Sobre William Carvalho e a naturalização/convocação de Fernando
Será com certeza um dos pontos polémicos da convocatória de Paulo Bento: a chamada de William Carvalho e a convocação ou não de Fernando, jogador do FCPorto.
A não convocação de William é neste momento uma não-hipótese. O que o jogador vem fazendo na época em curso garante-lhe um lugar nos 23 convocados. Ninguém no seu perfeito juízo admitirá outra possibilidade. No seu perfeito juízo, que goste da selecção nacional e que entenda que nesta devem estar os melhores jogadores num dado momento, independentemente do que possam ser os interesses dos clubes de origem dos atletas.
Há outra questão que se podia colocar como óbice à convocatória de William: a possível presença de Fernando. Contudo não acho que esta o seja. Serão provavelmente os melhores naquela posição, "os que ofereçam melhores garantias ao seleccionador".
Aqui devo dizer que se a questão for apenas o valor dos jogadores, em condição normais o luso-brasileiro leva vantagem. Se dúvidas houvesse, bastava ver o que jogou ontem no clássico, naquele que foi o regresso ao seu melhor, depois de uma época muito abaixo do que pode e sabe fazer. Dificilmente não será considerado o melhor naquela posição em Portugal e um dos melhores no computo geral dos campeonatos europeus.
A comparação, que pode "fazer impressão" a alguns, nada tem de depreciativa para William Carvalho, bem antes pelo contrário. O William de hoje é bem melhor do que o jogador que Leonardo Jardim começou a adaptar à posição no inicio do campeonato. A forma célere como evoluiu diz muito da visão do treinador mas também das qualidades do jogador.
Não há agora apenas mais à-vontade (segurança? experiência?) no desempenho do lugar. Há uma evolução notória na forma como interpreta as suas funções, nomeadamente na ocupação dos espaços, na gestão da posse de bola - se deve soltar rápido ou temporizar, permitindo a equipa subir - na qualidade do passe, qualquer que seja a opção que tome: passe curto, longo, de ruptura, etc. São cada vez mais visíveis aparições em sectores mais avançados do terreno, fornecendo apoios ou aparecendo a explorar espaços entre linhas, em particular em jogos com adversários menos habilitados.
É contudo nos momentos defensivos que ainda denota ter algum caminho a percorrer. Sobretudo no capitulo da agressividade sobre a bola onde, contudo, já denota também progressos assinaláveis em relação ao comportamento revelado no inicio do campeonato. Porém, ainda distante do que é o desempenho de Fernando neste capitulo e ontem foi um dia bom para o constatar.
Acontece que Fernando, com a idade de William, andava também ele a dar os primeiros passos, depois do empréstimo ao Estrela da Amadora. Trajecto que teve que cumprir no complemento da sua formação para melhor adequação às necessidades do futebol europeu, bem diferentes das que havia crescido. Não era então o jogador que hoje é. Ninguém pode negar que William, quando tiver os 26 anos que hoje Fernando tem, não seja tão bom ou melhor que o luso-brasileiro. Neste capitulo será decisivo o próximo passo, onde se afigura difícil a permanência no Sporting.
O dinheiro com certeza ditará a sua lei. Porém, no estrito sentido do interesse do jogador e da sua carreira, não tenho pejo em afirmar que essa, a permanência, será bem melhor do que um ManUtd de Moyes em reconstrução, depois do desastre que se avizinha. Ou de um Mónaco cheio de dinheiro mas quem o gere não percebe ainda o essencial: o papel de um treinador é determinante para o sucesso de um projecto e meter continuamente dinheiro na fornalha só resolve os problemas de quem vive à volta dela e não propriamente da dita. Ficará para outra ocasião aquele que me parece ser o valor a cobrar pelo Sporting numa futura transferência. Isto para não divergir mais do ponto principal.
A questão essencial nesta matéria da convocação ou não de Fernando/William não tem nada a ver com o valor individual de cada um deles ou do seu valor relativo. Assim como a convocação de Rui Patrício com o valor de Artur ou Helton. Ou a de Bruno Alves com Maicon e por aí fora. Nem tem qualquer semelhança com o caso de Pepe que, ao contrário de Fernando, não é internacional brasileiro nos escalões de formação. E, também em trajectória oposta expressa em declarações, quando disse inequivocamente que preferia a "amarelinha", Pepe demonstrou sempre com clareza querer ser internacional português.
Não há aqui qualquer chauvinismo, trata-se de escolhas bem claras que devem ser assumidas. Não duvido da sinceridade de Fernando em relação à "amarelinha", mas ao deixar falar o coração, o que se compreende, tornou claro que qualquer outra escolha é de mera conveniência. O moço aí que me perdoe mas ainda sou dos que acho que a camisola do meu País é para se vestir com o coração.
Claro que esta é uma matéria sensível. Ao contrário do que se vai dizendo por aí, ainda vou acreditando em Paulo Bento. Dizer isto desta forma é abrir a porta a outra eventualidade, bem sei. Mas tendo a confiar porque não vejo um Paulo Bento comprável. Pelo menos o que conheci dos seus tempos de Sporting, não me parecendo que traços de personalidade tão vincados como os que então demonstrou possam ser facilmente reciclados.
Como dizia alguém, o mais importante que se diz numa frase vem sempre a seguir ao "mas". E o "mas" aqui são os interesses de quem detém o dinheiro e de quem anda à procura dele, como quase sempre no futebol. Não é por acaso que, mesmo de forma timida, se vá notando um certo spin à volta da matéria. Ainda há dias o inefável Jaime Pacheco perorava sobre as virtudes de contar com Quaresma e Fernando. O próprio Fernando não mudou a agulha porque de repente passou a gostar mais da cidade do Porto ou de viajar pelo Pais. Eles todos sabem o que representa uma presença no Mundial num alienar de direitos ou na assinatura de um novo contrato.

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