Tal como esperado, as reacções ao "espalhanço do Dragão" não se fizeram esperar. Como notas dominantes as (1)"culpas de Marco Silva" e (2)"a falta que Jefferson fez", este ou aquele (3)"erro individual", a (4)"falta de atitude" e até a (5)"deficiente condição física" a marcarem grande parte das análises. Quanto a mim todas elas e não apenas uma concorreram para o desfecho final, uma vez que:
1- Marco Silva poderia ter sido mais feliz e até mais expedito na leitura do jogo. Demonstrou perceber o que se passou no relvado na flash interview, mas não o pareceu fazer no timming, mesmo tendo em conta as soluções que tinha à disposição, mesmo dentro das nossas limitações.
2- Não há nenhuma garantia que Jefferson fizesse muito melhor do que Jonathan, embora seja também verdade que pior seria muito difícil. Só quem não viu o jogo na Alemanha, ou esqueceu a forma como sofremos o primeiro golo, pode afirmar com "segurança" que seria melhor com ele.
3- Podemos e devemos falar de erros individuais, mas quase todos os que se registaram tiveram como base ou devem a sua existência a uma deficiente resposta colectiva versus mérito do adversário em explorar as nossas deficiências. É verdade que todos os lances de golo envolvem Jonathan e Tobias Figueiredo, em particular como deixaram exposto o espaço entre eles, e que estes quase sempre estiveram mal em vários outros lances. Mas é preciso não ignorar o mérito do adversário ao perceber que estes dois jogadores têm muito pouco tempo de jogo juntos, o que lhes limita a qualidade da resposta sempre que a exigência sobe. E que, ao contrário do jogo de 72 horas antes - onde Jonathan já não tinha estado bem, mas Tobias sim - tiveram muito maior cooperação e acerto dos homens que os precediam no meio-campo. Há demérito nosso como é indiscutível o mérito do adversário na forma como soube "espetar o garfo" na parte mais tenrinha da nossa equipa.
4- A falta da atitude é, normalmente, a "explicação tipo", ou "pau para toda a colher" quando não se percebe que o que se passa em campo é quase sempre um jogo de equilíbrios e de interacção de vários factores determinantes tais como: as decisões dos treinadores, dos jogadores e da diferença de qualidade individual, a que acresce o carácter aleatório do jogo e as respectivas consequências no estado de espírito versus resposta dos jogadores. Alguém duvida que a resposta da equipa seria outra caso tivéssemos sido nós a inaugurar o marcador?
5- A falta de condição física está intimamente ligada ao ponto anterior. É indesmentível que o adversário estava por cima neste factor, não jogou a meio da semana e foi rodando os jogadores. O que quanto a mim não faz sentido é invocar este parâmetro logo na análise à primeira parte. O efeito do golo foi devastador para a equipa, que deixou de responder como tal. Mas atribuir esse facto à condição física seria o mesmo que pretender que os jogadores não conseguiram mais do que meia hora de resposta, o que é um absurdo em alta competição. Contudo, não duvido que, no decorrer do jogo, este factor se tornou determinante, por se juntar à necessidade de dar resposta a um resultado adverso. Isso foi notório em alguns jogadores como Adrien e Tobias Figueiredo. O caso do defesa central foi mais notório, cometendo erros que normalmente não tem cometido. Seguramente que, com outra frescura física, responderá melhor.
Outros aspectos também apontados como tendo contribuído para a derrota:
6- Novamente o controlo da profundidade. Este é um dos aspectos que nos tem penalizado bastante este ano, mas desde a entrada de Tobias que não víamos o Patrício a ser obrigado a enfrentar o 1x1. A resposta está seguramente no treino mas também na forma como a equipa se organiza para o contrariar. Ontem houve sempre demasiado espaço e tempo para o portador da bola, com excepção ao calcanhar de génio de Jackson, que é impossível de contrariar. O facto de os golos surgirem sempre do mesmo lado também não foi casual, como tentei explicar acima. Muito dificilmente três daquelas bolas teriam entrado do lado oposto. Cédric sabe muito mais disto que Jonathan e tem mais tempo de jogo com Paulo Oliveira.
7- A falta de rotatividade é um dos erros mais apontados a Marco Silva, quanto a mim injustamente. O treinador está condicionado pelos jogadores que tem à sua disposição e pelo tempo que dispôs entre jogos. Parece-me no mínimo delirante pretender que se poderia ter substituído meia equipa no jogo anterior ou o que o fizesse no de ontem.
Mas se o tivesse feito para quinta-feira será que a resposta da equipa teria sido a mesma?
Será que se perdoaria ao treinador que não tivesse feito tudo para passar a eliminatória?
Esta discussão seria aceitável se a opção de rodar for feita pontualmente, por exemplo André Martins por Adrien, Mané por Carrillo ou Nani, etc. Podemos colocar a questão também relativamente a Gauld ou Wallyson, embora as suas prestações oscilantes na B devessem servir para arrefecer os ânimos. Estes apelos fazem-me lembrar os de há precisamente um ano: oh pá, mete o Schikabala!
Onde teria feito diferente de Marco Silva seria nas substituições, que é onde me parece que o seu trabalho pode ser criticado. A perder o jogo e o respectivo controlo, tocaria a reunir atrás, sacrificando Adrien por Martins, juntando-o a João Mário, à frente de William, que estava imperial até ao golo, mas muito mal secundado. Nani e Carrilo jogariam mais próximos de Montero, juntado-se a ele na primeira reacção à perda e pressão na construção, onde estivemos irreconhecívelmente apáticos
É muito curioso, ou talvez seja apenas a mera ciclotimia que aflige o
adepto comum, que em dois dias se tenha esquecido quer o trabalho de
Marco Silva, quer mesmo dos jogadores, num dos melhores jogos que o
Sporting fez nos últimos tempos, ainda por cima com o segundo
classificado do campeonato alemão.
Não foi o jogo de quinta-feira a prova de que o Sporting não tem um ponta-de-lança à altura das suas ambições e que, com a qualidade do seu jogo e volume de oportunidades criadas, se o tivesse, estaria hoje a pensar receber o Inter na próxima eliminatória da UEFA e talvez com menos empates nos jogos da Liga doméstica?
De uma forma mais abrangente não são estes "apertos" com as diversas competições a prova de que o Sporting está ainda muito atrás dos seus adversários e rivais e muito mais perto do nível inferior dos que o seguem na classificação?
Isto não invalida considerar que a actual base de habituais titulares e suplentes mais utilizados são uma boa base de trabalho, precisando de estar devidamente acompanhados de outros de valor semelhante. Exactamente onde se começou a falhar este ano, na preparação da época, com as consequências agora mais à vista de todos. Infelizmente, para lá destes, não há muito talento e esse é que habitualmente faz a diferença. Toda a diferença.