sexta-feira, 20 de maio de 2016

Porquê renovar com Jesus?

Em principio acabaram-se os rumores sobre a permanência ou saída de Jorge Jesus do comando da equipa técnica do Sporting. Em principio, porque em futebol, como certamente na vida, o que agora é verdade pode não o ser daqui a pouco. Só por isto a renovação ( e muito do dinheiro que ela implica) já está em parte justificada, uma vez que a instabilidade que gera a possibilidade de uma mudança de treinador, tem efeitos de todo indesejáveis e de forma transversal num clube.

Mas porquê renovar com Jesus, se ele ainda tinha mais dois anos do primeiro contrato parar cumprir, é talvez a principal pergunta que hoje se coloca. Obviamente porque Jesus tem mercado. Isto é, não faltam clubes que o queiram. Ao aumentar-lhe o ordenado o Sporting não elimina a possibilidade de algum nababo depositar um TIR de notas à entrada da SAD e levar o treinador. Mas para isso tem de contar com a vontade do treinador.

Ora, parece claro que Jesus não quer partir de imediato para uma reforma dourada e que ir para o estrangeiro só o atrairia caso pudesse somar ao muito dinheiro que certamente auferiria, o prestigio de lutar pelos principais troféus que um treinador pode ambicionar: vencer uma das duas melhores ligas nacionais e a Liga dos Campeões. A ideia de ser treinador num país onde o futebol não é vivido com a paixão que é sabido JJ lhe dedica não o alicia e parece óbvio que nenhum dos grandes clubes o requisitou.

Também não me parece que Jesus quisesse passar por mais um divórcio traumático como o que viveu (e viverá por mais algum tempo...) no final da época passada e toda a que agora finda. Ninguém terá dúvidas que seria o que aconteceria caso o treinador aceitasse a proposta do FCP. Mas também não tenho dúvidas de que Jorge Jesus não teria problemas em assumir essa ruptura, apesar das consequências. Aumentar-lhe o ordenado dilui parcialmente esse impulso e, ao aceitar ficar mais um ano, o treinador assume duas coisas: (a) que sente que não completou o ciclo que sonhou realizar no clube e (b) que acredita que o êxito no Sporting lhe é possível, apesar de saber que, no que diz respeito aos meios (estrutura, dinheiro, poder e influência), parte atrás dos dois rivais.

Pode-se gostar muito ou pouco de Jorge Jesus, mas é hoje claro que a sua presença no Sporting nivelou por cima a nossa capacidade competitiva. Na época que agora finda significou até ainda mais: o Sporting tornou-se, pelo futebol jogado e pelo tempo que liderou o campeonato, no principal favorito ao título, o que só não aconteceu quase por acaso. Ora isso vale muito dinheiro, podendo considerar-se que a soma que se paga ao treinador é um investimento e não mera despesa. Foi isso que Jesus também significou no SLB, embora a ingratidão e o despeito tentem reescrever esse passado.

Claro que se as contas se reduzirem a duas parcelas, onde de um lado estão os ordenados pagos e os troféus ganhos, o dinheiro parece mal empregue. Mas isso é ignorar que a qualidade do futebol jogado valorizou também jogadores que podem significar a sustentabilidade a curto/médio prazo das contas da SAD e onde a qualificação directa para a Liga dos Campeões não pode ser ignorada. Da mesma forma há que considerar que a presença de um treinador com as qualidades e ambição de Jesus significou também uma oportunidade de reorganização e modernização do nosso futebol, exigindo da SAD outros meios e outros métodos. A possibilidade de vermos aterrar em Alcochete Sarr's, Tanaka's, Rabia's continua a existir pela contingência que é contratar jogadores, mas dificilmente ocorrerão vários no mesmo ano.

Retrospectivamente é claro que a aposta em Jorge Jesus compensou. Mas ninguém duvide que, ao aceitar de forma tácita as dúvidas existenciais do treinador relativamente ao cumprimento do compromisso que tinha firmado há menos de um ano, abriu a possibilidade de esta questão se voltar a colocar no final de cada época. Parece-me inútil e até ingénuo analisar esta questão sob o prisma ético. Do ponto de vista financeiro a posição do Sporting está agora melhor defendida, uma vez que uma possível rescisão será melhor remunerada. Do ponto de vista desportivo, assegura-se a estabilidade na direcção técnica e com ela a promessa da continuidade no topo.

Mas é apenas uma promessa, uma vez que tudo recomeçará do zero na próxima temporada, daí que esta boa noticia não deve ser encarada com euforia. Basta lembrar o que foi o percurso de JJ no SLB para recordar que, depois do impacto da sua entrada, conquistando o titulo que fugia há vários anos, JJ escorregou três vezes consecutivas perante o FCP de Vilas Boas (1) e Vítor Pereira (2). Nunca é demais lembrar que não corremos sozinhos e se há alguma lição a extrair deste campeonato é que este só está ganho na última jornada.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Época 2015/16: os melhores e os outros

De forma breve e sucinta uma apreciação à prestação individual dos jogadores que compõem o plantel do Sporting. 

Os melhores: Patrício, Coates, Adrien, João Mário, Ruiz e Slimani.

GUARDA-REDES

Rui Patrício: "The one and lonely". Tanto assim foi que Boeck acabou por perceber que o melhor era continuar a carreira noutro lugar. Fez a melhor época de sempre desde que assumiu a titularidade no Sporting, chegando assim finalemente ao patamar que muitos lhe auguravam.

DEFESAS LATERAIS
 
João Pereira: Desaparecido em combate de forma misteriosa, até porque parecia vir a melhorar nos últimos jogos realizados.

Jefferson: Se fosse tão bom a defender como é a fazer cruzamentos seria um dos melhores no seu lugar. Mas a displicência com que defende deixa sempre muitas interrogações sobre a titularidade, agora que ganhou dois concorrentes de peso e altura.

Zeeglaar: Chegou em Dezembro e, sem deslumbrar, deixou sobretudo a interrogação de como será se começar o ano com Jesus. 

Bruno César: acabou o ano como o melhor defesa lateral e, ao nível em que o fez, é o principal candidato ao lugar na próxima época. É mais inteligente que a concorrência, o que o leva a perceber melhor o que a função lhe exige.

Schelotto: É uma aquisição dificil de perceber, se atendermos à dispensa de Miguel Lopes. Porém a sua entrega total tem tudo para o tornar num ídolo das bancadas, o que não disfarça totalmente as suas limitações. Mas os progressos foram evidentes, no que beneficiou da aposta do treinador e consequente tolerância.

DEFESAS CENTRAIS

Tobias Figueiredo: a precisar de jogar, sendo provável que rode no próximo ano.

Ewerton: aquela que parecia ser a época de afirmação no clube tornou-se na época de decepção. De titular passou a central menos utilizado, isto mesmo tendo em conta o longo período de ausência de Naldo e Paulo Oliveira por lesão. Disse-o ainda no estádio, aquela saída no final do jogo e com o prolongamento à vista, no dérby da Taça, ditou-lhe o destino. 

Naldo: Entrada a exibir alguma dificuldade, em particular na manutenção da linha e na definição de quando descer ou ficar em contenção. Superou-se pela concentração, acabando traído por uma lesão prolongada. Permanece a dúvida se ficará.

Paulo Oliveira: Também traído por uma lesão mas a chegada de Coates e a melhoria que se verificou indicam que a sua dedicação e entrega totais podem não chegar para ser titular.

Ruben Semedo: A revelação depois de ser resgatado ao empréstimo. Termina de forma imperial - a sua exibição em Braga foi de uma autoridade segurança soberbas - a confirmar os elogios públicos de JJ e parecer sepultar de vez a ideia de  instabilidade interior a opor-se à sua afirmação.

Coates: Só as lesões o podem afastar da titularidade. O melhor central de longe e um dos melhores do campeonato.

MÉDIOS

William Carvalho: começo tardio, por força da lesão e, dizem algumas más-línguas, instável durante o período de renovação. Talvez também o que mais dificuldades revelou a adaptar-se a um modelo diferente, que lhe retira protagonismo. Terminou em ascensão, veremos que campeonato europeu será capaz de realizar, uma vez que continua a ser um grande jogador e amplamente sinalizado no exterior.

Adrien: A melhor época de sempre, confirmando tudo o que se adivinhava desde a grande época na Académica. Talvez a melhor forma de definir a sua importância, e para lá da confiança total do treinador, seja a diferença que se notou quando não jogou. Para lá disso, um capitão à imagem das melhores referências dos que conhecemos com aquela braçadeira.

João Mário: Grande jogador, grande personalidade. Um regalo para os olhos a inteligência que põe em cada execução. Inteligência que lhe permite jogar em qualquer lugar. Para ser o tal grande jogador que parece mesmo que vai ser falta-lhe apenas melhor indice de eficácia na finalização, ele que até tem um bom remate e aparece muitas vezes em condições de finalizar.

Aquilani: uma decepção confirmar que já passou algures no tempo o zénite. Continua a ter uns pés magnificos que o resto do corpo não acompanham, especialmente quando é necessário um pouco mais de intensidade. Não deve continuar.

AVANÇADOS

Gélson Martins: o menino de Jesus. Entrada surpreendente com algum ocaso com a chegada de Bruno César. Termina a prometer ser importante no próximo ano.

Mané: Gélson ofuscou-o quando parecia ser um dos que mais poderia ganhar com o futebol ofensivo de Jesus. A sofrer dores de crescimento num momento de definição da carreira. Falta saber se será um Djaló um Boa-Morte, este o máximo que me parece ao seu alcance.

Matheus Pereira: O que me surpreende é que, destes primeiros três, era o que parecia ter mais condições de ser protagonista. Atendendo à idade, ter passado ao lado da época não põe em causa o seu potencial, quem sabe não terá vivido um dos momentos mais importantes da sua carreira. É que às vezes mais vale passos seguros em terreno estável que subidas meteóricas sem sustentação. Sob escrutínio atento.

Teo Guttierrez: Sobreviveu ao Natal e ressuscitou pela Páscoa, quando parecia condenado. Não apaga porém a ideia de que não ia à mesma missa que Slimani.

Bryan Ruiz: ficará para sempre ligado à história do campeonato pelos jogos que acabaram por definir a perda definitiva do primeiro lugar e a fuga do título. Tem o seu quê de injusto pelo que deu à equipa e pelo requinte e distinção do seu futebol. Mas é também um pouco a história que se repetiu em muitos momentos da sua carreira e a explicação porque está connosco. 

Slimani: Como já aqui disse, foi talvez o jogador cujos progressos mais me surpreenderam. Acaba a época a pedir e a merecer um outro campeonato. Oxalá encontre um treinador que lhe permita continuar a crescer. A confirmar-se a sua saída, deixará muitas saudades e um enorme problema para resolver.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A melhor equipa

Estou a ficar velho mas ao contrário do que pensava, não estou mais amargo com a vida. Bem pelo contrário, aprecio-a cada vez mais. Em contrapartida, pelo embaraço em que frequentemente sou colocado, emociono-me com mais frequência, quer com estímulos de sinal negativo, quer por boas razões. Já antes, durante a semana, havia ficado do tamanho de um grão de areia perante a excelente iniciativa do Sporting e da Fundação Sporting, quando o plantel visitou o I.P.O. Ontem dei comigo, no final do jogo, a verter umas lágrimas que teimosamente não responderam à minha ordem de permanecerem no seu lugar de origem.

A tristeza era natural e mais que justificada por ficar tão perto da conquista do campeonato nacional e porém ter falhado. Mas maior ainda era a emoção de sentir a grandeza única do meu clube num momento tão difícil: os adeptos que tinham pintado Braga de verde e branco demonstraram que acreditar é ir até ao fim. E aí, quando o sonho ficou assim mesmo, um sonho, prestaram o tributo que a equipa que tão bem nos representou neste campeonato merecia. Tributo que se repetiu noite dentro em Alvalade, onde não me parece (espero) que se tenha celebrado outra coisa que não apenas o regresso do clube à discussão do titulo.

Definitivamente foi a emoção que me traiu, porque para quem ama um clube assim as razões de tristeza não se sobrepõem ao enorme orgulho de lhe pertencer. Não é fácil ser do Sporting, tudo parece ser sempre um pouco mais difícil para nós. Desta vez foi a mais fina ironia  de não bastar o elevadíssimo  número de pontos que normalmente significariam um campeonato relativamente fácil. Ou as grandes exibições e o elevado número de golos a contrastar com uma defesa que dificilmente se deixava bater. Todos os erros porém parecem custar-nos o dobro que aos demais.

Claro, podia ser de outro clube qualquer, que ganhasse mais vezes. Porém eu teria que ser outro que não eu. Como várias vezes aqui confessei, sou um Sportinguista sem pedigree, não tive ninguém que me fizesse ou ensinasse a gostar do Sporting. Todos os actos que paulatinamente me foram ligando a este clube foram conscientes e voluntários. A primeira vez que fui a Alvalade foi pelo meu próprio pé, sozinho. E assim muitas vezes acorri aos estádios pelo país fora*. Talvez por isso mesmo a minha relação com o clube tem sido à prova de tudo e de todas as provas. 

Deixarei para mais tarde o balanço do campeonato e as respectivas incidências, se ainda o entender oportuno. Mas obviamente que a pergunta que se arrastará ainda por muito tempo na minha cabeça - e certamente de quase toda a gente - é como perdemos este campeonato. A tentação de atribuir essa responsabilidade a alguém ou a um determinado momento é muito grande. Contudo, explicar assim o resultado de uma prova onde a regularidade e consistência de resultados é premiada, parece-me redutor.

As discussões centram-se agora em deliberar qual foi a melhor equipa. Esta não é uma discussão sobre a equipa que mais gosto e por isso a resposta para mim é simples e clara: a melhor equipa foi a que ganhou o campeonato, a do SLB. Mas foi-o "apenas" por isso mesmo, porque cumpriu com sucesso aquele que é o melhor e mais desejado objectivo: ser campeão. Ter jogado o melhor futebol e ter a proposta de jogo mais interessante para os adeptos não é o suficiente para ser melhor.

Ambas as equipas foram terrivelmente regulares na fase final  e ambas oscilaram em momentos diferentes da época. Os resultados dessas oscilações de performance ditaram o vencedor. Não perdemos por causa de um único jogo, de um único falhanço, mas do somatório de todos eles, obviamente.

Melhores são os que ganham. Digo-o hoje porque quero que digam isso de nós quando ganharmos, como espero e acredito que voltará a acontecer em breve.

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*Uma vez que o post descambou para um tom pessoal pouco habitual, vou um pouco mais longe. Hoje tenho a sorte de já não ir sozinho à bola. O pouco que dei até hoje ao clube o Sporting devolveu-me com profunda generosidade nos Sportinguistas que colocou no meu caminho. Não vou nomear nenhum porque, não sendo muitos, corria sempre o risco de me esquecer injustamente de alguém. Em nome de todos fica o meu reconhecimento ao Solar do Norte, pelo ponto de partida para sensação de pertença a grande clube que é feito de Grande Gente.

E, claro, tem sido sempre um prazer contornar a impessoalidade do anonimato das redes sociais para conhecer adeptos com os quais normalmente acabo a concluir que o que nos une - o Sporting Clube de Portugal - é sempre muito mais do que as diferenças de opinião.

Muita competência, pouca virtude e para o ano há mais.

Apesar de ainda disputarmos títulos nalgumas modalidades, ninguém levará a mal que se ordenem um par de reflexões sobre a época de futebol que (para o Sporting) ontem terminou, congratulando e destacando desde logo a enorme competência exibida pela sua equipa ao longo da temporada. Passeando classe por estádios tradicionalmente tão difíceis quanto os da Luz, Dragão ou Braga, o Sporting demonstrou em nº de pontos somados mas também em confronto directo ter sido factualmente a melhor equipa de futebol em 2015/16, mérito integralmente imputável aos seus treinadores (Jorge Jesus e demais equipa técnica) e jogadores (mais ou menos titulares todos decerto contribuidores). Em virtude dos resultados e porque um dos objectivos da competição é premiar um vencedor, os méritos do Sporting vêem-se nesta altura ofuscados pela glória do tri-campeonato conquistado pelo Benfica - rival que importa parabenizar. Ainda assim, méritos que não perdem os seus intrínsecos valor e verdade: o Sporting foi factualmente a melhor equipa de futebol em 2015/16. Em resultado duma evidente superioridade, ao invés da conquista de um 2º lugar o Sporting perde por culpa própria um campeonato que esteve ao seu alcance. Não obstante os tradicionais e inconsequentes não-argumentos que remetem para a arbitragem, evidencia-se uma vez mais a natureza estritamente desportiva daquelas que são as principais causas de sucesso em futebol: treinadores e jogadores. Tudo o mais existe mas para efeitos de futebol é secundário. Tudo o mais pode contribuir ou desajudar mas é secundário.

Tudo o mais como dirigentes. Tal como os treinadores são o principal motor duma equipa de futebol mas vêem a sua influência esgotar-se quase por inteiro no apito inicial, importaria que os dirigentes percebessem que a partir do momento em que as suas escolhas estão feitas (normalmente exercidas na pré-temporada), para o bem e para o mal os principais intervenientes passam a ser outros. Por entre as qualidades de João Mário, Bryan Ruiz, Jorge Jesus, Slimani, Mitroglou, Jonas, Sanches ou Lindelöf, sobressaiu infelizmente a falta de virtude noutros não-intervenientes. 2015/16 demonstrou-nos novamente que o principal problema do futebol português e dos clubes portugueses não são meios (em falta) mas pessoas (em excesso). João Gabriel, Bruno de Carvalho, Pedro Guerra e outros revelaram ao longo da época numa cadência quase diária como os egos de alguns indivíduos atingem severamente os clubes que servem. Não se choque com a proposição porque ainda que um seja presidente e outros outras coisas quaisquer, a matéria de que são feitos é a mesma. De que forma separamos as instituições destas pessoas que supostamente deveriam servi-las? Não separamos. Copiando os piores tiques a que o Benfica nos habituou nos últimos 10 ou mais anos, tanto Sporting como Benfica (embora no seu caso sinta naturalmente menos pena) viram-se arrastados por jogos onde normalmente não se disputa mais do que protagonismo e vaidade. Neste caso, por se tratarem de clubes com muita exposição, as figuras tristes não se ficam por quem as pratica.

Parabéns ao Benfica pelo título. Parabéns ao Sporting por ter sido a melhor equipa. Esgotando-se a influência de um trabalho de 6 anos, podemos com segurança presumir que para o ano só um dos clubes estará em condições de repetir os pontos somados nesta temporada. As perspectivas de sucesso são por isso muito reais.

sábado, 14 de maio de 2016

O Sporting entre o sonho possível e a realidade cruel

Ninguém sabe como vai acabar este campeonato e por isso até se verificar o seu final o sonho de ser campeão é perfeitamente justificado. E quando digo "sonho" não estou a falar de algo impossível de acontecer. O futebol tem-se encarregue de, ao longo dos tempos, dar grandes lições de humildade a quem já corria para a meta, de braços erguidos, a cantar vitória.

Mas usar a palavra em causa justifica-se porque entre a sua realização e o momento actual está a dura e empedernida realidade. Estamos em desvantagem à partida para a última jornada, agravada por dois factos em nosso desfavor: jogamos fora e temos um adversário bem mais difícil de ultrapassar. Para a realidade permitir o sonho precisamos de uma conjunção de vários factores, mas que não se assemelha a um quimérico realinhamento cósmico. 

Termine como termine, não há nenhuma razão de partir em busca de prémios de consolação. Atendendo ao que foi a história do campeonato até aqui, e em particular a nossa, não há qualquer consolação para a possibilidade de não sermos campeões este ano. Muito menos festejar o segundo lugar como se do campeonato se tratasse, como já se vai ouvindo e lendo por aí.

Será obviamente muito difícil de encaixar a possibilidade de não ser campeão e ficar em segundo lugar. Conformar-se e encontrar aí razões para qualquer celebração constituiria uma indesculpável menorização do que deve ser estatuto do Sporting. A tentação de construir uma narrativa onde a desculpa funcione de forma desresponsabilizadora dos nossos próprios erros também pode ser grande, mas esse será a forma de não crescermos e nos tornarmos ainda melhores.

Aconteça o que acontecer não deixarei de sentir orgulho pelo campeonato realizado pela nossa equipa. Não é tanto com gostaria e parecia ser possível, mas só pode haver um campeão. Aceitar esse facto com desportivismo, depois de tudo ter feito para o conseguir, é também uma forma de honrar a nossa camisola, o nosso emblema, a nossa história e o legado de todos quantos nos precederam.O Sporting não acabará amanhã e o futuro é já a seguir.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O ferrari vermelho, o colete encarnado e o barrete verde

O spin da máquina benfiquista continua a trabalhar bem. Veja-se o caso das nomeações para a última jornada o que foi dito sobre a possibilidade da nomeação do Hugo Miguel e o que se diz agora (hoje, depois de escrito este artigo, já há gosma a escorrer sobre a matéria...). Uma atoarda lançada de forma cândida por quem sabe antecipadamente que o que está a afirmar é mentira, uma vez que ligação do árbitro à Macron não é ao nível de o tornar elegível em caso de prémio.

O mais extraordinário é que não há até agora Fontelas* de onde jorre o mínimo repúdio pelo ignóbil atentado à honorabilidade do árbitro quando se apontou a possibilidade de ele ser parte interessada no titulo do Sporting. A indignação ou falta dela, consoante quem fala, é o melhor indicador para saber de quem é a voz do dono.

O que é lamentável, apesar de não ser surpreendente, é ver que o spin rasteiro foi o suficiente para Vítor Pereira ficar em sentido. É difícil não pensar que o spin e a decisão resultaram de articulação entre as partes, tal a precisão da máquina e o seu resultado. Senão, vejamos: além de colocar um árbitro que nem sequer é internacional (Nuno Almeida) quando o podia fazer, oferece ao auxiliar Pais António o prémio de se poder juntar à possível festa no final do jogo. É que é tão descarada a tendência do "bandeirinha" que o faz ser conhecido no meio como o ferrari vermelho.

A espuma dos dias tem o dom de fazer naufragar algumas memórias, pelo que se justifica trazer outra vez à tona o nome e sobretudo o currícullum de Pais António. Para não ser fastidioso, vou apenas lembrar dois eventos: a mão de Rony em 2006, e o "penalty" marcado a Pedro Silva que mudaria o sentido do jogo e o resultado final daquela que ainda hoje é conhecida como a Taça Lucilio, em 2009. Em ambos os casos um mesmo actor: Pais António. 

Quem se lembra do lance (quem o poderá ter esquecido) certamente que recorda a proeza e inovação que constituiu a marcação do penalty, com indicação do auxiliar que estava a mais de 50 metros do local onde o lance ocorreu, enquanto o seu colega a quem competia ajuizar nada assinalou. E o que dizer das justificações então dadas?


Obviamente que a missão de arbitrar é difícil e muitas vezes ingrata. Mas o que é mais intrigante em tudo isto é como é que um personagem como este (e tantos outros), e depois de erros tão grandes e de tão importantes consequências, consegue escapar entre os pingos da chuva e fazer uma carreira. Lucilio Baptista, por exemplo, depois de uma carreira "auspiciosa" também continua ligado à arbitragem. Em quantas actividades existe este nível de impunidade? Como é que ela é possível numa industria que movimenta milhões?

Infelizmente a isto Vítor Pereira vai respondendo com o barulho ensurdecedor das suas nomeações. E, das poucas vezes que fala, é quase sempre uma oportunidade perdida no sentido de clarificar ou desanuviar. Será essa a marca da sua passagem pela arbitragem, uma profunda decepção que a ausência de árbitros portugueses no próximo europeu é merecido epitáfio. Pode ostentar o barrete verde para dizer que é Sportinguista, mas é de colete encarnado vestido que abandona a arbitragem.


Por certo não lhe faltarão homenagens, como é habitual aqui na Lusa Pátria. Eu dava-lhe o prémio António Garrido porque afinal partilham a mesma dissimulação, só escolheram foi cores diferentes.

* Fontelas Gomes é o actual presidente da APAF e putativo presidente do CA da FPF

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Grunhos tão grandes como os maiores da Europa

Não vou perder tempo a comentar a transferência de Renato Sanches, como não perco normalmente tempo a comentar aqui os assuntos relativos ao SLB. Mas não deixo passar em claro as atitudes que levaram muitos adeptos do Sporting até às redes sociais, em particular aos sítios do Bayern de Munich, contestando a transferência, argumentando contra a veracidade dos números ou a qualidade do jogador. Alguns desses comentários, efectuados em inglês macarrónico, chegaram ao desplante de serem realizados utilizando no perfil o nome e a imagem do presidente do clube, Bruno de Carvalho.
É certo que a histeria que se apossou de grande parte da comunicação social desde o aparecimento do jogador passou os limites do ridículo, chegando a ser nauseante, no que a ilustração acima é um dos abundantes exemplos. Mas isso não valida que a reacção desça ao mesmo nível e até a ultrapasse. Uma coisa é divertirmo-nos à custa da imbecilidade de uns quantos, outra bem diferente é participarmos dela, arrastando também o nome e a imagem do clube à ignomínia.

Quanto mais não fosse, não é demais lembrar que estamos a falar de um miúdo de 18 anos, de origens modestas, cuja responsabilidade no seu endeusamento lhe é certamente alheia, podendo até reverter em seu prejuízo a breve trecho. O melhor mesmo é isto ser feito por uma turba que frequentemente bate com a mão no peito, a arrogar-se o direito de perorar sobre os valores e a grandeza do Sporting Clube de Portugal. A ideia de um clube grande, tão grande como os maiores da Europa não podia estar mais distorcida em muitas cabeças.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

domingo, 8 de maio de 2016

Sporting - Setúbal: sarrdinha miúda comida à manita

Foi tão abismal a diferença entre as equipas e foi tão demolidora a exibição da equipa do Sporting que o titulo resume o que se passou no relvado e permite a economia das palavras. O Sporting tem agora o jogo de Braga para ganhar e confirmar assim a ideia que vem transmitindo de ser a equipa cuja proposta de jogo é não só a mais aliciante como também a mais consistente. 

Das incidências da partida salientava a obra prima desenhada no golo de Ruiz, a destacar do elevado nível alcançado em todos os golos. Nos destaques individuais a grande forma alardeada por Adrien, cada vez mais um jogador que enche o campo e carrega a equipa, um verdadeiro capitão. Aquele amarelo é bem capaz de ter sido por causa disse mesmo, não? 

Para lá de um soberbo Ruiz, destacaria também a prestação de Gélson. A importância do seu golo no desbloquear do resultado é grande e ainda por cima com elevada nota artística. Mas também porque residia sobre os seus ombros a responsabilidade de substituir João Mário, um verdadeiro pilar nesta equipa.

E agora? Agora é continuar a sonhar. O que esta equipa vem fazendo é verdadeiramente notável e é a percentagem de razão que todo sonho necessita para justificar a sua existência.Balanços fazem-se no final.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Meia dúzia de palavras sobre a recente decepção no andebol

Foi sem surpresa mas com grande mágoa que todos assistimos ontem ao soçobrar da equipa de andebol ante o ABC, no apuramento para a final do nacional do respectivo campeonato.  Sem surpresa porque o que se foi vendo deste conjunto ao longo do campeonato não era digno de grande confiança. 

Nos momentos decisivos de várias partidas vimos a equipa ir deslizando, até acabar por ser presa relativamente fácil dos adversários. O seu principal defeito sempre pareceu residir no facto de não confiar nela mesma e, nessas circunstâncias, não ser digna de nela depositarmos as nossas esperanças. A forma recorrente como sofreu pontos em superioridade numérica é algo para lá do aceitável.

Para o imprescindível escrutínio de responsabilidades diria o seguinte sobre os intervenientes directos:

O clube/os dirigentes - O Sporting fez um esforço notável no sentido de ficar à altura do prestigio granjeado no passado nesta modalidade. Aos poucos foi encostando ao principal dominador, o FCP, tendo ficado a segundos de mudar o curso dos registos mais recentes, no ano passado. Este ano esse esforço foi ainda maior, tendo inclusive recrutado um técnico de renome, o basco Zupo Equisoian. 

Não tenho dúvidas da bondade das intenções e provavelmente também subscreveria a contratação de um técnico com a experiência e o palmarés do espanhol. Mas, no balanço que se seguirá, a pergunta se a continuidade do trabalho de Frederico Santos não deveria ter sido melhor ponderada é incontornável. Isto atendendo ao facto, já mencionado, de termos ficado a escassos segundos de sermos campeões (e da forma que se sabe...) e ainda por cima no pavilhão do adversário. 

Ainda no âmbito dessa análise parece-me também pertinente a forma como se tem usado a arbitragem como desculpa sempre que os resultados não são conseguidos. Quando uma equipa começa logo por não se comportar como tal e exibe tantas falhas em momentos decisivos, a questão arbitral deveria ficar para o fim, sob pena de não atacarmos os problemas e, dessa forma, eles se eternizarem.

Por último a questão dos meios. Quando se perde com um adversário com menos meios como é agora o ABC é natural que se justifique a suspeita de que não se trabalhou bem ou falhou em algum momento. Onde, como, quem e quando? Aumentar simplesmente os orçamentos equivalerá, nesse caso, a atirar dinheiro para cima dos problemas. 

O treinador - Tecidas as loas acima ao seu curriculum e experiência há que dizer que do lado treinador algo falhou. Nos vários jogos que vi sempre me impressionou a forma fácil como a equipa era batida, mesmo em superioridade numérica. Ora pode começar aqui a aparente falta de estofo mental que falava acima. 

Uma equipa que defende mal nunca se sente segura, uma vez que sabe que, a qualquer momento, pode sofrer. Um bom exemplo é olhar o que tem sido este ano a equipa de futebol de Jesus que, por força da sua consistência defensiva, está a anos-luz das tremideiras colectivas de anos anteriores. Ao ponto de eu dizer a brincar que com Jesus até com o Polga e o Gladstone arriscávamos a ser campeões.

O que é importante agora avaliar no caso do treinador é se, tratando-se do primeiro ano, se uma melhor adaptação e conhecimento à nossa realidade é suficiente, ou se a possibilidade de melhoria sob sua tutela está completamente esgotada.

Os jogadores - Sobre o que é o basilar - o compromisso e a entrega - não tenho nada a apontar, embora essa seja a queixa mais recorrente entre os adeptos, em qualquer modalidade, sempre que se perde. Isto dito sem pretender afastar liminarmente a necessidade de fazer alguns ajustamentos. Antes de enveredar por qualquer revolução no plantel, parece-me imprescindível avaliar se o crescimento colectivo e individual não é ainda possível  com melhor orientação técnica.

terça-feira, 3 de maio de 2016

A hora das malas no futebol português

Nunca é tarde para exercer boas práticas por isso saúdo aqui o facto de finalmente ter sido Octávio Machado a dar, como se costuma dizer, "o corpo às balas" à barragem (desen)formativa que a muito forte e muito bem montada máquina de propaganda benfiquista tem instalada para distrair a opinião pública de um facto cada vez mais evidente: o seu controlo sobre as instituições que tomam decisões no futebol português.  

Como sempre aqui defendi, não cabe a Bruno de Carvalho desgastar-se no combate a figuras menores dos clubes rivais ou outras. Não só porque os resultados desta acção, da forma como vem sido exercida, são de utilidade e acerto duvidosos, mas porque parecia cada vez mais óbvio que estava a cair na armadilha instalada propositadamente para o expor e desgastar. De tal forma que Luís Filipe Vieira se arriscava cada vez mais de, ao seu lado, parecer um estadista.

Bem sei que há quem entenda precisamente o contrário e que até quem avance com a ideia de que essa actuação, nestes termos, é necessária. E até quem vai mais longe pretendendo que tem influencia a nosso favor, por exemplo, no recente clássico no Dragão. Quem o afirma não percebe o que anda a fazer Jesus e a sua importância na profunda alteração, com melhoria evidente, da nossa performance. Se lhe querem tecer loas (a BdC) estão no seu direito, mas que o façam de forma a que a inteligência - a deles e a nossa - não seja tão insultada. Bastava lembrar que foi Bruno de Carvalho que contratou Jesus, correndo os riscos sabidos, face às circunstâncias.

Convém recordar, a este propósito que o Sporting tem duas agências de comunicação sob contrato, a quem cabe zelar pela boa imagem do clube e da sua figura mais representativa. Se não o fazem ou é porque tal não lhes está a ser permitido ou porque não estão a desempenhar bem a função. Qualquer que seja o caso a sua seria uma despesa que deixa de se justificar. 
Jogo de espelhos
Por falar em máquina de propaganda, aí está bem à mostra, desde o inicio da semana, que há quem não estivesse muito à espera da vitória do Sporting no Dragão. E, certamente, muito menos que esta tivesse acontecido numa exibição de força e autoridade, como aconteceu. É por isso natural que ainda a semana mal tinha começado e já o carvão esteja a quase a esgotar, tal a quantidade que vem sendo metida na fornalha. 

Para os mais desatentos as suspeições lançadas para o ar merecem a nossa atenção. Para quem anda há algum tempo nisto e tem um pouco de memória estas insinuações como a do "jogo da mala" são uma manobra canhestra e até algo indolente. Foram buscar episódios tornados célebres por terem sido práticas próprias, como foi o caso da famosa mala "Luis Vuitton". Pior ainda é virem-se queixar de os adversários serem competitivos e oferecerem resistência, como aconteceu a propósito do jogo com o Vitória. Esta coisa de andar a jogar jogos amigáveis com o Belenenses está a criar maus hábitos...

As nomeações de Vítor Pereira
Já aqui me havia referido ao mau agoiro que representava o anúncio da saída de Vítor Pereira e que convido a (re)lerem aqui (LINK). Bem sei que o quadro de árbitros que nos deixa está ao nível da confiança que os mercados depositam no papel comercial do antigo BES, mas convém disfarçar. 

O Fábio Veríssimo vai até à Madeira e continua sem explicar como pôde passar entre os pingos da chuva de uma arbitragem vergonhosa em Braga, que nos pôs fora da Taça de Portugal. Talvez seja porque reparte com Tiago Martins, que ainda ontem abençoou a passagem do SLB à final da Taça Lucílio, a ascensão meteórica. Com ou sem mala, tudo tem que se pagar nesta vida, não é?...

Horário dos jogos 
A última inovação do futebol português é a ausência de jogos decisivos em simultâneo nas últimas três jornadas. Isto num campeonato infectado pela suspeição. Isto quer dizer que no domingo o SLB jogará na Madeira a saber já o resultado do Sporting. Pode não querer dizer nada mas a informação vale muito, não é?

A Liga, de forma a sacudir a água do capote, já veio lembrar que tal resulta da alteração promovida no ano passado, por decisão dos clubes. Certamente que o fizeram a pensar nas receitas televisivas, pelo menos. É o que dá quando se deixa serem os cifrões a tomar decisões que deviam ser tomadas pelos neurónios. Por curiosidade gostava de saber como votou então o Sporting, que até agora não se pronunciou sobre a matéria quando, em defesa dos seus interesses, já o devia ter feito.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

FC Porto-Sporting: há cereja, há bolo. Só falta o topo.

Se há jogos que nunca deviam acabar o clássico no Dragão era um deles. Foi grande a festa e a exibição do Sporting. Não, não estou a falar da equipa do Sporting, mas do Sporting Clube de Portugal. Adeptos fervorosos e em grande número, a fazerem-se ouvir sobre as vozes dos locais na maioria do tempo e independentemente do curso do jogo. E claro, a equipa, a fazer a exibição mais personalizada e categórica que vi até hoje naquele estádio.

De facto não foi uma exibição qualquer, isto apesar de o Sporting ter, no ano passado, conseguido resultado idêntico, na eliminatória da Taça de Portugal. O Sporting esteve sempre confortável no jogo e por cima do adversário. Ao contrário do que era hábito naquele estádio, nem quando o adversário empata o Sporting abanou, demonstrando confiança e personalidade.

Apenas na segunda parte, quando Peseiro tentou abanar o jogo a seu favor e sobretudo com a entrada de Varela, esta superioridade chegou vacilar. Jesus demorou algum tempo a reagir e a tomar decisões, mas quando fez sair o quase inexistente Teo e colocou no seu lugar Bruno César reequilibra a equipa e acaba por ganhar o jogo com autoridade.

Não foi um jogo espectacular do ponto de vista técnico. A forma como o Sporting encurta o campo potencia o erro nas decisões de passe de ambas as equipas, provocando muitas perdas de bola. Porém, nesse aparente caos, a equipa do Sporting respira tranquilamente, parece saber sempre o que fazer, enquanto o adversário quase sempre se vê obrigado a reagir, ficando naturalmente, por isso, em desvantagem.

É por isso que hoje é quase consensual afirmar que o Sporting tem a melhor equipa do campeonato. Mas não tem os melhores jogadores. É a equipa melhor trabalhada, como o melhor modelo de jogo, o que lhe permite ser quase sempre a mais equilibrada. O somatório das suas acções em campo, o seu comportamento colectivo é que é muito superior. 

Talvez onde isso se nota mais é no comportamento defensivo. Olhando para o quarteto da retaguarda apenas Coates jogaria de caras em qualquer dos outros candidatos ao titulo. No entanto aqueles quatro, como outros quatro noutros jogos do campeonato, sabem permanentemente o que fazer em campo e de forma sempre articulada entre si. 

Bem que Peseiro ainda tentou explorar a profundidade, algo que no início de época ainda carburava mal. Mas Jesus não deixa nada ao acaso e foi visível que a movimentação que Patrício exibe agora é mais adequada à guarda das costas de uma defesa subida. E até Schellotto sabe agora quando tem que vir defender dentro, o que há poucos meses não acontecia. A par disso a equipa parece saber sempre quando recuar ou sair em contenção.

Do ponto de vista individual, se é verdade que João Mário foi a figura de proa, é de uma enorme injustiça esquecer o Capitão Adrien, que fez um jogo absolutamente notável. Além de ser responsável pelos reequilíbrios defensivos da equipa, uma verdadeira formiga atrás da bola, os 93% de passes acertados deram segurança e conforto à equipa. É que este Sporting mandão precisa de ter a bola, não sabe jogar com linhas permanente recuadas, explorando apenas as transições. Igualmente notável a prestação de Slimani, que hoje não tem nada a ver com o jogador que chegou a Alvalade. É talvez o jogador cuja evolução mais me surpreendeu. Por vezes dá a sensação de ter trocado de pés numa operação qualquer.

Quando o jogo terminou cheirava a campeonato. É impossível deixar de acreditar quando tens uma equipa como esta. Jesus dizia que o campeonato seria a cereja no topo do bolo mas a analogia não me parece correcta. É que sem campeonato não há bolo, o que equivaleria a ficar com a cereja na mão. Eu continuo a acreditar que é possível e acho que temos mesmo tudo para sermos campeões. O nosso bolo é o melhor, mas por aqueles acasos do destino pode até nem ser premiado. Só isso.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Don Quixote de Carvalho, o cavaleiro das tristes figuras

Bruno de Carvalho calado era um poeta. O que vem conseguindo fazer no pouco tempo que está no Sporting falaria por ele. Mesmo que a métrica não fosse perfeita, as estrofes acabariam por rimar. Para haver poesia tem que haver mais do que meras rimas, mas tem que se começar por algum lado e, como todos bem sabemos, havia (e continua a haver) muitos lados para recomeçar no Sporting.

Cedo se foi percebendo que ser assertivo, oportuno, discreto ou sóbrio não estavam na sua natureza. Aos poucos, e à medida que o apoio  que foi granjeando ia crescendo, muito dele sem grande escrutínio, foi-se revelando exactamente o oposto. Aos poucos, e perdendo bastas vezes a compostura, foi revelando um carácter belicoso e sem noção do excesso e do que representa, confundindo o ser mordaz com ser brejeiro, incisivo com enfadonho e vigoroso com inoportuno. 
É nessas figuras que se oferece a tudo o que é câmaras, flashes e rotativas de jornais, ou sentado permanentemente à frente de uma sessão do Facebook no seu inominável perfil de "Presidente do Sporting". Ora quem muito fala pouco acerta e o muito que por ali vai "produzindo" é frequentemente motivo de chacota para os nossos adversários e de vergonha para um clube centenário e respectivos sócios e adeptos.  

A sua postura assemelha-se cada vez mais à de um "loose cannon". É capaz de disparar em qualquer altura e direcção, mas cada vez se percebe menos quer a utilidade quer a precisão de tanto disparo. A excepção vem da sua legião de rocinantes amestrados, cujas rédeas vai puxando. Não são particularmente exigentes com a palha que se lhes serve, estando sempre prontos a aduzir mais uns disparos. Os pobres sanchos pança que o vão confrontando com a verdade são deixados pelo caminho. 
rocinantes
Esta semana é fértil em exemplos infelizes:

- O seu post contra o Miguel Guedes (quem é o Miguel Guedes) recebeu resposta inteligente e elegante que mais se assemelhou a uma ridícula pega de cernelha, com várias voltas ao redondel.

- Achincalha Carrillo pela sua opção de não jogar, "quando podia ser campeão no Leicester", quando ainda há pouco tempo ele mesmo gozava com o palmarés do clube e o que tinha dito sobe a possibilidade de transferência lança muitas duvidas que ela pudesse ter tido lugar.

- É publicamente desmentido relativamente à possibilidade da existência de um tribunal arbitral, cuja realização apresentou com ares de magnanimidade na pretérita A.G.

- A sua atenção e especialização em "assuntos SLB" é confrangedora para um Sportinguista.

- A enxurrada de processos são, na generalidade, fugas para a frente. Neste particular, os motivos invocados para propalada intenção de processar Rui Gomes da Silva e Jaime Antunes, são uma sentença contra as suas próprias declarações sobre a situação económica do SLB e para o processo intentado por estes por causa do caso dos vouchers.

- A teoria das almofadas colide com realidade.

- Pior mesmo, a última (?) reflexão deixada, que mais não é que uma misturadora onde depositou assuntos tão dispares como interesses comerciais, económicos e políticos, ultrapassando definitivamente uma fronteira que está vedada a quem deveria representar o Sporting e ficando no limiar do desrespeito dos artigos iniciais dos estatutos do clube.

No que noticias sobre o Sporting diz respeito, esta está a ser uma semana horrível, o que só pode surpreender quem aterrou hoje pela primeira vez no futebol português. Ao contrário do que muitos parecem pretender, não há nada de novo no fogo cerrado com que o Sporting é visado na comunicação social em momento de decisão. Há é dois factos marcantes, um novo e outro que, não sendo, vinha sendo raro.

Começo pelo facto raro e que se prende com o facto de o Sporting estar a disputar o campeonato até ao fim. Que melhor trunfo poderia ter uma liderança para exibir perante os seus adversários, funcionando de forma auto-explicativa para a barragem de noticias pretensamente desestabilizadoras? Que melhor motivo de mobilização dos adeptos em torno da sua liderança e da equipa que vai jogar no Dragão poderia ser agitado? 

Ao invés, qual general no seu labiríntico cubículo, é confrangedor olhar para um líder que não o sabe ser e insiste em regurgitar sempre as mesmas suspeições, agitando os mesmos fantasmas, repisando as mesmas injúrias, promovendo a protagonistas figuras secundárias à sua custa e do nome do Sporting. 

O facto realmente novo é serem muitas as frentes de batalha. O Sporting, como resultado directo da acção dos últimos anos da verborreia do seu presidente, encontra-se completamente flanqueado por adversários e muitos inimigos. O Sporting, visto outrora como "simpático", aquiescente e muitas vezes "dócil" é agora olhado com antipatia por muitos e tido como inimigo de estimação pelas muitas onças do mato do futebol que o presidente andou cutucar. Não gosto de nenhuma das versões, podemos e devemos ser muito, muito melhores. Esperar que todos aqueles que andamos a provocar retribuíssem agora com bonomia e ainda por cima protestar, não é ingenuidade, é mesmo candura bacoca.

Não sei qual vai ser o resultado final deste campeonato, mas continuo a acalentar a esperança de voltarmos a ser campeões nacionais. Não o conseguindo, restará uma profunda tristeza cuja dimensão só não será maior porque, desde o dérby para cá, houve tempo para ir lidando com ela. Mas haverá também um enorme orgulho no notável trabalho feito, partindo em desvantagem, e a esperança fundada que este seja a semente de futuras conquistas. 

Vergonha apenas da boçalidade, da sobranceria e empáfia dedicada aos adversários quando liderávamos e que serviram de cimento às pedras do castelo adversário, quando tudo indicava que a sua ruína era iminente. Eles foram o maná que os adversários guardaram para se alimentar. Se não ganharmos serão o meu único embaraço porque o Sporting foi bom e competente dentro de campo.

Muitos perguntarão porque escrevo desta forma sobre o Sporting. É simples. Não é sobre o Sporting, mas sobre a imagem que Bruno de Carvalho projecta do Sporting. E, ou deixo de gostar do clube ou sublimo as diferenças que nos separam com o que escrevo. A primeira hipótese é demasiado penalizadora para mim.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A melhor dica para assistir ao clássico Porto-Sporting

Foi grande a desilusão que se instalou entre muitos Sportinguistas após os resultados da passada jornada. Se esta é compreensível, uma vez que se queimou mais uma possibilidade e são já escassas as que restam, já a descrença total no titulo parece-me injustificada. Da mesma forma que se o Rio Ave tivesse conseguido roubar pontos ao SLB nada ficaria ainda decidido, nada está ainda totalmente perdido. 

Alcançar o titulo não é ainda um delírio, é um objectivo perfeitamente alcançável e que por isso não permite a nossa descrença ou desistência. Se tem sido a sorte a proteger o actual comandante - os jogos com o Rio Ave e Boavista, por exemplo - quem nos pode garantir que ela não pode mudar a nosso favor -  como já aconteceu anteriormente neste campeonato - nos jogos que restam? 

Por isso a presença em grande número a apoiar a equipa no próximo jogo no estádio do Dragão é obrigatória e, estou certo, será uma realidade. O meu roteiro, e que recomendo vivamente a quem se deslocar de qualquer ponto do País, é a passagem pelo Solar do Norte, onde está programada uma confraternização leonina a partir das 12h. Além das tradicionais bifanas e bebidas haverá protecção policial permanente, que acompanhará o cortejo até ao estádio, cujo trajecto  é relativamente curto. O mesmo sucederá no regresso.

Para os mais renitentes e indecisos ainda é possível comprar bilhetes (siga este LINK), Estes têm como data de levantamento a próxima sexta-feira, no Solar, entre as 20h e as 22h. Para quem se deslocar de pontos mais distantes do Porto e não tenha possibilidades de estar presente na sexta-feira, pode enviar um e-mail a dar conta do levantamento dos bilhetes no dia do jogo, entre as 10h e as 12h.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

As contas que Jorge Jesus não fez ("Em oito meses já paguei o meu contrato de três anos")

A vitória sobre a União da Madeira no passado fim-de-semana representa muito mais do que a conquista dos três pontos respectivos e continuidade na luta pelo campeonato. Representa assegurar a participação na fase de grupos da Liga dos Campeões, o que não só é prestigiante como permite um retorno financeiro importante para o clube. Mas assegura também a possibilidade de um planeamento racional da próxima época, quer no que diz respeito ao agendamento dos estágios, jogos de preparação/exibição, recomposição atempada do plantel, etc. 

Se a participação na Liga dos Campeões seria sempre importante, na próxima época será ainda mais, porque durante o defeso do campeonato suceder-se-ão uma série de competições internacionais de selecções cuja actividade se refletirá necessariamente no rendimento e disponibilidade dos jogadores, com  possíveis consequências na prestação competitiva da equipa. Por isso a importância do que agora foi alcançado é muito maior do que neste momento "a vista pode alcançar".

Jorge Jesus aproveitou a última conferência de imprensa para dar conta desse facto e dessa forma dar razão ao vultuoso investimento que o Sporting faz ao tê-lo como líder do futebol. E fê-lo num jeito que lhe é peculiar e que por vezes se torna desagradável para muitos que o ouvem. Mas o que disse é uma verdade incontestável: o prémio a obter pela participação na próxima Liga dos Campeões paga o seu contrato de três anos.

Mas, se do ponto de vista aritmético, o que Jesus disse é incontestável também é verdade que a sua afirmação expõe o seu carácter egocêntrico. Não tenho dúvidas dos méritos do treinador na campanha que o Sporting está a fazer, várias vezes aqui o tenho afirmado. Mas é bom lembrar-lhe que há quem tenha feito o mesmo, sentado na cadeira que agora ocupa, de forma mais barata e com muitos menos meios. Para não ir muito mais longe, Marco Silva recolocou o Sporting na senda dos triunfos e Leonardo Jardim, na sequência de um "annus horribilis", "ofereceu-nos o mesmo que Jesus acaba de alcançar.

"Ah, mas Jesus ainda pode ser campeão", o que marcará toda a diferença, estarão a pensar depois de ler o parágrafo anterior. É um facto e oxalá aconteça. Se tal suceder o nome de Jorge Jesus ficará definitivamente inscrito na história do clube de uma forma muito particular, atendendo às suas origens e às ligações familiares ao clube. 

Mas a conquista de um titulo esporádico foi algo que já vários treinadores conseguiram no Sporting e mesmo noutros clubes. Isso até o Jaime Pacheco conseguiu no Boavista e o mesmo o Rui Vitória parece estar a um passo de conseguir sem perceber muito bem como. Já vencer de forma regular e sustentada e marcar um tempo na história de um clube - como por exemplo Jesus conseguiu no seu SLB - está ao alcance de muito poucos. Essa é porém a sombra da bananeira que o Sporting precisa e não apenas a que Jesus diz agora ter alcançado para o clube. O sucesso de um treinador e de um clube mede-se por aí e Jesus sabe-o bem.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Orçamento do Clube 15/16 - duas virtudes e dois defeitos

Quem quer saber de orçamentos? Além dos directores financeiros e contabilistas, por inerência de funções, quase ninguém, talvez nem mesmo o presidente. Se o documento em causa ainda por cima deixa o futebol de fora o desinteresse aumenta. O adepto quer é saber de vitórias, de troféus e campeonatos. Existindo estes, para que interessam os números?

Ora o Sporting deu finalmente a conhecer a proposta de orçamento da direcção para o próximo ano. Se há uma critica imediata a ser feita é o curto espaço de tempo que os sócios dispõem para analisar o documento. Maus hábitos que já vêm de muito longe e que não são mais do que um sinal de pouco respeito pelos sócios. Falta de respeito que é tacitamente aceite porque a este procedimento não tem correspondido qualquer sinal de insatisfação ou critica. No fundo, volto ao parágrafo anterior, quem quer saber de orçamentos? Pois...

Duas virtudes que me parecem ressaltar à vista:

- O aumento das despesas com honorários. Tal como sempre defendi, o Sporting, para poder encostar aos da frente em competitividade, tem também de se aproximar em valores a despender em salários, porque só assim conseguirá chegar aos melhores. E ter os melhores não é tudo, mas é um grande percentagem do sucesso possível.

Vale neste caso dizer que a este aumento de verbas tem de começar a corresponder também uma maior percentagem de conquistas das modalidades em competição e deveria corresponder também à ambição de voltar a ter a representatividade de outrora. O pavilhão será, com certeza, uma escora muito importante para este anseio generalizado dos Sportinguistas.

- O orçamento não prevê prejuízos. Embora se possa considerar que o exercício proposto é para lá de optimista, se for realizado dentro do que está previsto, pode-se dizer que é bom para o clube. 

Uma nota final de desagrado pela falta de transparência resultante da individualização dos gastos por modalidade. Se a ideia subjacente à apresentação prévia do orçamento é informar e promover o debate e permitir o escrutinio por parte dos sócios. Como poderemos fazê-lo, percebendo o mérito na atribuição das verbas em função do trabalho feito, desconhecendo este dado fundamental?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Fugas para a frente que Doyen e o rebanho leonino

Fugas para a frente que Doyen

A publicação do acórdão do Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) a propósito do "caso Doyen/Sporting/Rojo" deixa claro que a estratégia de fuga em frente adoptada pela SAD era errada, tal como aqui foi afirmado várias vezes. 

Teria sido preferível e mais avisado, tal como também aqui afirmamos, procurar um acordo para aquele caso especifico e deixar extinguir os restantes ainda vigentes, caso o Sporting não quisesse negociar mais com aquela entidade, pondo fim a uma relação que legitimamente não queria prolongar.

Os prejuízos económicos, que podiam ser nulos numa perspectiva pessimista, serão contundentes: A SAD tem de acrescentar aos 4,5 milhões já pagos ao fundo mais 10,5 milhões. Tem de pagar 90% das custas do processo e custear os honorários dos advogados e ainda parte substancial dos ordenados de Nani (1,8 milhões de euros), que eram encargo do Manchester United. 

É importante realçar que, tendo que arcar com os honorários do nosso ex-jogador, o Sporting vê-se onerado por uma verba que também podia ter evitado pagar, transformando um excelente negócio num mero empréstimo por valores incomportáveis para a nossa realidade. Lembro que um dos principais argumentos contra os fundos eram uma forma de empurrar os clubes para os gastos excessivos.

Convenhamos que o acórdão não é de todo uma surpresa. Até um leigo percebeu logo no inicio deste caso que havia pouco ou nenhuma racionalidade na decisão da SAD e que esta foi tomada numa base populista e de fuga em frente. O que o acórdão agora acentua é que ou os advogados do Sporting foram incompetentes, o que deixa temer o pior para a sorte do recurso, ou a causa deveria ter sido entregue a S. Judas Tadeu, o padroeiro das causas perdidas. Alguém andou a contar histórias aos Sportinguista. 

O rebanho leonino
Discutiu-se ontem no Conselho Leonino a exoneração de um dos seus elementos, neste caso Rui Barreiro, sobre o pretexto de este não respeitar os regulamentos. Que eu me lembre é a primeira vez que tal sucede, embora não seja a primeira que membros daquele órgão expressam publicamente discordância ou desagrado relativamente à SAD ou assuntos relacionados com o clube. Parece-me estarmos na presença de mais um exercício de intolerância que a votação de um "pedido de demissão do próprio" estendeu até à tentativa de humilhação. 

Isso é tornado claro nas afirmações do presidente do C.L.: "fica completamente isolado, é como se não existisse". Isto vindo de quem tem como cargo a representação de todos os associados, independentemente das suas convicções. 

É lamentável que mais uma vez, e num registo idêntico ao que vimos no passado, os elementos daquele órgão se limitem a fazer "mééé", perdendo a oportunidade de prestigiar aquele órgão e justificar a sua existência, transformando-o num rebanho amestrado pela voz do pastor.

Duas notas finais não menos importantes sobre esta matéria:

- Seria interessante que, ao invés de uma declaração final aos jornalistas, fosse elaborado um comunicado que informasse a generalidade dos associados - que são a quem os órgãos sociais têm o dever de prestar contas - das matérias tratadas e do número de elementos presentes, bem como do número dos votantes.  Gastou-se toda a tinta a falar da vida dos rivais? É que seria interessante descobrir como se chegou à percentagem de 99% dos votos expressos na votação.

- Este tipo de comportamento unanimista é em todo semelhante ao que se assiste em outros clubes. Nós,  que tanto nos orgulhamos de apregoar a diferença, parece que nos queremos distinguir pela negativa. Estas são matérias cuja gestão do bem fazer depende não dos orçamentos mas apenas das convicções e dos valores de quem as administra.

domingo, 17 de abril de 2016

Moreirense-Sporting: está aí o paraíso dos paineleiros


(Os direitos de imagem são do MaisFutebol e nela estão os que me parecem ter sido os jogadores mais importantes do Sporting no jogo)

O Sporting concluiu com êxito a tarefa de manter a perseguição e pressão ao  líder era o líder do campeonato nacional no inicio da jornada. E foi como uma tarefa que o obstáculo Moreirense foi ultrapassado: sem grande brilho, mas com competência em modo "quanto baste" e por isso sem brilhantismos. Tratando-se de um terreno onde já coleccionamos dissabores e onde tradicionalmente vamos sentido dificuldades, podemos concluir que os serviços mínimos e obrigatórios foram cumpridos. 

Pode-se dizer que se tratou de uma vitória da prática e de algum cinismo de quem sabe que tem mais argumentos, mas de quem também sabe que é nestes jogos, com estes adversários, que se penhoram os troféus desejados, muitas vezes sem qualquer possibilidade de resgate futuro. Atendendo à forma como o resultado foi alcançado - o golo de Slimani é de legalidade de duvidosa - para o cinismo ser perfeito só faltaria que o Vitória de Setúbal amanhã vencesse com um golo semelhante e já depois da hora, depois de dar a volta a um resultado inicialmente adverso.

Provocações aos adversários à parte, é indiscutível que este campeonato ficará marcado pelas discussões acaloradas, mas nem por isso de racionalidade exemplar ou grande fidelidade aos factos, à volta da arbitragem. Este será porventura muito mais o campeonato dos comentadores, paineleiros e muito menos de quem gosta mesmo do grande jogo que é o futebol. O que o golo de Slimani ontem representará no que resta do campeonato atingirá proporções difíceis de prever, mas o cataclismo de grandeza bíblica nas argumentações não é de todo improvável.

Não me espantará absolutamente nada que a comunicação benfiquista se agarre ao golo de Slimani para fazer recrudescer a guerra de influências que há muito decorre nos bastidores. Provavelmente executará essa acção em simultâneo com a usual candura de quem busca apenas a verdade desportiva, enquanto  procurará sem quartel uma qualquer reparação em jeito compensatório.

Já me espanta é que o Sporting, de forma oficial ou apenas através dos seus adeptos, caia neste desvio lampiónico de transformar o que é incerto - não apenas o golo de Slimani, mas também o de Teo - e facilmente contestável, num dogma  que a própria doutrina vertida nos regulamentos abre porta à contestação. 

No mínimo é muito pouco inteligente porque em nenhum momento este tipo de argumentação nos é favorável. Não apenas porque as interpretações são passíveis de ser muitas e variadas, mas também porque, como bem sabemos, não apenas a comunicação benfiquista é bastante poderosa como detém um elevado lote de prestimosos sicários pretensamente isentos, capazes de transformar um erro de arbitragem num complot montado para entregar o campeonato ao Sporting. Já vimos isso na semana que passou com a veiculação de noticias de que o Sporting estaria na disposição de "olear" a vitória do Vitória na Luz.

O que me parece favorecer a nossa posição é assumpção de que os árbitros podem errar e por isso é natural que de vez em quanto o possam fazer a nosso favor. Já o contrário, como tantas vezes aconteceu (mesmo neste campeonato) é que é digno de suspeição. Depois há o percurso que as decisões do árbitro no jogo indicam: se ele nos quisesse beneficiar teria validado também o golo de Teo e não se prestaria à figura ridícula de expulsar Jesus. 

Mas esta é oportunidade de ouro que nos caiu no colo para fazer valer a argumentação a favor das novas tecnologias e não esquece-las agora convenientemente, sob pena de transformar em mero folclore de mau perdedor tudo o que dissemos até aqui, quando as decisões nos foram desfavoráveis. 

Mas, como este lance o demonstra de forma exemplar, é importante lembrar que esta não é a panaceia de todos os males e que por isso o que é importante é extirpar de vez a suspeição, de forma a que os erros dos árbitros possam ser enquadrados ao mesmo nível dos avançados e guarda-redes e assim aceites com desportivismo.

Se isso não bastar podemos sempre lembrar que o enorme passivo de Bruno Paixão com o Sporting sofreu agora um fugaz e quase imperceptível abate, face ao histórico.

Nota importante: Não consigo ter uma opinião relativamente ao golo do Teo, mas o lance do golo pareceu-me desde logo irregular. As imagens que até agora vi só contribuem para criar algumas dúvidas e no essencial para concluir que não se trata de uma falha indecorosa que o coro de indignados que se levantou de súbito. 

Provavelmente são os mesmos que entenderam legitimo o mergulho olímpico de Jonas, quando a modalidade é outra e os jogos Olímpicos são no Brasil, mas Paços de Ferreira ainda é Portugal e o verão ainda está para vir.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O caminho é para Moreira de Cónegos porque a toalha não foi ao chão

O Sporting tem mais um jogo importante na luta pelo título nacional. Desta feita será em Moreira de Cónegos, onde a equipa local ainda luta pela manutenção no escalão principal. Para os adeptos que que queiram acompanhar a equipa e que se atrasaram na reserva do bilhete há boas noticias: O Solar do Norte disponibilizará hoje, nas suas instalações no Porto, entre as 20:00 e as 21:30, ingressos que não foram reclamados nas bilheteiras em Alvalade. Como o seu número é reduzido, e o Moreirense estima casa cheia, apresse-se e assegure já hoje o seu lugar para não fazer a viagem garantia de ver o jogo.

domingo, 10 de abril de 2016

Sporting - Maritimo: continuar a navegar era preciso

O jogo com o Marítimo teve duas fases marcadamente distintas. Até ao golo inaugural de Teo, que acontece já quase no final da primeira parte e os quarenta e cinco minutos complementares. 

No primeiro o Sporting revelou as já tradicionais dificuldades em lidar com o paquete maritimista, ancorado logo à saída da doca - leia-se linha do meio campo - criando apenas uma oportunidade verdadeiramente digna desse nome, a que equivaleu o também já tradicional falhanço de Bryan Ruiz. Muitas dessas dificuldades explicam-se pela ausência de química na relação Slimani - Teo. Cada um funciona como se o outro não existisse, o que de certa forma explica a ausência de continuidade do jogo que é criado nas suas costas, que neste jogo nem estava a ser particularmente feliz. O facto de cada um ir marcando não deve iludir a notória falta de simbiose entre os dois elementos mais avançados.

No segundo tempo, talvez porque a vantagem no marcador anulasse alguma ansiedade provocada pela necessidade de ganhar, vimos uma equipa mais próxima do bom nível de produção que tem habituado os adeptos este ano. Os golos surgiram com naturalidade e outros mais poderiam ter acontecido. 

A merecer amplo destaque a participação de William, paulatinamente a regressar ao nível imperial de que a lesão na selecção havia afastado. Por outro lado João Mário já começa a justificar muito mais do que o titulo de "melhor jogador jovem do mês". Ao nível actual ele está já no patamar superior, onde o facto de ser jovem e jogar com a maturidade que exibe, deveria contar muito mais do que uma mera característica.

Uma nota final para a performance defensiva. Não me parece que seja casual o facto de estarmos a registar o pior período do campeonato, sofrendo golos a quase todas as jornadas que disputamos. Apesar da inclusão feliz de Coates, os restantes elementos que chegaram à titularidade estão numa galáxia muito distante do uruguaio no que à categoria e desempenho diz respeito. Semedo é capaz de coisas tão boas como disparatadas, Schelotto está ainda em processo de aprendizagem. Naldo e Paulo Oliveira dariam a estabilidade que está a faltar.

Agora que o campeonato se aproxima do fim, e com o Sporting a ter que ganhar os jogos decisivos com pelo menos duas das melhores equipas da competição, parece-me ser na solidez defenfensiva e na acima aludida relação Teo - Slimani os problemas que Jesus tem de resolver a curto prazo. Para já continuamos a navegar, o que era preciso para a ambição do titulo continuar a viver.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Belenenses - Sporting: uma manita a segurar "pastéis"

O Sporting fez ontem no Restelo mais uma demonstração de enorme qualidade, triturando o Belenenses logo desde o apito inicial. Um pouco paradoxalmente foi também um jogo que serviu para explicar alguns dos pontos perdidos e que tanta falta estão agora a fazer. 

Quando William escorrega ante a baliza escancarada cheguei a temer o pior, com a memória de jogos como o de Guimarães a pairar na cabeça. Só uma equipa a atravessar um momento de plena confiança nas suas capacidades é capaz de sobreviver a uma mão cheia de falhanços, alguns deles quase anedóticos, e depois disso partir para uma goleada. É este o momento de uma equipa exemplarmente liderada pelo exemplo de Adrien, secundada num William em rota ascendente de forma, na classe de João Mário e Ruiz - pese a deficiente capacidade finalizadora - e de tracção à frente de Slimani absolutamente diabólico e indomável. 

A frustração de não sermos actualmente, e de forma inteiramente merecida, os comandantes do campeonato está precisamente na capacidade de fazer golos. Não fosse isso e ontem poderia ter concluído o passeio ao Restelo com uma goleada à moda antiga. Esse é o único capitulo em que perdemos para os actuais comandantes e que, oxalá não ocorra, poderá significar a diferença entre ser e não ser campeão. 

Uma nota final para Teo Gutierrez. É dele a responsabilidade de ser olhado como um patinho feio porque os adeptos perdoam quase tudo menos a falta de dedicação ou o menor comprometimento com o clube. Mas tem ainda um problema acrescido que é a sua incompatibilidade com Slimani, algo de que Montero também sofreu e cujas "culpas" não são da exclusiva responsabilidade dos dois colombianos. 

Noutras circunstâncias - por exemplo, com o Slimani do primeiro ano - seriam provavelmente a dupla escolhida, com Montero nas costas de Teo. Mas não com este Slimani absolutamente demolidor. O colombiano está longe de ser um mau jogador, bem antes pelo contrário. Tivesse aproveitado melhor as oportunidades e teria certamente a confiança em níveis muito mais elevados do que a exibe actualmente, parecendo-me residir aí a explicação para alguns falhanços   Eu, por durante o jogo ser dos jogadores que mais penalizo, sinto-me ainda com mais legitimidade para efectuar este comentário. 

Ah, pois, e o show de bola ontem nas bancadas? Fantástico!


sábado, 2 de abril de 2016

A decisão do campeonato provavelmente passou pelo Braga

Não se infira pelo titulo que já está encontrado o campeão nacional. Neste momento há ainda três candidatos, embora desse lote só dois me parecem em condições reais de chegar o título. 

O FC Porto é o que se encontra na pior situação porque a distância ao primeiro é muito grande. Para o segundo é ainda razoável, mesmo atendendo a que tem ainda a possibilidade de diminuir a distância para o Sporting. Mas o pior para as suas pretensões é já não depender de si e ainda ter que esperar que os dois rivais falhem. É muito pouco provável.

Quem está em melhor situação é indiscutivelmente o SL Benfica, por depender apenas de si e ainda por cima ter, em teoria, o calendário mais fácil dos três.  A par disso, vive o melhor momento da época, com um poder de concretização verdadeiramente notável. Ficará em um dois primeiros lugares-

O Sporting depende de um deslize do SL Benfica para poder chegar ao título. Contudo, a sua principal preocupação deveria ser neste momento, e face às circunstâncias, a de consolidação do segundo lugar, ganhando jogo a jogo, sem se perder muito com o que não pode controlar. Essa é a única forma de se habilitar a estar apto para chegar a primeiro, caso o tal deslize ocorra.

Mas seguramente que muito que é a situação em que hoje se encontra o campeonato tem o Braga como denominador comum. Obviamente que todos os jogos contam, mas os dois que os actuais comandantes realizaram com o SC Braga parecem-me momentos determinantes, parecendo que a história de ambos os jogos tiveram um argumentista comum.

O jogo em Braga iria marcar a arrancada do SL Benfica até ao comando do campeonato. A equipa que chega a esse jogo é uma equipa sob fogo, a sete pontos do comando. O treinador era acossado e o presidente colocado em causa pela forma como perdeu o anterior técnico, assistindo de camarote a um arranque demolidor do Sporting. Para agravar a situação, os três jogos com o Sporting saldaram-se por três derrotas categóricas, sem a exibição de argumentos para as contrariar.

Certamente que de lá para cá uma das tarefas que retirou mais tempo a alguns adeptos benfiquistas deve ter sido a de apagar os comentários nas redes sociais contra os jogadores, o treinador e o presidente. Mas quem não sofre de amnésia ou alguma doença degenerativa do sistema nervoso central ainda tem memória, tal eram os impropérios e tão ruidosa e até era a contestação então. 

A viragem aconteceria em Braga, com a oferta de um autogolo de Kritsyuk, seguido de outra em que ficou toda a gente na área à espera que Lisandro fizesse o óbvio. Quando o Braga quis mudar o curso do resultado já a equipa de Rui Vitória estava mais confiante e limitou-se a gerir o tempo e o resultado.

Ontem a história foi semelhante. O Braga foi a melhor equipa até sofrer o golo e a que mais perigo produziu, podendo ter inaugurado o marcador pelo menos por duas vezes. Não contente por não o fazer, acabou por conceder nova oferta, desta vez em perda de bola Mauro. Logo a seguir um penalty que não existe consolida a vantagem. Em ambos os jogos Rui Vitória ganha, tendo a seu favor muita sorte, ante a equipa que, a seguir aos rivais, mais a faria sofrer, mas acabou a ganhar de forma algo fácil.

Faço aqui um parêntesis para assegurar que não pretendo levar a discussão habitual sobre as razões que levaram o árbitro a marcar o penalty. Se bem que nem sempre o critério tenha sido igual (tão decidido, esclarecido e benevolente) também nós já beneficiamos de penalty's em situações iguais. O que se passa hoje é que os árbitros para se defenderem marcam sempre que a bola vai à mão, subvertendo o que deveria ser uma punição para um acto voluntário. O que não foi o caso de ontem, por mais que os actuais experts das redes sociais, que provavelmente nunca jogaram à bola e nem conhecem as regras do jogo, o assegurem. 

Devo confessar que por altura do primeiro jogo com o Braga não esperava ver este ano o SL Benfica como o principal candidato. As três derrotas que já coleccionava (Arouca, Sporting e FCPorto) desviaram a atenção para a principal virtude da equipa que então já se vinha desenhando, a capacidade concretizadora. É ela que lhe tem valido para ganhar os jogos com as equipas pequenas e são os resultados com essas equipas que agora fazem a diferença no campeonato.

Não sou ingénuo e é evidente que há muita anormalidade em alguns dados estatísticos do campeonato do SLBenfica, tais como as punições disciplinares e as penalidades. Mas não esgoto a observação aí, estendo-a também ao que fizemos e ao que devíamos ter feito, porque é sobretudo a nossa acção que determinam o nosso destino. Essa - a auto-critica - é também a única forma de crescermos com os nossos erros e avançarmos. Ficar pelas lamurias miserabilistas é o primeiro passo para o conformismo e autocomiseração. Neste sentido apontaria dois erros do nosso lado: um de planeamento desportivo e outro de comunicação. 

Do lado do planeamento desportivo a gestão do caso Carrillo. Parece passar despercebido mas, apesar das contratações feitas, o Sporting não preveniu essa possibilidade nem a perda de Nani. O arrastar da novela "Mitroglu" que, a ter sido fechado, teria uma influência grande na produção dos dois primeiros classificados, também é importante. A opção por Teo está longe de ser um sucesso e a falta de capacidade de improviso individual para quando o colectivo não consegue resolver é a marca dos jogos em que perdemos pontos com equipas pequenas.

Do lado da comunicação sirvo-me de uma opinião que não é minha mas com a qual concordo. Li-a no Lateral Esquerdo, o seu autor é também o autor do Posse de Bola, uma das minhas leituras assíduas na blogosfera. Dizia ele então (LINK)

"Sobre a agora tão evidente união RV, com os jogadores, com a estrutura. Essa "união", para mim, resulta também de um imponderável chamado Sporting. Ou melhor, Bruno de Carvalho e sobretudo Jorge Jesus. Eles, na minha opinião, são os principais responsáveis pela forma como os jogadores focaram e quiseram mostrar que o maior mérito era deles, e não do "cérebro". Se o Sporting tem sabido estar calado o Benfica ter-se-ia afundado sobre o seu próprio ruído. Externo, e sobretudo interno. Não há ninguém na "estrutura" que não tenha dado Rui Vitória como "morto". Não há nenhum jogador que não o tenha feito. E mesmo os adeptos, que o defenderam durante tanto tempo, também o estavam a matar na sua maioria. Acontece que o Sporting fala muito e por esse motivo os jogadores unem-se ao treinador. E por arrasto a estrutura e os adeptos"

Sobre isto adiantaria ainda que o menosprezo a que se votou o actual treinador do SL Benfica resultou de um erro de avaliação. Não se percebeu que, mais do que o treinador, era Luís Filipe Vieira e toda a entourage que estavam a ser colocados em causa. Como muito bem diz o autor do comentário  "Se o Sporting tem sabido estar calado o Benfica ter-se-ia afundado sobre o seu próprio ruído. Externo, e sobretudo interno. Não há ninguém na "estrutura" que não tenha dado Rui Vitória como "morto". Outro erro terá sido também não se perceber o valor individual e as soluções à disposição do treinador. 

O que aconteceu a seguir foi o tudo por tudo literal para não perder a face perante os seus adeptos, uma vez que, tendo sendo sido sua a escolha, era a cabeça de Luis Filipe Vieira que estava no cepo. A história deste campeonato passa muito por aí, por uma demonstração de poder que está muito para lá do que é possível ver ao comum dos adeptos. E ao que sei, o Sporting não tem força para se opor a esse poder e vamos ver o que acontecerá se FC Porto pensar que consegue chegar ao segundo lugar.

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