sábado, 29 de agosto de 2020

Portimonense 1 - Sporting 2: a começar como acabou

Nota: todas fotos são da autoria da @Idzabela
 

O jogo em Portimão foi o primeiro dos três até agora realizados pelo Sporting que tive oportunidade de observar. Não tendo presenciado os anteriores, podendo por isso incorrer em erro, o sentimento mais relevante que sobressaiu no jogo de ontem foi a de estar na presença de um dos últimos jogos da época passada. Esta sensação de deja vu resistiu apesar de as alterações produzidas no onze inicial roçarem os 50% de jogadores: estiveram no onze inicial de Porro, Fedal, Antunes, Rodrigo Fernandes e Nuno Santos. 

Não tendo entrado mal na partida, o Sporting foi perdendo fulgor à medida que as dificuldades cresciam, como que parecendo descrer das suas próprias capacidades. A explicação, tantas vezes procurada em questões exclusivamente individuais, no fado, na tristeza ou nas estrelas, deve ser encontrada na forma como os jogadores puseram em prática as instruções recebidas e na sua adequação ao plano de jogo. 

Até serem operadas as substituições - em grande parte do jogo, portanto - o Sporting foi-se tornando numa equipa inofensiva, incapaz de chegar com eficácia ao último terço do terreno, não conseguido por isso ferir ou sequer lançar o sobressalto no reduto defensivo do Portimonense. Incapaz de gerir a posse da bola, caindo quase sempre no mesmo erro de a despachar sem grande acerto ou possibilidade de êxito. Isto muito por causa da distância entre si nas suas peças mais adiantadas, onde Sporar tanto foi vitima, porque pouco  solicitado, como réu, por pouco se ter mostrado ao portador ou oferecido como ligação. 

Até esse momento, foi mais uma vez decepcionante a participação de Plata, respondendo mais uma vez de forma expressiva à pergunta tantas vezes feita no passado: "porque não joga Plata?". A manter este nível dificilmente oferecerá argumentos à sua utilização. Das muitas explicações de que parece necessitar, talvez fosse útil fazer-lhe entender a importância do carácter colectivo do jogo. Este não pode ser entendido como um momento de exibição do talento inato que indiscutivelmente possui, mas de um trabalho de participação, associação e interacção com os colegas de equipa.

Porro pareceu padecer do mal do momento - o cansaço acumulado - que contribui normalmente para decisões pouco esclarecidas, quer na execução, quer na movimentação. Isto é tão válido para a apreciação das suas acções ofensivas como para as tarefas defensivas, onde a dificuldade de recuperação foi mais um entre vários problemas exibidos. A rever.

Fedal terá pouca utilização no lugar, arriscando-se a passar vários jogos na bancada por impedimento disciplinar, se continuar a usar a dureza como argumento. Ao Sporting não é permitido os Filipes e os Rúbén em nenhum dos Dias, como aliás ainda se viu ontem naquele penalty que só pode ter sido cometido por um qualquer fantasma de serviço em Portimão.

Antunes não foi muito solicitado nas suas movimentações pelos colegas, mas provou a sua utilidade, parecendo, numa primeira observação, ter as suas qualidades intactas. Disputará certamente a titularidade a Mendes, obrigando-o a crescer mas seguramente que a sua experiência poderá significar um importante ponto de referência desde os treinos até aos jogos, independentemente de em quem recair a escolha de Rúben Amorim para titular.

O regresso de Rodrigo Fernandes não foi especialmente feliz, nem se saldou pelo desastre. Além do natural cansaço que afecta todos, a sua parca utilização no ano passado e o facto de ter jogado no momento menos feliz da equipa não o ajudaram, pelo que será necessário nova observação para perceber melhor o que tem para oferecer.


Sem ser particularmente brilhante Nuno Santos, esse sim, mostrou já ao que vem e o que pode dar. Vem para jogar e significar participação e envolvimento colectivo permanente, prometendo um acréscimo de rendimento. Espera-se portanto que possa ser ainda mais útil, assim alcance com compreensão o que lhe pede o modelo de Amorim, juntamente com melhor conhecimento das acções e respectivo padrão nas acções dos colegas.

Voltando ao titulo, não seria também de rejeitar a possibilidade de o próximo jogo começar como este acabou: com um Sporting mais esclarecido, mais seguro e mais capaz de criar perigo para a baliza adversária. As entradas de vários jogadores, mas especialmente Bragança, Nuno Mendes, Pedro Gonçalves, Tiago Tomás revolucionaram a cabeça do Leão. 


Finalmente vimos um médio centro - Bragança - saber fugir à pressão e aparecer com a bola dominada em linhas mais adiantadas. Um verdadeiro lateral - Nuno Mendes - não só estar atento ao que se podia passar nas suas costas como a oferecer largura e profundidade, ao ponto de poder inclusive ter saído goleador. Um médio saber gerir a posse, movimentar-se quer dentro quer à largura quer em profundidade - podia ter feito golo - e ter critério, tendo por isso mesmo assistido para golo. O felizardo foi Tiago Tomás. Um avançado discreto mas que parece ter qualidades que Rúben Amorim aprecia. Compreensão do modelo, rapidez quer na execução quer na movimentação. Não é por isso um avançado tradicional, fixo, sabendo ser simultaneamente um apoio à posse, como furtar-se às marcações. Qualidades destas acabam por representar importantes mais valias para equipas, como o Sporting, que frequentemente têm que lutar com excessivo congestionamento nos últimos trinta metros do seu ataque.


O jogo acaba por ter um pouco daquilo que são os jogos das pré-épocas. Muitas incógnitas que urgem esclarecimento, apreensão pela aparente permanência de velhos constrangimentos ou mesmo problemas por resolver. Mas também motivos de esperança que os golos e as vitórias representa. Não se constroem boas equipas com maus resultados mesmo com jogos a feijões. Ou a sardinhas, tendo atenção que Portimão foi a sede escolhida para esta apresentação.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Adán ou Max, o duelo


"Guarda redes é um tipo que podia muito bem ser mártir, bombo da festa, penitente ou palhaço das bofetadas. Onde pisa a relva nunca mais cresce” “Carrega nas costas o número 1. Primeiro a receber, primeiro a pagar.  O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito

Eduardo Galeano, escritor uruguaio e apaixonado pelo futebol 

“Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes, num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota”.

Nelson Rodrigues, jornalista brasileiro 

Aproveitando o excelente trabalho da @Isabela no estágio do Sporting no Algarve vamos debruçar hoje sobre um dos temas que suscitou mais controvérsia neste defeso: a contratação de Adán.

A baliza do Sporting teria que inevitavelmente estar sob escrutínio nos tempos mais próximos. O protocolo de sucessão do reinado de Rui Patrício está ainda por encerrar, pese o passo em frente dado por Max, a reivindicar a nomeação. Outra coisa dificilmente se poderia esperar, com pouco mais de meia volta realizados como titular (23 jogos), num lugar tão difícil como é o que escolheu para exercer a profissão de futebolista.

Desse período deve ser assinalado que o jovem pretendente à baliza leonina preencheu mais entradas para o curriculum do que para o cadastro. Apesar de um par de golos concedidos da sua exclusiva responsabilidade, no cômputo geral, Max deixou registos de boa impressão. Foi notória sua aptidão para o lugar, seja nos requisitos físicos, nomeadamente a altura, nos reflexos, destreza, agilidade, e segurança entre os postes. Decidido a sair deles quando a bola rola no solo em posse dos avançados, precisa do que qualquer guarda-redes da sua idade reclama: mais minutos de jogo para consolidar as saídas a cruzamentos. 

Se alguma característica existe que Max possa reclamar como herança do seu antecessor e modelo é seguramente a confiança. Se é verdade que o futebol, como a generalidade das actividades, é terreno muito difícil de afirmação para jovens pretendentes, o Sporting congrega todas as dificuldades que se possam imaginar e outras que escapam até às observações mais atentas. O campo minado que o clube tem sido para todos quantos assumem responsabilidades - seja elas quais forem  - ganha contornos especiais naqueles 7,32 m de comprimento por 2,40 m de altura delimitados pelos postes e trave. Num dos anos mais difíceis de que há memória Max, ao invés de se afundar no atoleiro, concitou sobre si atenção particular, ganhando o direito a novas voltas no carrossel de Alvalade. É essa a sua casa de partida para a temporada que agora se inicia.


A presença de Renan, apesar das suas actuações decisivas na duas últimas conquistas (Taça da Liga e Taça de Portugal), deixava no ar suspeitas de não ser suficientemente justificativa para obstaculizar a  afirmação de Maximiliano. Colocada na balança a qualidade da actuação de ambos, essa impressão seria confirmada. Era hora de Renan ceder a passagem ao aspirante, decisão que se justificou plenamente quer sob o ponto de vista desportivo quer até mesmo económico-financeiro. Mas a chegada de Adan baralha e dá de novo. Vai ser um novo jogo, o grau de dificuldade é agora mais elevado para Max.

António Adán Garrido, nome de guerra Adán. Cresceu em berço de ouro (Real Madrid), o que certamente lhe terá ajudado a abrir as portas das selecções base do país vizinho, onde acumulou internacionalizações em todos os escalões, desde os sub-16 até aos sub-21. Aí bateu num muro de uma geração notável de guardiães, com Casillas à cabeça, não logrando chegar ao escalão principal. Não seria mais feliz na primeira equipa do clube onde nasceu, tendo efectuado 18 jogos, embora apenas 3 na La Liga. A sua estreia, tal como Silvino, então treinador de guarda-redes da equipa de Mourinho, recentemente explicou, foi marcada por uma actuação entre desastre e o azar (penalty e expulsão), acabando por não mais merecer a confiança do treinador. Esse facto acabaria por ser determinante na carreira de Adán, pois Manuel Pellegrini, então no Bétis, confiou-lhe a titularidade, momento a partir do qual finalmente se fez luz sobre as qualidades do guarda-redes espanhol, confirmando com exibições seguras aquilo que tanto prometia desde a formação.


Apesar de várias vezes apontado a clubes da Premier League Adán arrisca o regresso a Madrid, desta feita para o seu antigo vizinho e rival Atlético, pensando disputar a titularidade a Jan Oblak. Talvez a confiança renovada nas suas qualidades o tenha traído, uma vez que o esloveno tem merecido figurar no clube exclusivo do top 3 mundial na sua posição. Tal como anteriormente Casillas, Adán só cede a titularidade a um monstro da baliza, facto que em nada belisca a sua qualidade. Mas, com 33 anos, duas épocas na penumbra é tempo demasiado e é busca de nova luz para a sua carreira que Adán chega a Alvalade. Ao ir na senda de um guarda-redes que dê pontos já e não num futuro qualquer, esta aquisição parece ser uma afirmação de ambição para o campeonato que se avizinha,  Será esse mesmo - o futuro - a validar a qualidade da decisão agora tomada. Mas não é de menos lembrar que ter ou não um grande guarda-redes é apenas uma das muitas incógnitas de uma equação cheia de complexidade, no que diz respeito à formação de equipas vencedoras. Mas, e voltando a Nélson Rodrigues, "quando o goleiro falha, não há vitória possível". Como se este fosse o lugar do morto.

Tudo indica que Adán venha a ser titular, remetendo Max para o banco na maior parte dos jogos, em particular da Liga NOS. Para o jovem guarda-redes é um enorme desafio e, qualquer que seja a decisão sobre a sua condição - titular ou suplente - um tempo de aprendizagem, crescimento e evolução. Significa também um enorme risco pessoal, se a tal corresponder um ano ou sobretudo mais de penumbra, como pode muito bem acontecer. Não deixa também de ser um momento desafiante para Adán, uma vez que Max não o deixará dormir à sombra do estatuto que detém. Risco que também o clube corre, ao interromper a afirmação de um activo de valor muito promissor, na senda de actos de gestão de carreiras que atiraram para a berma jogadores de enorme talento como Francisco Geraldes, um dos últimos exemplos a deixar a sensação de mau aproveitamento da formação de Alcochete.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O que procura Ruben Amorim?

Já começou a época 2020/21, tendo o Sporting escolhido uma unidade hoteleira em Lagos para consolidar processos e integrar os novos elementos. Sejam eles recém-chegados ao clube - Adan, André Paulo, Porro, Fedal, Antunes, Pedro Gonçalves e Nuno Santos - sejam eles oriundos dos escalões de formação  - Daniel Bragança, Mees de Wit e Geny Catamo - e que vivem agora o seu primeiro contacto com o plantel principal e especialmente com as ideias e os métodos de Rúben Amorim. Tivemos a sorte de poder contar com a presença da @Isabela hoje no treino aproveitando assim também nós para poder dar o pontapé de saída a 2020/21.

Não pode deixar de causar surpresa a ausência de Acuña, pelo que representa o seu estatuto de titular indiscutível no clube (135 jogos desde que chegou em 2017) que acumula com internacionalizações na sua selecção. Menos surpreendente, mas ainda assim a causar alguma estranheza, o afastamento de Palhinha e Battaglia, cujo valor permite olhar para eles como jogadores capazes de assumir a titularidade. Mais ou menos esperadas as omissões de Rosier, Illori, Eduardo, Matheus Oliveira e Pedro Mendes. Camacho espanta pelo valor investido, mas nem tanto assim tendo em conta os sinais deixados numa época a todos os titulos decepcionante. Menos espantosa será a possibilidade de a estes nomes se juntarem em breve Renan, Doumbia, Miguel Luís, Ristowski  ou outro sobre o qual mercado venha a revelar um apetite irrecusável.

Deve ser realçada uma mudança de atitude perante o mercado relativamente ao ano passado. Rúben Amorim terá desde o inicio da preparação da época praticamente a totalidade do plantel, ficando à espera das movimentações do mercado apenas para o remate final. Ao contrário do ano passado, cujas hesitações entre a saída e permanência de Bruno Fernandes acabaram por ditar a formação do grupo de trabalho, reduzindo as escolhas e, consequentemente, as possibilidades de êxito. A chegada atempada de Adan, Porro, Fedal, Antunes, Pedro Gonçalves e Nuno Santos significa que em Alvalade se aprendeu com os erros. Mas, não menos importante do que isso, parece ter havido uma definição atempada do perfil pretendido para as aquisições que se espera venham também a ser reforços, com entrada para a titularidade de um onze que o ano passado revelou muitas carências para uma equipa representativa de um dos grandes de Portugal. 

Convenhamos que este ano, face ao sucedido na época passada e até mesmo tendo em conta o momento particularmente negativo que se vai construindo à volta da equipa, a partida para a época far-se-à sob o signo de baixas expectativas. Longe parece (mas não vai...) o tempo em que de disputava ferozmente o campeonato das transferências, bem como o da pré-epoca, que muitas vezes representaram os únicos títulos ganhos nas respectivas épocas. Talvez isso seja mais conveniente que as ambições desmedidas que a realidade tantas vezes não suportou. Os adeptos tendem a exigir discursos ambiciosos que, nas quase duas últimas décadas, depressa desabaram em profundas decepções, por via dessa ausência de escoramento.

Outro factor que poderá concorrer para melhor desempenho, e que sucede de forma também diferente da época transacta, é o que parece resultar de um envolvimento directo do treinador Rúben Amorim na definição dos alvos no mercado deste defeso. O ano passado Bolasie, Jesé e Fernando iam-se cruzar na porta de entrada com Keizer já de malas feitas. Tomando esta afirmação como certa, além do realce para a diligência e compromisso com que o Sporting atacou o mercado, o que é que parece saltar à vista das pretensões de Rúben Amorim

Claramente o reforço da dimensão física (Fedal (190cm) e Adan 192 cm), da experiência (Fedal, Adan, Antunes) de um grupo excessivamente jovem com que se terminou 2019/20, e que pode ter concorrido para a perca do pódio com a meta à vista. E a fiabilidade de rendimento que Pedro Gonçalves e Nuno Santos representam. O primeiro foi uma das revelações do campeonato, na sua época de estreia, após duas épocas Premier League 2 (sub-23). A adaptação e conhecimento da Liga NOS são outras características que parecem ter agradado na escolha de Nuno Santos (93 jogos), outra das afirmações de 2019/20, pelo elevado rendimento no Rio Ave, uma das equipas que deram nas vistas, a par do Famalicão de Pedro Gonçalves

Se o Sporting conseguir reproduzir no seu seio a estabilidade de que estes atletas beneficiaram para ocupar o centro das atenções certamente que os aproximará das condições de sucesso que tanto desejam e que parecem buscar nesta nova aposta das suas carreiras.

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