segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Sporting 2 - Moreirense 1: a metamorfose de Palhinha em eucalipto

 Nota: todas as fotografias são da autoria da @Idzabela. É expressamente proibida a modificação e/ou reprodução destas fotografias sem autorização expressa da autora. (clique nas imagens para ampliar)

"Está tudo no início e em três jogos tudo muda completamente. A distância é curta e a equipa também é inexperiente em certos aspectos. Vamos ter calma, há que querer ganhar todos os jogos, mas não é preciso mais do que isso. Há que ter calma…" Ruben Amorim

O Sporting vive neste momento numa bolha de felicidade que, além da satisfação inevitável que provoca nos adeptos vai criando também expectativas. Adeptos, analistas e até adversários (pelo menos a avaliar por algumas declarações recentes...) vão-se interrogando, tentando perceber que tempo de vida tirá, se cresce ou tende a diminuir ou até aumentar. O apelo do treinador à calma, no final do jogo com o Moreirense, é uma boa dose de realismo a ser colocada em cima da mesa, num momento muito oportuno, tendo como pano de fundo o jogo que acabava de se realizar.


Antes de mais há a considerar uma série de exibições individuais muito abaixo do que nos havíamos habituado. Feddal, Nuno Mendes e até João Mário estiveram longe do acerto e preponderância que vinham exercendo. Porro também esteve muito menos produtivo na exploração do seu corredor mas foi Sporar quem deixou as maiores preocupações. Muito porque acentuou a imagem entre o alheamento e falta de entendimento com a generalidade dos companheiros de equipa que já havia exibido no jogo anterior e porque, seja abaixamento de forma sejam limitações próprias, não se vislumbra quem possa fazer o papel que lhe é requerido à altura das necessidades da equipa. 


Ora, com vários jogadores abaixo do seu rendimento individual dificilmente o jogo poderia resultar numa grande exibição. A isto acresceu um golo madrugador do adversário que poderia ter perturbado o estado anímico da equipa. Se perturbou a equipa não o deixou transparecer na forma como se entregou ao jogo mas o mesmo não se pode dizer relativamente à qualidade do desempenho. Obviamente que aqui há realçar com justiça a forma como o adversário se bateu, demonstrando nos argumentos exibidos que havia estudado bem a nossa equipa. Corredores laterais vedados à velocidade dos nossos laterais e meio campo preenchido de forma a partir a ligação defesa / ataque. Depois do encaixe das equipas foi visivel a nossa dificuldade em jogar no interior do bloco do Moreirense, obrigando o Sporting a reiniciar quase sempre as suas investidas. Nas vezes em que conseguiu chegar à frente com perigo a "ausência" de Sporar condenava ao fracasso as nossas investidas. 


Do outro lado da moeda à que realçar a exibição portentosa de Palhinha. Como disse depois do jogo meio a brincar meio a sério, de um menino Palhinha nasceu um eucalipto que seca os adversários à sua volta. Imperial desde o seu posto a observar as investidas do adversário o

Não terá sido por acaso por isso que os nossos golos resultem de uma assistência de Nuno Santos e uma iniciativa individual do inevitável Pedro Pote Gonçalves. Aqui, além do destaque óbvio ao nono golo (!) de Pote há destacar mais uma assistência do Nuno Santos que deixa a pensar quantos golos seriam da sua responsabilidade por via das suas assistências se mais à frente contássemos com um ponta-de-lança com uma melhor relação com o golo do que Sporar tem revelado. 


Para as ambições de qualquer equipa este é factor determinante e sem melhorar este factor, entre outras limitações do nosso plantel - o golo sofrido resulta de falhas consecutivas, em que o controlo da linha foi a últimas das falhas-  as nossas perspectivas terão ser sempre o mais realistas possíveis, no sentido do comedimento. Até porque os adversários não só têm maior disponibilidade em favor das escolhas dos seus treinadores, como jogam com tudo fora das quatro linhas...

Talvez por isso este jogo com o Moreirense tenha servido para demonstrar que o momento feliz que a equipa vive e nos vai proporcionando alegria não anuncia nenhum passeio no parque. Jogos como este vão-se repetir vezes sem conta e aí tenho que concordar mais uma vez com o treinador: não podendo golear sempre, os adeptos não terão de reclamar com a postura da equipa. E este jogo foi disso exemplo: sem ser muito feliz na procura dos golos, houve sempre grande empenho e inconformismo. É esta disposição que se pede para noites de menor inspiração como a de este jogo com o Moreirense. 


terça-feira, 24 de novembro de 2020

Sacavenense 1 - Sporting 7: Gente séria é outra coisa!

Nota: todas as fotografias são da autoria da @Idzabela. É expressamente proibida a modificação e/ou reprodução destas fotografias sem autorização expressa da autora. (clique nas imagens para ampliar)
 
O Sporting começou a definir a sorte da eliminatória no momento em que sobe dos balneários ao relvado  encarando o jogo com a seriedade e importância que merece aquele palco, onde muito recentemente fomos muito felizes. Assim, houve a festa necessária que a competição encerra, ao democratizar o acesso de grandes e pequenos às luzes da ribalta, mas sem as festinhas que, no ano passado, fizemos aos adversários com os resultados que se conhecem. 

A festa ficou-se pela doação da receita da transmissão televisiva, numa atitude garbosa que enobrece o nosso emblema. Num momento de mingua de receitas, como muito bem reconhece o ditado migalhas também são pão e estas dar-nos-iam jeito mas ao Sacavenense saberá como o pote de água ao fim da linha de horizonte.


Obviamente que as diferenças entre adversários eram abismais, estas provavelmente agravadas pela crise que a todos envolveu e que nos mais pequenos será ainda mais aguda e feroz. Mas basta olhar os resultados já conhecidos desta eliminatória que, quem os olhe em diagonal, facilmente repara que quem não porfiou não alcançou. Por isso mesmo o melhor sinal desta vitória seja precisamente a seriedade com que a equipa encarou o jogo, respeitando o adversário, a competição e até o espectáculo.

E tudo começou por esse monstro competitivo que é Nuno Santos. Para ele não há rodriguinhos ou adornos desnecessários. Não há entradas para estudar os adversários. No relvado é para competir e deixar a pele em campo. Por isso aos dois minutos de jogo já pudemos começar a pensar no nome do próximo adversário e ao fim de meia-hora de jogo a passagem estava carimbada. 


O exemplo de Nuno Santos foi seguido de perto pela generalidade dos colegas. Destaques obrigatórios para os mais novos, que rasgam os primeiros caminhos que alguns deles prometem de sucesso. De verde e branca vestida antes de mais, esperamos todos. Desses saltaram à vista a descrição e eficácia de Gonçalo Inácio, a revolução tranquila que a entrada de Daniel Bragança significou e o faro pelo golo que o pequeno grande Pedro Marques revelou. Tamanho não é documento, devem ter dito ambos naquele abraço após o segundo golo de Pedro Marques.

No final a pergunta que se impõe: durante o jogo alguém se lembrou que Pedro Gonçalves Pote não estava a jogar? Juntamente com a já louvada atitude colectiva, esse será também um bom motivo para celebrar. O Sporting não tem certamente equipa ou plantel para ganhar todos os jogos. Mas deixou bem claro até agora que não se lhe arrancarão pontos sem contar com uma luta incessante da nossa parte. E isso é bom e poder ser o principio das coisas boas que tanto ansiamos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Vitória 0 - Sporting 4: Um conto de fadas em pleno castelo

Nota: todas as fotografias são da autoria da @Idzabela. É expressamente proibida a modificação e/ou reprodução destas fotografias sem autorização expressa da autora. (clique nas imagens para ampliar)

 
Não se depreenda do titulo menor consideração pelo adversário ou laivos de sobranceria por causa do resultado expressivo. Sendo indiscutível o mérito do Sporting também o é concluir que talvez tenha sido este um bom momento para este encontro em Guimarães. Ainda na vigência da anterior direcção técnica eram notórias as debilidades dos vitorianos que, com grande sorte, iam conseguindo bons resultados e sofrendo poucos golos, quando as histórias dos jogos (p.ex. Paços de Ferreira e SCBraga) nos diziam que os desfechos poderiam ter sido outros bem diferentes.

O mérito desta vitória começa certamente na forma como o jogo foi preparado primeiro e encarado pela equipa depois. E isso pôde ser constatado a dois tempos:

A forma como o Sporting se predispôs desde muito cedo a explorar as fraquezas de uma linha defensiva vitoriana muito subida mas sem exibir argumentos que lhe permitissem tal veleidade.

Ao contrário de tantos outros jogos num passado recente, o Sporting entrou "a matar" e, antes de se esgotar o primeiro minuto, já tinha construído duas situações eminentes de golo, com Sporar primeiro e João Mário de seguida, a esboçarem oportunidades clarissímas.

Um terceiro factor, a eficácia. Começar e acabar a primeira a parte a "facturar" e, passados dez minutos do recomeço, reincidir no golo reduziu a pó as aspirações que os anfitriões poderiam acalentar em retirar pontos ao Sporting. Nada disto acontece sem sorte, obviamente mas a sorte dá muito trabalho e o Sporting trabalhou muito e bem.

No fim o que contam sempre mais do que quase tudo o resto é o resultado e a obtenção de pontos ajudar a construir uma muralha imprescindível: a confiança. Se esta qualidade/característica é necessária em todas as equipas, numa equipa impregnada de juventude e experiências de alta roda limitada mais ainda. E aqui há também que considerar dois pontos:

Apesar dos resultados surpreendentemente bons - ou muito bons, se atendermos aos números de melhora ataque, melhor defesa, goleador da Liga para Pote - esta não equipa não exerce ainda o domínio que um verdadeiro candidato costuma exibir. Entre o golo inaugural o Vitória, mesmo de forma incipiente e quase sempre muito dependente dos argumentos técnicos superlativos de Quaresma e Edwards, soube causar algum sofrimento e até suscitar alguma dúvida na marcha do marcador, mesmo sem criar mais do que uma situação de golo iminente em toda a partida. Gerir a vantagem recorrendo à posse criteriosa para descansar com bola e controlar as investidas do adversário é por onde esta equipa tem de ainda de crescer.

Não há nenhuma equipa que cresça saudavelmente sem a confiança que os bons resultados trazem e aqui há que reconhecer com justiça que este grupo de trabalho tem tido a coragem e diria até a irreverência e atrevimento de que se constroem as equipas vencedoras. O querer deste grupo é notável. A indiferença ao que dizia à sua volta, quer externa quer sobretudo internamente desde o inicio, a forma como superaram as dificuldades de um surto numa fase tão importante da época e o revés amargo de uma eliminação europeia precoce auguram excelente saúde e preparação.

Algumas notas individuais que me parecem imprescindíveis:


Adán: Fez o que se pede a um guarda-redes de um grande: mesmo que pouco interventivo tem de ser decisivo quando chamado. E foi!


Porro: Desculpem lá o francês, mas porra! que o homem corre, corre. Tem ainda por onde crescer mas, ao contrário dos seus predecessores recentes na posição, tem-o conseguido a olhos vistos.


Neto: Cumpriu  


Coates: Capitão


Fedal:
Há ainda ali algumas hesitações a corrigir mas tem sido o central que mais me tem surpreendido.


Nuno Mendes
: já quase não há adjectivos para classificar este miúdo feito homem em pouco tempo. Imperturbável e cheio de classe. Aquela arrancada quase dava um dos melhores golos da Liga, seguramente a par do outro do mesmo género que já facturou.

Palhinha: que diminutivo tão paradoxal para um esteio do nosso jogo. Saiu daqui um miúdo timorato e regressou um Homem, como se vê até pela forma como sabe usar o físico, argumento indispensável na sua posição.


João Mário: joga de pantufas, o que deve ser assaz irritante a quem vai atrás dele de dentes cerrados e pitões em riste. Ainda não está em forma, que se nota em momentos em que desaparece do jogo, mas faz coisas que mais ninguém com uma leveza que faz parecer tudo muito fácil.


Pedro Gonçalves: Baratito, não foi?


Nuno Santos: Raça, eficácia e alma. É impossível não gostar.


Sporar: um avançado é mais do que os golos que marca. E se pode ser mais eficaz neste aspecto é de salientar a sua participação decisiva na construção dos últimos resultados pela forma como assiste e se se envolve no jogo ofensivo.


Matheus Nunes: é hoje um melhor jogador que quando foi chamado pela primeira vez. Tem sabido aproveitar as oportunidade e crescer e isso é o melhor que se pode dizer de um jogador.

Um nota final

O Sporting vive neste momento um conto de fadas. Que deveria ser aproveitado para puxar atrás o filme da época atrás e verificar tudo que se disse e foi feito por cada um até aqui chegarmos. Não para o tradicional ajuste de contas entre adeptos e facções, mas para não repetirmos os erros de sempre que muitas vezes nos fazem perder antes de sairmos de casa e os jogos começarem. O Sporting precisa de uma retaguarda forte que só os seus adeptos podem proporcionar porque é clara a nossa desvantagem sobre quase todos os factores que condicionam os êxitos: do factor económico ao poder nos bastidores. 

É que se não somos os piores, como muita gente disse depois do jogo com o Lask (que ninguém contabiliza a participação da arbitragem no resultado final), também agora não somos os melhores, apesar do primeiro lugar. As lacunas do plantel são as mesmas do inicio época e com o tempo, as lesões, castigos  as desvantagens para os adversários serão mais evidentes e servirão de lastro no balão das nossas pretensões e anseios.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Sporting 4 - Tondela 0: Quando a esmola é muito grande o pobre desconfia

Foto zerozero

Exibição de poder e categoria foi o que nos foi dado observar ontem em Alvalade, tal foi o caudal ofensivo e respectivo número de oportunidades criadas. O número de golos acaba por ser escasso, atendendo ao volume de jogo que asfixiou o adversário, que em grande parte do tempo se declarou impotente para fazer oposição minimamente consistente.

A pergunta que ocorre imediatamente é se tal se deveu a a um Sporting demasiado poderoso ou um Tondela demasiado frágil. Ou, em alternativa, se tratou de um acidente de percurso em que o futebol é fértil. Estas perguntas serão respondidas em capítulos posteriores no percurso das equipas mas não deixam de fazer algum sentido porque se atendermos ao trajecto do "Sporting de Amorim" esta foi talvez a primeira vez em que o Sporting exerceu sobre o adversário uma superioridade tão vincada.

Julgo que a mais avisada explicação, fugindo à especulação, é mantermo-nos pelo caminho dos factos e o que o jogo de ontem vincou foi uma boa preparação prévia do encontro por parte da equipa técnica de Rúben Amorim, revelando conhecimento do adversário. Depois de alguma indefinição inicial e após o ajuste das equipas, cedo se percebeu que a postura habitual da equipa de Pako Ayestarán, de linha bem subidas com o intuito de impedir ou condicionar a construção do adversário ia-lhes custar caro. 

As alterações de Rúben Amorim deram frutos: Palhinha e João Mário serão a dupla natural ao centro, tal é a segurança que emprestam à equipa, seja a parar o jogo adversário seja a ligar para o momento de criação de jogo ofensivo. Sporar foi determinante para esse sucesso pela generosidade com que se entregou ao jogo, embora tenha sido muito perdulário. Mas a assistência para Pote, o goleador de serviço, de que resulta o primeiro golo, acaba por ser de uma importância para a definição do resultado final. Estava-se já nos momentos finais da primeira parte e a bola teimava em ir ter com Trigueira. Com obtenção do segundo golo quase no reinicio do encontro este acabaria sentenciado.

Há no entanto a assinalar dois aspectos menos positivos, que não devem passar despercebidos no jogo de ontem. O número de golos falhados, que contra um adversário mais capaz nos podem custar dissabores. E, tal como Amorim muito bem assinalou na conferência de imprensa, o golo sofrido que só não o foi por um acaso de poucos centímetros. Sobretudo pela forma como acontece, deixando à evidência aquela que será uma das nossas maiores fragilidades: a velocidade no extremo reduto. O lance anulado a Mário Gonzalez é toda uma ilustração de que como por em sentido uma defesa a jogar com muitos metros nas costas e sem um elemento suficientemente veloz para compensar. 

Do lado positivo, e para lá dos números do resultado e da superioridade exercida, a constatação de que há mais soluções à disposição do treinador. O banco tem aliás um efeito regenerador que não se extingue no descanso temporário que proporciona aos atletas. Pode exercer igual efeito na "fome de bola" como aquela que se viu na primorosa assistência de Nuno Santos e de que resultou um golo de belo efeito de Porro, um lateral direito como há muito não se via por Alvalade. Tratando-se de um jovem de vinte e dois anos, com possibilidades de crescer e limar arestas, promete.

Mas talvez o melhor de tudo tenha sido a impassibilidade com que a equipa foi jogando e procurando o golo sem se descontrolar emocionalmente, perante a perspectiva de chegar ao primeiro lugar do pódio   ou desequilibrar tacticamente para perseguir o desfazer da igualdade. De certa forma trata-se de uma novidade que revela confiança e segurança que gostávamos que viesse para ficar. Mas uma superioridade tão avassaladora é uma esmola demasiado grande para não ficar desconfiado, precisando de confirmação com adversário de cotação superior e nesse sentido o próximo  jogo em Guimarães vem mesmo a calhar.

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