Porquê renovar com Jesus?
Em principio acabaram-se os rumores sobre a permanência ou saída de Jorge Jesus do comando da equipa técnica do Sporting. Em principio, porque em futebol, como certamente na vida, o que agora é verdade pode não o ser daqui a pouco. Só por isto a renovação ( e muito do dinheiro que ela implica) já está em parte justificada, uma vez que a instabilidade que gera a possibilidade de uma mudança de treinador, tem efeitos de todo indesejáveis e de forma transversal num clube.
Mas porquê renovar com Jesus, se ele ainda tinha mais dois anos do primeiro contrato parar cumprir, é talvez a principal pergunta que hoje se coloca. Obviamente porque Jesus tem mercado. Isto é, não faltam clubes que o queiram. Ao aumentar-lhe o ordenado o Sporting não elimina a possibilidade de algum nababo depositar um TIR de notas à entrada da SAD e levar o treinador. Mas para isso tem de contar com a vontade do treinador.
Ora, parece claro que Jesus não quer partir de imediato para uma reforma dourada e que ir para o estrangeiro só o atrairia caso pudesse somar ao muito dinheiro que certamente auferiria, o prestigio de lutar pelos principais troféus que um treinador pode ambicionar: vencer uma das duas melhores ligas nacionais e a Liga dos Campeões. A ideia de ser treinador num país onde o futebol não é vivido com a paixão que é sabido JJ lhe dedica não o alicia e parece óbvio que nenhum dos grandes clubes o requisitou.
Também não me parece que Jesus quisesse passar por mais um divórcio traumático como o que viveu (e viverá por mais algum
tempo...) no final da época passada e toda a que agora finda. Ninguém
terá dúvidas que seria o que aconteceria caso o treinador aceitasse a
proposta do FCP. Mas também não tenho dúvidas de que Jorge Jesus não teria problemas em assumir essa ruptura, apesar das consequências. Aumentar-lhe o ordenado dilui parcialmente esse impulso e, ao aceitar ficar mais um ano, o treinador assume duas coisas: (a) que sente que não completou o ciclo que sonhou realizar no clube e (b) que acredita que o êxito no Sporting lhe é possível, apesar de saber que, no que diz respeito aos meios (estrutura, dinheiro, poder e influência), parte atrás dos dois rivais.
Pode-se gostar muito ou pouco de Jorge Jesus, mas é hoje claro que a sua presença no Sporting nivelou por cima a nossa capacidade competitiva. Na época que agora finda significou até ainda mais: o Sporting tornou-se, pelo futebol jogado e pelo tempo que liderou o campeonato, no principal favorito ao título, o que só não aconteceu quase por acaso. Ora isso vale muito dinheiro, podendo considerar-se que a soma que se paga ao treinador é um investimento e não mera despesa. Foi isso que Jesus também significou no SLB, embora a ingratidão e o despeito tentem reescrever esse passado.
Claro que se as contas se reduzirem a duas parcelas, onde de um lado estão os ordenados pagos e os troféus ganhos, o dinheiro parece mal empregue. Mas isso é ignorar que a qualidade do futebol jogado valorizou também jogadores que podem significar a sustentabilidade a curto/médio prazo das contas da SAD e onde a qualificação directa para a Liga dos Campeões não pode ser ignorada. Da mesma forma há que considerar que a presença de um treinador com as qualidades e ambição de Jesus significou também uma oportunidade de reorganização e modernização do nosso futebol, exigindo da SAD outros meios e outros métodos. A possibilidade de vermos aterrar em Alcochete Sarr's, Tanaka's, Rabia's continua a existir pela contingência que é contratar jogadores, mas dificilmente ocorrerão vários no mesmo ano.
Retrospectivamente é claro que a aposta em Jorge Jesus compensou. Mas ninguém duvide que, ao aceitar de forma tácita as dúvidas
existenciais do treinador relativamente ao cumprimento do compromisso que tinha firmado há menos de um ano, abriu a
possibilidade de esta questão se voltar a colocar no final de cada
época. Parece-me inútil e até ingénuo analisar esta questão sob o prisma ético. Do ponto de vista financeiro a posição do Sporting está agora melhor defendida, uma vez que uma possível rescisão será melhor remunerada. Do ponto de vista desportivo, assegura-se a estabilidade na direcção técnica e com ela a promessa da continuidade no topo.
Mas é apenas uma promessa, uma vez que tudo recomeçará do zero na próxima temporada, daí que esta boa noticia não deve ser encarada com euforia. Basta lembrar o que foi o percurso de JJ no SLB para recordar que, depois do impacto da sua entrada, conquistando o titulo que fugia há vários anos, JJ escorregou três vezes consecutivas perante o FCP de Vilas Boas (1) e Vítor Pereira (2). Nunca é demais lembrar que não corremos sozinhos e se há alguma lição a extrair deste campeonato é que este só está ganho na última jornada.


























