segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Supertaça, confronto de estruturas: um adversário que duvida, um Sporting que promete e, claro, Jesus

Duvidar, sempre e muito, até da própria sombra
O pior que pode acontecer a alguém, ou a uma organização, é não perceber as razões do sucesso ou do insucesso. É esse o momento dos nossos adversários de ontem e rivais de sempre. Terminou um período de sucesso, o melhor das últimas três quase quatro décadas, sem perceber a importância do seu treinador no processo, talvez reclamando para si percentagem maioritária na responsabilidade das vitórias. A dita "estrutura" parece ter pensado que ganhar era inevitável oferecendo jogadores a um treinador, fosse ele qual fosse, e um clube estável e próspero.

Talvez por isso tenha deixado partir o treinador, sem grande esforço para o conservar, entregando o comando a um novo técnico. As ideias do actual nada tem a ver com a filosofia que vigorou durante esse período, mas tem os mesmos jogadores. Estes foram escolhidos para jogarem sob um determinado modelo e têm ainda memorizadas as rotinas anteriores, mas hoje pedem-lhes que executem algo muito diverso, talvez até mesmo ao arrepio das suas características. Vivendo neste limbo, os jogadores parecem ter perdido qualidades, ou nem parecem sequer os mesmos. 

Isto não quer dizer que Rui Vitória não seja capaz de montar uma equipa vencedora, quer apenas dizer que vai precisar de mais tempo e, provavelmente, de ter outro tipo de jogadores. Ora o tempo nunca corre a favor de quem não vence, esse vai ser o seu grande problema, sobretudo na manutenção da estabilidade se, após um período de enorme sucesso, deixar de ganhar. As reacções à derrota revelam que, no essencial, grande parte continua sem perceber o que está a acontecer.

Os primeiros sinais de desorientação estão à vista: no que parecia ser finalmente a aposta na formação e retracção no investimento, após diversos anos de "all in" financeiro e desportivo, a "estrutura" desata a abrir os cordões à bolsa, com Mitroglu,  o tal que "não interessava", mas representa já um compromisso de algum valor. Entretanto apresta-se a "soltar a franga" com um ponta-de-lança que quase não tem jogado, mas significará nove milhões por cinquenta por cento do passe. Estes avanços e recuos nas aquisições e falta de coerência aparente na escolha da linha de sucessão de Jorge Jesus são sobretudo um bom sinal para os adversários.

Sporting: uma promessa de  valor e poder
Mais do que uma exibição imaculada, o Sporting fez ontem uma promessa de valor e de poder como candidato ao título. É ainda cedo para euforias - é sempre, até poder por a mão nas taças - não só porque é fundamental apurar a equipa para a fase de grupos da Champions League, mas porque é necessário perceber que soluções tem e como reage esta equipa aos autocarros adversários, sobretudo em casa, onde a candidatura ao título se estilhaçou nestas duas épocas de retoma. Quanto vale o hiper-vitaminado FCP de Lopetegui é outra questão em aberto, uma vez que é clara a superioridade de meios face aos demais. 

Jorge Jesus focou a palavra confiança na conferência de imprensa com toda a propriedade. Esta é talvez a qualidade mais evidente que esta equipa terá exibido ontem, o que lhe terá permitido superiorizar-se em grande parte do tempo de jogo ao adversário. O Sporting já o tinha ´conseguido em dérby's anteriores - "limpinho, limpinho" e no "chouriço do Jardel" - mas não de forma tão duradoura e categórica como ontem. Este talvez seja o "factor JJ" mais importante. 

Como é evidente, não há confiança possível numa equipa dispersa pelo relvado. Este Sporting jogará com os sectores mais próximos entre si. Houve vários momentos do jogo que pareceu termos jogadores a mais, o que de certo era verdade no sitio onde a bola estava a ser disputada.

Sem ter que fazer grandes vai-vens e tendo sempre um jogador a quem endossar a bola, Adrien é um sério candidato a titular da selecção. O mesmo se aplica a João Mário que, a par disso, revelou enorme sentido posicional, dando muito ao nosso jogo. Carrilo não teve medo de errar e passeou classe. Mané não precisa de ser titular para crescer e partir a loiça no caminho. Dos que chegaram ficaram-me as dúvidas sobre a velocidade de Ruiz e Teo para este modelo, sendo a classe do primeiro óbvia.

Conferências de imprensa a evitar
Tendo sido um apreciador do seu trabalho desde há muito tempo, até mesmo um fã, pelo menos desde os tempos do Belenenses que lhe reclamava um lugar no Sporting, nunca gostei do estilo arrogante de JJ nas conferências de imprensa. A soberba, mesmo a verde e branco, não deixa de o ser, por isso não vou mudar. Compreendo a sua necessidade de reconhecimento, atendendo a um passado subido a muito custo, e à falta de quem lhe dê o valor inegável que possui. Mas há demasiado excesso - passe a redundância - no discurso de JJ. Um deles foi a referência constante ao passado recente, em termos que repudio - "os meus jogadores" - quando os jogadores e clube dele agora são do e o Sporting.

Mas há uma característica em JJ, a somar à sua qualidade técnica, que talvez seja a ideal para este momento da vida do Sporting: a vontade permanente, quase obsessiva de ganhar, de melhorar, de superação. E uma confiança inabalável em si próprio que o leva a, ao invés de temer os adversários, ser temido por eles. O Sporting precisa disso, sim.

Parece claro que o Sporting tem uma boa base para queimar algumas etapas, e o perfil de jogadores escolhidos para reforçar a equipa indicam que essa é intenção deliberada da SAD. A tal dita cuja estrutura, muito em particular o presidente, acaba de colher os frutos de uma actuação arrojada, mas deve perceber, certamente já assim acontece, que tem pela frente um futuro próximo muito exigente para poder estar à altura das ambições do treinador.

Octávio
Não termino sem falar em Octávio. Gostei de imenso do seu discurso no final do jogo, confirmando aquilo que imaginei ter-lhe sucedido: a passagem pelo Sporting marcou-o para sempre. O Sporting tem esse condão, de se incrustar no coração de muita gente e de não deixar ninguém indiferente, exactamente porque é diferente. Isso não se explica, sente-se.

13 comentários:

  1. Brilhante análise!
    Subscrevo!
    SL

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  2. O mesmo Óctávio que há 9 meses atrás chamava de fala-barato sem inteligência a BdC? Tu vês coração, eu vejo um merdoso vira latas. Vai pra quem lhe pagar mais.

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  3. Gostei da análise, faltou apenas um elogio à "desilusão" NALDO. Em anterior post tinham catalogado Naldo como uma desilusão face aos nomes falados na imprensa, mas ontem demonstrou que pode ser um reforço útil à defesa.
    Este é o Sporting, em que jogadores que ninguém ou poucos conhecem (CR7, Figo, Nani, Duscher, Naybet, Rojo...) ganham espaço e projecção, ganham ambição e confiança transmitida através dos adeptos que amam o Sporting...Enfim, um clube (treinador+estrutura+presidente+adeptos) que no seu conjunto lhes possibilita desenvolverem-se e serem melhores jogadores e pessoas. Esta é a nossa diferença. E Octávio também sente isso, conforme referiste e bem no post.

    Nota também para uma afirmação do JJ: os jogadores do SCP são inteligentes, o que possibilita ser mais fácil num curto espaço de tempo (4-5 semanas) assimilarem as suas ideias. Esta é a diferença da nossa formação, não é ganhar (se acontecer melhor), mas é capacitar/desenvolver jogadores para o futebol sénior. E isso em Portugal, com a qualidade do SCP, não existe.

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  4. Nuno,

    Não faltou. Talvez tenha faltado teres lido o que escrevi a propósito do Naldo, aqui neste post:

    http://anortedealvalade.blogspot.pt/2015/07/a-planificacao-defesa-o-6-os-reforcos.html

    "A supresa é Naldo. Mantenho o que disse aquando do anuncio da contratação, uma vez que não é um craque. Mas a sua simplicidade de processos e concentração permanentes serão de grande utilidade. É natural que possa começar a época a titular."

    Mantenho o que então pensava depois do jogo de ontem.

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  5. Não são o jogos contra equipas famosas que me preocupam, mesmo nos nossos piores anos a resposta da equipa em jogos grandes foi boa, mas esse bom desempenho resultava normalmente num empate ou derrota pela margem mínima. Faltava sempre um Danoninho...

    Ao ver a equipa ontem a jogar não senti falta de nenhum danoninho, todos tinham lanchado uma bifana e uma mini à gajo, chegar ao balneário, trocar de roupa e sair para ganhar o caneco. Feito!

    Também não estou muito preocupado com o CSKA, apenas com os nomes que o JJ vai chamar aos russos (XKA? ÉSCA? Chiclet de Moscou?). O meu problema vão continuar a ser os Tondelas do nosso burgo é aqui que eu quero avaliar e ver a evolução da equipa.

    Muito vão crescer os putos com a concorrência que se instalou no plantel, se o trio que entrou ontem do banco de suplentes, absorver metade da soberba de JJ no final da época são titulares.

    Sexta começa o circo e já não há redes de protecção, agora cada ponto perdido só pode ser recuperado na próxima época.

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  6. Sim, é a vinda de Jesus veio lembrar-nos de uma verdade básica: o treinador é a peça mais importante numa equipa de futebol.

    Mas é bom que se diga. se o Benfica está agora a descobrir à sua custa o erro de desvalorizar este facto, que dizer de nós? O Sporting e os seus dirigentes andaram 20 anos - repito, 20 anos! - a tentar desvalorizar a figura do treinador. Venderam-se milhares de páginas de jornais e de horas de televisão para propagar a ideia de que o treinador "era só mais uma peça na estrutura" e que escolher um treinador é encontrar quem melhor se encaixe num "perfil" pré-definido - em vez de se estar aberto a novas ideias e métodos de trabalho que ele possa trazer.

    O resultado foi uma sucessão de treinadores que suportavam tudo e pouco ou nada exigiam por dívida de gratidão para com os dirigentes que lhes davam uma (imerecida) oportunidade num grande clube. Chegámos até a um ponto ponto em que treinar o Sporting tinha deixado de ser um ponto de chegada num percurso de sucesso para passar ser um lugar onde ter pouca ou nenhuma experiência de I Divisão era o principal requisito.

    Espero que esses dias estejam definitivamente enterrados.

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  7. Parece ter havido inversão do ciclo.

    Para já, penso que o melhor é deixarmos os foguetes guardadinhos e continuar a percorrer o longo caminho que ainda temos pela frente. Para já, ferimos o SLB na partida, mas isso, por si só, não chega. Longe disso.

    Aproveito, também para vos publicitar a minha recente decisão de contribuir para a causa.
    http://ocalcanhardoxandao.blogspot.pt/

    apareçam, que há matrecos! abraço

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    1. "apareçam, que há matrecos!"

      LOL! E bejecas? Tb há? Boa sorte como tasco novo. SL

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  8. RV – Mordeu o isco de JJ, não respondeu mas deu ouvidos às provocações e mudou demais… As suas dúvidas e hesitações tramaram-no a ele e aos seus jogadores. O Benfica foi uma confusão do princípio ao fim e apenas qd se viu a perder tentou…empatar o jogo. Mas tentou mal, já que não me recordo de uma única defesa do nosso Patrício…

    JJ – tb não aprecio enquanto pessoa. Prezo, cada vez mais, enquanto treinador de futebol. Acho a sua arrogância excessiva e até escusada. Pode transmitir a mesma mensagem mas de forma mt mais adequada. Mas não é aos 61 anos que JJ vai mudar… Dito isto que me continue a envergonhar nas CI’s… Se ganhar os jogos com a categoria e a superioridade demonstradas neste domingo, perdoo-lhe.

    Adrien esteve realmente mt bem, tal como Super Slim, Carrillo, Mané que entrou mt bem, mas quem me encheu as medidas foi João Mário: jogaço e o melhor em campo, para mim.

    Bryan Ruiz – falso lento… Onde é que eu já ouvi isto??? Ah! Pedro Barbosa. É isso, o futebol de Ruiz, a sua classe e as características físicas fazem-me recordar do nosso antigo e saudoso n.º 8.

    Teo Gutierrez – Já Teo sim… pareceu-me pouco veloz, principalmente no arranque. Mais velocidade e poderia ter feito muito mais estragos. De qlq forma molhou a sopa que o auxiliar do Sousa resolveu entornar…

    BdC: tb não aprecio o estilo, mas tem acertado sempre nas escolhas dos técnicos principais. E há que reconhecer que essa é uma situação a que não estávamos habituados. Qd assim acontece, acerto no treinador, o investimento em jogadores consagrados é menor. Esta época, ao contrário da anterior a aposta tem sido fundamentalmente em jogadores experientes que em conjunto com os nossos melhores putos da Academia transforma o objectivo em vencer no imediato. Concordo muito mais com esta politica do que com o camião cheio de entulho (ver época anterior…), com o qual hoje não sabemos mt bem como despachar…

    Cinco semanas e nota-se já uma evolução nesta equipa que me deixa esperançoso e confiante numa boa época do SCP. Oxalá se concretize. Para já: ‘estrutura’ ZERO vs ‘cérebro’ UM.

    LdA, o que disse o Octávio? Passou-me completamente despercebido…

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    1. Relendo o que escrevi topei uma gaffe:

      Onde escrevi isto: "Qd assim acontece, acerto no treinador, o investimento em jogadores consagrados é menor"

      Queria dizer isto: "Qd assim acontece, acerto no treinador, o RISCO NO investimento em jogadores consagrados é menor"

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  9. Virgílio, pode ser visto neste link, por volta dos 16:15 minutos

    https://www.youtube.com/watch?v=saQArXg6nkg

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    1. Obrigado, Peyroteo.

      Gostei de ouvir o Octávio... E no final lá teve uma tirada típica nele: "eles (as assessorias) sabem a quem me refiro" LOL! Gde Palmelão!

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