Sobre a crise instalada: o que foi, como devia ter sido, o que virá a seguir
O que foi que aconteceu para o treinador passar da melhor escolha possível a "dispensado"?
Exporei abaixo algumas das razões que me parecem estar na raiz dos problemas entre Marco Silva e Bruno de Carvalho.
Erro de auto-avaliação
Não me parece que os problemas de Marco Silva com o BdC tenham começado aquando da tão famosa conferência de imprensa ou sequer no igualmente famoso desabafo no Facebook do presidente. O problema começa num erro de auto-avaliação quando o presidente e o seu braço direito, Inácio, decidiram serem eles os únicos responsáveis pelas contratações. Uma decisão legitima, mas cuja responsabilidade não deve deixar de ser assumida no contexto dos resultados até agora obtidos, especialmente quando alguns desses jogadores não justificam a preferência.
Erro na escolha do perfil do treinador
Quando uma direcção decide rescindir com um treinador ao fim de meio ano de trabalho, ao qual ofereceu um projecto de 4 anos, está a confessar publicamente um erro na avaliação do perfil do treinador que desejou. Quando os defeitos apontados ao treinador não se resumem a questões de habilitação técnica e profissional, mas ao qual se apontam de falhas de carácter, o erro é ainda maior. Foi isso que nos vieram dizer, em jeito de serviço de catering ou de diagnóstico médico, dois consócios com relações privilegiadas com a direcção, Eduardo Barroso e José Eduardo.
Quanto a mim o maior erro foi a escolha não ter recaído num treinador que funcionasse como uma mera extensão dos autores das contratações. O que o José Eduardo e demais moços de recados nos têm feito saber é que o presidente e o Inácio acham que não só são capazes de descobrir talentos, como têm ideias próprias sobre como, onde e quando os por a jogar. Cada convocatória de Marco Silva em que Slavchev, Gauld, Geraldes, Sacko e muitas vezes Tanaka ficavam na bancada era uma afronta a essas qualidades, facto que deve ter sido a ignição para o mal-estar que hoje se transformou no divórcio adiado que está à vista de todos. Falta saber quem deveria sair para entrarem os jogadores referidos. A pressão da classificação na Liga fez o resto.
O que aconteceu mesmo?
Com passar dos tempos tendemos a esquecer as circunstâncias em que os eventos ocorrem, com as suas causas a serem sepultadas sobre a poeira das opiniões, especulações e novas noticias. Mas tudo se resume ao momento em que o presidente impensadamente decide proferir uma declaração, nas vésperas de um jogo importante, deixando isolados e expostos treinador e grupo de trabalho.
Como devia ter sido?
Há duas perguntas que se tornam necessárias para avaliar a qualidade da decisão tomada ao proferir as referidas declarações e o respectivo impacto e consequências:
- Que treinadores - Jesus, Lopetegui, Jardim, Vitor Pereira, por exemplo - aceitariam sem reacção declarações com a gravidade como as de BdC tiveram, sobretudo do impacto que as mesmas têm na sua qualidade de líderes de um grupo de trabalho? Marco Silva não ficou encostado à parede, perdendo se as contestasse e perdendo se, calado, as assentisse?
- Que dirigentes ganharam desta forma, expondo os seus profissionais? Não é nos maus momentos e nos de maior pressão que se deve fazer exactamente o oposto que BdC fez, protegendo e aligeirando essa mesma pressão? Não foi essa uma das melhores qualidades apontadas exactamente a BdC e uma das razões do sucesso na época transacta?
Dito isto julgo que se torna desnecessário estender mais a argumentação neste parágrafo.
O que virá a seguir?
O pior desta crise é precisamente a indefinição e uma dolorosa constatação: será difícil de debelar, sem evitar consequências gravosas para o clube. Que treinadores que de facto interessem ao Sporting quererão estar no lugar de Marco Silva? Que jogadores olham para o Sporting como uma boa aposta profissional, incluindo os que gostaríamos que continuassem connosco?
É difícil imaginar que a actual situação se mantenha por muito mais tempo. Cada dia que passa sem que a direcção, em particular o presidente, se mantenha calada ante os inqualificável ataques ao carácter do treinador, sem se desmarcar de uma associação que a deveria envergonhar, não apenas cava o fosso de um possível desanuviamento e armistício, como sobretudo concorre para o insucesso do clube.
Não se trata, como erradamente muitos querem fazer crer, de ter que escolher entre o presidente e o treinador. Antes sim de escolher o que é o melhor para o clube. E aqui não tenho dúvidas que o melhor seria que, mesmo sem declarações publicas, houvesse a humildade, mas sobretudo a grandeza, de perceber que o melhor para o clube era TODOS reconhecerem os seus erros e perceberem que TODOS perderão de outra forma.
Não se trata, como erradamente muitos querem fazer crer, de ter que escolher entre o presidente e o treinador. Antes sim de escolher o que é o melhor para o clube. E aqui não tenho dúvidas que o melhor seria que, mesmo sem declarações publicas, houvesse a humildade, mas sobretudo a grandeza, de perceber que o melhor para o clube era TODOS reconhecerem os seus erros e perceberem que TODOS perderão de outra forma.
Bruno de Carvalho perderá se acabar por deixar cair o treinador de maduro, deixando claro que essa era a sua intenção inicial, só tendo recuado pela pressão exercida pelos adeptos. Onde fica então a convicção de estar a tomar a melhor decisão em prol dos interesses do clube? Ou era meramente uma questão pessoal?
Marco Silva perderá se sair agora, desta forma. Mas quem mais perderá será o Sporting, pois não creio nas virtudes de uma chicotada psicológica, desta forma , neste momento. Até porque as razões de uma campanha menos favorável na Liga não se esgotam no trabalho do treinador. Esta seria sempre uma época de transição, com o regresso, logo pelo melhor mas mais exigente caminho, das competições internacionais. E se a posição na Liga é a que é, a participação na Champions foi mais do que honrosa. Na Taça de Portugal eliminámos em casa um favorito. A Taça da Liga só não será melhor por causa de uma decisão mais do que questionável.
O balneário
É impossível que estes tristes episódios não tenham repercussões no balneário. Ao contrário do que se possa pensar, um balneário está quase sempre dividido pelas fracções que o compõem. O jogador profissional é tendencial e naturalmente egoísta: a sua carreira é curta, as boas oportunidades passam poucas vezes debaixo do nariz. A consciência colectiva, de grupo existe, mas apenas enquanto lhe é útil. As divisões também são naturais. Um treinador tem consigo os jogadores que jogam mais vezes e contra si os que ficam fora das suas escolhas por isso a possibilidade de o treinador sair é vista como uma oportunidade por uns e uma ameaça por outros. É esta a divisão permanente num balneário, mas, pelo que se vai vendo, o treinador merece a confiança da maioria.
O papel da comunicação social na crise
Diz-se de forma recorrente que o Sporting tem a generalidade da comunicação social contra si. Apesar de alguns casos pontuais o confirmarem, esta é uma queixa também muito comum entre os adeptos nossos rivais. Neste caso concreto, da actual crise, e da actuação geral da direcção e sobretudo do presidente, tem sido o Sporting o grande amigo dos meios de comunicação, ao fornecer diariamente alimento permanente para rotativas, gravadores e microfones. Alguns deles até descobrem comentadores nas filas de embarque dos aeroportos (RTP), deixando no ar um cheiro a frete e uma muito questionável gestão dos dinheiros públicos. Outros, como a Bola, continuam a fazer inquéritos de opinião sob a forma de noticias. Primeiro foi o despedimento de Marco Silva, agora é o Carlos Azenha.

















