Nós e Eles

Nos bairros pobres da região da Grande Nápoles, a omnipresença dos clãs da camorra é asfixiante. Estende-se transversalmente por toda a sociedade e abrange negócios tão díspares como a falsificação de vestuário de alta-costura ou o negócio da construção imobiliária, o tráfico de droga ou a eliminação de lixo e de resíduos tóxicos. Para assegurar a fluidez do business, os clãs movimentam centenas de milhares de euros em armas, desde pistolas de pequeno calibre às clássicas kalashnikov. Quando são compradas, os membros mais baixos da hierarquia, jovens adolescentes, vão experimentá-las saindo para as ruas nas suas vespas, testando a sua afinação com disparos aleatórios contra montras de lojas e restaurantes. Neste caso específico, a escolha das montras é totalmente aleatória, mas todos os comerciantes encontram vários motivos que justifiquem os danos sofridos por si. Penam por antecipação e porque o passado e o contexto os leva a pensar assim.
Lembrei-me disto por ocasião das movimentações do mercado de Inverno, que fechou há umas horas atrás, no qual foram veiculadas teorias da conspiração acerca das “jogadas de mestre” de Pinto da Costa, por virtude das quais Miguel Veloso não foi para Florença, o Braga perdeu interesse em Postiga e Mourinho roubou o grande Manuel Fernandes ao Sporting. À imagem do que sucede com os comerciantes da Grande Nápoles, imaginamos tudo e mais alguma coisa para justificar a mestria dos outros e a nossa ineficácia no mercado – mas isso, neste período de inverno, não se verificou. Com isto quero dizer que os mesmos olhos que vêem mestria em jogadas aparentemente inexistentes deveriam igualmente ver os falhanços que grassam pela Torre das Antas.
Como reagiríamos nós se um jogador fosse dispensado (Farias), envolvido numa troca que depois abortou não se sabe bem porquê, e agora voltasse cabisbaixo a Alcochete, sabendo que era dispensável? Qual será a sua motivação? Afinal havia petróleo e, ao contrário do que havia sido anunciado com a pompa do costume por Pinto da Costa, o plantel do Porto precisava de reforços. E Rúben Micael não chega, senão não teriam tentado buscar ao Brasil mais um “gladiador”, outro “fabuloso” de 8 ou 10 milhões de euros. Da mesma forma que criticámos a transparência do balneário de Alvalade, devemos olhar para o pugilato que afasta Bruno Alves do jogo de hoje e para o facto de se saber que o capitão do Porto andou a praticar a sua autoridade com um colega. Podemos criticar o nosso capitão por esperarmos mais autoridade, mas eu pessoalmente não gostava que o capitão da minha equipa a ganhasse à custa de cenas de agressão com um colega.
Com isto quero deixar claro que cada um joga com as suas armas e que, no contexto actual, não tenho nada que me diga que o Porto está mais forte do que nós ou que esteve melhor no mercado de Inverno. Nós e eles, cada um com as suas armas, no duelo de logo à noite. Acredito plenamente na vitória, e já conto os minutos para entrar no estádio e passar os 90’ a cantar o cântico do momento: “O Sporting É O Nosso Grande Amor”. Força Sporting!