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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Entrevista de Godinho Lopes ao Record ll


«Jesus seria excelente treinador para o Sporting»

RECORD – Sousa Cintra arrependeu-se de ter despedido Robson; LF Vieira confessou ter cometido um erro ao dispensar Fernando Santos. Hoje, tem o mesmo sentimento em relação a Domingos Paciência?

GODINHO LOPES – O Sporting tinha um conjunto de ambições com a contratação do treinador e com o investimento feito no reforço da equipa. As coisas comigo são claras. Todas as competições são importantes. Na análise que foi feita na altura, entendemos que o projeto previsto para o clube com Domingos Paciência não teria condições para continuar. Gosto do Domingos mas, na altura, entendi que era a melhor opção. E vão-me ouvir dizer isso do Domingos, do Sá Pinto e do Vercauteren. É bom para o Sporting mudar de treinadores? Não. É bom para a estabilidade dos jogadores? Não é. É bom para a imagem do clube? Também não. Se me perguntarem se eu me sinto mal por ter feito tantas mudanças de treinadores, admito que é verdade. Se me vai perguntar individualmente sobre algum deles, não vou responder.


R – Não se arrependeu de ter despedido Domingos? A pergunta é feita porque, supostamente, estamos a falar do treinador onde assentaria todo o seu projeto...

GL – Isso não é verdade! Quando me candidatei em 2011 disse que seria o único candidato a não indicar o nome de um treinador. Não falei em Zico, como Pedro Baltazar, não falei em Van Basten, como Bruno de Carvalho, não falei em Rijkaard, como Dias Ferreira nem dei o nome que Abrantes Mendes apontou como possível treinador para o Sporting [Dunga]. Como agora não vou dizer em que posição está Van Basten no campeonato holandês, que Rijkaard ou Zico foram despedidos. Não vou entrar por ai.

R – Com tanta mudança, ficou com a clara sensação de que dificilmente teria sucesso?

GL – Considero que foi um erro ter contratado tantos treinadores. Isso não significa que eu não tomasse as mesmas decisões que tomei. Estamos a analisar do ponto de vista teórico e admito que seria mais fácil ter tido um único treinador durante estes dois anos. Mas devo recordar uma coisa: logo após as eleições recuperámos o 3.º lugar. Na época seguinte, chegámos às meias-finais da Liga Europa, ficámos em 4.º lugar (a 16 pontos da liderança) e alcançámos a final da Taça. Não foi bom mas não foi um desastre. Aliás, apesar da má prestação na primeira metade da época, ainda estamos a um número suficiente de pontos para alcançarmos o 3.º lugar.

R – Como foi a sua última conversa com Vercauteren? Ele ficou muito surpreendido com o despedimento?

GL – Tive duas ou três conversas com ele, nas quais fui mostrando a minha preocupação. Ele assistiu às vaias que me foram dirigidas no estádio. Disse-lhe que as coisas não estavam a correr bem. Devo dizer-lhe o seguinte: Vercauteren é um senhor, assim como Domingos e Sá Pinto. Franky Vercauteren é uma pessoa de quem gosto, também como treinador. Provavelmente, se tem começado a época, teria sucesso. Faria a pré-época e conheceria melhor os jogadores e o nosso futebol. Não tenho nenhuma mágoa em relação a qualquer treinador.

R – O Sporting está ainda a pagar a quantos treinadores?

GL – Em relação a Domingos Paciência, suspendemos o pagamento. Ainda não fechámos o acordo com Franky Vercauteren, mas como é evidente vou resolver o assunto antes de sair. Assim, para além dele, estamos a pagar ao prof. Jesualdo Ferreira e fiz questão em pagar ao Ricardo Sá Pinto até final desta época para lhe dar tempo de encontrar uma saída para o futuro.

R – A contratação de Jesualdo foi o seu melhor ato de gestão no futebol?

GL – Se estamos a falar de gestão, considero que a contratação de vários jogadores que têm condições para gerar mais-valias foi um correto ato de gestão. Se me disser como cimento da academia, então não tenho dúvidas que foi. Criou uma organização, desde a direção técnica à área estratégica, que revela estatuto e um conhecimento que o Sporting precisa.

R – Como é que ele reagiu quando lhe comunicou que ia renunciar?

GL – Sempre tive um diálogo muito frontal, direto e correto com Jesualdo Ferreira. Nunca mais me esquecerei dele, na medida em que aceitou este desafio num momento de enorme convulsão. Inclusive, nunca atirou a toalha ao chão, nunca atirou culpas para cima dos adeptos, tendo apenas chamado a atenção para a necessidade de a massa associativa ter uma atitude de apoio e não de crítica sistemática. Foi sempre um senhor e por isso sempre me senti à-vontade para lhe contar tudo o que se passava.

R – E que mensagens lhe tem transmitido?

GL – Tenho procurado passar-lhe tranquilidade em relação ao futuro, até porque nunca o deixaremos cair e, na medida do possível, tentaremos sensibilizar as candidaturas no sentido de manterem uma estrutura técnica que preserve a estabilidade. Ele tem consciência de que esta instabilidade tem reflexos no grupo e tem sido uma peça-chave neste momento difícil.

R – Acha que Jesualdo Ferreira vai acompanhá-lo na saída?

GL – Não sei. É uma decisão dele. Jesualdo veio para servir o Sporting e demonstrou ser mais sportinguista do que muitos que se dizem que o são. O que Jesualdo não quis, como senhor que é, foi que o próximo presidente se sentisse manietado pela sua posição.

R – Deseja que ele fique até final da temporada?

GL – Claro que sim. Acho que ele deveria reassumir a sua função de manager no final da temporada, de forma a que possa colar a formação ao nível do futebol profissional.

R – Alguma vez pensou em Jorge Jesus, que está em final de contrato?

GL – Posso dizer-lhe que gosto do Jorge Jesus. É um excelente treinador que já demonstrou excelentes capacidades por todos os clubes por onde passou. Vibra com o jogo, sabe de futebol e sabe mexer nas equipas. Além disso, já assumiu que é sportinguista e sócio, a exemplo do seu pai. Nunca afrontou o Sporting nas suas declarações e, portanto, acho que tem todo o direito a ser um dia treinador do Sporting.

R – Admitiu seriamente essa hipótese?

GL – Sim, é verdade que cheguei a ponderar essa possibilidade, obviamente para a próxima época. Depois do prof,Jesualdo ter sido contratado, seria uma decisão a tomar com ele. Acho que seria um excelente treinador para o Sporting no futuro.


«Niculae era hoje nosso jogador se não saíssemos»

R – Podia ter vendido Insúa no defeso por um valor superior àquele que foi pago pelo At. Madrid. Arrepende-se de não ter aceite?

GL – Quer falar de números?

R – Esse é o objetivo...

GL – Então vamos falar de números. A proposta que nos chegou no defeso era de 6 milhões. O passe do Insúa tinha “custado”, apenas, um acordo com o Liverpool relativo à sua futura venda. A verdade é que, meses depois, eu vendo o jogador por muito mais do que aquilo que poderia ter vendido no defeso. Mantendo a percentagem do Liverpool, consegui transferir o Insúa por um valor equivalente a 10,5 milhões de euros. Acha pior vender por 10,5 do que por 6?

R – Depende sempre do ponto de vista financeiro…

GL – O Sporting entendeu, em sintonia com Jesualdo, encontrar um jogador para aquela posição. Se necessário, tínhamos ainda mais alternativas [Rojo]. Descemos os custos com o plantel pois Joãozinho é um jogador menos “pesado” em termos salariais que Insúa. Para além disso, conseguimos um encaixe significativo face ao investimento que o Sporting fez na compra do passe de Insúa.

R – Recebeu alguma proposta concreta por Rui Patrício?

GL – Recebemos propostas por vários jogadores. Por isso é que eu sei qual o real valor do plantel. Com a chegada do professor Jesualdo, criámos uma lista de ativos que poderiam ser negociados e outros que são intransferíveis. Rui Patrício era, na nossa opinião, intocável. A cláusula de rescisão é de 40 milhões de euros...

R – Houve algum jogador que tivesse gostado de contratar e que não tenha conseguido?

GL – Sim. Em janeiro, quando fizemos a análise ao plantel, escolhemos os elementos dos quais não podíamos prescindir e os miúdos da B que poderiam ter um papel importante. Naturalmente, foi identificada a necessidade de contratarmos um ponta-de-lança. Quando dirigimos a nossa primeira procura, havia sempre duas hipóteses: ou o Ricky saia ou não. E não foi só o Dínamo Kiev a mostrar interesse. O Norwich, por exemplo, também apresentou uma proposta..

R – Mas então qual era o jogador que gostava de ter contratado?

GL – Identificámos, preferencialmente, jogadores europeus (ou que tivessem atuado na Europa) e que marcassem golos. Não faria sentido estarmos a escolher um avançado que não tivesse estas características. Identificámos 3 avançados, quer na liga holandesa quer na belga. Vão à lista dos melhores marcadores e vejam quem é que poderá ser…

R – Mas o Liedson tinha estas três características...

GL – Isso não é bem verdade. Em primeiro lugar, não vou dizer, como disse o Liedson quando voltou a Portugal, que afinal sempre tinha desejado vestir a camisola do FC Porto. Gosto do Liedson porque prestou um bom serviço ao clube mas também não vou invocar como razão o facto de ele ter metido em tribunal o Sporting para tentar sacar dinheiro ao clube através do seguro...

R – Está encerrado esse processo?

GL – Ainda corre em tribunal. Em resumo, estas podiam ser duas razões fortes para não contratar o Liedson. Mas não é por aí. Tem a ver com as três características que referi anteriormente. O Liedson não estava a marcar golos, não estava a jogar num campeonato europeu e mudou recentemente de clubes. Decidimos que havia melhores soluções. Niculae, por exemplo, pareceu-nos uma opção mais forte e nem é pelo facto de a massa associativa ter um carinho especial por ele. Foi pelo facto de ter marcado 19 golos na época passada e ter apontado, em 2012/13, 12 golos. Niculae tem casa e carro em Portugal e não tinha nada contra o Sporting.

R – Niculae e Paulo Henrique são dois fiascos para o Sporting, em termos negociais?

GL – O resultado perante a opinião pública será sempre esse: procuramos e não contratamos. Aquilo que interessa perceber é como é que as coisas evoluíram. Até dia 20 de janeiro, tínhamos o Ricky vendido ao Dínamo Kiev e o empréstimo assegurado do Milevskiy e do Ruben. O plantel estava fechado. Com o anúncio da AG, tivemos de recorrer a outras soluções. Paulo Henrique estava fechado mas coincidiram dois fatores: mudança de treinador e saída do diretor-desportivo do Trabzonspor, que se tinha comprometido connosco. Até falei com a Traffic [empresa detentora do passe de Henrique] mas de nada adiantou.

R – E quanto a Niculae?

GL – Niculae seria hoje jogador do Sporting se não saíssemos. Não iríamos avançar para a contratação de um jogador sem fazer uma consulta à FIFA (coisa que fizemos). Quando ele vem para Portugal, já sabíamos que a federação romena entendia que o jogo da Supertaça era referente à época anterior. A FIFA respondeu que, nesses termos, estariam de acordo em deixá-lo jogar. No entanto, o parágrafo final dizia: “Esta resposta não vincula a FIFA.” Se esta direção continuasse e não houvesse esta cena, o que é que faríamos? Havia três soluções: o jogador era contratado, inscrito, mas não jogaria enquanto não tivéssemos as certezas quanto à regularização da sua situação. Já tínhamos feito diligências para obtermos uma resposta perentória por parte da FIFA.

R – E se a FIFA não aceitasse?

GL – Segunda hipótese: se a FIFA hesitasse, não iríamos colocar o Niculae a jogar, pois não correríamos o risco de perder pontos. Como gostamos do jogador, iríamos emprestá-lo a um clube onde a época fosse de janeiro a dezembro, esse clube pagaria, na totalidade, o salário e ele voltaria em julho.

R – Mas isso não iria revolver o problema imediato do Sporting…

GL – É correto. Mas o problema Niculae estaria resolvido. Terceira hipótese: se as anteriores possibilidades caíssem por terra, iríamos devolver o jogador ao Vaslui. Com a convulsão atual, o presidente do clube romeno quis determinados pagamentos e nós optámos por abortar o negócio.

R – O que cria alguma confusão é o facto de o Sporting ter identificado o problema tão cedo e ter demorado tanto tempo para atacar os alvos…

GL – Isso não é verdade! Tínhamos o acordo feito a 20 de janeiro e estávamos satisfeitos com a solução. Iríamos receber um valor considerável pela transferência do Ricky e ainda ganhávamos duas boas alternativas. Estive reunido com Laros (empresário do jogador), Ralf (advogado do Dínamo Kiev) e com um elemento da Gestifute, chamado Cristiano. O negócio estava praticamente fechado e só não foi para a frente por causa das convulsões. Sendo pragmático, o valor que estava a pedir pelo Ricky era superior. Estava a fazer um braço-de-ferro para receber mais. A oferta começou em 8+5 [milhões de euros] e eu pedi 16+2. Estava a tratar do Sporting e não do meu bolso. As negociações já estavam em 10+3 e eu já tinha passado para 13+3. Posteriormente, não queríamos contratar um jogador qualquer…

R – Vossen (Genk) foi hipótese?

GL – Poderia ser… Mas o jogador contactado na Bélgica foi outro. Falamos com jogadores concretos e isto não é “conversa mole”!

R – E quanto a Kléber?

GL – Esse caso foi diferente. Chegamos a negociar o Kléber por empréstimo mas os responsáveis do BMG quiseram negociar o jogador a título definitivo. Posso até dizer que tivemos a compra consumada.

R – Qual foi o valor da compra?

GL – Chegámos a adquirir 10 por cento do passe por 600 mil euros. O negócio estava fechado, o jogador ia a caminho do aeroporto mas a conferência de imprensa de Daniel Sampaio aconteceu em simultâneo e, quase de imediato, o BMG alterou as regras do jogo. Deixaram de ter interesse em ser parceiros do Sporting, queriam vender 20 e não 10 por cento do passe e ainda pediram o meu aval pessoal.

As conversas de Godinho com Duque e Freitas

R – Porque perdeu a confiança em Luís Duque e Carlos Freitas?

GL – Quero deixar claro que nunca chamei Luís Duque e Carlos Freitas de incompetentes. Considero que tiveram sucesso no Sporting e espero que voltem a ter sucesso neste clube. Entendi, porém, que a organização do futebol profissional poderia ser diferente e, para que eu pudesse conhecer melhor a realidade do futebol, tinha de aproximar-me mais da equipa. Nesse sentido, não devia ter ninguém entre mim e quem toma as decisões técnicas.

R – Então, mas isso não é perder a confiança?

GL – Não. Luís Duque e Carlos Freitas são dois bons profissionais e que sabem o que é ganhar no Sporting. O que entendi é que o presidente de um clube de futebol deveria estar mais próximo dos acontecimentos. Logo, devia “queimar” alguns lugares que existiam entre o presidente e o treinador. Foi o que fiz.

R – Não poderia ter “queimado” apenas um lugar, mantendo, por exemplo, Carlos Freitas?

GL – Não, porque Carlos Freitas é uma pessoa solidária e, com a saída de Luís Duque, nem colocou a hipótese de ficar no Sporting.

R – Apesar disso, tem falado com Carlos Freitas…

GL – Tenho falado as vezes que são necessárias, tanto com Carlos Freitas como também com Luís Duque. Sempre o fizemos de forma cordial e correta. São pessoas de quem eu quero ser amigo quando sair do Sporting. Objetivamente, as conversas que tive com eles estiveram relacionadas com situações que importava esclarecer, nomeadamente de alguns acordos que supostamente eles teriam feito com certas pessoas e que o Sporting, como clube cumpridor, faria sempre questão de honrar.

«Matías foi o único que 'maltratei' numa conversa»


R – A venda de Matías Fernández pode ser considerada um erro desportivo?

GL – A venda do Matías Fernández à Fiorentina tem o seguinte enquadramento: em primeiro lugar, a vontade do próprio jogador. Posso dizer que Matías foi o único jogador que eu “maltratei” numa conversa. Não chamei nomes nem o insultei, mas é um jogador do qual eu gosto e fiz tudo para que ele ficasse. Inclusive dizer-lhe que não lhe pagaria os prémios. Até ao fim, fiz um braço-de-ferro e o jogador acabou até por ficar indisposto comigo. Segunda questão: com a sua insistência na saída, tínhamos de perceber quanto tempo é que faltava para terminar o contrato e a sua idade. O Sporting teria de renovar para ele ficar e quanto é que teríamos de pagar no futuro pelos salários de um jogador de grande qualidade mas com pouca regularidade. Se o Matías Fernández queria sair, imaginem quanto teria de pagar para o convencer a ficar...

«Nunca me viram fugir de nada»

R – O Sporting está à beira do abismo?

GL – O Sporting está a tempo de evitar seja o que for. O mandato não foi o desastre que as pessoas dizem. Pegar na questão dos treinadores e dos resultados do futebol e transformar isso num cenário trágico é profundamente errado. Estávamos dispostos a ir até ao final da época para deixarmos as contas em dia, garantindo ainda um passivo de valor inferior aquele que encontrámos. As coisas estão muito claras: quem tiver 25 milhões e seguir o caminho que traçámos, terá resultados operacionais positivos na próxima época; quem pretender mais do que isso, terá de investir 45 milhões.

R – Mas a dança de treinadores teve um impacto negativo na sua imagem…

GL – Aquilo que teve mais impacto foi a vontade de protagonismo de alguns sportinguistas. Andando pelo país, nunca vi ódio nem mal-estar.

R – Nunca sofreu qualquer ameaça, além daquele episódio no Algarve?

GL – Não, nada disso. Vim para o Sporting sabendo o que me esperava. Não vou falar de faixas, nem de garrafas ou ovos, que são fruto de algumas pessoas que não representam os 3 milhões de sportinguistas. Se me perguntar se gostei de ouvir 20 mil pessoas no estádio cantar o meu nome de forma negativa, é claro que não gostei. Mas não me viram recuar nem fugir, até porque eu, como adepto, também não gostei dos resultados. Continuei a trabalhar e a procurar transmitir que tudo o que foi feito em volta do Sporting é muito maior do que os resultados negativos do futebol.

«Circunstâncias não são favoráveis
aos resultados da equipa»


R – Ainda acredita que o Sporting pode chegar ao 3.º lugar?

GL – Sem a perturbação existente desde dezembro, acredito que seria perfeitamente possível alcançarmos um lugar no pódio. Apesar da turbulência, aproximámo-nos dos lugares europeus. Faltam disputar 39 pontos, o que significa que, matematicamente, é possível chegarmos ao 3.º lugar. Considero que para o professor Jesualdo, que chegou em dezembro para juntar o cacos e, a meio de janeiro, volta a estar tudo partido, não pode ser uma tarefa fácil. A equipa antes do último jogo estava consciente da importância de ganhar ao Rio Ave. Também considero que não é normal haver três autogolos nos últimos dois jogos. Considero errado estar a hipotecar esta época pelas razões eleitorais. Por isso falei em maio, porque permitiria terminar a época e resolver as questões diretivas de outra forma. Estas circunstâncias não são favoráveis aos resultados da equipa. Não estou à procura de uma desculpa para não ganhar os jogos daqui até ao final da época.

«Cada um deve meter-se no seu lugar»

R – Elias, por exemplo, referiu numa entrevista recente que o Sporting não teve paciência com Domingos…

GL – Como ele é nosso ativo, eu não posso dizer que o Sporting não teve paciência para o Elias… Entendem? Cada um deve meter-se no seu lugar e saber aquilo que tem de dizer.

«Não sou guiado pelo ruído exterior»

R – Foi um erro renovar o contrato de Sá Pinto depois de o Sporting perder a final da Taça de Portugal?

GL – Não sou guiado pelo ruído exterior. Fiquei tão triste com o resultado como ficou Sá Pinto, os jogadores e os adeptos. Porque tenho valores e sou desportista, não saí da tribuna sem que os jogadores da Académica recebessem o troféu. Imaginem o meu sofrimento ao ficar na tribuna e não ter a oportunidade de levantar a taça e felicitar os jogadores do Sporting.

R – E ainda assim não hesitou em renovar...

GL - Entendi que Sá Pinto, que nos levou às meias-finais da Liga Europa, não merecia ser despedido pelo facto de ter tido um inêxito na final da Taça. Por isso, e até contrariando aquilo que era expectável, reforcei-lhe os poderes. Devo dizer que, até por esta decisão, gostaria de sair só em maio, pois assim poderia ser julgado pelos resultados globais da época.





«Só Viola pediu para sair»

R – Confirma que houve jogadores que pediram para sair em janeiro?

GL – Não, houve apenas um que expressou vontade de regressar ao seu país para jogar mais vezes.

R – Foi o Viola?

GL – Sim, mas ao ser opção válida para Jesualdo Ferreira, ficou. Naturalmente, o próprio jogador ficou satisfeito com a decisão.

R – A maioria dos passes dos jogadores estão associados a fundos. É uma boa solução de negócio?

GL – Primeiro: tem de haver critério na forma como são feitas as negociações. O Sporting conseguiu parceiros de fundos na casa dos 40 milhões. Segundo: condições de pagamento. Temos jogadores pelos quais ainda não pagámos nada. Se forem jogadores bem comprados e vendidos antes do Sporting fazer o primeiro pagamento, significa que o clube, sem ter investido nada, utilizou o jogador e tirará partido do valor económico associado.

R – Mas o plantel tem desvalorizado bastante esta época, certo?

GL – O facto de os jogadores estarem na montra europeia valoriza sempre mais. O Sporting tem jogadores internacionais, portanto existe sempre a montra da seleção.

R – Quem não esquece neste momento de despedida?

GL – Agradeço à minha equipa, que se manteve unida até final e não se deixou aliciar por pedidos de demissão para provocar a quebra de quórum. Agradeço a todos os colaboradores que aguentaram firme em defesa da imagem do clube, apesar das dificuldades. Agradeço aos atletas e estou grato a Jesualdo pela forma como encarou este desafio, assim como aos Leões de Portugal e aos grupos Stromp e Cinquentenários. E não posso ficar indiferente ao carinho que recebi nos núcleos e à massa associativa em geral, à qual deixo a mensagem de que procurei fazer o meu melhor na defesa dos interesses do clube, dedicando-me a tempo inteiro e nunca me servindo do Sporting.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Entrevista de Godinho Lopes ao Record l



«Nunca direi não ao Sporting»


RECORD – Disse no Conselho Leonino que não iria recandidatar-se, mas há quem não tenha essa certeza. Esclareça: pode ou não ir a votos?

GODINHO LOPES – Não. A partir do momento em que começou a surgir a hipótese de eleições antecipadas, comecei a ficar contrariado porque entendo que os mandatos são para cumprir. Quando se apresenta uma proposta a eleições, é para se ser avaliado no final do mandato. Tinha três anos pela frente e para cada um deles foram criadas ideias que devem ser julgadas no final, ficando ao critério individual ser ou não ser candidato. Quando há uma interrupção, não somos julgados pelo que nos propusemos nem pelas conclusões que retirámos. E, então, das duas uma: ou se especula – poderíamos dizer que teríamos feito isto e aquilo, o que não é o meu estilo –, ou se encara a realidade – dizendo o que tinha sido proposto e o que foi interrompido.

R – Mas admite esse cenário?

GL – Vim para presidente do Sporting com o objetivo claro de mudar o paradigma da mudança de presidente de dois em dois anos. Tenho dito e repetido que é impossível num mandato terminar um projeto sustentável e sólido, pois fazer do Sporting o maior clube nacional é um projeto geracional. O Sporting era-o na época dos Violinos. Depois surgiu o Benfica a potenciar as suas conquistas na Taça dos Campeões. A seguir apareceu o FC Porto de Pinto da Costa em grande força e que passou a ter uma posição diferente a partir dos anos 80. Constata-se, pois, que as alterações significativas demoram uma geração. Com a base de sustentação que tem, provavelmente o Sporting não precisa agora de 15 anos para voltar a ser o maior clube de Portugal, mas ainda assim são precisos alguns. Entendi que essa dimensão proporcionaria, não neste final do mandato mas sim num próximo, bases sólidas de crescimento.

R – Com esta rutura, fica definitivamente afastada a hipótese de se apresentar a votos se não houver candidatos credíveis?

GL – Nunca direi não. O Sporting é mais importante.

R – Então, abre essa porta?

GL – Abro, exclusivamente nesse cenário.

R – E quais são os seus critérios?

GL – A dado passo admiti ser candidato, se apenas fosse julgado em maio. Os sportinguistas têm uma dimensão humana que extravasa os resultados imediatistas do futebol e percebem bem que o trabalho feito no campo desportivo teve significado maior do que aquilo que se quer fazer crer – lembro que em 2011/12 fomos a três meias-finais europeias, o que nunca tinha sucedido na história de qualquer clube português. Ao fim de 12 meses de mandato, fizemos algo que é o essencial num clube de projeção nacional: misturar o mundo do futebol com o das modalidades com assinalável sucesso.

R – Essas três meias-finais são a sua coroa de glória?

GL – Representam o cumprimento de objetivos desportivos, para além de outros que também foram atingidos. No entanto, e porque os interesses do Sporting estão sempre acima dos interesses individuais, entendi que deveria retroceder em relação à minha determinação em cumprir os três anos. Assim, já que não tinha condições para terminar o mandato de forma calma e pacífica – afinal, não se pode viver em turbulência constante e num clube dividido –, coloquei sobre a mesa a possibilidade de ser julgado em eleições em maio, sem estar preocupado com o que os resultados do futebol desta época pudessem influenciar no meu resultado eleitoral e apenas focalizar-me naquilo que tinha dito que ia fazer: a reestruturação financeira.

R – Não chegou a esse dia…

GL – Não. E é isso que lamento, pois os três objetivos que tinha no triénio – aproximar os sportinguistas do clube, reestruturar financeiramente e apostar na formação e através dela conseguir uma recuperação desportiva forte – foram interrompidos. É por essa razão que estou insatisfeito e por isso entrei em guerra efetiva com a mesa da assembleia geral – agora já enterrei o machado. Não me terem deixado chegar ao fim do triénio, mais do que ser mau para este mandato, é mau para o Sporting, pois, além de tudo o mais, foi abrir a porta a ações que não permitem manter a sustentabilidade que o clube poderia vir a ter. Fiquei magoado.

R – Voltamos à hipótese da recandidatura. Como chegará à conclusão de que não há candidatos credíveis?

GL – Não tenho direito a julgar ninguém nem dar lições aos sportinguistas em quem devem votar. Caberá aos sportinguistas fazer essa escolha. Assim como votaram em mim, votarão agora em quem entenderem ser o melhor candidato. Há, no entanto, uma análise que devo fazer.

R – E qual é?

GL – Avisei até ao limite sobre a situação financeira em que o Sporting se encontra. Aliás, essa realidade apareceu bem mais espelhada na auditoria que prometi e fiz em janeiro 2012. Expliquei na altura as necessidades de dinheiro que havia para esta segunda época. Esclareci também que no terceiro ano teríamos resultados operacionais positivos mas que, pelo caminho, iríamos acabar as duas primeiras épocas com resultados negativos, para depois inverter o ciclo. Expliquei tudo!

R – Pode explicar como está agora?

GL – Preparámos um documento que será mostrado pelo Conselho Fiscal a quem se apresentar como candidato. Quem tiver reunido essas condições, pode vir a Alvalade e, depois de assinar um documento de confidencialidade, fica a ter conhecimento das condições efetivas e das necessidades de tesouraria. Outro só será entregue ao futuro presidente e nele estará detalhado o projeto que tínhamos pensado fazer para o resto da época e próxima.

R – Acha que alguns dos candidatos que lerem esse documento deixarão de o ser? É isso?

GL – Em setembro de 1012, disse num Conselho Leonino que faltavam 45 milhões. Passaram quatro meses e apareceram 20 milhões. Para acabar a época faltam, pois, 25 milhões. Não estou a dar novidade nenhuma, mas quero dizê-lo alto e bom som, para as pessoas perceberem a lógica de reestruturação que estávamos a seguir – que passou por decrescer os custos da SAD em janeiro com a saída de vários jogadores – e que tinha uma continuidade para a próxima.

R – Então, o que vai encontrar o futuro presidente?

GL – O candidato que ganhar as eleições terá de se sentar com os parceiros financeiros e concluir a reestruturação. Se quiser prosseguir a via que nós estávamos a seguir – e que lhe comunicaremos como presidente eleito –, precisará de 25 milhões de euros. Caso contrário, necessitará, até junho, de 45 milhões.

R – Porquê 45 milhões?

GL – Para seguir uma linha de desenvolvimento – aliás, é a que eu defendo – cativando um investidor que irá querer a maioria da SAD.

R – Tinha esses 45 milhões?

GL – Era a linha de pensamento que estávamos a ter.

R – E sendo assim, o que acha que pode acontecer quando mostrar essa documentação?

GL – Acredito que haja idoneidade e responsabilidade. Se ficarem demonstradas as condições que os candidatos têm para darem continuidade a esta linha, não ficarei preocupado.

R – No atual cenário de pré-campanha, vendo quem se está a posicionar como candidato, qual seria a sua decisão?

GL – Habituei-me a fazer algo, que gostava que no futuro do Sporting também fosse feito, seja quem for o presidente: não especular. Seria bom que as pessoas que não sabem rigorosamente nada do clube e nem sequer se preocuparam em ficar informadas, se calassem. A direção não está a gerir uma empresa que é dela, mas sim um clube que pertence aos sócios e portanto tem obrigação de explicar a quem estiver interessado. Assim, não sendo eu a origem dos rumores, não vou ser eu a especular sobre os candidatos.

R – Nem vai influenciar?

GL – Não serei eu a dizer que devem votar em A, B ou C. Vou ser completamente neutro e imparcial nestas eleições. Exceto se verificar que, seja qual for a candidatura, não ficou demonstrado ter capacidade para garantir a aplicação real das condições para a sobrevivência do Sporting.

«Há gente que passa a vida a falar mal»

R – Sempre se falou muito em investidores, mas nunca apareceu nenhum…

GL – Porquê?

R – Perguntamos nós, mas foi dizendo ao longo do tempo que era por causa do ruído que se fazia à volta do Sporting.

GL – Não foi só por isso. Havia três condições para cumprir mas ficámos a meio da segunda. A primeira foi a fusão da SPM com a SAD. Agora, quem entrar, terá as contas claras. A segunda era a reestruturação e a terceira a entrada propriamente dita do investidor. O problema, devo reconhecer, é que fui naïf.


R – Como assim?

GL – Sempre tivemos a certeza de que a entrada de um investidor maioritário na SAD acabaria com o tal ruído. Isto porque os habituais candidatos a candidatos deixariam de o ser e passavam a estar calados – assim como aqueles que vão para os programas de televisão dizer mal sem terem conhecimento da realidade –, pois o que lhes dá palco e “votos” é futebol. Ora, sem ter a possibilidade de meterem a foice em seara alheia e não tendo aptidão nem interesse em falar sobre modalidades, seguramente calar-se-iam.

R – Então foi ingénuo porquê?

GL – Porque entendi que podia não seguir essa via e fui criando condições de minoria para governar. Verifiquei, porém, que essa gente só se interessou em transmitir coisas para o exterior e passa a vida a falar mal em vez de dar as mãos, estar unida e defender o clube. Essa mensagem de unidade só vi ser transmitida nos núcleos que visitei.

«A caminho dos 5 milhões de resultados positivos»

R – Confirma que haverá um cenário mais desafogado do ponto de vista financeiro na próxima época?

GL – Sim, claro. Seguindo o caminho do decréscimo continuado de custos e sem contar com o resultado das participações excecionais, como é o caso das participações nas provas europeias, com as receitas correntes que o Sporting voltará a ter, é expectável registar na próxima época 5 milhões de euros de resultados operacionais positivos. Isso significa que as necessidades de dinheiro que referi eram para esta época.


R – Essas receitas provêm dos direitos televisivos?

GL – E não só. Em março de 2011 havia compromissos com a televisão, gamebox, bilhética e patrocinadores, ou seja, não podíamos contar com esses fluxos financeiros. Para 2013/14 apenas vamos deixar um compromisso, que já vinha de trás – a publicidade nas camisolas que acaba, aliás, no final dessa época. Todas as outras receitas ficam libertas, ao contrário do que aconteceu em 2012/13 que estavam hipotecadas. Ou seja, em 2014, quem for presidente terá mais-valias para aplicar naquilo que bem entender: pagar passivo, investir em jogadores, etc.

«Tenho a certeza que ganharia a AG»

R – Teve receio de enfrentar os sócios na AG extraordinária?

GL – Se a AG se realizasse amanhã, nós ganhávamos. Quando digo nós, estou a falar do Sporting. E porquê? Aquilo que eu vi nos núcleos foi uma movimentação maciça, não de movimentos de Internet mas sim de autocarros reais, a serem preenchidos com pessoas para virem votar à AG. E aquilo que eu ouvi em todas as franjas, gostando ou não da minha pessoa, era uma manifestação clara de desagrado pelo assalto ao poder que estava a ser feito, pela forma maquiavélica de criar um modelo para destituir a direção, criando aqui jurisprudência ou uma repetição que poderia acontecer em futuros mandatos, uma forma única de assalto ao poder em 107 anos de história. Havia uma grande união no sentido de não deixar que isso acontecesse. Se todas as pessoas que estavam a querer criar este movimento de destituição pensassem que não são elas as mais importantes mas sim o Sporting, é obvio que não deveriam insistir na criação da AG. A nossa direção entendeu que, tendo sido interrompido este mandato conforme queriam, havia uma questão mais importante do que cada um de nós, que era o Sporting.


R – Sai do Sporting um homem mais pobre do que quando entrou?

GL – Prejudiquei-me a nível pessoal, pois não pude terminar o mandato. No entanto, prefiro arriscar o meu próprio nome, porque o Sporting é mais importante. Entendi que essa AG iria empobrecer o Sporting e preferi sair mais pobre em prol do clube. Empobrecer o Sporting porquê? Porque iria ser um enxovalho, iríamos ter cenas inacreditáveis devido ao local onde se iria realizar a AG. Mais do que isso, tinha a certeza de que o conjunto de pessoas que vinham protestar contra a decisão da mesa iriam deixar muito má imagem do Sporting. Não tenho o direito de permitir que o clube saia prejudicado.

R – Não quis correr esse risco, apesar de ter a certeza de que venceria…

GL – Tenho a certeza que ganharia a AG. Até posso dizer mais: o Conselho Leonino (CL) tem sete tendências e muitos dos seus elementos, ao longo do tempo, foram alinhando com a direção, pois reconheciam que estava a ser feito um trabalho sério, honesto e dedicado. Isto sem estarem de acordo com os resultados da equipa esta época nem com as substituições dos treinadores. Tanto é assim que, no final do último Conselho Leonino, fui cumprimentado por gente das mais variadas tendências, que me felicitaram pelo serviço que tinha prestado ao Sporting. Aliás, todos eles se manifestaram contra a decisão da mesa da AG, pelo facto de colocarem o Sporting numa situação complicada, desprestigiando o próprio CL, que não foi ouvido atempadamente antes da marcação da reunião magna. Não estava em causa ter medo de perder a AG. O que estava em causa era o bom-nome do Sporting.

R – Acreditou no início que poderia ter uma convivência pacífica com Eduardo Barroso. A partir de que momento é que concluiu que isso não seria assim?

GL – Pedi no Conselho Leonino e peço também aqui no jornal a união de todos os sportinguistas. Eu, que estou contra a divisão criada pelo ruído constante fora do Sporting, contra as preocupações individuais superiores às do clube, não vou agora, na minha saída, provocar brechas ou entender que a desunião é a forma correta de tratar o Sporting. Aquilo que me interessa é que o clube saia reforçado pela atitude altruísta que tive neste processo, porque eu podia ter tido a atitude egoísta que cada uma dessas pessoas tem tido, que entendem que o seu nome é mais importante que o do Sporting. Deixava a AG realizar-se, desprestigiava o nome do Sporting, e depois dizia: “Estão a ver?”, e apontava o dedo aos culpados.

R – Mas não o vai fazer?

GL – Não vou apontar. Entendo que o Sporting tem de estar unido e tem de sair reforçado. Entendo que a minha atitude, que eu considero de empobrecimento pessoal, será de enriquecimento para o Sporting.

R – No fundo, já admitiu isso, dizendo que a mesa da AG foi infeliz em todo este processo…

GL – Não tenho o direito de dizer que os membros da mesa da AG agiram de forma premeditada a favor de A, B ou C. Aquilo que tenho o direito de dizer é que agiram de uma forma que iria prejudicar o Sporting. Portanto, considero que as suas atitudes não foram as melhores para o clube. Tentei tudo para impedir isso: tentei terminar o meu mandato, tentei acertar a demissão em maio e, finalmente, tive de chegar a uma cedência numa relação com a mesa a favor do Sporting. Achei que a atitude intransigente tomada pela mesa de querer uma AG no mês de fevereiro era infeliz, pois foi numa altura de negociação de compra e venda de jogadores. Foi infeliz, porque interrompeu a reestruturação financeira; foi infeliz, porque torna o Sporting mais pobre, na medida em que não permitiu fazer de forma correta as negociações que estávamos a levar a cabo, quer com jogadores quer com a banca.

R – Volvido este tempo, pode interpretar esse comportamento como uma mera infelicidade?

GL – Foi uma atitude que prejudicou o Sporting e apresento factos concretos: estava a tentar negociar a saída de um jogador por um determinado valor. Quando foi anunciada a intenção de marcar eleições antecipadas, as pessoas do Dínamo Kiev que estavam em Lisboa a negociar o passe do Van Wolfswinkel baixaram o valor de 10+3 [milhões de euros] para 8+3.

R – Tudo por causa do anúncio da mesa da AG?

GL – Então, mas seria por que razão? De um dia para outro iam mudar desta forma a maneira de negociar? Os dirigentes ucranianos sentiram o Sporting mais frágil e responderam em conformidade. Havia uma proposta de 10+3 mais a cedência de dois jogadores, Artem Milevskiy e Marco Ruben. Não estou a falar de coisas fictícias, mas sim de factos.

R – E esses dois jogadores viriam por empréstimo e sem custos para o Sporting?

GL – Sem qualquer custo. Estamos a falar de jogadores muito caros a nível salarial. Milevskiy, por exemplo, aufere 2 milhões de euros anuais mas, neste caso específico, o Sporting não iria pagar nada, além da casa e do carro. Fechávamos o plantel com a chegada destes dois avançados ou poderíamos ir à procura de outro elemento para o ataque. Interrompemos as negociações, pois entendemos que o Dínamo Kiev não iria oferecer aquilo que pretendíamos e, então, decidimos avançar para a contratação de outros jogadores. Se isto não é empobrecer o Sporting, então o que é?


«Não havia razão para justa causa»

R – Em que termos contestou a fundamentação de justa causa alegada para a realização da assembleia geral?

GL – Invocaram cinco razões para a nossa demissão. Primeira: que não tinha arranjado um fundo de 100 milhões. Mentira. O que disse é que arranjava 100 milhões para o Sporting, nunca falei em fundo, e acabei por arranjar 108. Aliás, ainda vou precisar de obter mais 4 milhões. Ou seja, vão ser 112 milhões de euros a entrar no Sporting. Segunda: que as modalidades não tiveram sucesso. Outra mentira. Tivemos na temporada passada mais títulos do que em qualquer outra temporada da história do clube, foram mais de 700 títulos em dois anos. Terceiro: o inêxito desportivo acrescido ao futebol. Ora na época passada conseguimos a proeza inédita de estar em três meias-finais europeias, uma delas com o futebol, que também chegou à final da Taça de Portugal. Quarta: o desfazer da estrutura diretiva. É completamente ridículo, pois apenas saíram dois elementos da direção, sendo perfeitamente normal que se procedam a cooptações. Mas ainda assim pergunto: sem estarem sujeitos a esta pressão, quantos daqueles que se candidataram às eleições mantêm as mesmas pessoas nas suas equipas. Quinta: não foi concluída a reestruturação financeira. Falso. Estávamos a fazê-la e só não a concluímos porque não nos deixaram.

«Quem meteu 20 milhões é porque acreditou em mim»

R – Referiu que o dinheiro já não vem da banca. Algum veio do seu bolso?

GL – Não. Digo-lhe o seguinte: não é qualquer pessoa que, na atual situação do clube, em falência técnica pelo menos desde 2004, pode ser presidente do Sporting. Em março de 2011 fiz questão de conhecer as contas do clube, e em função dessa análise decidi manter o dr. José Filipe Nobre Guedes na direção. Foi uma opção responsável, como responsável foi Nobre Guedes quando resolveu ficar no clube depois de o anterior presidente ter saído.

R – Quanto dinheiro entrou no Sporting desde que assumiu a liderança?

GL – 108 milhões de euros.


R – E quantos foram seus?

GL – O que eu quero esclarecer é que a palavra credibilidade é fundamental quando se negoceia com alguém. E não apenas com a banca. Se consigo que um investidor ponha 20 milhões de euros no Sporting, por que razão ele arrisca esse dinheiro? Imagine que investe algum valor numa posição minoritária numa empresa. Naturalmente, tem de confiar nos maioritários, senão não mete lá dinheiro. Agora suponha que quer comprar a maioria. Então quer mandar. Quando alguém mete 20 milhões no Sporting, é porque acredita no Sporting representado por mim. Isto é credibilidade. Não estou a insinuar que sou o único credível, mas o que digo é que quem vier tem de ter credibilidade, sobretudo até a dívida estar reestruturada.

R – Essa credibilidade no imediato tem um valor: 25 milhões de euros.

GL – Exato. Se, porventura, quem for eleito não tiver essa credibilidade, é importante que os sportinguistas percebam que não vai haver jogos depois dessa data.

R – O Sporting tem os salários em dia, não só dos jogadores mas também dos funcionários do clube?

GL – O Sporting paga por volta do dia 10 aos jogadores e no fim do mês aos seus colaboradores. Já pagámos aos jogadores os salários de dezembro, e até 10 de fevereiro vamos pagar o mês de janeiro. Quanto à situação dos colaborares, só na semana do dia de 11 (após a AG) é que poderíamos saber se haveria condições para proceder aos pagamentos. Sem a realização da AG retomámos as conversas, as quais permitiram pagar hoje [ontem] parte dos ordenados de janeiro.

R – Jogadores e funcionários podem estar descansados, pois, no dia em que Godinho Lopes sair, os salários estarão regularizados?

GL – A situação complicou-se porque, quando há uma interrupção das condições normais do mandato, a minha posição face a quem ajuda é mais frágil. No entanto, tudo faremos para sair daqui com os salários pagos. Quer dos jogadores, quer dos funcionários. O que está em causa objetivamente é o seguinte: agora vai começar a feira das vaidades. Há pessoas que nunca serão candidatos a coisa nenhuma e, hoje em dia, o tempo para a apresentação das listas é reduzido, senão iriam andar até sete dias antes das eleições nas televisões a anunciar candidaturas que não existem. Isto obriga as pessoas a apresentarem as listas até 21 deste mês e, logo após, vão assinar um documento a provar que conhecem as condições do clube. Se querem andar a brincar a dizer que são candidatos e depois desistem, isso já é um problema individual. Uma coisa é certa: nós vamos comunicar a necessidades efetivas que houver. Tenho a certeza de que a minha pessoa, daqui até à data das eleições, só vai servir para criticar se perdermos os jogos e será ignorada se vencermos. Agora há outras pessoas que serão figuras de cartaz, pois vão trazer as soluções todas para o Sporting. Tenho consciência de que a minha posição ficou mais frágil a partir do momento em que assumo que não sou candidato e que a minha capacidade negocial com potenciais investidores ficou abalada pelas mesmas razões. Tudo isto está a dificultar a minha obrigação de pagar os salários.


R – Resumir o momento complicado que o clube vive atualmente ao impacto provocado pela AG de destituição, não é demasiado redutor?

GL – O que significa se não tornar mais pobre o facto de o Diogo Matos ter feito um périplo pelos Estados Unidos para negociar a implementação de várias academias e ter recebido uma chamada antes de uma reunião, onde foi questionado: “Com a convocatória de eleições, vamos falar com quem no Sporting?”. Não é ficar mais pobre o facto de nós estamos na Índia a negociar uma parceria para 10 anos e, já numa fase avançada das conversas, sermos avisados de que só iriam negociar com quem viesse a seguir? Foram interrompidas coisas concretas que vamos escrever e que vamos dar às pessoas responsáveis que vão tomar conta dos destinos do Sporting para que sejam retomadas.

R – Então existe a possibilidade de essas negociações serem retomadas?

GL – Todas elas. Imagine o que é um patrocinador, com quem tínhamos um acordo, que estava em Angola a apoiar um projeto, com quem tínhamos uma reunião agendada para janeiro, que olhou para nós e disse o seguinte: “Vamos falar com quem?”. Além desse patrocinador, estávamos a negociar a eventual continuidade com a Puma ou a sua eventual substituição.


R – Mas consegue quantificar o valor que o Sporting perdeu por não ter ficado esses negócios?

GL – Se quem vier tiver credibilidade, pode seguir estar negociações. Como é eleito por quatro anos, até pode escolher outras pessoas. Se o novo presidente não tiver credibilidade, então isto vai parar tudo. E posso dizer mais: o contrato que estávamos prontos para assinar na Índia contempla um valor de 550 mil dólares por ano durante os próximos 10 anos. O contrato que estávamos a assinar nos Estados Unidos previa que, nas próximas três épocas, o estágio fosse feito naquele país e, para lá de ter todos os custos logísticos pagos, o Sporting ainda receberia 500 mil euros para fazer dois jogos. Além do mais, estava a ser discutida a implementação do “master franchising” da Academia com o respetivo desenvolvimento. Estamos, neste momento, a devolver um trabalho em Angola e ainda ontem me perguntaram se era para continuar e eu respondi que sim. Há coisas às quais podemos dar continuidade, mas há outras que tiveram de ser interrompidas. Estávamos a negociar uma parceria de formação para a Academia com a entrada de 60 milhões de euros. Não posso dizer com quem era, mas o negócio estava numa fase final. Quem vier, pode continuar. Nós diremos ao presidente (e não aos candidatos) as condições das negociações. Se este trabalho não tem sido interrompido, estávamos a estabelecer condições para não ser necessária a maioria na SAD. Paralelamente, estávamos a negociar com dois investidores – um de 132 milhões de euros e outro de 100 milhões de euros – a entrada de capital na SAD. Estas hipóteses estariam à espera do final da reestruturação financeira para avançarem, o que iria levar à realização de uma AG, já que isso implicaria a perda da maioria na SAD. Ainda hoje está a ser desenvolvido o negócio com um hipotético investidor, que terá de acertar os pormenores com o próximo presidente, num valor percentual menor mas que também quer a maioria na SAD com a injeção de 80 milhões.

«As críticas que fizeram ao Carlos Freitas são injustas»

R – Uma das acusações que lhe fazem foi o investimento realizado na equipa com a contratação de 25 jogadores em duas épocas.

GL – Quando chegámos, havia jogadores que não queriam ficar no Sporting. Além disso, não existia equipa B. Tínhamos muitos jovens emprestados e a única forma de acompanhar a sua evolução e integrá-los progressivamente na equipa principal, era através da equipa B. Para além disso, contratámos jogadores internacionais e que têm valor. As críticas que fizeram ao Carlos Freitas são injustas. Tanto é assim que os internacionais que o Sporting tem no plantel principal foram cobiçados ao longo da temporada, apesar de a prestação desportiva ter ficado aquém das expectativas.

R – O problema, porém, não foi só a quantidade, foi sobretudo o que representou em termos de aumento da massa salarial.

GL – Como diz o professor Jesualdo, há jogadores que estão na bancada e outros que têm um banco. E estes mudam o banco da equipa B para a equipa A até aqui se estabilizarem. À medida que eles forem entrando, teremos a possibilidade de realizar mais-valias com a venda de jogadores e, assim, diminuir a massa salarial. É verdade que ela aumentou, mas tivemos de passar por este processo para chegarmos a um ponto em que as coisas possam evoluir no sentido que referi.

R – Qual era a sua expectativa?

GL – Com a boa gestão desses ativos conseguiria não apenas recuperar o dinheiro gasto mas até superá-lo. Isto é, os jogadores contratados nos dois primeiros anos representaram um investimento de 34 milhões, tendo o Sporting gerado, até agora, 8,8 milhões de mais-valias na venda de alguns. Penso que até final da temporada seria possível ultrapassar em muito a verba inicialmente investida.

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