segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Saudações Leoninas, Sr Manuel Ferrão

O Sporting ficou mais pobre com a partida de um grande sportinguista e acima de tudo, um grande Senhor. Manuel Ferrão serviu o nosso clube durante três décadas e sempre foi uma pessoa respeitada pelos diversos agentes do futebol juvenil nacional.

Felizmente, tive a possibilidade de conviver de perto com o Senhor Ferrão aquando das minhas visitas pela Academia de Alcochete. Certos dias, dava por mim a sair de casa a pensar "Esqueci-me de fazer a barba. Lá vou eu ouvir das boas do Senhor Ferrão". Apenas um de muitos episódios que podem ser contados por que privou com este enorme Sportinguista.

O nosso amigo André Figueiredo fez-nos chegar o seguinte texto homenageando uma figura incontornável do Sporting Clube de Portugal.

"Faz amanhã (hoje - dia 21 de Dezembro) um ano que morreu o Sr Gonzaga da Silva, e um ano depois de ter partido um Sr da Formação Leonina eis que tivemos que penosamente estar em mais um funeral e ver partir mais um dos nossos O dia frio e agreste de 19 de Dezembro de 2009 será sempre de triste memória para todos aqueles que sentem um carinho especial pela formação do nosso Sporting Clube de Portugal, pois foi nesse dia que dissemos o adeus final ao Sr Manuel Estevão Ferrão, sócio nº 443 da ainda maior potência desportiva deste nosso Portugal.

Costuma dizer-se que a riqueza de um homem poderá ser medida pela qualidade e quantidade dos seus amigos e no seu funeral foi possível ver a riqueza de Manuel Ferrão, pois presentes estiveram tantos ilustres; Tamagnini Nené, o Sr Vítor Cacito (Presidente do CAC), Emílio Peixe, o Mister João Couto, o Presidente da Casa do FC Porto em Lisboa (mandatado pelo próprio J.N. Pinto da Costa para marcar presença no funeral) bem como uma miríade de treinadores, delegados e dirigentes da formação do Sporting, e de realçar ainda a presença dos atletas Sub-16 Tobias Figueiredo e Alexandre Guedes que apesar da sua ainda tenra idade demonstraram todo o seu carácter ao insistirem em marcar presença nesta última homenagem e despedida ao Sr Ferrão.


Recordo-me como se fosse ontem de ver o Sr Ferrão celebrar um título (mais um) no relvado do Campo Nº1 da Academia de Alcochete, na sua companhia estava um outro enorme Sr da nossa formação, o Sr Delegado António Atanásio, um então ainda mais jovem Mister Vitor Silvestre, e tantas jovens caras conhecidas que tropeçavam sobre si a tentar celebrar mais um título da primeira “Geração Academia”, a Classe de 89; Rui Figueiredo, Bruno Matias, Jorge Abreu, Rui Lopes, Adrien, André Santos, Tiago Pedrosa, André Cacito, etc.


Tantas vezes Manuel Ferrão me confidenciou sobre os atletas, “este é bom, mas tem que ser muito bem domesticado”, assim falava de Mateus Fonseca, de Antoninho Silva, de Rui Coentrão, e de tantos, mas tantos outros. Tantas foram as vezes em que ele via os miúdos mal arranjados e lhes dizia para se comportarem, eram ralhetes atrás de ralhetes mas tinha sempre em mente o bem estar dos seus meninos.

Nunca me esquecerei dos nossos passeios pelo Largo do Rato, pela Rua do Passadiço, ou pela Avenida da Liberdade abaixo, à medida que conversávamos sobre as suas duas grandes paixões; o Sporting e a Fotografia. Algumas foram as vezes em que entrei com ele em lojas de fotografia e discutimos sobre fotografia, encadernações, grafismo, impressões, e era um homem que tinha sempre inúmeras estórias para contar sobre o Sr Presidente João Rocha, sobre fotógrafos, sobre jornalistas, sobre o seu amigo Jorge Nuno Pinto da Costa, sobre os seus ex-jogadores, sobre a sua mulher, sobre as artes (sobretudo pintura), era um homem que mesmo numa idade avançada continuava a reter uma enorme e contagiante “joie de vivre”. Certo dia ia com ele a passear pela Rua do Passadiço e sem que nada o fizesse prever "interpelou" um desprevenido lojista e começou a conversar com ele sobre o quanto Lisboa tinha mudado e recordaram outros tempos de quando o Sporting marcava presença por aquelas bandas na sua velhinha Sede.


O Sr Ferrão, era um homem possuidor de conhecimentos quase enciclopédicos sobre a formação verde-e-branca e lembro-me perfeitamente de alguns anos atrás o apresentar ao meu pai com quem falou sobre Mário Lino, sobre Juca, sobre “Manecas” e sobre a Dobradinha de 1973/74. Apesar de só terem conversado nessa ocasião, até ao meu pai o Sr Manuel Ferrão deixou uma forte e boa impressão pois raras foram as vezes em que desde esse dia o “meu velho” não me perguntou “como andava o velhote?

O Sr Ferrão não pensava só no trabalho, pois tinha sempre tempo para “brincar” e aligeirar o ambiente com o seu incisivo sentido de humor, mesmo com 76 anos de idade continuava a reter uma certa "meninice" que agora que desapareceu começa a deixar-me tantas saudades pela forma senhorial mas "traquina" com que lidava com os seus amigos, pois eu não me esquecerei da forma “impiedosa” como carinhosamente me criticava sempre que eu não fazia a barba, advertindo-me à frente de outras pessoas em inúmeras ocasiões que da próxima vez eu ficaria à porta se não viesse de cara lavada. Dizia-me para cortar o cabelo, para perder peso, para me pentear, corrigia-me a postura se estivesse mal sentado, dizia-me para meter a fralda para dentro, queria saber se eu me alimentava bem e como andava a minha família. O Sr Ferrão nunca, mas nunca facilitava e com ele não podíamos “adormecer na neve” pois ele aquecia-nos logo as orelhas com umas quantas chamadas de atenção e correctivos verbais os quais agora deixam tantas saudades, especialmente aquele seu sorriso e eterna boa disposição.


Recordar-me-ei com carinho de todas as vezes que trocámos impressões sobre o nosso Sporting na sala de espera na Sede da Federação Portuguesa de Futebol antes dos sorteios dos campeonatos nacionais de Iniciados, Juvenis e Juniores. Sempre teve uma palavra amiga, um comentário humorístico e um grande sentido do que é fair-play e cavalheirismo no futebol, mas sem alguma vez esquecer os superiores interesses do Sporting. Tratava todos de forma calorosa, o Sr Tamagnini Nené, o Sr Manuel Ribeiro, os dignatários do FC Porto, Vitória Sport Clube, Braga, Boavista, etc, para ele fora dos relvados só havia lugar para o respeito e correcção, era a sua forma de estar no futebol e era algo que granjeava-lhe a amizade e o respeito dos adversários do seu Sporting.


Lembro-me de celebrar na pista de tartan a conquista da 14ª Taça de Portugal por parte do nosso Sporting no estádio do Jamor em Maio de 2007 frente ao CF Belenenses comandado pelo também “Leão” Jorge Jesus da Caparica. Uma tarde maravilhosa, em que o Sr Ferrão tirou fotografias na companhia de André Santos “Pini”, Carlos Saleiro “Saladas”, Sebastião Nogueira “Seba”, e onde tantos outros marcaram presença, “Janu”, Renato Santos, “Ribas”, Ruben, Nuno Reis, Bruno Matias, e um então desconhecido Rabiu. No final foi uma sessão de abraços, o Sr Ferrão, delegados das escolinhas, a caça ao autografo do Nani, do Veloso, do Djaló, etc.


Manuel Ferrão era querido e respeitado universalmente, quer no Benfica quer no FC Porto era um homem que contava com inúmeros amigos e pessoas que admiravam a sua fleuma e cavalheirismo. Muitas saudades deixará certamente do outro lado da barricada, pois com a presença de Manuel Ferrão na Academia a “arte de saber receber” tinha sido aperfeiçoada até ao limite, pois ele era alguém que nunca descansava até se certificar que todos estavam confortáveis e agradados com as condições que o Sporting lhes proporcionava.


Podia ser fanático pelo Sporting mas tinha sempre uma palavra amiga e de carinho para dizer sobre os adversários. Recordo-me como se fosse hoje de ver os Juniores leoninos vencerem o Benfica inapelavelmente por 3-0 na Academia em 2008 e antes do jogo Manuel Ferrão contou-me que sempre tinha tido em grande conta o Sr António Carraça (na altura dirigente máximo da formação vermelha-e-branca), elogiando os seus dotes futebolísticos enquanto jovem e lamentando que uma lesão e outros azares o tivessem impedido de singrar enquanto jogador a quem ele tinha reconhecido um bom potencial.


Falava sempre carinhosamente dos jogadores. Dizia-me que tinha sido o responsável pela vinda de João Couras (e tantos outros) para o Sporting, elogiava a qualidade técnica de Antoninho Silva então apenas um Infantil A mas já a jogar na equipa do Mister Tiago Capaz (Iniciados C) e muitas vezes falava da necessidade de “domesticar” os meninos aos quais não admitia tropelias nem excessos, chegando mesmo a enviar um promissor lateral esquerdo para as funções de apanha-bolas quando achava que o jovem começava a exteriorizar “moral a mais”.


Quando conversei com Emílio Peixe, perguntei-lhe quem tinham sido os seus maiores apoios no centro de estágio no velhinho Alvalade, o actual seleccionador Sub-16 mencionou vários nomes e concluiu com “e é claro, o Sr Ferrão!!!” pontuando a afirmação com um grande sorriso saudosista por tempos mais simples da sua vida. Poucos dias depois cruzavam-se os dois no Campo Nº2 do Estoril Praia e Ferrão fazia sempre uma festa quando via um dos “seus meninos”, chegando alguém a afirmar que Emílio Peixe tinha sido “dos que tinha dado mais trabalho” mas o Sr Ferrão depressa retorquiu que Peixe era dos que mais saudades tinha, Peixe, Jorge Cadete, Luís Figo e tantos, mas tantos outros que agora lamentam a sua despedida.


Grandeza social e desportiva será sempre importante, mas com o adeus ao Sr Ferrão o Sporting ficou irreparavelmente mais pobre em termos de grandeza humana.


Um abraço e até sempre, Sr Manuel Ferrão.
André Carreira de Figueiredo"

Por cada leão que cair, outro se erguerá...

EM FRENTE SPORTING!

3 comentários:

  1. Este texto do André está muito, muito bom!

    Não conheci o Sr. Ferrão, mas ontem antes do jogo do benfica vs porto li, no café, a notícia da sua morte na penúltima página do record. Notei que deveria ser alguém de muita importância dentro do futebol de formação do SCP. Confirmo-o hoje.

    Para a família do Sr. Ferrão, para os amigos, para os seus miúdos da Academia, a tds minhas sentidas condolências.

    A família sportinguista está de luto.

    SL!

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  2. Não conheci o Sr. Manuel Ferrão, mas bastam estes testemunhos para reconhecer e agradecer este exemplo de Dedicação Sportinguista.

    Os meus sentimentos à família.

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  3. Antes de mais gostava de agradecer ao André Figueiredo ter-nos confiado o seu texto, neste momento particularmente dificil, como é sempre quando vemos partir os que nos servem de referência e aos quais, ainda por cima, estamos ligados afectivamente. Pelas mesmas razões também o meu agradecimento público ao nosso amigo Hugo. Para os dois um abraço solidário, que estendo aos familiares e amigos e, com propriedade, a toda a familia Sportinguista, pois a perda é também nossa.

    Se a morte física é inevitável, cabe-nos a nós não deixar que o esquecimento mate a memória dos que, com o seu esforço, ajudaram a construir o imenso património que é hoje o Sporting. Mais do que tudo o Sporting é um ideal, uma forma de estar.

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