Varandas In: um ano
Estado de (des)Graça
Se há características que realçaria num ano ano de mandato de Frederico Varandas seria a coragem e resiliência. Coragem que começou por demonstrar quando saiu da sua área de conforto e resolveu apresentar a sua candidatura. Já depois disso teve que enfrentar ameaças físicas na AG de destituição. Foi aí que começou a viagem de um director clínico com boa imagem para a cadeira presidencial em permanente ebulição, contestação, instabilidade interna e um chorrilho diário de boatos, insultos e ódio. É preciso resiliência e convicção para permanecer num lugar em que é contestado por duas razões primordiais: por tudo e por nada.
Frederico Varandas e a sua equipa viveram em estado de (desg)graça junto de uma oposição ruidosa praticamente desde o inicio do seu mandato até hoje. A isso não será alheio, alem dos factos acima aludidos, um processo eleitoral com um numero elevado de candidatos em que o vencedor ficaria quase inevitavelmente em minoria. Esse seria aliás o resultado contando o número de votantes, o que por só já constitui um percalço importante.
A Herança
Um clube completamente fraccionado e com diversas feridas ainda em carne viva é herança pior do que todas as severas consequências desportivas e económicas de uma transição de poder traumática, motivada pela destituição de um presidente que, em menos de meio ano, viajou da quase unanimidade à destituição por quase dois terços dos votos.
Não menos importante foi a situação económica a encher a agenda de emergências "para ontem", tais como
um empréstimo obrigacionista cuja urgência havia sido trocada pelas "famosas" alterações estatutárias,ausência de receitas à altura da folha salarial agravada pelas intervenções da Comissão de Gestão.Dividas em atraso a clubes e fornecedores, problemas de tesouraria com pagamentos a vencer
Um quadro de jogadores demasiado extenso e oneroso, com muitos dos seus componentes incapazes de significar qualquer mais-valia
Do ponto de vista desportivo à a realçar:
O plantel de futebol havia perdido valor face às saídas de quase todos os jogadores importantes, com excepção de Bas Dost e Bruno Fernandes
A escolha completamente desajustada de um treinador (Peseiro)
Modalidades com equipas competitivas, com bons quadros técnicos e bons planteis.
Acções importantes:
Emissão do empréstimo obrigacionista, apesar da oposição directa ou dissimulada de vários agentes, quer internos quer externos.
Resolução dos problemas emergentes de tesouraria através da titularização do contrato dos direitos televisivos.
Redução da massa salarial do plantel com a dispensa de elevado número de jogadores excedentários, num ajuste estimado de 1/3 do orçamento actual.
Reconstrução da estrutura do futebol profissional, com a contratação de técnicos de diversas áreas de intervenção.
Regresso a uma aposta racional na formação, que vai desde a aposta e investimento quer nas infraestruturas quer em capital humano.
Acordos com os jogadores que rescindiram mais valiosos. Perceber-se-à melhor a medida no próximo relatório e contas.
Pontos fracos
A comunicação tem sido o acto menos conseguido dos actuais órgãos sociais. Se dúvidas houvesse basta olhar e ver com atenção a última entrevista de Frederico Varandas para se perceber que, mesmo tendo melhorado o seu registo pessoal, continua muito mal assessorado, quase se podia dizer desprotegido. Só assim se percebe que uma entrevista gravada tenha deixado passar gafes que se poderiam ser aceites em discurso directo, são incompreensíveis quando gravadas pelo nosso próprio canal. Ou que esta tenha sido conduzida num local com ruído de fundo de obras. Um profundo amadorismo que belisca a reputação do clube.
A outro nível, a comunicação interna. É claro que uma falange importante nunca se reverá no acto mais simples ou feliz do actual presidente. E que outros há que, de forma dissimulada, lá vão deixando cair um sorriso, mas passam os dias a fazer contravapor, às vezes até com factos que não o são verdadeiramente. Mas é também altamente censurável que os actuais órgãos sociais não saibam recorrer às ferramentas que têm à mão para se aproximarem dos associados.
O silêncio sepulcral a que normalmente se votam cola-lhes a imagem de arrogância e indiferença e aproxima-os dos nossos antepassados croquetes. E por isso, como tudo na vida, mas particularmente na imagem, o que parece é. Sou tão critico deste comportamento como da anterior postura "barroca" do seu antecessor (ou deveria dizer bacoca?...) porque ambas, nos seus excessos, são prejudiciais ao clube. Sporting é um clube popular e vive das conquistas e da emoção. É tão mau viver permanente embriagado nela como viver sem ela.
Desportivamente, se é evidente que a actual direcção se saiu muito bem - e com um número de títulos ganhos pouco habituais nos últimos tempos, pese a conjuntura particularmente desfavorável que encontrou - não é menos verdade que a impressão deixada na preparação da época veio lançar muitas dúvidas sobre o planeamento feito e a qualidade das medidas tomadas.
Se, como dizia acima, o que parece é, não é menos verdade que a última imagem anula a imagem de ponderação e acerto deixada na ida ao mercado em Janeiro. Mais uma vez o risco assumido é enorme e, aparentemente, desnecessário. Que outro entendimento se pode ter de um ataque ataque do avesso, sem contudo contar com um ponta-de-lança de raiz e com opções que expõem a estrutura e, em particular, o presidente? Não contar com um "6" de raiz é outro facto incompreensível. Esses dois factores anularam o impacto de duas boas vendas, aparentemente improváveis, como foram as de Thierry e Raphinha.
Nesta área, e para poder tratar da multitude de dossiers que lhe devem ocupar a secretária Frederico Varandas precisa de encontrar o seu Leonardo Jardim, bem como o seu Slimani...
O estado da (des)união
Ninguém dança bem o tango sozinho, se alguém presenciou uma tentativa do género percebe bem o que estou a dizer. Ora, como é dito acima, há quem nunca passe o risco - ou devo dizer a vala? - que os separa da actual direcção, o ódio expresso torna isso bem claro. A ideia de unir o Sporting é uma miragem ainda mais quimérica que a de um oásis no Atacama. Basta ver o isolamento a que foi deixado Frederico Varandas na festa de final da Taça e da frieza com que a generalidade da direcção foi tratada. Por culpa própria, como dizia acima, pelo distanciamento que se recusa a anular. Mas também porque há quem ache que para haver união é preciso esquecer o passado e até pedir desculpa e desculpar os seus intervenientes pelos actos que eles cometeram de forma dolosa e deliberada.
É um facto que a actual direcção tem de suportar todos os dias uma oposição feroz, encarniçada e muitas vezes desonesta. Alguns deles arengam há muitos anos nos mais variados fóruns. É um facto que alguns deles nem a cara dão, resumindo as suas acções a colar cartazes e esconder as trinchas. É um facto que muitos deles vivem da instabilidade que os próprios fomentam, porque senão não tinham as ofertas chorudas dos canais a engordar-lhes as contas bancárias. É um facto que muitos dos que aparentemente hibernaram ou emigraram para as fossas marianas voltaram agora cheios de atenção e energia, dando testemunho dos benefícios do descanso.
Mas é também um facto de que há muita gente desinteressada, que mais não quer do que o bem do clube e não há ninguém que esteja acima da critica. Frederico Varandas não pode cometer o mesmo erro que o seu antecessor: acantonar-se, à boa maneira da caserna, quando os inimigos o cercam. É triste constatar que de facto eles existem e na sua maioria vestem de verde e branco. Mas, para seu bem e sobretudo do Sporting, é bom que não se isole. É preciso ouvir sempre. Um bom sinal que poderia dar a todos era, por exemplo, desarmadilhar os estatutos das normas autocráticas deixadas pelo seu antecessor, o mesmo se aplicando ao regulamento disciplinar.
Há um momento para perceber quem está por bem e quem nunca estará, ainda que, o Sporting vença dois títulos nacionais no futebol e seis europeus nas modalidades, ao mesmo tempo que sai de um processo de auto-destruição. Há quem o invejará para sempre. O Sporting também é isto. Mas é também muito o Sporting que se move e agiganta para impedir o rumo ao abismo. É com esses, a maioria, que Frederico Varandas tem de ir à guerra.





























