O Sporting comunicou ontem à CMVM os números que estão por trás da recomposição dos plantéis das suas equipas profissionais de futebol. Melhor do que esse comunicado foi o documento publicado no jornal do clube com informação detalhada sobre a matéria. Esta acção corresponde a uma ideia que sempre aqui defendi relativamente à gestão da informação do clube: ao invés de fornecer informação a terceiros, que nem sempre tratam o clube com devem, o Sporting devia usar os seus próprios meios, como o site e o jornal, para comunicar com os que devem ser sempre considerados o seu público alvo, e que, por isso, deve privilegiar. Muito bem.
Esta comunicação, algo completamente novo em clubes com a grandeza do nosso, merece-me análise quanto ao método, bem como relativamente à qualidade das medidas tomadas.
Relativamente ao método escolhido ele merece os maiores elogios sobretudo por corresponder, segundo creio, a uma atitude tomada de forma voluntária, e que portanto não resulta de nenhuma obrigação decorrente da sua exposição no mercado de acções. Como é evidente a informação em causa haveria de constar obrigatoriamente em futuras prestações de contas ao mercado, essas sim obrigatórias. Ao fazê-lo desta forma e no imediato, o clube joga uma importante cartada psicológica junto do mais importante e indispensável activo: o seus sócios e adeptos.
Quanto à apreciação das medidas tomadas realçaria o seguinte:
- A necessidade e as obrigações contraídas junto dos bancos que suportam a reestruturação, e o elevado número de casos sobre os quais impediam decisões, funcionaram seguramente como um anel constritor, diminuindo drasticamente o tempo para grandes reflexões. Provavelmente com outro tempo e sem tanta necessidade, outras medidas podiam ter sido tomadas e mesmo algumas das que foram tomadas poderiam ser tomadas de outra forma.
- Houve uma redução drástica nos valores a despender com custos de pessoal. Dos 44,7 milhões de gastos previstos para a próxima época, foram reduzido os custos para 26,7 milhões, o que equivale a uma economia de 18 milhões. Para aí chegar o Sporting construiu um plantel muito mais barato, livrou-se de 25 jogadores que valiam 21,7 milhões em remunerações, mesmo que para isso se visse obrigado a pagar 1,2 milhões em indemnizações.
- Desconhecem-se os valores relativos à hipotética poupança com os vencimentos de Bojinov. Uma vez que é muito provável que a decisão de o despedir vá resultar numa disputa judicial, os 21,7 milhões não podem ser considerados definitivos. Situações como as de Labyad e Elias, que o Sporting já assumiu ter rescindido unilateralmente os respectivos contratos de imagem, não são referidas.
- André Santos 70 mil €, Boulahrouz 466 mil €, Danijel Pranjic 333 mil €, Oguchi Onyewu 327 mil € foram os indemnizados.
- As 25 saídas equivalem a 22,3 milhões € de proveitos, equivalendo simultaneamente a uma poupança de salários de 8,3 milhões.
- Apenas André Santos e Plange foram cedidos sem contrapartidas financeiras. Atendendo ao valor do jogador e o facto de ainda o termos indemnizado, esta é uma decisão que deixa algumas dúvidas relativamente ao seu acerto.
- Os valores pelos quais foram cedidos Schaars e Árias são baixos, mais ainda se tivermos em linha de conta que o primeiro recuperou a titularidade na selecção do seu país e o segundo tem jogado com alguma regularidade no PSV e é visto como o titular a curto prazo da selecção do seu país.
- Grande parte dos referidos proveitos têm origem nos negócios Bruma (10 milhões€) e Ilori(7,5 milhões €) podendo estes vir a ser acrescidos se alguns objectivos forem cumpridos.
- Foram contratados 13 jogadores para as duas equipas (A e B) o que me parece excessivo face à necessidade de poupança. Nomes como Welder, Magrão, Cissé, Sousa, Sambinha estão longe de ser "cirúrgicos". Falta ainda saber o valor de Piris, Slimani ou Everton.
- O custo zero ou valores muito baixos foram regra. Não foram revelados os valores de intermediação, vulgo comissões.
- Montero já tem "quase pago" o valor do seu empréstimo: 1,135 milhões €, sendo a opção de compra de 1,173 milhões, o que se pode dizer uma verdadeira pechincha, com a "agravante" de podermos ficar com a totalidade do passe. Jefferson e Maurício vão pelo mesmo caminho. Vitor a custo zero foi também um bom negócio.
- O Sporting não divulgou os valores relativos aos empréstimos de Miguel Lopes, Viola, Rúbio, Zezinho, Etock e Renato Neto. Os dois últimos dificilmente regressarão, uma vez que o contrato que ainda os liga ao clube cessa no final da temporada.
- Foram renovados 19 contratos. O tratamento igual de casos diferentes merece ser questionado, sem colocar em causa a importância que a medida tem, como creio, no futuro do clube. Salomão fica com contrato até aos 30 anos, Kikas até aos 27. Muitas dúvidas relativamente ao valor de alguns desses jogadores para se afirmarem no Sporting, mas sobretudo uma dúvida importante relativa à estratégia de ter um plantel inteiro com o qual o clube se compromete quase até ao final da década. Quantos deles subirão à equipa principal ou serão vendidos para assegurar a indispensável rotação dos que, vindo dos júniores, anseiam progredir na carreira?
- Tendo em conta o elevado número de jogadores que mereceram o prolongamento do vínculo ao clube, o meu lamento pela saída de Farley Rosa, sem dúvida um dos melhores da sua geração. Não sei quais foram os fundamentos da decisão, eventualmente a impossibilidade de cobrir a proposta do Sevastopol. Mas não é certamente por acaso que o jogador consta da lista das dez melhores contratações do campeonato ucraniano, juntamente com nomes como Fernando, Bernard ou Dragovic.