Expulsar ou não expulsar, eis a questão!
Questão prévia: a figura de recurso para a AG sobre matéria disciplinar é uma disposição completamente anacrónica que até um leigo como eu o percebe. Neste caso especifico da apreciação dos recursos de Alexandre Godinho e Bruno de Carvalho esse facto será ainda mais evidente.Na AG de sábado os factos em apreciação, e que levaram à expulsão dos acima referidos, ficarão soterrados sobre o entulho emocional com que o tema tem sido analisado. Duvido inclusive que muitos dos que votarão saibam quais são os factos que levaram aos processos disciplinares e consequente sanção.
No vasto rol de infracções constantes da acusação, são para mim determinantes a tentativa de usurpação de funções, a criação ilegal de órgãos paralelos e a tentativa de bloqueio das contas do clube. O objectivo era claro: manter-se no poder, em violação grave da vontade dos sócios, expressa na votação que levou à destituição. Objectivo esse que teve apenas em vista os seus interesses pessoais, sem cuidar do mal que infligiria ao clube. As provas passaram debaixo dos nossos olhos durante as piores semanas que vivi como Sportinguista.
Esse nível de abstracção e alheamento revela aquilo que esteve muitas
vezes subjacente em muitas das suas acções: considerava-se acima do
clube e de todos. Se dúvidas houvesse veio agora novamente deixá-lo bem
claro ao insultar os fundadores na entrevista do Expresso [Eu sempre fui mal visto pelo sistema que fundou o Sporting em 1906!!!]. No fundo,
para alguém que foi presidente do Sporting durante 5 anos, demonstra que
nunca percebeu o clube que presidiu. Só assim se percebe como é que da
aprovação quase unânime passa a uma reprovação a rondar os dois terços,
em poucos meses.
A nomeação dos ditos órgãos paralelos - MAG e CFD - já não seria de fácil qualificação. Mas juntar-lhe os nomes de sócios que nem o cuidado de pagar quotas observavam, é um acto muito mais do que simplesmente infeliz. E nem é bom lembrar que, a seu pedido, chegaram a elaborar convocatórias de AG's que apenas contribuíram para a instalação de anarquia e caos.
A tentativa de bloqueio de contas, juntamente com Alexandre Godinho, junto dos bancos e a apresentação em Alvalade com um "documento" que lhe reconheceria a validade do lugar que queria usurpar foi uma das várias tentativas realizadas no sentido de se apoderar do Sporting. Aquilo que os sócios sempre têm rejeitado - um clube com um dono - esteve a um passo de se realizar. E, a ter sucedido, não seria um qualquer accionista a apoderar-se da SAD.
Seria um golpe realizado por alguém em quem uma enorme falange de Sportinguistas tinha eleito, entre muitas outras razões, justamente para prevenir que tal sucedesse. Do Sporting é nosso teríamos passado em cinco anos ao Sporting é meu. Bruno de Carvalho acabaria por ser deposto por um golpe, como todos sabemos hoje. Esse golpe foi-lhe aplicado nas urnas por uma maioria significativa de sócios.
Na mesma entrevista é retomada a retórica que o notabilizou nos últimos cinco anos e onde é possível verificar mais uma vez que o interesse dele está acima de tudo o resto. Não mudou nada, não houve "burnout". Bruno de Carvalho teve tudo na mão e tudo desbaratou. Podia reconhecer os seus erros, mas insiste numa argumentação de vitima. O nível de toxicidade que lança permanentemente sobre o Sporting cada vez que fala tem um poder desagregador tremendo.
No seu legado terá muitas outras obras dignas de menção, mas para já a que fala mais alto é a profunda divisão que deixa na sua passagem. Em nenhum momento revela arrependimento ou cuidado pelo clube. Persiste na autovitimização. Nunca se demarcou do caos e do ruído que os que o veneram procuram a todo o custo lançar de forma quase permanente. Ele sabe que foi o caos do final do mandato de Godinho Lopes que lhe adubou a chegada ao poder. Ele sabe que só o caos o fará regressar. No fundo é o que realmente lhe interessa.
Expulsar, sim ou não? Não preciso de recomendar a nenhum dos meus consócios a posição a tomar. A minha está tomada.
Expulsar divide e fractura? Alguma vez Bruno de Carvalho se preocupou com isso? Bem pelo contrário. O confronto geracional é hoje um dos piores legados do seu mandato, como se houvesse detentores da verdade e do saber ser Sportinguista. O Sporting grande, universal e inclusivo, que os fundadores nos deixaram, está hoje estilhaçado. Esse, volto a frisar, é o legado que BdC nos vai deixar e cujas consequências e duração estão ainda por apurar.
No sábado não está em causa um confronto Varandas / Bruno de Carvalho. Nem um Bruno de Carvalho / Resto do Mundo. É apenas o Sporting a querer ser outra vez só e "apenas" o Sporting Clube de Portugal.

























