quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A (entrevista) profecia de Elias: "Nos próximos anos vai ser dificil o Sporting competir com SLB e FCP"

A capa do jornal "O Jogo" dá hoje destaque a Elias remetendo-nos para uma entrevista que está longe de justificar tamanha notoriedade, pela escassez do conteúdo. O interesse resumir-se-á precisamente à capa, onde estão condensadas talvez os pormenores mais interessantes: a evidência de que, pelo menos para alguns jogadores, o despedimento de Domingos não foi bem digerido e a profecia de que o Sporting nos próximos 5 anos não conseguirá competir com os seus rivais SLB e FCP.  Vamos por partes.

As presentes declarações de Elias sobre o despedimento de Domingos à luz dos acontecimentos da presente época braqueiam a situação que se vivia na altura do despedimento do treinador e desresponsabilizam-no. O Sporting tinha feito o maior investimento da sua história recente, do qual não se pode ilibar as responsabilidades do treinador, quanto mais não seja por omissão. 

Quando Domingos sai a equipa não jogava um caracol, acumulava lesões musculares atrás de lesões musculares e encontrava-se já no quinto lugar, atrás dos seus rivais, do Braga e do Marítimo. Hoje, face ao que se seguiu, e muito fácil dizer que teria sido melhor manter Domingos, à luz de então talvez sim, talvez não. A ideia era mudar para melhor, o que parece ter funcionado num primeiro momento, mas que se revelou o desastre que hoje se conhece, com implicações muito directas na crise institucional que hoje se vive. 

Visto aos dias de hoje foi-nos fatal, mas não nos permite adivinhar o que se teria passado se Domingos tivesse permanecido. Isto porque ninguém sabe responder o que teria acontecido no final da Taça, ou se as meias-finais na UEFA teriam ocorrido. Isto é, se os resultados de Domingos se mantivessem a actual crise podia até ter surgido ainda mais cedo.

Quanto à profecia de Elias, que nos remete para cinco anos de duro penar, a comer o pó que os nossos rivais deixam para trás, tem alguma razão de ser face à realidade. Mas não tem o valor de uma condenação irremissível.  Pode ser assim como pode ser pior, e não faltam exemplos que sustentem qualquer das teorias. O destino será traçado no que for feito no imediato. 

O que fazer então para que a profecia não se cumpra ou pelo menos não veja o seu prazo dilatado?

Realismo, acima de tudo. É uma asserção "lapalissiana" bem sei, mas indispensável. Só a percepção do real valor - qualidades e fraquezas - e do valor relativo permite um bom diagnóstico e daí chegar às melhores soluções. E aí parece-me fundamental fazer 3 considerações:

1- Estamos muito atrás dos nossos rivais e, neste preciso momento, também do SCBraga. Em relação a este último é possível no curto prazo inverter posições. Atingiu o zénite com o segundo lugar de Domingos mas não tem massa critica para fazer mais do que isto: brilharetes esporádicos.

2- A importância da manutenção de Jesualdo. Desde logo no imediato. A sua saída agora podia-nos ser fatal e a sua continuidade evita ter que começar de novo. Ter coragem de não mudar o que está bem é tão importante como a necessária para fazer alterações dolorosas. Jesualdo pode ter a mesma importância para o Sporting e sobretudo para a próxima gestão como JJ teve para LFV. Isto mesmo considerando que o Sporting actual não poderá por ao dispor do seu treinador os meios que de que JJ pôde então beneficiar. Não vejo no universo Sporting quem, a nível técnico, ofereça melhor que Jesualdo.

3- Não fazer considerações precipitadas sobre o valor individual dos jogadores que compõem o plantel. 

3.1 -É obrigatório ter em conta que este ano foi um ano perdido, fazendo com que alguns jogadores estagnassem ou até regredissem e todos, excepção de Patricio, ficassem aquém do valor que deles se esperava.

3.2 - A juventude  em excesso do plantel - no último jogo Rinaudo era o jogador mais velho, mas tem apenas 25 anos! - tem do seu lado a possibilidade de evolução do já muito razoável valor mas, para um clube instável e à procura da sua identidade ganhadora, é também um problema adicional. O facto de não dispormos de grandes recursos pode até "ajudar-nos", por não ser possível uma nova revolução ao invés de ajustes necessários. 

Mas as questões de maturidade não se põem apenas em abstracto, devem ligadas ligadas directamente à competição. Ontem o Miguel Nunes dizia-nos aqui na caixa de comentários com alguma razão que o actual meio-campo "nem para limpar as botas a Veloso, Moutinho, Izmailov, Romagnoli" que, com Paulo Bento, até nem conseguiram ser campeões. 

Uma meia-verdade seguida de uma verdade incontestável: "Não adianta ter bons gestores se depois à frente do que mais toca a todos estão patetas a tomar decisões que prejudicam o futebol e consequentemente todo o funcionamento do clube". Este tem sido "o problema-mãe" de quase todos os outros que dele nascem em cascata: a falta de resultados, os problemas financeiros, a contestação. Temas que de certa forma já tinham sido abordados aqui, no Lateral Esquerdo.

Antes da análise a uma e a outra um parêntesis. Ajudará muito ao sucesso do clube resolver na cabeça dos seus adeptos o que parece ser uma crise de identidade. O Sporting não será mais pequeno se, neste processo, não conseguir ganhar no imediato. O Sporting é grande pelo seu passado e pela sua matriz, mesmo que esta esteja a precisar de lustro. O Sporting nunca se identificará como um clube formador - a excelência da sua escola é um valor incontestável - se os seus adeptos olharem apenas para o passado - Damas, Manuel Fernandes, Futre, Figo, Simão, Nani, Ronaldo, etc - ou para o futuros quiméricos se não souberem sofrer as dificuldades dos que, no presente, precisam do tempo e do espaço para se afirmarem. O Miguel Nunes fala-nos de um valor nunca reconhecido, especialmente de Pereirinha ou Carriço e concordo inteiramente com análises que faz.

Primeiro a meia-verdade. À época Moutinho, Veloso, Romagnoli e Izmailov tinham também o mesmo problema de que enfermam os actuais jogadores do actual plantel: eram jovens, o seu valor era também contestado, bem como os dirigentes que os comandavam. O seu valor adivinhava-se mas nem sempre o seu rendimento lhe era equivalente.

Moutinho só viu o seu valor inteiramente reconhecido quando mudou para uma equipa e clube estável, onde as suas preocupações se devem resumir em treinar, jogar, evoluir, ser melhor, ganhar. Sem isto, o valor facial do jogador diminui e o seu potencial será sempre uma promessa por cumprir. E isto é muito do que os jogadores do Sporting não têm tido, nem então e muito menos esta época. Isto é um dado objectivo que se sobrepõe a outras considerações com um grau de subjectividade muito maior.

Depois a verdade incontestável. Todo e qualquer dirigente tenderá a fracassar se não conseguir reconstruir o departamento de futebol. O Sporting tem sido um cemitério de ilusões, um pira permanente de profissionais e dirigentes. Olhando para os exemplos recentes de Izmailov ou até de Moutinho, podemos ser levados a concluir que o Sporting está sujeito ao karma de contratar apenas maus profissionais. Isto equivale a  enterrar a cabeça na areia.

Repare-se no caso de Izmailov. Mal chegou ao FCP foi-lhe posto à disposição um tradutor. É de pasmar que um jogador que está há 6 anos em Portugal não saiba ainda falar português. Isso diz-nos alguma coisa sobre o seu insucesso relativo no Sporting, da sua pessoa como individuo, mas diz-nos muito como trabalham os dois departamentos de futebol. O FCP não se deteve em raciocínios mais ou menos "filosóficos" do género  "mas que raio de gajo é este que há tanto tempo em Portugal não fala português" tratou de resolver o problema. Com isso protege o seu investimento, promove as condições para o seu mais rápido sucesso, revela profissionalismo. 

Como é que ninguém se lembrou disto no Sporting? Pois... Isto ajudará muito a perceber como surgem casos como o de Stojkoivic, por exemplo. Lembro-me perfeitamente de uma entrevista em que o irmão e então empresário Vladan protesta contra o comportamento do Sporting, já decorria então o processo que levaria à sua saída, em que o jogador, acabado de chegar e sem saber falar português, não dominava os vários aspectos relacionados com as acusações que lhe eram feitas. Hoje damos graças à confirmação do valor de Patrício mas esta não teria que ser mutuamente exclusiva com o de Stojkovic, e em particular do clube, que não viu ressarcido o investimento realizado.

Juntamente com a incontornável questão financeira - sem dinheiro não há vicios e a necessidade dramática de um valor considerável é por isso um ponto crucial e não de somenos como alguns pretendem - estes serão os aspectos que levarão à ponderação do meu voto.

Estas é que são as questões cruciais para o Sporting, juntamente com a compreensão da matriz eclética do nosso clube. Mas, como também agora se vê, até podíamos ser campeões em todas as modalidades - o que nem vai ser o caso - que será sempre o futebol a decidir o destino dos próximos dirigentes como já decidiu os anteriores.

Infelizmente as mais acaloradas discussões andarão à volta do "croquetismo", do "terrorismo", do "verdadeiro sportinguismo" e outros "ismos", modalidade em que nos tornamos campeões sem outros adversários que não nós mesmos, os Sportinguistas. 

Por vezes sou levado a pensar que tal sucede porque em relação a estas matérias há também um profundo desconhecimento do que propor e é por aí que se funda o reino do silêncio, das banalidades ou até o da asneira.


11 comentários:

  1. O erro não foi, como muitos dizem, o despedimento do Domingos. Ou melhor, esse poderá ter sido um erro mas terá sido um erro muito menor que a manutenção de Sá Pinto.

    Escolher Sá Pinto percebe-se. Para acabar a época era preciso alguém de perto. Mas manter o Sá para lá da temporada é inexplicável.

    E encontramos uma justificação para o problema no teu texto. O Porto trata de resolver, nós não. Identificava-se um problema com Sá Pinto mas mais depressa se pensou nas consequências da sua saida perante os adeptos que nas consequências da sua manutenção para a equipa.

    O resultado de pensar a curto prazo resulta da falta de capacidade para entender que os adeptos vão sempre gostar de quem vence e não gostar de quem perde. Nesse sentido acha-se que mais vale escolher para agradar hoje. Na verdade, deve-se escolher para agradar amanhã.

    E puxando isto para o presente assumamos que Jesualdo não fica (Não deverá ficar para lá desta época por uma razão simples: nunca terá plenos poderes como tem hoje):

    O novo Presidente terá de escolher um técnico. Pode escolher para agradar ou pode escolher segundo critérios de quem percebe de futebol. Um bom treinador dá quase sempre certo, isso não implica ser campeão mas implica o potenciar do plantel que de cada vez tem. Mas um treinador para agradar só é bom por pura coincidência e isso corre mal pois escolhido para agradar irá para rua quando deixar de o fazer.

    O treinador contratado pode ser odiado. Imaginem que vem o treinador do Paços. Será dito que "é treinador de pequeno", "não tem estaleca para o SCP", "erro crasso". Mas ganhando depressa será adorado. Se quem percebe de futebol identifica um conjunto de bons alvos não interessa se se gosta deles ou não. Se são bons acabará por se gostar.

    Escolher para amanhã.

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  2. A grande responsabilidade do que se está a passar hoje no Sporting é de Domingos, Freitas e Duque.
    De facto, estes senhores, naturalmente com boa vontade, não conseguiram construir um plantel tendo rebentado com as bases do anterior e tando gastado milhões de euros.
    O presidente Godinho, que foi quem lhes passou esse cheque em branco, teve de assumir a responsabilidade.
    O sporting luta com dificuldade para resolver o cancro que representa o plantel deixado por Domingos, Duque e Freitas.
    Na supra mencionada entrevista fica evidente que o próprio Elias seria um cancro dentro do Sporting, sendo um jogador caríssimo, uma contratação de alto risco, na altura, pois o jogador estava em baixo de forma em Madrid. No Sporting pouco mostrou.

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  3. Execlente post com registo para o seu encerramento:

    "Infelizmente as mais acaloradas discussões andarão à volta do "croquetismo", do "terrorismo", do "verdadeiro sportinguismo" e outros "ismos", modalidade em que nos tornamos campeões sem outros adversários que não nós mesmos, os Sportinguistas.

    Por vezes sou levado a pensar que tal sucede porque em relação a estas matérias há também um profundo desconhecimento do que propor e é por aí que se funda o reino do silêncio, das banalidades ou até o da asneira."

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  4. Ora cá está uma perfeita análise das duas realidades: A de facto e a subjectiva.
    E quanto a isto pouco mais à acrescentar a não ser no campo do desejo, e dizer:
    "Que tudo corra pelo melhor".

    SL

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  5. O Elias como um dos (o?) mais bem pagos do plantel devia era ter capacidade de assumir a sua posição em campo. Agora deixar de jogar e forçar a saída...:(

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  6. Concordo em grande medida com o que foi referido.

    Apenas 2 ou 3 notinhas:

    1º Moutinho já era craque quando saiu do Sporting, só a besta do Queiroz é que não via isso!!!
    2º M. Veloso era jovem, Romagnoli e Izmailov nem por isso. Com excepção do russo os outros 2 eram muito contestados pelos adeptos.
    3º Não percebi a alusão a Stoikovic... A teimosia de C. Freitas, que o contratou e que queria que P. Bento o metesse a jogar a todo o custo, quase deu cabo da afirmação do melhor guarda-redes Português. Felizmente, tinhamos então um treinador conhecedor e com ideias próprias e C. Freitas demitiu-se por causa disso. Não podemos dizer que defendemos a formação e depois estarmos a minar os valores que temos.

    4º Falando das próximas eleições, eu não faço ideia nenhuma em quem votarei. Uma coisa eu sei, quem não disser claramente que pretende manter Jesualdo Ferreira como treinador e responsavel pelo futebol do Sporting, não terá o meu voto.

    SL

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  7. Curiosas as capas dos desportivos de hoje... os mais distraídos ficam sem saber que a 4a selecção mundial jogou ontem... muito menos importante que uma carta anónima na caixa de correio do ricky ou o que acha o elias lá do outro lado do atlântico?!

    Este é um dos trabalhos da nova direcção! E será dos mais duros!

    Quanto ao jesualdo, enquanto estivermos do seu lado, apenas vamos ver candidatos a adiar a decisão. Ridículo é o motivo, quando esse mesmo motivo, na altura agravado, não pareceu importante. Estávamos em março de 2011.

    SL

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  8. Com profissionais como tu (Elias) nem nos próximos 20 anos...

    Que desilusão... só vens confirmar a tua (in)aptidão para a profissão que escolheste... É pena... Pois potencial não te falta... Mas qdo cá andaste nem jogaste uma beata... Também ninguém te obrigou é um facto... Mas o brio profissional vê-se, também..., para lá do chuto na bola...

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  9. Veremos quantos meses demorará o Elias a dar uma entrevista destas, mas sobre o Flamengo.

    Não são os principais culpados. Isso nunca poderão ser. Mas os jogadores não poderão ser ilibados de uma parte da responsabilidade do actual estado (desportivo) do Sporting Clube de Portugal.

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  10. Mais uma vez um bom post,que não exclui candidatos só porque sim e tenta procurar as razões do fracasso do Sporting de uma forma lucida. Desta vez parece que vamos ter menos candidatos porque neste momento o Sporting não é um clube apetecível. O que pode não ser mau, podendo com muitos candidatos o Sporting continuar muito dividido. Agora não tenho duvidas por aquilo que tenho lido na blgosfera, que o proximo presidente vai ser eleito mais pela emoção que pela razão. A forma como muitas vezes se ofendem uns porque estão conotados com X, outros porque estão conotados com Y, não permitem uma avaliação racional e desapaixonada dos vários candidatos. Mais que ofender seja quem for avaliemos ideias, porque um verdadeiro projeto para o Sporting não se faz no tempo que medeia até às eleições. Não digo que não a nenhum candidato porque não. Acho mesmo que devemos ser exigentes com todos os candidatos e expormos as nossas dúvidas aos mesmos. Mas quando o fizermos também devemos ter a capacidade de os ouvir de mente aberta. Até agora nenhum dos candidatos foi muito concreto o que não deixa de ser compreensível nesta fase.Penso que caso Couceiro não seja candidato, penso que este é um recurso que não pode ficar esquecido pelo Sporting e penso que este com Bruno Carvalho era algo que me agradava. Para aqueles que ficam nervosos só com o nome de BC, sei que este não é nenhum milagreiro e como qualquer ser humano tem defeitos e tenho mesmo dúvidas sobre algumas das suas ideias, mas no actual contexto não vejo ninguem melhor. Mas uma coisa tenho a certeza, seja quem for o presidente tem de ter uma boa equipa, por isso a importancia de Couceiro caso não seja candidato, porque se o for é o meu preferido.

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