelos valores pagos no contrato anterior pela Olivedesportos (108 milhões/5 épocas dá o valor de 21,6 milhões/época) o Sporting conseguiria cerca de metade do valor do actual contrato e cedendo apenas o valor das transmissões televisivas: 259.200 €. Sobrariam 255,800 € que o Sporting cobraria por ceder as suas camisolas por 12,5 anos, a publicidade no estádio por 10 anos e ainda, embora menos significativo, o direitos da SportingTV. Talvez não seja assim tanto...

Quando a esmola é muito grande o pobre (neste caso os pobres, isto é, os clubes e em particular os seus adeptos) deve desconfiar. Ou, se preferirmos, deveriam interrogar-se se não lhe estão a oferecer um chouriço para ficar com o porco. Nunca saberemos se não se poderia ter ido mais longe se a negociação tivesse sido centralizada, como acontece nas ligas de referência.

Respondendo à pergunta acima, devo dizer que estes valores superaram as minhas expectativas pessoais e seguramente as de muita gente. É bom não esquecer a depreciação do valor da marca por força do trajecto dos últimos anos. Visto do actual ponto de observação, sem conseguir antecipar as  mudanças que entretanto poderão ocorrer, e face às circunstâncias, parece-me que os interesses do clube foram defendidos. Oxalá pudéssemos dizer sempre isto. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A miopia é a doença que fica do campeonato dos contratos televisivos

Depois do SLBenfica é agora o FCPorto a anunciar um novo contrato de concessão de direitos televisivos, desta feita com a MEO. Os números são igualmente elevados, na linha do que o contrato efectuado entre encarnados e a NOS. 

As comparações serão inevitáveis porque a rivalidade assim o impõe. Contudo, uma vez que os dois clubes não negociaram exactamente os mesmos "produtos" e não se encontravam na mesma posição (o FCPorto, tal como o Sporting, ainda tem um contrato antigo a vigorar por mais duas temporadas) torna o resultado do confronto de valores mais difícil de percepcionar.

Quanto ao Sporting, vai-se dizendo nos "mentideros" que há negociações em curso. Falta saber se estar neste momento em último traduz uma vantagem negocial ou um prejuízo. Qualquer das possibilidades é real. Mais importante do que as especulações sobre os números parece-me evidente que:
- Ao ficar para último no que aos três grandes diz respeito o clube fica pressionado a igualar os números dos seus rivais.

- Ao não ser o primeiro a fechar contrato o risco de fazer o contrato abaixo dos valores conseguidos pelos rivais saiu diminuído. Valerão agora os argumentos que conseguir colocar na mesa das negociações. 

- Os valores a conseguir funcionarão inevitavelmente como uma importante medida de aferição da posição do Sporting no mercado, assim como da capacidade negocial dos seus dirigentes.

- Há um risco de as condições em que os rivais negociaram se alterarem de forma parcial ou até substancial. A esta distância do final do contrato ainda em vigor, e com a volatilidade do meio e da própria economia, não se consegue estimar o que será de facto mais vantajoso. Só o tempo o poderá esclarecer. 
Dentro do âmbito do último item assinalado, parece-me que o FCPorto poderá estar a correr um risco maior ao negociar no imediato, sendo contudo certo que o novo contrato lhe permite aceder a uma receita importante, resolvendo também um problema que se arrastava: a falta de uma receita importante que é a publicidade nas camisolas. O que se diz aqui sobre o FCPorto aplica-se igualmente a nós, uma vez que nos encontramos numa situação semelhante.

Fica por saber que consequências trazem estes contratos para o futebol português. É fácil de perceber no imediato que se acentuará o fosso já existente entre os três grandes e os demais. Embora aqueles se possam dar por satisfeitos e continuar de vistas curtas apenas a olhar para os respectivos umbigos, é claro que esta macrocefalia é, a prazo, tendente a reduzir a competitividade do nosso campeonato.  

Com menos meios, só por cinismo se poderá exigir aos demais clubes que nos confrontos com os grandes procurem jogar o jogo pelo jogo, sendo mais do que expectável e provavelmente compreensível que apenas se preocupem em ter autocarros mais sólidos. Falta saber se um campeonato de reduzida competitividade pode oferecer aos três grandes a possibilidade de crescer e evoluir. 

Parece-me haver aqui alguma miopia por parte dos dirigentes dos clubes e um rotundo e sonoro falhanço do papel da Liga de Clubes que põe em causa a sua própria utilidade.

E nós, os adeptos, eternos pagantes, que temos a ganhar com aquela que parece ser uma consequência inevitável da dispersão de jogos por diversos operadores? Muito pouco, ou até mesmo um grande nada que, ao fim e ao cabo, pode representar ter que pagar ainda mais para ver ainda menos. Isto porque é muito provável que a concorrência traga a sobreposição de jogos à mesma hora, como já se viu este ano com aparecimento das transmissões directas da BTv.

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