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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Quem é Silas, o novo treinador do Sporting?


Há quase dois anos, estava Silas prestes a iniciar a sua carreira de treinador, o Expresso entrevistou aquele que dizem será o novo treinador do Sporting. Um documento importante para se perceber quem é Jorge Manuel Rebelo Fernandes, especialmente por ter sido dada à estampa quase sem filtros, ainda antes de se ter tornado num treinador e se lançar na ribalta.

Gosta de ser comentador ou é mais difícil do que esperava?
Gosto, é algo que já tinha feito algumas vezes e gosto de falar sobre futebol, sobretudo o que acontece dentro das quatro linhas. Não acho que seja difícil, mais difícil é jogar e treinar.

Faz mais alguma coisa atualmente?
Estou a preparar-me para o futuro que passa por ser treinador. Tive uma experiência recente, como treinador do Sindicato, mas foram só dois meses, até fechar o mercado de trabalho para os jogadores.

Foi a primeira experiência como treinador?
Mais ou menos. Em futebol de 11 sim, mas aos 20 anos eu também jogava futsal, tinha sido campeão nacional de juniores, subo a sénior e alguns dos meus colegas passaram a ser meus jogadores no ano a seguir. Essa foi a primeira experiência e correu bem porque ganhamos uma Taça de Portugal. Depois, quando estava no Belenenses, já com 31 anos, os mesmos jogadores quiseram voltar a jogar futebol de salão e fizemos uma subida de divisão, entretanto fui para Leiria e não consegui continuar com eles.

É muito diferente treinar futebol de 11 e futsal.
E também é muito diferente treinar no sindicato ou num clube, porque no estágio do Sindicato todos vão jogar (e eu procurei sempre dar os mesmo minutos a todos) e num clube nem todos jogam. Ou seja no Sindicato olham para mim de uma maneira diferente, porque nenhum deles sente o lugar em risco; sentem que estou para ajudar todos.

Tem todos os níveis do curso de treinador?
Não, tenho dois de quatro. Queria inscrever-me já no terceiro, mas um dos requisitos é ter estado a treinar no mínimo no campeonato nacional de seniores, durante dois anos. Parece-me estranho.

Porquê?
Porque estive inserido em contextos profissionais durante 22 temporadas. Tenho 13 temporadas de I Liga, parece-me estranho que não me deixem inscrever porque não tenho dois anos de treinador profissional. Não faz sentido até porque vejo muita gente a ter acesso ao 1º nível e que não teve nenhuma experiência como jogador, mesmo de formação. Da mesma maneira que acho que o facto de ser profissional de futebol não me dá garantias de que possa vir a ser um grande treinador, também acho que para se treinar miúdos de oito ou dez anos devia haver alguma experiência de campo, enquanto jogador, mesmo que sejam só cinco anos a jogar nas camadas jovens. Para mim é inconcebível, como já vi, haver treinadores e treinadoras de futebol que jogam voleibol e que nunca tenha jogado futebol federado. Faz-me muito mais confusão gente que nunca jogou poder ter acesso ao nível 1 e eu que tenho 22 anos de futebol profissional não posso ter acesso ao nível 3.

O que vai fazer então?
Em breve começarei a treinar, já tive várias abordagens.




Colocou um ponto final na carreira de jogador em maio. Foi muito difícil dar esse passo?
Foi menos difícil do que esperava. Primeiro porque já acabei quase a fazer 41 anos, quando quis, não fui empurrado, nem foi nenhuma lesão que precipitou a decisão. Mas algumas coisas já me tinham tirado a motivação.
Que coisas?
Ideias diferentes de treinadores… Fazer coisas nas quais eu não acredito, criou em mim um conflito interno porque sentia a obrigação de respeitar o treinador, enquanto treinador, porque sempre fiz isso, mas ao mesmo tempo não acreditava no que estava a fazer. Não me sentia confortável. A partir do momento em que ia para o treino já com alguma resistência, só para cumprir o compromisso que tinha para com o clube, achei que não fazia sentido continuar.

Quando é que começou a sentir isso?
Lá para o final da época. De qualquer das maneiras eu sabia que mais cedo ou mais tarde ia acontecer. Sabia que a partir de uma certa idade nem sempre ia encontrar gente com quem me identificava, e quando digo isto, digo também no trato humano, nas decisões que são tomadas, se são honestas ou desonestas.

Está a dizer que o meio futebolístico piorou com os anos?
Sim. Há muita gente a investir no futebol, que não tem muito conhecimento futebolístico, mas que pelo facto de meter dinheiro acha que lhe dá o direito de opinar e de se intrometer. Também acho que alguns treinadores, quando dependem só do futebol, tendem a ter decisões que não são justas. Ao lidar com gente assim, não me sinto confortável, é a minha natureza, sou muito claro, não sou pessoa de andar a fazer fretes. Juntando isto ao facto de me apetecer treinar e passar os conhecimentos que tenho a outra gente, a decisão não foi tão difícil como eu pensava. Joguei 31 anos, aos dez comecei a jogar federado. Por outro lado, tenho dois filhos que já começaram a jogar futebol e que vou acompanhando mais. Já me vinha a preparar há alguns anos para deixar de jogar. Se fosse há quatro cinco anos, com 36 ou 37 anos, ainda não estava preparado porque sentia que tinha muita coisa para dar ainda. Também tinha consciência de que no dia em que o meu rendimento baixasse a primeira coisa que as pessoas diziam é que eu estava velho, nunca me permiti isso.

Nasceu em Lisboa. O que faziam os seus pais?
A minha mãe era doméstica e o meu pai relojoeiro. Mas eu cresci com os meus avós.

Porquê?
Porque a minha mãe separou-se do meu pai biológico ainda antes de eu nascer. Quando digo que o meu pai era relojoeiro refiro-me ao meu padrasto, com quem a minha mãe se juntou já eu tinha seis anos. Eu vivia com a minha avó e a minha mãe e quando a minha mãe se junta com o meu padrasto eu estava já muito apegado à minha avó. Vivi com a minha avó até aos 21 anos. Mas apesar de viver na casa da minha avó, a minha mãe estava muito presente.

Conheceu o seu pai biológico?
Não tive relação nenhuma com ele. Nunca conheci. Vi-o, mas nunca falei com ele.

Ele sabe da sua existência?
Sabia, já faleceu. Tenho conhecimento de que já faleceu. Mas realmente nunca tive relação com ele. Quando ele quis ter algum contacto comigo eu tinha 11 anos e com essa idade já tinha uma opinião forte sobre aquilo que queria. Felizmente posso dizer que tive dois pais e duas mães porque tive o meu avô e a minha avó, tive a minha mãe e o meu padrasto que é mais do que o meu pai. Eu vivia com a minha avó mas a minha mãe estava todos os dias comigo e eu ia aos fins de semana para casa dela.

A sua avó ainda é viva?
É. Tem 81 anos. Chama-se Helena. O meu avô já tinha 90 quando faleceu há um ano e meio.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã da minha mãe e padrasto, 16 anos mais nova, e acho que tenho mais dois irmãos do lado do meu pai biológico. Mas não os conheço, não sei quem são. Na realidade, não os sinto como irmãos. Depois tenho tios, cinco filhos da minha avó, que no fundo foram os meus irmãos porque cresci com eles.

São mais velhos do que o Silas.
Sim, temos diferenças de 15, 10 anos, acho que a minha tia mais nova tem mais quatro anos que eu.

Onde é que viviam?
Em Campolide. No bairro social Bela Flor.

Tem alguma ascendência africana?
Sei que tenho uma avó caboverdiana, da parte do pai biológico, que parece que já faleceu há muitos anos. Acho que o meu pai já era uma mistura caboverdiana/português. E se ele era mistura, eu ainda mais mistura sou (risos).

Não tem contacto com a família do lado do seu pai?
Não. E, para dizer a verdade, não tenho curiosidade. Para mim, no fundo, só tenho uma irmã que se chama Mariana, e tenho os meus tios que são como irmãos.

Foi na rua que começou o futebol?
Foi, claro. Na altura não havia internet, playstations; havia uma bola, havia outros brinquedos que adoro, como carros de esferas, skates, bicicletas sem travões, berlindes, pião, e havia a rua onde podíamos andar à vontade. Cresci na rua, a brincar de manhã à noite. De verão, então, que não havia escola, era o dia todo a brincar. Podia haver a fase do pião ou do berlinde, mas futebol havia todos os dias, mesmo com chuva. A minha primeira imagem de uma bola foi com três/quatro anos. Lembro-me bem porque era uma bola de cautchu, que eram raras, porque era raro termos bolas boas.

Ainda a tem?
Não. Nós jogávamos contra um taipal de madeira e houve alguém que chutou a bola e a bola bateu num prego que a furou. Era a minha primeira bola, aquilo para mim foi um choque. Nunca mais me esqueci.

Jogavam em algum campo?
O campo era a minha rua, que era a descer. Um dos pais de um dos miúdos, um grande amigo meu, era construtor e nós fazíamos as bancadas, as balizas, bancos de suplentes, tudo em madeira. Fazíamos as redes com sacas de batatas. Uma equipa jogava metade do jogo a descer e depois trocávamos.

Quando é que vai para um clube?
Aos 10 anos, para o Domingos Sávio. Um dos meus amigos jogava lá, num escalão acima. Começaram a dizer para irmos lá experimentar. E fomos. Tinha nove anos. O clube ainda existe. Saíram de lá muito bons jogadores, o Dominguez, o Zé Carlos, que jogou no Benfica, o Quaresma também jogou lá, o Figueiredo. Só joguei lá um ano mas foi a minha primeira experiência.

Quem era o treinador?
Era o Sr. António Silva, que ainda é vivo. Acho que toda a gente que passou por lá foi treinada por ele. Para além de treinador era o coordenador. Dava aulas também nos Salesianos. Tinha uma autodisciplina importante que nos passava também. Lembro-me que se jogasse ao sábado à tarde, de manhã tinha de ir marcar o campo com cal. Nós, jogadores, é que íamos marcar o campo e eram normalmente os mais novos. Todos nós marcamos o campo.

Esteve lá só uma época porquê?
Entretanto fui ao Sporting à experiência. Lembro-me que eram para aí uns 300 miúdos à experiência. Todos na porta 10A, à espera que nos chamassem. Era muito difícil ficar. Acabei por ter a sorte de ficar.

O Sporting é o seu clube de coração?
Na altura era. Entretanto com a nossa vida profissional vamos perdendo isso, vamos tendo uma visão diferente. Mas na altura só via Sporting. A minha família era toda Sporting, o meu padrasto também e eu ia ao futebol com ele.

Lembra-se quando foi ver o primeiro jogo de futebol ao estádio?
Acho que foi em 1982. A frente de ataque era o Oliveira, Manuel Fernandes e Jordão. Lembro-me muito bem deles, primeiro porque eles eram muito bons, qualquer um dos três. Não me lembro do resultado do jogo.

Os seus pais sempre apoiaram a sua vontade de jogar futebol?
Sim. Não me lembro do meu padrasto falhar um treino meu. Já no Sporting eu ia sozinho e ele ia lá ter depois de sair do trabalho, que era na baixa, e depois seguíamos os dois para casa.

Voltando ao Sporting, na altura jogava em que posição?
Era médio, médio esquerdo. No primeiro ano no Domingos Sávio era extremo esquerdo. Entretanto no Sporting adaptaram-me a meio esquerdo e a partir daí passei sempre a ser médio e de vez em quando jogava a extremo. Sempre gostei mais de jogar a médio.

Quem foi o primeiro treinador no Sporting?
César Nascimento e o adjunto era o Osvaldo Silva, que na época seguinte passou a principal e o Mariano Barreto era o preparador físico.

Nessa altura já tinha a alcunha de Silas?
Já, ganhei-a no Sporting. Jogava lá um brasileiro chamado Silas, que era muito bom jogador, e nós éramos parecidos a nível de cabelo, cor da pele, maneira de jogar, e naquelas brincadeiras de rua nós escolhíamos “ser” um jogador e eu como jogava no Sporting escolhia sempre o Silas e, pronto, foi ficando.

Não teve mais nenhuma alcunha?
Houve uma altura, na rua, em que os meus amigos chamavam-me black, por ser o único que tinha o tom de pele mais escuro, porque eram todos brancos, a minha família também era branca e eu é que nasci com este tom mais moreno (risos). Mas o Silas é que foi passando e ficando.

É no Atlético que entra na fase de começar a sair à noite...
À noite e à matiné, à tarde, no Alcântara Terra (risos). Íamos muito para Alcântara porque estava ali ao lado do clube e tínhamos o Alcântara Terra, Alcântara Mar, o Bananas... Eu por acaso não era muito de sair. No juvenis, juniores comecei a sair um pouco mais, para o Alcântara Terra porque passava muito rock e eu adorava rock.

De onde vem esse gosto?
Com quatro anos já ouvia Doors, AC/DC, Iron Maiden, porque tinha um tio que tinha imensos LP's e influenciou-me. Lembro-me de ele sair de casa com os discos debaixo do braço para ir meter música em matinés. Antigamente havia muitas Sociedade, e eu cresci ao pé de uma, o Santana, que ainda existe, na Bela Flor. O meu tio ia lá meter música. Ele recebia à semana e todos os fins de semana trazia discos para casa. Ainda hoje ouço muito rock.

Nunca chegou tarde a um treino?
Não. Aliás eu não saia se tivesse jogo no dia seguinte. Como já disse cresci num bairro social difícil, tive oportunidade de fazer tudo o que possa imaginar. Desde cocaína, heroína, haxixe, tinha isso à minha frente diariamente. Entrava em casa de amigos meus que traficavam. Mas nunca tive a tentação de pegar em nada. Costumo dizer que eu tinha tudo para ser bandido menos cabeça. Esta é a realidade. Nem num cigarro peguei. Tive amigos de infância que enveredaram por caminhos da droga e infelizmente alguns já não estão cá.

Era gozado por não querer experimentar?
Não, sempre fui muito respeitado. Sempre tive uma personalidade muito forte. Sou pouco influenciável. Sempre fui. Mas o futebol também ajudou, sempre foi um escape claramente.

A sua avó era muito rígida?
Não, ela dava-me muita liberdade. Mas ao mesmo tempo sentia que eu era muito responsável. A única coisa pela qual ela ralhava comigo era por causa da escola.

Era mau aluno?
Eu queria era jogar à bola. Não é que tenha sido mau aluno, porque fiz o 12º ano. Mas também foi a partir de uma certa altura que tive um clique e pensei "espera aí que o futebol pode não dar e tu tens que...". A partir dessa altura comecei a levar a escola mais a sério.

Isso foi quando?
Com 14/15 anos. Até lá fui sempre “qb”, fui passando, perdi um ou dois anos por faltas porque queria jogar. Mas depois desse clique, comecei a criar boas amizades na escola e no fundo comecei a gostar de ir para escola porque queria estar com os meus amigos.

Quando é que começa a ganhar dinheiro?
O meu primeiro salário no Atlético foram 12 contos (60 euros). Estava ainda nos juniores.

Lembra-se do que fez com esse primeiro dinheiro?
Eu juntava muito dinheiro para comprar roupa, porque desde miúdo que adoro roupa. O meu padrasto dava-me uma semanada, a minha avó dava-me todos os dias uma moeda de 100 escudos (0.50€), às vezes gastava outras guardava. Entretanto, esse dinheiro guardava para comprar calças Levis que se usavam muito, Chevignon, essas marcas. E música. Já há alguns anos que não compro por causa dos downloads da internet, mas tenho mais de 800 cd's e são quase todos de rock.

Quem são as bandas preferidas?
Tenho várias. AC/DC, que comecei a ouvir com quatro anos, é uma das minhas bandas favoritas. Os U2, o Eddie Vedder dos Pearl Jam é incontornável porque é uma voz incrível, é das melhores. Estes três foram talvez os que mais me marcaram.

Enquanto esteve no Atlético também jogou Futsal?
Sim. Fui mantendo o futebol e o futsal até aos 21 anos, até ir para Espanha. Jogava futebol de salão no Santana, antes tinha jogado também num clube de bairro que era o Cascalheira. Fui campeão nacional pelo Santana. Isto foi nos juniores. Sábado jogava futebol de 11 pelos juniores do Atlético e no domingo ia jogar futebol salão com os meus amigos. Mas o Atlético não sabia (risos).

Não sabia?
Não. Eu acabava os treinos no Atlético e ia a correr para ir treinar pelo Santana, treinávamos à noite. Era uma coisa incrível. O meu filho mais velho já joga, mas as horas de treino semanais que ele faz fazia eu num dia. Se calhar até fazia mais. Eu treinava uma hora e meia no Atlético, ia para o Santana e treinava outro tanto, fora aquelas horas que jogava na escola. Era só futebol.

Quando é que começa a namorar?
Aos 18 anos. De vez em quando ainda falo com essa minha primeira namorada. Mas até aos 18 anos eu não queria saber de namoradas, a minha paixão era mesmo só futebol.

Como é que vai parar a Espanha depois do Atlético?
Nos últimos anos do Atlético, como sénior, já tinha empresário.

Como é que surge o empresário?
Eu jogava com o Bruno Jesus, que hoje em dia também trabalha como empresário, e ele tinha um empresário, o Jorge Gama, que andava sempre a ver jogadores com potencial. O Bruno deve ter falado de mim e o Jorge Gama contratou-me. Eu e o meu padrasto reunimos com ele, gostei muito do Jorge e acabámos por assinar contrato. Trabalhei com ele a minha vida toda. Ele primeiro arranjou-me a possibilidade de ir treinar ao Campomaiorense, cujo treinador era o João Alves, que disse que eu não estava preparado para jogar na I Liga.

E estava?
Acho que nessa altura já estava preparado para fazer parte de um plantel. Não fiquei. Vou ao Salgueiros e acontece a mesma coisa. O treinador era o Dito. Continuei no Atlético, na II divisão, mas entretanto o Jorge começa a fazer vídeos de jogos meus e começa a divulgar. Em Espanha há interesse de um clube, o AD Ceuta, que também era da II divisão B, mas já com um nível profissional diferente e pagaram-me um bom dinheiro.

Quanto?
Na altura (1998) pagaram 12 mil contos ao Atlético, que obviamente deixou-me ir. Eu ganhava no Atlético 100 contos (500 euros) e em Espanha fui ganhar à volta de 600 contos (3000 euros). Lembro-me que, por volta dos 15/16 anos, a minha avó começou a pressionar a minha mãe para me pôr a trabalhar porque achava que o futebol não dava nada e que eu tinha de ajudar em casa. Mas a minha mãe e o meu pai não cederam. Eles davam uma ajuda financeira à minha avó. Eu estudava, mas os filhos da minha avó começaram a trabalhar muito cedo, todos eles. Mais tarde a minha avó percebeu que estava errada, quando comecei a poder ajudá-la. Ainda hoje a ajudo.

Quando soube que ia ganhar esse dinheiro todo ligo-lhe logo?
Não, não lhe disse nada até ao dia de saída para Espanha. Porque ia tornar-se mais difícil para ela e para mim. Disse-lhe só no dia em que ia sair de Portugal. Chorou muito. Eu também.

Foi difícil ir para Espanha sozinho.
Foi. Eu deixava família, amigos da escola, o Atlético onde tinha estado nove anos, deixava a namorada. Mas também tenho uma capacidade de adaptação muito grande.Lembro-me que fui embora a chorar mas quando tive de deixar Ceuta, um ano depois, também vim embora a chorar. Era muito miúdo, muito dado às pessoas.

Viveu sozinho ou partilhou apartamento com outros jogadores?
Quando saímos de Lisboa para Espanha, tínhamos de ir ver um jogo do Ceuta perto de Marbella e não sei porquê o Jorge Gama foi pelo caminho mais longo. Quando chegámos, ficámos hospedados no São Pedro de Alcântara, um hotel cinco estrelas. Eu nunca tinha estado num sítio assim, eu vivia num bairro social, já não era barraca, mas também vivi em barraca até aos quatro anos. Depois é que fomos para uma casa pré-fabricada...Tenho uma historia gira até...

Conte.
A primeira vez que vi um chuveiro pensava que era um telefone (risos). A sério. Quando vivia na barraca eu ia tomar banho ao chafariz, ou às vezes a minha avó aquecia umas panelas com água. Não tínhamos televisão também... E quando cheguei àquela casa, fui à casa de banho sozinho, e quando olho para o chuveiro pensei que era um telefone, pego naquilo ponho junto ao ouvido e abro a torneira (risos). Enchi o ouvido de água (risos). Nunca mais me esqueci, tinha quatro anos. Percebi logo para o que é que aquilo servia.

Voltando a Espanha...
Ficámos no hotel e foi lá ter um empresário que se chamava Rodriguez. Fomos ver o jogo do Ceuta e entretanto o Jorge Gama tinha que ir à Corunha porque estava a fechar o negócio do Pauleta que ia do Salamanca para a Corunha. Eu fiquei com esse tal Rodriguez, que me levou até Algeciras. Depois apanhei o barco para Ceuta e quando lá chego estavam pessoas à minha espera que me deixaram num hotel. Só que era um hotel muito mau. Eu tinha vindo de um hotel cinco estrelas. Aquele nem televisão tinha. Era mesmo no porto, com aquele ambiente de porto, estranho, com muitos muçulmanos por ali. Fui treinar no dia seguinte. Quando chego ao balneário, eles olham para mim de lado.

Porquê?
Ao início não percebi. Mas na altura havia algum racismo e como eu tinha um tom de pele mais escuro... Quando entro no balneário com o roupeiro ele pergunta a um jogador se eu podia sentar-me ao lado e ele diz que não, que estava ocupado, o que era mentira. E eu acabei por pendurar as minhas coisas onde pude e sentei-me no chão. Mas isto só durou até eu começar a treinar. Assim que me viram jogar, vieram logo ter comigo e perguntaram-me de onde eu era. A partir daí ficou tudo bem.

Ficou a viver no hotel?
Não. Comecei a pensar: “então eu deixei a minha casa, a minha avó, a minha comida caseira e venho para isto?” Ligo ao Jorge Gama e digo que quero ir embora. Ele ficou um bocado assustado, ligou para o presidente e passado um bocado aparece o presidente. Foi buscar-me, meteu-me num hotel cinco estrelas, deu-me 500 contos na mão e deu-me um carro (risos). Eu nunca tinha visto 500 contos na minha vida. Estive num bungalow durante três meses, ele é que me pagava tudo. Depois, tive o meu apartamento e aconteceu um episódio surrealista.

Explique.
No dia em que a senhora da imobiliária me dá a chave fui ao apartamento ver se era preciso comprar alguma coisa. Entretanto liga-me um amigo, e sento-me no sofá a falar ao telefone com ele e a sintonizar os canais na televisão. Entretanto começo a ouvir um barulho [Silas emite estes sons ssss, shshshhs, ssss]. Depois para. Passado um pouco outra vez [ssss, shshshhs, ssss]. Levantei-me, comecei a olhar, à procura, porque havia ali alguma coisa, espreito atrás do sofá, desvio-o um pouco, e estava lá uma piton!

Uma cobra piton?!
Sim (risos). Desliguei a chamada, começei a andar para trás devagarinho e fui bater na porta ao lado onde estavam a decorrer obras. Peço aos homens para irem ver e eles é que a identificaram logo. Pelos vistos foi alguém que sabia que a casa estava fechada e tinha a chave (nem sei se não era o dono), provavelmente fazia tráfico de animais e pôs ali a cobra. Liguei à senhora da imobiliária, expliquei-he a situação, ela nem queria acreditar. Passei ao senhor das obras e ele confirmou. Ela veio, trouxe um senhor de um loja de animais e ele disse que a cobra até estava habituada a pessoas. "Mas eu é que não estou habituado a cobras", respondi-lhe (risos). Apanhei um grande susto, a cobra ainda tinha metro e meio. E depois aconteceu-me outro episódio, também em Ceuta, que não foi nada engraçado.

Conte.
Vinha pela rua a andar com um colega, ao lado havia um prédio em obras e não sei como caiu-me em cima da cabeça uma espécie de parapeito em cimento. A minha sorte é que caiu na horizontal e partiu-se (devia estar meio podre calculo eu), se tivesse caído na vertical, não sei... Ainda levei onze pontos na cabeça (risos).

Ficou a viver naquela casa onde estava a piton?
Não, entretanto havia um guarda redes que também queria casa e fomos viver juntos. Ainda hoje falo com ele, é treinador de guarda-redes do Cádiz.




Na epoca a seguir vai para o Elche.
O Elche tinha subido à II Liga queria reforçar-se e pagou 100 mil euros pelo meu empréstimo.
Saiu de Ceuta, em Marrocos e foi viver para Alicante.
Sim. Era um clube mais organizado, só estive no hotel dois dias e comecei logo a ver apartamentos para viver. Aí vivi sozinho. Era uma cidade maior e o grupo era mais disperso. Ceuta era diferente porque é um sítio muito pequeno para onde vai muita gente solteira e passávamos mais tempo juntos. Em Alicante cada um estava na sua vida, com as suas famílias. Mas eu fui arranjando lá amigos.

Estava lá algum português?
Estava lá o Tinaia, que jogou no Real Madrid, tinha jogado no FC Porto. Mas ele não estava a jogar e deixou de aparecer. Eu também já estava muito adaptado. Naquela altura viver em Espanha ou em Portugal era muito similar.

Acaba o empréstimo e volta a Ceuta.
Sim, tinha mais um ano de contrato. Entretanto voltei a viver com o mesmo colega.

E vem depois para a U.Leiria estrear-se na I Liga.
Sim. Tinha feito uma época extraordinária, a jogar como Nº10 fiz 18 golos. Tínhamos eliminado o Málaga, que era da I Liga Espanhola por 3-2 e eu fiz dois dos golos. Entretanto, o José Mourinho, que tinha estado no Barcelona já me conhecia, até pelo trabalho de scouting que eles fazem muito bem. O Ceuta queria renovar mas eu já tinha chegado a acordo com a U. Leiria. Pelo meio ainda há um episódio caricato.

Que foi?
Depois de assinar, o presidente João Bartolomeu liga-me e pergunta-me naquele jeito dele: "Ouça lá Silas, você acha que estou a fazer um bom negócio consigo?". E eu respondi-lhe "Não sei, você é que sabe". Uma semana depois o Jorquera, guarda redes do Ceuta que depois jogou muitos anos ainda na primeira equipa do Barcelona, diz-me que o treinador do Barcelona B queria que eu fosse para lá.

Não foi porquê?
Na altura ia ganhar oito mil euros para o Leiria (acho que era dos jogadores mais mal pagos) e o Barcelona B dava-me 24 mil. O presidente do Barcelona B liga-me (estavam mesmo interessados) eu pego rapidamente no telefone, ligo ao Jorge Gama e conto-lhe o telefonema do Bartolomeu. Peço-lhe para ele ligar ao Bartolomeu e dizer que nós podemos desfazer o negócio uma vez que ele não tinha certeza de que fez um bom negócio.

Ele não desfez o acordo.
Não sei se lhe cheirou alguma coisa (risos), mas disse "não, não que eu já prometi ao Mourinho que ele vinha e agora não quero estar a dizer que o jogador não vem". E pronto, gorou-se a possibilidade de eu ir para o Barcelona B ganhar três vezes mais.

Como é que foi a experiência com o Mourinho?
Foi muito boa. O playoff da Liga, em Espanha, acabou muito tarde e o Mourinho disse-me para tirar 20 dias de férias, para vir depois da pré- época porque queria que eu viesse descansado. Cheguei a uma semana de começar a temporada. Começo a treinar com eles e há um jogador o Duah, um ganês, que era extremo e que se lesiona. O Mourinho pergunta-me se posso jogar a extremo esquerdo contra o SC Braga e eu como queria jogar disse logo que sim. Empatamos e a partir daí nunca mais saí da equipa. O Mourinho tinha 38 anos nessa altura, ou seja, era mais novo do que eu sou agora, e tinha uma relação connosco muito próxima. Às vezes íamos almoçar, tomar café...lembro-me que uma vez fomos jogar a Faro, ganhamos, eu estava castigado, e ele liga-me depois do jogo e diz: "Vai ter connosco agora a Leiria porque vamos sair todos juntos". Tinha uma relação muito próxima, tínhamos muitos almoços de equipa. O grupo era fantástico.

Para si o que é que ele tem que o torna tão especial?
Além de todo o conhecimento futebolístico que tem, e que é imenso, tem esta capacidade de seduzir o jogador, da relação humana, que nos fazia naturalmente dar a vida por ele. Ele tem uma característica, gosta muito de jogadores com potencial, que ele veja que podem chegar ao topo mas que ainda não estejam lá. A maior parte das contratações do Mourinho são muito baseadas nisto. Jogadores com muito talento mas que ainda não tenham chegado ao topo, que tenham a ambição de chegar o mais alto possível, que é para crescerem com ele e ser ele a metê-los lá.

Ele só esteve quatro meses em Leiria. Quem se seguiu?
Veio o Mário Reis que esteve pouco tempo. Tínhamos um nível muito alto com Mourinho, a nossa exigência como grupo também estava muito alta, e o mister Mário Reis teve azar nesse sentido. Era muito boa pessoa, mas o grupo nesse momento precisava de outra coisa. Sai e o Vítor Pontes, que era o guarda redes, assumiu interinamente o comando até final da temporada. No ano a seguir veio o mister Cajuda.

Uma figura muito carismática do futebol nacional...
Ele é muito inteligente, muito perspicaz, escolhe muito bem jogadores e trabalha muito a parte psicológica. Acho que foi a melhor época de sempre da U. Leiria. Foi um 5ª lugar com acesso à Europa, com uma final da Taça. É um treinador que todos os dias falava connosco. Mas falava durante uma hora ou mais. Confesso que chegou a uma altura em que já estávamos fartos de tanta conversa. Mas conseguiu tirar o melhor de todos nós. E tem uma característica, quando as coisas estão a correr bem ele não intervém muito, deixa andar. Ele convive muito bem com o caos, quando as coisas estão más é quando ele intervém e intervém bem, sabe quando e como tem de intervir, quando as coisas estão bem, deixa andar.




Depois dessa época sai ele e sai o Silas para Inglaterra. Porquê?
Eu vou para Inglaterra porque tive uma oferta financeira muito boa, para mim e para o clube.
É por esta altura de Leiria que se estreia na seleção A.
Sou chamado num torneio da seleção B, no Vale do Tejo. Sou o melhor jogador do torneio. Nunca tinha representado Portugal nem nas camadas jovens. O Scolari estava a assistir ao torneio e chama-me. Também é verdade que estava a fazer uma temporada muito boa na União de Leiria. Mas penso que foi esse torneio que me colocou na seleção A.

Como foi o contacto com o Scolari?
Muito bom. O Scolari a nível humano também tem um contacto com o jogador muito forte. Dá primazia a essa parte da relação humana.

Só fez jogos amigáveis pela seleção.
Sim. Entretanto vou para Inglaterra, há uma proposta de dois milhões de euros para a U. Leiria e uma proposta muito boa para mim também. Até aí nunca tinha ganho dinheiro a sério. Em Espanha o meu salário mais alto tinha sido de seis mil euros. Dinheiro a sério foi em Inglaterra.

Nessa altura ainda estava solteiro?
Tinha uma namorada espanhola que já vivia comigo em Leiria e que vai também para Inglaterra.

Como foi o embate com a Liga inglesa?
Foi mau no sentido em que não tive a lucidez suficiente, porque na altura tive outras opções, inclusive de equipas importantes cá. Os três grandes andavam a sondar-me e um deles já me tinha feito uma proposta. Só que nessa proposta eu tinha que esperar que acabasse o contrato com a U. Leiria. E eu tinha mais um ano de contrato. A proposta financeira do clube inglês era quase o dobro da que eu tinha de Portugal. Mas na altura devia ter tido a lucidez de analisar o tipo de jogo da equipa inglesa. Não o fiz porque toda a gente falava de Inglaterra, na altura o Hugo Viana foi para o Newcastle, o Hélder Postiga vai para o Tottenham e o Cristiano Ronaldo para o United. Ou seja, vamos os quatro para Inglaterra, falava-se muito de Inglaterra, era a melhor liga do mundo... Isto também mexe comigo.

Não pensou que o futebol fosse tão diferente?
Não. Era mesmo muito diferente do que estava habituado. Era um futebol muito direto, era chutão na frente, correr para a frente, um futebol pouco elaborado. As minhas características não se adaptavam bem àquilo. Se fosse mais tarde...Alguns anos mais tarde já tinha ferramentas para conseguir lidar com aquilo, mas naquela altura não tinha. Confesso que não. Começou-me a criar um conflito interno difícil de ultrapassar. Em janeiro falei com o treinador para sair.

Quem era o treinador?
Um galês, Dave Jones. Ele poderia ter feito muito mais e melhor com os jogadores que tinha. Podíamos ter jogado um futebol muito melhor e que se adequasse mais às características dos jogadores que foi buscar.

Pediu para sair e...
Em janeiro pedi para sair porque continuava a ser pré-convocado para a seleção, mas estava a perceber que se não jogasse, com o lote de jogadores que nós tínhamos, que eram muitos bons, facilmente deixava de ser chamado.O treinador disse para não sair porque ia começar a jogar mais. Mas não. Fiz só 14 jogos.

É emprestado ao Marítimo na época seguinte.
Nós descemos de divisão, eles queriam que eu ficasse na II Liga mas eu não quis porque se o futebol na I Liga era aquilo, na II então... Quando não jogava na primeira equipa eu ia jogar nas reservas, à terça-feira. Fui o melhor marcador das reservas. Uma vez jogamos contra o Newcastle do Bobby Robson e ele veio falar comigo porque ficou muito bem impressionado. Mas depois na primeira equipa não tinha essa continuidade. Eu justificava a chamada, mas não me punha a jogar na equipa A.

Não faz o Euro 2004.
Não. Praticamente não joguei durante um ano e havia também um lote de jogadores muito bons. Se eu tivesse jogado de forma a estar noutro nível, e pelo menos podia lutar com as mesmas armas...

Segue-se o Marítimo. Porquê a Madeira?
Cajuda. Já tinha trabalhado com ele. Arranjei maneira de ser emprestado porque não queria jogar na II Liga inglesa. Deixaram-me ir mas na condição de que se subissem outra vez, voltava.

Como correu a experiencia no Maritimo?
Logo no primeiro jogo, com o Belenenses, lesionei-me e o Cajuda é despedido nesse primeiro jogo. Veio Mariano Barreto e eu andava com uma pubalgia, mas tínhamos uma eliminatória importante para o clube, com o Glasgow Rangers…Eu não andava a treinar, comecei pouco a pouco a treinar e entretanto o Mariano pede para me convocar, caso precisasse de mim por alguns minutos. O que acontece é que o jogo começa a correr mal e na primeira parte aos 30 minutos já ele estava meter-me em campo. Vamos a prolongamento, no fundo joguei 90 minutos, e quando vou bater um penálti, fiz golo mas fiz também uma ruptura de 4cm no adutor que deixou-me fora até janeiro. Depois ainda fui a tempo de fazer sete jogos e quatro golos. O Mariano Barreto é despedido e assume interinamente o mister Caldeira, que é agora adjunto do Leonardo Jardim, com o Juca. Fiz uma parte final de temporada muito boa.

Começa a receber propostas?
Sim, ligam-me o Belenenses, o V. Guimarães...Assim que ligou o Belenenses...eu cresci em Lisboa, tinha aprendido a admirar o Belenenses, por isso quando o Carvalhal fala comigo, já não pensei noutra coisa. Pensei: “Não vou nem para Inglaterra, nem para V. Guimarães vou ficar no Belenenses, fico em casa”. Nunca tinha jogado em Lisboa, numa equipa grande. Para mim o Belenenses era um equipa grande.




Vai para o Belenenses e volta a casa da sua avó?
Não eu já tinha comprado um apartamento, em Carnaxide, quando estava em Leiria. Entretanto comprei casa à minha avó. Ela vive numa casa que sou eu que pago no bairro social porque ela nunca quis sair de lá. E a minha mãe também vive numa casa minha.
Depois do Carvalhal que outros treinadores apanhou no Belenenses?
Couceiro, Jorge Jesus, que esteve lá dois anos...

Sabemos que tem uma grande admiração por Jorge Jesus...
Acho que foi o treinador que mais me marcou.

Porquê?
Primeiro porque estive dois ano com ele, coisa que nunca tinha acontecido com nenhum treinador. Depois a maneira dele ver o futebol mudou também a minha. Se tivesse ido para Inglaterra depois de ter treinado com ele, eu teria outro sucesso. O Mourinho também me marcou, mas com ele estive apenas três meses e meio. Dois anos com o mister Jesus a absorver tudo o que ele nos tinha para dar, que era uma barbaridade, a nível de conhecimento futebolístico...

Ele percebe tanto de futebol com diz?
Percebe mesmo muito. Para mim, não é antes de Cristo e depois de Cristo, mas antes de Jesus e depois de Jesus (risos). Porque comecei a ver o futebol de maneira totalmente diferente.

Em que aspecto?
Tático, conhecimento do jogo, perceber o porquê de fazer certas coisas. Marcou-me de uma maneira brutal. Há uma coisa que ele diz que é verdade, ele pode dar erros gramaticais mas as ideias dele não estão erradas, a maior parte delas. Quando o apanhei ele estava muito à frente de todos os outros. Meto-o no patamar do Mourinho a nível tático.

E no relacionamento com os jogadores?
É mais distante comparativamente ao Mourinho. Mas ao mesmo tempo foi o treinador com quem eu mais falei de futebol. Ele apoia-se muito no jogador. Não tem nenhum estigma, no sentido de poder vir falar comigo, enquanto jogador dele, para perguntar a opinião e o que sinto, em relação ao futebol. Agora temos é de estar seguros daquilo que vamos dizer-lhe. É inútil ir ter com ele só por falar, porque ele percebe quando alguém quer falar com ele só para ter protagonismo. Ele tem muito a máxima de que as ideias não são minhas, são nossas. Eu ia ter com ele, dava uma opinião, ele ficava a pensar naquilo e no dia a seguir se ele achasse que a ideia era válida implantava-a. Nunca tive nenhum treinador com esta abertura...bem, tive mais um, o Nascimento, que foi adjunto do Cajuda, com quem tinha uma relação próxima, mas com ele, eu só dava opinião quando ele me perguntava.




Dessas quatro épocas no Belenenses qual é a maior recordação que tem?
A final da Taça de Portugal. Eu cresci a olhar para a final da Taça como o auge, tirando a seleção obviamente. O facto de crescer a ir ao Jamor e ver toda aquela festa envolvente ao jogo criou em mim um sentimento especial por aquela competição.
E ser campeão nacional, não?
Sim, claro. Eu fui campeão no Chipre.

Quais foram os jogadores de renome que apanhou no Belenenses?
Rui Jorge, Romeu, Marco Aurélio, Zé Pedro, Meyong, o Sousa, Hugo Leal, Ruben Amorim, Rolando...

Por que não continua no Belenenses?
O último ano no Belenenses criou-me um desgaste grande. Tínhamos vindo de duas temporadas muito boas com o Jesus, entretanto a equipa é desmantelada. Fiquei eu, o Cândido Costa, o Zé Pedro e poucos mais. Veio muito jogador brasileiro, acho que a equipa ficou muito mal estruturada. As coisas não correram bem. Entretanto o presidente do clube também sai, vem uma comissão de gestão, vem o Jaime Pacheco, as coisas continuam a correr mal, o Jaime Pacheco sai e entra o Rui Jorge já só para dois jogos. Houve situações muito más durante o ano.

Mas que situações foram essas?
Um dos treinadores tentou meter os adeptos contra os jogadores, depois a comissão de gestão dizia que os jogadores recebiam e os jogadores não recebiam há três meses. Havia imensa gente a querer meter toda a gente contra nós e nós não tínhamos ninguém que nos defendesse, a verdade era essa. Eu era o capitão. Sempre fui muito capitão dos jogadores, nunca fui capitão, nem dos treinadores, nem dos presidentes, fui muito capitão dos jogadores, porque fui sempre eleito pelos jogadores. Se calhar porque achavam que eu defendia bem os interesses do grupo. Mas ao mesmo tempo era capaz de chegar junto de um colega meu e chamá-lo à razão se estava a agir mal. A verdade é que no aspecto desportivo quando corre mal acaba sempre por sobrar para alguém. As figuras de maior destaque no Belenenses tinham sido eu e o Zé Pedro e acabou por sobrar para nós.

Em que medida?
O desgaste era muito.Todas as semanas havia problemas para resolver e eu sentia-me na necessidade de defender os meus colegas. Não fazia sentido ter três ou quatro meses de salário em atraso e eles virem para os jornais dizerem que os jogadores tinham tudo em dia e que não corríamos porque não queríamos. Não tínhamos ferramentas táticas que nos permitissem ganhar, esta é que é a realidade. E todos naturalmente tínhamos responsabilidade, mas os treinadores não queriam assumir, o diretor geral não queria assumir também...Entretanto acabei contrato, o Belenenses acabou por ficar na I Liga, e só me ligaram quando já tinham começado a pre-temporada.

Porquê?
Eu já estava em conversações, tinha o V. Setúbal, Olhanense, U. Leiria e à partida já não ia ficar no Belenenses. Quando me ligaram já tinha tudo certo com a U. Leiria.

Nos tempos do Belenenses conheceu a sua mulher e teve um filho.
Sim. Eu conheci a minha mulher quando estava na Madeira. Depois venho para o Belenenses e entretanto fomos pais do Gonçalo, em 2007. Quando fui para a U. Leiria eles foram comigo. Estive lá época e meia.

E vai para o Chipre.
Recebi uma oferta muito boa a nível financeira do Chipre. Fui com a família e quando lá cheguei estavam lá uns 10 portugueses e brasileiros, ou seja, parecia que estava em Portugal.

Ficou três anos e meio, em três clubes diferentes.
Cheguei em janeiro de 2011 ao AEL Limassol, e esse ano correu-nos muito mal. Quando cheguei estava a bater no fundo. No ano a seguir mudaram de treinador e contrataram um diretor desportivo português que depois levou muitos jogadores de Portugal e acabamos por ser campeões nacionais. E fomos à final da Taça. Entretanto saí para o AEP porque tive uma oferta financeira também boa, só que não me pagaram. Era muito boa mas não me pagaram (risos).

Rescindiu?
Sim, com justa causa e fui para outro clube Ethnikos Achnas, onde estive também um ano e meio. Gostei muito de estar lá, havia problemas financeiros e esse foi o único senão mas as pessoas tratavam-nos muito bem. O próprio presidente era uma pessoa que não tinha dinheiro mas estava todos os dia lá. Se houvesse uma situação mais crítica eu ia falar com ele.

Vem embora por causa das dificuldades financeiras do clube?
Sim, o desgaste também já era grande e juntando a isso havia o facto do meu filho ter de começar a escola. Entretanto tínhamos tido o segundo filho, que nasceu lá, em Limassol. E disse à minha mulher, vamos embora que também está na hora de pensar em preparar-me para ser treinador.

Mas voltou ao Atlético.
Sim porque eles ligaram-me e ao Atlético não podia dizer que não. Achei engraçado tentar acabar a carreira no clube onde tinha começado. Ainda para mais o treinador era o Nascimento aquele com quem tinha uma relação muito boa. Foi um ano que me correu muito bem, fiz 10 golos com 38 anos. Fui o jogador com mais minutos. Sentia-me bem ainda.

É por isso que vai para a Índia?
Sim, ia ganhar um bom dinheiro e não disse que não. Era uma experiência de dois três meses. Foi o único sítio em que a minha família não foi comigo.

Porque é que foi durante tão pouco tempo?
Porque é uma Liga de promoção. Fui eu, o Simão e o Miguel Garcia. Foi engraçado.

Termina a carreira no Cova da Piedade.
Ligou-me o atual guarda redes do Cova da Piedade, Pedro Alves, ligou-me o Vitor Moreno que tinha jogado comigo em Leiria, ligou-me o Carlos Alves que tinha jogado comigo no Belenenses, ligou-me o treinador que tinha jogado comigo nos juvenis do Atlético. Queriam reforçar a equipa para subir à II Liga. Como eu tinha tão boa relação com todos eles, fui. Mas pensava jogar só mais três meses. Fomos campeões nacionais, subimos, propuseram-me renovar, eu sentia-me bem e renovei. A parte final da segunda época já correu menos bem pelos motivos de que falamos no início e pronto, pus um ponto final.

Disse que o seu filho mais velho joga futebol...
Jogam os dois, o de cinco anos também já joga. O mais velho começou a jogar com três anos, em Leiria e nunca mais parou. Acho que já tem quase mais clube do que eu (risos). Agora joga no Pinhalnovense. O mais novo também começou a jogar no ano passado, ainda não compete, mas já vai a torneios.

Porque decidiu ir viver para a outra margem, no Montijo?
Foi uma questão de logística. Queria que os meus filhos pudessem crescer mais ou menos da mesma maneira que eu, a andar na rua à vontade, a jogar à bola ou a andar de bicicleta o dia todo se quiserem e isso não podiam fazer em Carnaxide onde eu vivia, nem num apartamento com vizinhos. Decidi comprar uma moradia perto do Montijo, num sítio calmo onde eles pudessem andar à vontade com os amigos.

Qual dos dois tem mais jeito para o futebol?
É difícil dizer. Acho que têm os dois. O mais novo há uma semana foi chamado ao Sporting. Alguém da prospeção do Sporting foi vê-lo jogar. Ele estava a jogar dois anos acima do escalão dele e nesse jogo fez dois golos. O mais velho também já tinha sido chamado. Acho que têm os dois potencial, mas mais do que potencial têm paixão. Mas não vou pressioná-los. Gostava imenso que pudessem jogar até à idade de sénior. A partir dai eles que decidam se querem ser profissionais ou não, se têm paixão ao ponto de fazer os sacrifícios que eu fiz.

Qual é o maior sacrifício de todos?
São muitos. É abdicar da família, dos amigos, de quando temos 15/16 anos e os nossos amigos vão sair à noite, ter de ir para casa porque tenho jogo no dia a seguir. É aos 11/12/13 anos estar a brincar e chegar à hora do treino ter de ir embora. E não é como hoje, que levo o meu filho de carro, fico lá e trago-o. Era ir a pé ou de transportes públicos, sozinho.



Qual a sua maior frustração no futebol?
Não sou nada frustrado, sinceramente. Acho que não joguei num grande por opção minha. E joguei num dos melhores campeonatos do mundo.

Onde gostava de ter jogado e não jogou?
Na I Liga espanhola. Mais do que num grande em Portugal. Joguei na II e na IIB e não consegui jogar na I. Mas consegui jogar na I Liga inglesa. Por outro lado, acho que se tivesse tido uma oportunidade mais cedo na I Liga a minha carreira tinha sido ainda melhor. Estreei-me na I Liga a uma semana de fazer 25 anos. E mantive-me na I Liga até aos 38 anos.

Não tem pena de não ter participado mais na seleção?
Tenho um grande orgulho em dizer que poderia ter optado por jogar por outra seleção. Tive convites de Cabo Verde, de Angola, mas eu sempre disse que o meu país é Portugal e se não consigo jogar na seleção nacional não represento nenhuma. Sempre tive esta ideia. Foram só três jogos, é verdade, mas tenho muito orgulho. Acho que se estivesse a jogar numa equipa boa tinha sido chamado mais vezes. Por outro lado também tenho noção de que estava a competir com grandes craques, como o Deco, Hugo Viana, rui Costa, Maniche, Raul Meireles, todos grandes jogadores.

Quem é o seu maior ídolo?
Luís Figo. Joguei com ele. Era um jogador fabuloso. Depois quando tive a possibilidade de jogar e treinar com ele ainda fiquei mais admirado. Tecnicamente ele não perdia um passe, não fazia um mau controle, um mau drible, não tomava uma má decisão. Todos os dias eu ficava impressionadíssimo com ele.

Que clube ambiciona treinar?
O Atlético é um dos que gostava muito de treinar. O Belenenses também me marcou muito.

Tem tatuagens?
Tenho uma nas costas que foi a primeira e foi uma maluquice de Espanha. É uma pantera, mas não significa nada, fui fazê-la mais para acompanhar um colega, esse sim levava uma ideia. Já a que tenho na perna foi pensada e tem um significado. É um vocalista com uma guitarra, porque gosto muito de rock, e é uma frase para os meus filhos que saquei de uma música dos U2.

Qual é a frase?
"Can you hear me when I sing you are the reason I sing". É de uma música de que gosto muito ("Sometimes you can't make it on your own"). A frase está feita numa forma de bola por causa do futebol. Fi-la quando o meu filho mais velho nasceu.

Pensa ter mais filhos?
Eu gostava de ter mais um. Uma menina. Mas para já a minha mulher não está para aí virada (risos). E estes dois já dão trabalho.

É um homem crente?
Eu creio sobretudo nas pessoas.


sexta-feira, 22 de março de 2019

As férias de Keizer

Ao que parece a decisão de conceder férias ao plantel está a provocar a "habitual" indignação que é visível nas redes sociais. 

Ora trata-se de uma decisão do foro técnico, ele e a sua equipa técnica, mais do que ninguém, estão na posse da informação necessária para a tomar no sentido do que é, em teoria pelo menos, melhor para todos. Acresce que alguns dos titulares e potenciais titulares estão ausentes nas respectivas selecções. Daí que treinar com quem? 

Sem dúvida que há muitas deficiências para eliminar, comportamentos colectivos e individuais e colectivos a corrigir, outros a melhorar. Mas treinar com quem? Treinar muito não é necessariamente treinar bem. Aliás, não é por falta de treinar que a nossa equipa não joga melhor...

Muitas vezes com as melhores intenções, muitas outras nem por isso, nós, os adeptos, invadimos com as nossas opiniões, o espaço de quem toma decisões com base em critérios técnicos devidamente ponderados com opiniões emitidas de forma primária. Parece-me ser esse este o caso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O grande desafio de Marcel Keizer está a começar

Se o despedimento de Peseiro não pode ser considerado uma grande surpresa, talvez o momento escolhido para o realizar o tenha sido. Mas a grande surpresa seria a revelação do nome escolhido para a liderança da equipa técnica da equipa principal do futebol do Sporting: Marcel Keizer. O grande desafio que tem pela frente está prestes a começar, com o primeiro jogo oficial.

Numa altura em que a nova administração ainda procura a afirmação em circunstâncias difíceis, a escolha natural e esperada seria um nome consagrado, de curriculum recheado de vitórias. Dessa forma a direcção comprava algum tempo da tolerância  que normalmente é concedida aos nomes mais conhecidos e titulados. Ou talvez um nome nacional ou já conhecedor das especificidades do nosso campeonato.

A preferência por uma escola de treinadores - a holandesa - mergulhada no ocaso, depois de ter liderado uma profunda revolução no futebol mundial parecia de todo improvável. As lições deixadas pelo mestre Rinus Michels e bem aproveitadas pelos seus inúmeros discípulos foram cristalizando no e conhecendo antídotos mais ou menos eficazes. Com o tempo  não sofreram actualizações  no seu país de origem e, desde que Johan Cruijff se aposentou, são de outra nacionalidade aqueles que aperfeiçoaram o seu rico legado, mantendo-o como vencedor.

Refeitos da surpresa, há que perceber a decisão. Gostando-se ou não do nome escolhido, há pelo menos que reconhecer que a escolha não pode ter sido casual, há ali muito de objectivo e intencional. Há que reconhecer também a coragem em tomá-la porque, como foi já dito acima, se não foi o brilho do curriculum, a escolha de Marcelo Keizer configura pelo menos a busca por um potencial que se crê que ele possua.

Desse potencial há um que está claramente identificado: a atenção dada à formação. Se há alguma coisa que ressalta do curriculum de Keizer é precisamente o seu trabalho no Ajax Jong, a equipa B que pontua no escalão secundário da liga holandesa. Foi sob a sua batuta que o clube de Amsterdão ofereceu ao futebol mais um lote notável de jogadores como Onana, de Ligt, de Jong, ou Justin Kluivert. Um outro nome que fazia parte desse lote - Abdelhak Nouri - já não é jogador de futebol e a forma trágica como esse desaparecimento sucede acabou por ser determinante para a rápida saída de Keizer do comando da equipa principal do Ajax, quando se esperava a continuidade do trabalho efectuado na segunda equipa. Como Frederico Varandas seguiu desde aí o seu trajecto até ao Al-Jazira é seguramente uma das grandes interrogações desta contratação.

Mas por mais proveitoso que venha a ser o trabalho do treinador holandês no aproveitamento da Academia, e por mais que sejam os jogadores que venha a revelar, serão os resultados que servirão de barómetro e determinarão a longevidade da sua presença em Alvalade. Questões de ordem pessoal, como as da sua personalidade e respectiva adaptação a Portugal, ou do seu relacionamento com o plantel, ou mesmo profissionais como o modelo de jogo e a operacionalização das suas ideias e aplicação ao treino, são certamente importantes. 

Há que reconhecer que Keizer não estará sozinho na sua tarefa. Há um trabalho de fundo que tem vindo a ser realizado no sentido reestruturar o futebol leonino, dotando-o de recursos humanos que permitam a realização de um trabalho sustentado e não apenas uma aposta do tipo "all in", como a realizada nas épocas de Jorge Jesus. Uma regeneração há muito necessária até por comparação de estruturas dos "Três Grandes".

Mas num clube como o Sporting os resultados são quase sempre o mais importante. Quase porque, como se viu com Peseiro, os resultados nem foram o pior, se compararmos com a pobreza das exibições. A tentativa de passar a ideia de que "ainda estamos em todas as frentes" não vingou nem poderia vingar, porque a ausência do grau mínimo de "nota artística" não era compaginável com  o estatuto de grande e inclusive retirava a esperança (ou até a ilusão...) de manter a luta por um lugar no pódio sequer. Este discurso de "todas as frentes" só foi possível pelo começo anormal dos principais rivais, ao perderem pontos de forma pouco esperada. Em condições normais, a frente do campeonato estaria ainda mais longe do que já está a da Taça da Liga, onde o Sporting defende o título.

É aqui que começa o primeiro grande trabalho de Marcel Keizer: colocar a equipa principal do Sporting a jogar de forma mais atractiva, não só para devolver a esperança, mas também o gosto pelo jogo. Grande mas também complexo. Não apenas porque o tempo e as condições estão longe de ser as ideais, mas também pelas circunstâncias em que recebe a equipa das mãos de Tiago Fernandes. O segundo lugar herdado funcionará como uma medida de comparação e avaliação do trabalho do treinador holandês e daqui a um mês de Tiago Fernandes só se lembrará o ineditismo do resultado com o Arsenal e a invencibilidade. Que tenham sido apenas três jogos, o que é manifestamente insuficiente para uma avaliação pouco ou nada contará.

Em condições normais Marcel Keizer teria a época em curso para lançar as bases do seu trabalho e das suas ideias para abordar a próxima época num plano mais próximo da concorrência. Mas condições normais é tudo quanto está longe de se verificar num Sporting ainda a viver na agitação permanente que as réplicas do profundo abalo sofrido na época transacta provocam. Se se espera que apoio não lhe falte a nível da estrutura directiva - pela clara aposta pessoal do seu líder, Frederico Varandas - sobram muitas dúvidas pelo lado externo. São tão vastos os problemas e as divisões, que só um percurso imaculado permitirá a estabilidade necessária para as grandes conquistas. O desafio de Marcel Keizer é de facto enorme. Mas não é apenas dele, é de toda uma instituição que pela enésima vez volta a lançar os dados à procura da sorte.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A vertigem do sucesso num clube sem tempo nem tolerância

Ontem celebraram-se, entre muitas outras, duas efemérides futebolísticas. Duas efemérides de sinal contrário, uma delas relacionada com o Sporting e a outro pertence já às lendas do futebol mundial. Uma coincidência interessante e que serve de ponto de partida para este post e com especial enfoque na actual situação do Sporting Clube de Portugal.

A coincidência:
A 6 de Novembro de 1986 Alex Ferguson foi nomeado treinador do Manchester United. Realizaria 1.500 jogos, contabilizaria treze Premier League, cinco FA Cups, quatro Taças da Liga, 10 Charity Shields Cup,  duas Champions League, 1 Supertaça de Europeias , uma Taça Intercontinental, um Mundial de clubes. 

Não se pense contudo que Sir Alex teve vida fácil em Manchester, como não havia tido em Aberdeen, de onde provinha. No clube da cidade escocesa de um dos mais importantes portos do Mar do Norte, demorou duas épocas para conseguir chegar à velocidade de cruzeiro nas conquistas. Frequentemente entalado entre Celtic, Rangers e Dundee United, o Aberdeen sairia do atoleiro onde se encontrava encalhado desde 1955, com Ferguson ao comando que daria o título, pela primeira vez na época 83/84, feito repetido na época seguinte. 

Como já vinha vencendo a Taça da Escócia há três temporadas seguidas, os "Dons" haviam carimbado o ingresso na já extinta Taça das Taças. Aí, obrigou a Europa do futebol a perguntar quem eram estes escoceses. Quando a resposta chegou já eles iam de regresso com a conquista da competição, isto depois de eliminar o Bayern de Munich do mestre Udo Latek e dos seus alunos Pfaff, Klaus Augenthaler Dieter Hoeness e Rummenigge. Bateria na final o sempre todo poderoso Real Madrid do mítico Di Stefano como treinador e jogadores Camacho, Juanito, Stielike e Santillana. Como registo curioso, assinale-se no ano seguinte o encontro nas meias-finais com FC Porto de Pedroto e Morais (que viria a ser técnico do Sporting por pouco tempo, vitimado por um acidente de viação) em que os da Invicta levariam a melhor até à final perdida de Basileia, ante a Juventus de Boniek e Platini.

Em Manchester seria bem pior. Já ninguém acreditava que este escocês de  Glasgow seria capaz de interromper mais de duas décadas sem ver o caneco maior da Liga Inglesa. Ia já no seu terceiro ano a ouvir assobios e ler tarjas a espelhar a descrença que se ia instalando, quando arranca do meio da tabela já em Novembro para um final em que deixa a dez pontos o Aston Villa. Para tal seria determinante o ingresso de Cantona e a sua associação virtuosa com Mark Hughes. O resto da história já foi contada acima. Pelo menos o resultado de muitas tardes e noites de glória pontuadas com cânticos personalizados em seu nome e honra.

No mesmo dia de Novembro, mas em 2009, Paulo Bento demitia-se do cargo de treinador do Sporting. Várias vezes apontado como um possível Ferguson à escala leonina, não resistiria a um mau começo de campeonato e seria vitima colateral das guerras internas e de uma presidência infeliz, com má relação com os adeptos e maus investimentos no futebol. O desgaste provocado por quatro anos sem nenhum campeonato nacional fez o resto. É no entanto um dos treinadores com mais tempo no comando técnico e o mais titulado deste século: duas taças de Portugal e duas Supertaças Cândido Oliveira. Sem nenhuma taça que testemunhe, ficou a aposta nos jogadores da casa, que acabaria por se reflectir nos cofres, no prestigio internacional e até mesmo com grande quota de responsabilidade na conquista do Europeu de França, pela selecção nacional.

Passou quase uma década desde então. O Sporting vive novamente um período conturbado e tantos têm sido os momentos semelhantes que deveria começar a equacionar incluir a palavra na sua heráldica institucional. Apresta-se a entregar a um novo treinador, um quase desconhecido, a responsabilidade de o resgatar a seu segundo período de maior jejum e o relógio continua a contar. Se quer dirigentes e adeptos não perceberem que um treinador é uma peça importante, mas apenas uma peça de uma engrenagem, o seu nome será mais um, apenas. 

No actual momento que o Sporting vive o treinador e até mesmo os jogadores são frequentemente usados como peças de xadrez num tabuleiro "politico" onde debatem interesses de pessoas, grupos e grupelhos. É provável que a tolerância seja reduzida e o tempo que o Sporting precisa para se reconstruir dos escombros dos últimos meses não venha ser concedido. Se for esse caso o Sporting nunca encontrará o seu Ferguson. E até a memória de Paulo Bento com apenas quatro troféus secundários parecerá um oásis muito longe de alcançar.

Terá sido por acaso que o período de domínio leonino do futebol luso tenha surgido da estabilidade dos anos de Joseph Szabo e tenha terminado após se iniciar a dança de cadeiras, mano a mano com a instabilidade directiva, que tem marcado a liderança técnica no Sporting?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Jorge Jesus de saída?

O JN avança hoje que "Jorge Jesus poderá estar muito próximo de deixar o comando técnico do Sporting". Segundo aquele matutino, "o treinador tem em mãos uma proposta para ser treinador do PSG e está tentado a deixar os leões para rumar ao campeonato francês, onde irá encontrar uma verdadeira constelação de estrelas."

Uma noticia que, a concretizar-se, não me surpreenderia absolutamente nada, atendendo aos rumores e alguns indicadores, uns mais subliminares que outros, que vão circulando. Não acusando o factor surpresa não deixaria porém de sentir uma sensação de desperdício ao ver um técnico com a  qualidade de Jorge Jesus abandonar o clube apenas com um troféu - de segunda linha - conquistado. Aguardemos pois pelos desenvolvimentos, se os houver.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A minha primeira grande discordância com Jorge Jesus

Nota introdutória:
Infelizmente não tenho conseguido actualizar o blogue como sempre foi hábito. Tal não significa um menor empenho ou desrespeito para com os leitores, em particular com aqueles que se tornaram visitantes assíduos. Ao contrário do que possa parecer esta actividade, sendo um hobby, pode por vezes tornar-se desgastante. Por isso, quando as exigências profissionais e pessoais assim o impõem, as minhas atenções sobre o Sporting diminuem, tendo consequência a redução de produção. Espero em breve poder retomar a publicação periódica.

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No lançamento do jogo de Moscovo, na habitual conversa com os jornalistas, Jorge Jesus voltou a lembrar que as prioridades do Sporting, neste momento, são as competições nacionais. Não o tendo afirmado, é claro para todos que à cabeça está a conquista do campeonato, obviamente. Mas JJ foi ainda mais longe quando afirmou que a Liga Europa "não é a melhor para recuperar o que há muito o Sporting não tem". Não podia estar mais em desacordo, o que fundamentarei a seguir.

Em primeiro lugar não é demais recordar que não foi assim há tão pouco tempo que o Sporting esteve numa final da competição e ainda há menos tempo chegou à meia-final. Não é o mesmo que vencer a competição mas também não são tantos clubes assim que no decurso deste curto século se possam gabar de o ter conseguido e os que os podem fazer são nomes importantes no cartaz do futebol europeu. 

Por outro lado, se o objectivo é restaurar o prestígio internacional o Sporting não se pode dar ao luxo de abdicar das oportunidades que lhe aparecem pelo caminho. Ou pode um subnutrido dar-se ao luxo de escolher o menu da próxima refeição?

O futebol é demasiado contingente para se poder adivinhar qual a competição que será mais fácil de conquistar, de entre todas as que participa. Quem pode afirmar que, de entre todas, a Liga Europa é menos fácil e menos prestigiante vencer que, por exemplo, o campeonato nacional ou a Taça de Portugal? Como podemos saber que colocar os ovos todos no cesto do campeonato vai pagar mais, negligenciando de todo a competição da UEFA, escusando sequer a gestão das expectativas em função do jogo que se segue?

Já ontem, no final do jogo, JJ reconheceria que a possibilidade de qualificação lhe acarreta um problema na tomada de decisão relativamente à gestão dos jogadores para os compromissos consecutivos com o Besiktas (LE), Moreirense (campeonato) e Braga (Taça de Portugal). JJ deixou no ar que as possibilidades agora acrescidas de qualificação o impediriam de, à semelhança do que fez anteriormente, abdicar dos melhores para, dessa forma, ter, por via de maior descanso, os jogadores mais importantes com maior disponibilidade física e mental. Ora isto é desperdiçar o ensinamento mais relevante do jogo (resultado e exibição) de ontem.

Ao contrário do jogo com o Skenderbeu, onde, dos habituais titulares, apenas Adrien e Patrício jogaram, ontem JJ incluiu, além do já referido Adrien, Naldo, Ewerton, João Mário e Bryan Ruiz. Ora isto é completamente diferente de jogar com uma equipa onde nove jogadores não jogam com regularidade, não tendo por isso a rotina nem o ritmo dos os que o fazem habitualmente. Isto não esquecendo a importância que as diferenças de qualidade individual e experiência aportam ao jogo colectivo.

Tudo isto serve para dizer que concordando com a importância relativa de cada competição, onde à cabeça está a conquista do campeonato, a gestão do esforço dos jogadores é perfeitamente possível, desde que não seja levada ao extremo, como aconteceu com o Sekenderbeu, com os resultados que se conhecem. 

O modelo radical então usado é pernicioso para todos porque, se as derrotas são inevitáveis, as que surgem de forma próxima da humilhação carregam um potencial negativo onde é mais fácil florescer a dúvida do que a segurança. Num plantel carregado de jovens jogadores isso é um aspecto que tem de ser gerido com o maior cuidado.

A resposta ontem dada por Gélson (sobretudo) e Matheus seguramente que não surgiu do acaso. Rodeados de bons jogadores como Montero, Ruiz, Adrien e João Mário, devidamente respaldados por Ewerton e Naldo, as possibilidades de mostrarem o inegável talento que possuem aumentam exponencialmente, ao invés de terem os seus nomes inscritos num rol de meninos à procura da afirmação.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Poupar pelo colosso Arouca, o nosso "Guimarães 2015" e outras considerações por causa de um resultado "impossível"

Poupar por causa desse colosso, o Arouca?
Foi pela frase acima que começaram muitas das reacções ao resultado do jogo de ontem, algumas até quando se soube o alinhamento da equipa escolhida por JJ. Pela sobranceria. A mesma que os jogadores usaram no jogo com o Skenderbeu.
 
Nem com o Sekenderbeu nem com o Arouca a disputa é sobre o passado histórico de cada clube. A disputa é, como sempre em futebol, entre onze jogadores pela posse da bola, procurando marcar o maior número de vezes num espaço temporal de noventa minutos. Apenas aí e é aí que temos de jogar tudo e com tudo, porque antes e depois não conta.

Fazia sentido poupar jogadores por causa do Arouca?
Sem dúvida, especialmente em alguns jogadores-chave, sobrecarregados de jogos. Como se irá ver domingo, o campo é difícil pelas dimensões, a que acrescerá o facto de a semana ter sido chuvosa, com as respectivas consequências no relvado a fazerem-se sentir. Não deve ser também desconsiderado o valor do adversário, como me pareceu ter sucedido ontem, até porque a equipa adversária está muito bem orientada por um treinador que pode muito bem ambicionar outros voos. 

Era possível poupar jogadores sem comprometer o resultado?
A resposta à questão acima já havia sido dada previamente, praticamente os mesmos jogadores golearam o mesmo adversário semanas antes. Porém o futebol é imprevisível e este ponto será melhor escalpelizado abaixo.


Revisitar "Guimarães 2014" na Albânia em 2015
A 1 de Novembro do ano passado o Sporting sofreria uma derrota cujos reflexos se estenderiam até ao final da época, expondo à evidência uma relação de instabilidade e atrito entre a SAD e o então treinador. Passado um ano e quatro dias o Sporting sai vergado por resultado idêntico de forma igualmente surpreendente. É verdade que não jogamos com a equipa titular, como aconteceu em Guimarães, mas não é menos verdade que o Skenderbeu não é o Guimarães. Derrotas como esta não se circunscrevem ao plano desportivo abalam o prestígio e o bom nome do clube quer a nível interno, quer externo.

Tal como então está em causa o brio profissional dos jogadores. Discordo quase sempre que seja este o caminho seguido porque não há qualquer indicio de menor comprometimento dos jogadores como o clube ou com o treinador, antes pelo contrário. Foram estes os mesmos que golearam os albaneses em Lisboa e estiveram quase sempre bem quando foram chamados. Tal como em Guimarães 2014, ontem foram várias as coisas que correram mal ao mesmo tempo. 

Será contudo igualmente mau fazer-se de conta que não aconteceu nada como dramatizar excessivamente. Especialmente entre os jogadores mais jovens o talento não se extinguiu e, devidamente enquadrado entre os melhores, encontrará condições para vingar. Que se tenha aprendido alguma coisa com o sucedido no ano passado e que a derrota de ontem não seja completamente desperdiçada.

À atenção de JJ
Embora de forma não especialmente esclarecida, JJ acabou, como não podia deixar de ser, por assumir as responsabilidades pelo fracasso da estratégia seguida para o jogo. Mas não deve deixar de reflectir sobre o resultado e especialmente o que ele significa para o clube, em particular para os adeptos. Alguns pontos em especial:

- JJ não pode parecer apenas especialmente motivado para ganhar o campeonato e à sua antiga entidade patronal. O Sporting, mesmo com os actuais constrangimentos, tem um nome a defender e é possível e obrigatório fazer mais e melhor.

- Uma coisa é rodar alguns jogadores outra é jogar com as reservas. Não é possível a jogadores sem rotinas e sem ritmo responderem ao mais alto nível. 

- Do ponto de vista do enquadramento psicológico, jogar com jogadores habitualmente reservistas é dizer-lhes ou que o adversário é fraco ou que o jogo não é importante. Em jogos em que as circunstâncias parecem conspirar contra nós, como o de ontem, acabamos por ficar limitados no poder de reacção. É o perigo que estas rotações encerram e ontem pagamo-lo bem caro.

- Ao optar por uma rotação excessiva JJ expõe os jogadores em demasia e ele, melhor do que ninguém, sabe isso.

- Tentar salvar Bruno Paulista do naufrágio geral é não perceber o que realmente aconteceu ontem e, quando assim é, a possibilidade de algo semelhante voltar a suceder é enorme.

Estou à vontade para falar sobre JJ, porque continuo a pensar que tendo terminado como terminou a ligação do técnico que o precedeu, a sua contratação era a única solução que poderia significar uma mais-valia para o clube. Tanto assim é que as derrotas de Jesus continuam a ser festejadas pelos nossos adversários, em particulare os adeptos do seu anterior clube, como se de vitórias próprias se tratassem. Além de demonstrar que a digestão ainda está por fazer é um bom indicativo da importância que lhe atribuem como fautor do nosso sucesso.

Ewerton nas pisadas de Rodriguez?
Como se costuma dizer o que torto nasce tarde ou nunca endireita sendo a contratação de Ewerton um exemplo vivo. Chegou sem estar pronto para jogar, quando a época começou lesionou-se novamente com gravidade e ontem volta novamente ao estaleiro. Aquele que é talvez o nosso melhor central tem também de ser muito mais fiável sobe pena de ser melhor apostar em quem possa oferecer estabilidade e continuidade na aposta.

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