
Marat Izmailov tinha todas as condições para se tornar num símbolo leonino, adorado pela massa associativa. O Russo, além de ser um jogador de elevada qualidade, aparenta ser uma personalidade serena e humilde, racional, esforçado e dedicado, atributos normalmente apreciados nos profissionais de futebol e que na verdade, distinguem os bons dos maus profissionais, não apenas no futebol, mas em tudo na vida.
As constantes lesões que amaldiçoam o 7 leonino, camisola que parece estar amaldiçoada desde a saída de Luís Figo de Alvalade, têm impedido o “tigre” Siberiano de mostrar todo o seu potencial com constância e sustentabilidade.
Porém, a espaços, Izma, tem-nos brindado com requintes de classe, contagiando os adeptos com a fragrância do seu futebol. Parece ser um futebol com um toque e pormenores algo diferentes, do futebol de um europeu latino ou de um sul-americano, o que confere a Izma o estatuto de “jogador diferente” do padrão normal a que estamos habituados no campeonato português.
Essa diferença, não pode no entanto desviar-se das quatro linhas. Fora delas, Izmailov deve tratar e ser tratado de forma idêntica aos restantes profissionais que servem o Sporting Clube de Portugal.
Os acontecimentos da eliminatória com o Atlético de Madrid, na época passada, espantaram tudo e todos. Ainda hoje é uma história “mal contada”, com contornos algo estranhos: o jogador queixou-se com dores, não sentindo apto para defrontar o Atlético em jogo decisivo a contar para a Liga Europa. O departamento médico do Clube, dava o atleta como apto.
O que deveria ter acontecido a partir daqui?
Ou o jogador era convocado prevalecendo a opinião do Departamento Médico ou tendo em conta as queixas do atleta, optava-se por deixá-lo recuperar da suposta lesão, não o convocando. Vistas as coisas desta forma, o problema ou o caso não existiriam e nada do que se passou se passaria, nem a imprensa, ávida de casos, empolgaria aquilo que aparentemente parece ser algo normal na vida de um atleta e de um clube.
Assim seria se houvesse sensibilidade e bom senso no tratamento destas situações, precisamente, o que faltou, considerando que as posições se extremaram, ao ponto do caso continuar a fazer mossa em Alvalade e a correr tinta nos jornais.
Por entender que o jogador não queria ajudar o Clube no decisivo jogo de Alvalade, o Director Desportivo, solicitou ao atleta que abandonasse o estágio “ em nome da estabilidade do grupo e da equipa”.
A partir daqui Marat Izmailov “desapareceu” misteriosamente por dois dias, não cumprindo as suas obrigações profissionais, ou seja, apresentar-se na Academia para treinar ou ser tratado na recuperação da suposta lesão. Provavelmente, foi aqui, que Marat perdera a razão em termos jurídicos.
O direito do trabalho que opine quem tem razão no caso, sendo que deve haver a tal sensibilidade e bom senso para avaliar tais comportamentos e situações. Nem só de dor de pernas poderão padecer os profissionais de futebol. O jogador poderia não estar psicologicamente bem por razões diversas e ao departamento médico penso que não caberá apenas tratar ou avaliar a condição física dos atletas, porque sem a mente sã, dificilmente haverá um corpo são. Em Alvalade não há uma estrutura capaz de avaliar e tratar situações que escapem ao padrão normal da actividade quotidiana que a gestão futebolística impõe. O departamento de futebol do Sporting não soube lidar com esta situação, ponto. Fica claro, a ausência de uma personagem como, Manolo Vidal, ou alguém com perfil idêntico, com perspicácia suficiente para lidar com este género de situações, evitando males maiores.
Hoje, sabemos no que desaguou toda esta história mal contada. Sangue, suor e lágrimas. Um atleta em rota de colisão com o Clube, subvalorizado e com clubes à espreita a ver se o levam por meia dúzia de cascas de alho. O atleta vai forçar a saída do Clube, seja pela via jurídica, seja através da pressão constante que o seu empresário e a imprensa empreenderão, podendo com isso vir a desestabilizar o próprio grupo na presente temporada.
Não estou com este post a defender ou a criticar o atleta. A mim, enquanto sócio e adepto do Sporting, interessa-me que o Clube saiba tratar estas situações, porque quem perde com elas, desportiva e economicamente, é única e exclusivamente o Sporting.
PS: O post foi reeditado para correcção de lapso verificado pelo nosso leitor Nelson Santos.