segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A competência e a falta dela. (Na selecção e no Sporting)

Passe o exagero, o dia futebolístico de hoje deve-se assemelhar ao dia em que se conheceu a noticia da derrota em Alcácer-Quibir: Um desastre nacional! É pelo menos assim que amanheceram a generalidade das reacções à derrota no jogo de estreia com uma selecção sem outro historial que não seja perder jogo sim, jogo sim, e de vez em quando não.

Paulo Bento é o réu já no patíbulo, falta saber a que horas a guilhotina começará a viagem descendente. Aqui, o maior erro do ainda seleccionador é não ter percebido que a sua morte para a função já havia ocorrido ainda no Brasil e ter continuado a acreditar na sua própria ressurreição. Quando olhou para o os compromissos já calendarizados provavelmente achou que ela era facilmente alcançável. Agora, a ocorrer, será apenas ao segundo jogo...

Falar em morte é referir-me à sua credibilidade, importante para definir a relação de confiança com os adeptos, e através dela a ligação indispensável com a equipa. Ao falhanço rotundo na excursão ao Brasil - definição particularmente benévola - seguiu-se uma "corajosa" assumpção de culpas próprias, mesmo que em modo de português suave. As aspas estão ali para lembrar que se tratou de um acto pouco comum entre responsáveis do que quer seja, que deveria ser o hábito e não a excepção.

A falência da confiança em torno de Paulo Bento não é tão importante como a da sua competência técnica. Não me parece que a possa ter perdido com o passar dos meses, como se de ar de um furo lento num pneu se trate. Mas é incontestável que já nada resta das promessas deixadas pela goleada épica aos "nuestros hermanos", ainda estes viviam dos juros da sequência dos títulos alcançados. Dizer hoje que a selecção não joga um caracol é não gostar de nenhuma das formas que estes são conhecidos, seja num pires com uma loira, seja nos cabelos dessa mesmo... Esse é principal problema de Paulo Bento e da selecção, mais do que jogar este ou aquele naquela posição, daquele ou deste empresário, porque até não há assim tanto por onde escolher.

Sem ilibar as responsabilidades do seleccionador - porque a selecção tem que ser capaz de muito melhor ante os albaneses ou cipriotas desta vida - há que constatar que a qualidade humana e mesmo o espectro de recrutamento de Paulo Bento diminuiu drasticamente desde que a Albânia, há 6 anos, nos pré-anunciou o que ontem concretizou. Mas não é de todo de esquecer que nesse dia em Braga jogaram Ronaldo, Nani e Quaresma que, juntamente com Miguel, Pepe, Bruno Alves, Moutinho, Almeida, Danny, eram 6 anos mais novos. Paulo Ferreira, Miguel e Nuno Gomes ainda jogavam, o que emprestava a Carlos Queiroz muito maior qualidade que hoje Paulo Bento tem à disposição. Isto sem falar em Bosingwa, Carvalho, Simão que, à altura, estavam lesionados.

O apuramento está longe de estar comprometido por causa da perda de um ponto, se se quiser fazer o paralelismo com o resultado de 2008, com realce para o facto de a qualificação para o Mundial que então se disputava ser muito mais contingente que a mesma fase do Europeu que agora começa. Se é indiscutível que é impossível fazer pior, não será difícil constatar também que venha quem vier tem possibilidades diminutas de igualar o que fez nos anos mais recentes, nomeadamente os segundos lugares dos europeus que, Lisboa 2004 à parte, pareceram significar sonhos acima das nossas possibilidades futebolísticas.

Muito do que hoje somos (in)capazes de fazer já não está no jogo em cima do tabuleiro do seleccionador. A célebre geração de ouro de Queiroz já deixou de render dividendos há muito, a que se veio a somar uma geração de ouro azul e branco (Mourinho e as suas equipas que ergueram a Taça UEFA e dos Campeões Europeus), onde se sustentaram as vitórias do clube da Invicta e último estertor de uma selecção capaz de navegar no mar dos big five dos rankings. De lá para cá vivemos da nulidade do trabalho que deixou de ser feito no fomento do futebol jovem com a saída de Queiroz e com a chegada em jeito de contentores de jogadores estrangeiros à volta dos quais se vão construindo as equipas dos clubes grandes.

O Sporting tem sido mais ou menos a excepção nesse movimento, processo que agora apregoa querer regressar, depois da passagem de Bettencourt e Godinho Lopes pela presidência terem significado um importante desvio numa aposta que até vinha parecendo assumir um crescimento sustentado. Coincidência das coincidências, protagonizado pelo mesmo Paulo Bento.

Falta ainda saber o real impacto da chegada de tanto jogador jovem para competir com jovens. A sua real importância só a conseguiremos perceber daqui a alguns anos, tal como está o país futebolístico a perceber agora os resultados da falta de planeamento. Obviamente que o desfecho não tem que ser igual, o que se pretende é prevenir que, acima das discussões mais ou menos acaloradas sobre a aposta na formação e falta dela, as verdadeiras consequências estão ainda fora do alcance dos nossos olhos.

Como é fácil de perceber pelo que aqui escrevo, tenho muitas dúvidas no modelo que vem sendo seguido. Não me parece fazer sentido apostar em jogadores que, pelas primeiras impressões, nada acrescentam em qualidade aos lugares para que pareciam destinados, a primeira equipa, acabando por se acotovelar na B "para ganhar experiência".  A grande vantagem é que este meu "delito de opinião" não traçará o destino de sucesso ou continuação de falta dele para a principal equipa do Sporting.

Quanto a mim o insucesso que se regista há anos, e que a falta de troféus recentes documenta, deve-se à falta de competência exibida pelas diversas equipas dirigentes, consubstanciada numa compreensão deficiente das exigências do futebol profissional. Debilidades acentuadas pela instabilidade interna em que o clube tem vivido e que os nossos adversários/inimigos têm sabido aproveitar e potenciar nos momentos certos.

Apesar disso, ao contrário do que parece ser um movimento de opinião crescente, não é a acção dos jornalistas, dos dirigentes disto e daquilo, a responsável principal pela nossa anemia competitiva. As principais razões deverão ser procuradas internamente e, como em tudo na vida, a situação actual é o resultado de escolhas feitas e da qualidade ou falta dela que daí resultou. Tal como as de hoje serão no futuro a médio/longo prazo.

Para exemplificar nada melhor do que olhar para o que se vem fazendo no futsal. Os adversários/inimigos são mais ou menos os mesmos, as suas acções também. Vale assinalar que a concorrência menor,  por falta do FCP, também seja determinante, porque não é o mesmo que competir a 2 ou a 3.

Mesmo com ajustes nos orçamentos, saídas de jogadores importantes, o Sporting mantém a hegemonia da modalidade, como ainda no passado fim-de-semana fez questão de demonstrar. Seguramente que os resultados alcançados espelham a qualidade do trabalho realizado. Até mesmo nos anos em que não se consegue ganhar as equipas do Sporting não deixam de ser referências na modalidade. Mesmo percebendo as diferenças de contexto, talvez o futebol deva olhar mais vezes ao que se faz de bem à sua volta, no clube.

1 comentário:

  1. Como bem sabes sou admirador de Paulo Bento, nesta questão da seleção acho que ele falhou como selecionador, não como treinador. Já ninguém consegue compreender nada de nenhuma convocatória. Se no mundial existia a desculpa de premiar aqueles que tinham conquistado o direito de lá estar, por oposição a escolher jogadores em melhor forma, neste momento já nada faz sentido.

    Ou melhor faz, a seleção de jogadores não tem por bases princípios técnicos mas económicos, se admitir isto faz todo o sentido.

    Porque raio vai um selecionador português ver um benfica-porto?
    Para ver 4 ou 5 jogadores mais do que referenciados?
    Onde estão os jovens portugueses a jogar (dos 22 aos 25 anos)?

    Se em vez de lamurias bacocas existisse um verdadeiro trabalho de prospeção e lançamento de jovens em amigáveis, em vez de aturarmos as mesmas estrelinhas de sempre a fazer fretes para cumprir calendário, talvez hoje o leque de escolha fosse superior.

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