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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Borges out, Fonseca in: quanto custará a má gestão de um final de ciclo?


Rui Borges deixou de ser treinador do Sporting e Paulo Fonseca prepara-se para aterrar em Lisboa. A saída de Borges só surpreende quem ignorou os resultados, as exibições e, sobretudo, a sensação de desnorte que as constantes alterações táticas foram deixando.

Há cerca de um mês, porém, o elogio público de Frederico Varandas parecia prolongar o prazo de validade do treinador. Soube-se ontem que não foi assim, e a passagem de Borges por Alvalade termina aqui e agora.

A decisão é, em parte, a correção tardia de três erros de avaliação em cadeia: renovar o contrato antes do balanço final da época, manter o treinador depois de uma derrota que, num clube com as ambições do Sporting, devia ter ditado o fim do ciclo, e entregar a reconstrução do plantel a um técnico já desgastado e fragilizado. Fica ainda no ar a pergunta: porquê agora, ainda por cima na véspera da partida para Londres, onde o Sporting vai encontrar precisamente a antiga equipa de Paulo Fonseca?

Na hora da despedida, importa recordar o legado de Borges: uma Liga e uma Taça de Portugal. Duas conquistas com sabor especial, porque a Liga valeu o bicampeonato e a Taça completou uma dobradinha. O reverso da medalha é a ausência de títulos desde que o leme passou exclusivamente para as suas mãos, agravada pela derrota no Jamor. Isso, somado a um arranque de época infeliz, ditou o divórcio e ofuscou uma campanha europeia que merecia mais brilho.

Chega agora Paulo Fonseca, que deixou Portugal há muito para trabalhar no estrangeiro. A sua imagem no país ficou marcada pela passagem pelo FC Porto, a única oportunidade que teve num grande, depois do excelente trabalho no Paços de Ferreira, que levou à disputa da eliminatória de acesso à Liga dos Campeões (2013/14). Antes de partir, e ainda longe do sucesso que teria no Shakhtar até à guerra da Ucrânia, acertou contas com o antigo patrão ao conquistar, ao serviço do Sporting de Braga, a segunda Taça de Portugal da história do clube, 50 anos depois da primeira, frente ao FC Porto.

A tarefa que o espera é árdua: voltar a encurtar a distância para os dois rivais. Construir uma equipa vencedora é difícil, mas bastam duas ou três ocorrências simultâneas para desbaratar uma hegemonia que parecia em construção. Para isso, a experiência de Roma e Milan, clubes em busca dos seus tempos áureos, será fundamental. Fonseca sabe o que é gerir pressão e expectativas, sabe por isso que o Sporting ao contrata-lo vai à procura de uma liderança esclarecida que rentabilize o plantel à disposição e devolva aos adeptos a gosto de ver a sua equipa jogar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Fim de linha para Rui Borges? E o que fará Varandas a seguir?

É certo que o futebol é mesmo uma caixinha de surpresas, mas é muito difícil sair do sítio onde Rui Borges ficou depois da derrota com o Académico de Viseu. O Sporting disse adeus ao campeonato pelo segundo ano consecutivo desde que Rui Borges decidiu imprimir o seu “cunho pessoal”.  Neste momento poucos duvidarão que Rui Borges dificilmente cumprirá o seu contrato e muitos têm já como certo que o atual treinador do Sporting não chegará sequer ao Natal. 

Duas coisas me parecem importantes sobre Rui Borges. Do ponto de vista humano, parece ser uma pessoa bem formada, e a sua atitude profissional esteve sempre acima de qualquer reparo. Apesar dos títulos conquistados, porém, o seu nome nunca foi consensual entre uma fatia generosa de sportinguistas, por duas razões que parecem estar na origem da desconfiança: o discurso pouco atrativo e nada mobilizador, demasiado contrastante com o do seu antecessor, e as origens futebolísticas modestas, sem grandes referências. 

O que temos visto este ano é uma nítida degradação da capacidade competitiva da equipa, e isto ainda antes de defrontar os grandes rivais. O percurso em plano inclinado trouxe-nos a este momento: parecem já longínquas as conquistas do bicampeonato e da dobradinha, e nem a boa campanha na Champions da época transata parece contar. 

O divórcio dos adeptos com o treinador resultará de falta de memória? Recorde-se o que sucedeu com Rúben Amorim, que, na primeira época (na verdade, só meia) e na terceira, colecionou dois quartos lugares. Os sportinguistas souberam então ser pacientes e até compreensivos, e essa paciência foi o alicerce de duas épocas de hegemonia sportinguista no futebol nacional. Porque é diferente agora a reação? 

Alguns dos motivos já ficaram descritos, a começar pela falta de confiança no treinador. A desconfiança inicial é agravada por sinais que vincam a impossibilidade de Borges alterar o rumo dos acontecimentos e que, pior, deixam a sensação de que a situação ainda se pode agravar. Ao invés de se resolverem, os problemas da equipa mantêm-se ou agravam-se. Os sportinguistas deixaram de sentir que há rumo e ideias capazes de inverter o momento. 

É aqui que entra o papel da SAD e, muito em particular, de Frederico Varandas. O desmantelamento de um plantel vencedor nunca foi bem explicado, e sobejam as dúvidas sobre se o presidente não se terá enganado no diagnóstico que o levou a preferir o treinador aos jogadores mais talentosos e carismáticos, para muitos as caras das vitórias. Enganado ou não, a verdade é que Varandas já não tem na mão a carta do passo atrás. Saberá melhor do que ninguém se subsiste uma das condições imprescindíveis para equacionar a continuidade do treinador: o plantel ainda está com ele e confia nele? 

Varandas também não ignorará as suas próprias responsabilidades. Tendo optado por uma temerária reformulação drástica do plantel, pode sentir-se tentado a prolongar a presença de Borges no comando da equipa, pelo menos enquanto não sentir o terceiro lugar em risco. Mas isso acarreta riscos elevados. Quando ocorrerá o último momento a partir do qual a perda é irreversível? E, quando se tornar necessário mudar, quem estará disponível à altura do cargo?

Um dos muitos rumores em circulação é o recurso a um treinador interino (Tiago Fernandes?) enquanto se espera por uma solução do agrado do presidente (Abel? Jardim?). Seria um erro crasso e contraditório com o que Varandas afirmou recentemente, ao confessar o erro de ter substituído precipitadamente Keizer quando não tinha uma opção melhor. Os jogadores veem um treinador interino como alguém sem autoridade ou impacto nas suas carreiras. 

O que Varandas certamente não ignorará é que um ambiente apodrecido em torno da equipa torna Alvalade irrespirável, sem falar do reflexo que a falta de vitórias tem nas receitas indispensáveis para manter o clube numa rota de sustentabilidade. Nem ignorará que, depois do treinador, é ele quem estará na primeira linha da contestação. 

Não sabemos como nem quando terminará o consulado de Borges no Sporting, mas sente-se no ar que Varandas se verá obrigado, mais cedo do que tarde, a escolher novo treinador. Sabe melhor do que ninguém o que é fazer uma má escolha e o que é presidir com um treinador vitorioso e carismático que lhe sirva de escudo, algo que Borges nunca conseguiu ser. Um treinador vitorioso, todos querem; o carisma é uma espécie de bónus, um para-raios para os momentos de tempestade. Dificilmente deixará de ter presente essa característica na hora de nova escolha. 



sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O desastre pontual é também um desastre comunicacional


Passaram apenas sete jornadas e o Sporting já perdeu seis pontos. É verdade que não perdeu nenhum jogo, mas os pontos deixados nos três empates equivalem a duas derrotas. Talvez isso baste a Rui Borges, que ontem, na conferência de imprensa, se declarou satisfeito por nunca ter perdido com o SCBraga, quando o jornalista o confrontou com o facto de nunca lhes ter ganho enquanto treinador do Sporting.

Como o próximo jogo é precisamente com o SCBraga, lembrei-me daquele episódio em que Godinho Lopes proporcionou ao presidente António Salvador uma visita ao nosso museu. Frederico Varandas precisa de fazer algo semelhante com o seu treinador, para que perceba a diferença que existe, ou devia existir, entre treinar o Sporting Clube de Portugal e treinar o Moreirense, sem qualquer desprimor para o clube minhoto. Até porque aquela resposta nem sequer no Vitória Sport Clube, o seu anterior clube, seria hoje admissível.

Espera-se também, para logo, uma ambição maior do que «não perder com o Braga», porque já estão esgotadas todas as margens de erro. O que também é válido para Gonçalo Inácio, a quem o treinador dirigiu uma observação igualmente infeliz sobre as férias que gozou na seleção.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Sporting 2 - Arouca 2: Triplo hara-kiri

Há muito pouco a dizer sobre o que se passou em Alvalade que não tenhamos dito anteriormente ou suspeitado poder acontecer. Não é por isso de todo surpreendente esta enésima revisitação do Sporting à lei de Murphy, algo que estávamos tão habituados em anos anteriores mas que talvez não esperássemos estar a reviver tão cedo.

De forma sintética, o Sporting passa mais uma vez de vencedor por dois golos a um empate comprometedor, que face ao que se passou no clássico nas Antas — não é engano, o jogo foi disputado como se tivéssemos voltado aos famigerados anos 90 — deixa o título mais distante que uma miragem, e isto à sétima jornada!

O filme é curto: Debast faz-se expulsar (em lance em tudo idêntico a um em que um jogador do Arouca nem amarelo viu...), Quaresma entrou de forma completamente desastrada e desconexa até cometer um penálti descuidado. Para fechar com chave de ouro, Borges decide fazer uma viagem no tempo em que era treinador do Moreirense e recua as linhas, retirando qualquer possibilidade de a equipa fazer qualquer outra coisa que não defender. Cedo se percebeu que o empate, ou pior, era uma questão de tempo, e assim foi.

Segue-se agora uma longa paragem que, atendendo às convocatórias para as seleções, não servirá para mais que recuperar lesionados. Talvez este interregno tenha um efeito anestesiador ou retardador, mas percebeu-se pelas reações ao jogo que Rui Borges esgotou o seu plafond de crédito junto dos adeptos e que se avizinham tempos conturbados em Alvalade.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A revolução, a dúvida e o prazo de validade de Rui Borges


Poucos serão os sportinguistas que ainda não terão ficado surpreendidos com a revolução que a SAD, com o beneplácito do treinador (?), decidiu empreender no plantel da equipa. Contrariamente ao que seria expectável — e desejável? —, o Sporting decidiu prescindir, como prioridade, dos jogadores mais talentosos, em vez dos que, por falta de talento ou de utilidade, poderiam ser considerados excedentários.

Ainda sem recuperar da surpresa, a interrogação que fica desde já é o que esperar do Sporting nesta época, que leva já duas jornadas. Se ficássemos pela amostra que esses dois jogos deixaram, a desilusão não poderia ser maior. Os problemas detetados nas equipas de Borges desde que chegou ao Sporting não só se mantiveram como se agravaram, especialmente do ponto de vista defensivo: a equipa expôs-se em demasia e deixou-se agredir por adversários que não têm, ou não deveriam ter, valor suficiente para representar um perigo tão grande na conquista dos respetivos três pontos. Tanto assim foi que, dos seis pontos "obrigatórios", dois ficaram pelo caminho e têm agora de ser recuperados, se o Sporting ambiciona voltar a festejar a conquista do título.

Esta é, para mim, a grande dúvida e a principal fonte de apreensão neste momento: sem consistência defensiva, é possível ser campeão? Não existe uma fórmula matemática que responda com segurança a esta questão, mas, na ausência dessa característica tão importante, o Sporting fica obrigado a um nível de acerto e de eficácia ofensiva enorme e de difícil sustentação ao longo de um campeonato tão longo. Não é impossível, mas é seguramente uma tarefa mais árdua do que a que esperam as equipas equilibradas em todos os momentos do jogo. E é precisamente esse equilíbrio que parece estar a faltar, neste momento, à equipa de Rui Borges.

Depois da surpresa da revolução, seguiu-se o espanto perante uma prestação notável nos jogos de preparação, protagonizada por uma equipa em que muitos dos jogadores recém-contratados e chamados a papéis de destaque mal se conheciam entre si. Os poucos golos sofridos anunciavam consistência e solidez defensivas; os muitos golos marcados, eficácia e pujança ofensivas. Nada que a cruel realidade dos jogos a doer não tardaria a desmentir.

Com naturalidade, depressa três questões passaram a estar na ordem do dia:

As entradas dos novos jogadores acautelaram, na tal revolução, as saídas registadas?

Faltam ainda alguns dias para o fecho do mercado, pelo que algumas saídas e entradas são possíveis — o que, a acontecer, obrigaria a reescrever este parágrafo. Do ponto de vista do valor e do potencial, as escolhas feitas mereceram elogios. Mas, para já, parece continuar a faltar um jogador que tenha na organização, no pensamento e na ligação do jogo uma das suas melhores características — alguém capaz de impor pausa e discernimento ao nosso jogo ofensivo. Do ponto de vista da organização defensiva, parece haver pulmão e músculo mais do que suficientes para a tarefa. O que falta, por ora, terá de vir do gabinete técnico chefiado por Borges.

Com uma alteração tão profunda na estrutura da equipa, é possível dotá-la, em apenas uma pré-época, das ferramentas indispensáveis para formar um conjunto vencedor?

Quanto à questão temporal — mais propriamente a escassez de tempo que medeia o arranque da época e as provas oficiais —, não faltam exemplos de sucesso, embora os de fracasso, total ou parcial, sejam muito mais numerosos. Caberá à SAD e a Rui Borges explicar melhor a escolha deste caminho, em oposição à política, até agora seguida, de sucesso desportivo e financeiro através de transações cirúrgicas. Se um dos objectivos era ser campeão nacional em volume de negócios, esse está plenamente conseguido; mas, obviamente, ninguém em seu perfeito juízo imagina que esse fosse o objectivo.

E, por último — e talvez a pergunta que mais ocupa a mente dos sportinguistas —, será Rui Borges o treinador indicado para este momento e capaz de levar a bom porto a enorme tarefa que não só aceitou como ajudou a criar?

É quase um lugar-comum dizer hoje que Rui Borges tem uma margem de tolerância muito curta e uma imagem muito desgastada junto de boa parte dos adeptos sportinguistas. Isso resulta de um rotundo zero de títulos numa época em que decidiu impor "o seu cunho pessoal" e de uma derrota ignominiosa na final da Taça de Portugal.

O grande mérito de Rui Borges na conquista do tão ambicionado bicampeonato e dobradinha — arrancando o Sporting de um luto que poderia ter sido traumático — foi, precisamente, o bom senso de não operar uma revolução, optando antes por aproveitar as ideias base do seu antecessor e alterar, de forma cirúrgica, aquilo que lhe parecia merecer correcção. A conjuntura não podia ser mais adversa: o Sporting acabava de perder o seu melhor treinador em sete décadas, bem como aquele que era tido como o seu sucessor natural. Borges superou o exame com distinção.

Na segunda época — a tal do cunho pessoal —, alguns dos sinais de que a equipa havia perdido as suas melhores qualidades ganharam cores mais garridas. E mesmo o tão importante segundo lugar deixou dúvidas sobre se se devia ao mérito da equipa e do seu treinador ou à incompetência do seu eterno rival. Os últimos dez jogos deixaram uma imagem débil, sombreando o brilho de uma boa época europeia : em abril, o Sporting entregou o campeonato, perdendo o dérbi em casa e somando depois empates frente às duas equipas que haveriam de ser despromovidas, Tondela e Aves. Sobre a derrota na final da Taça, já tudo foi dito.

DataCompetiçãoJogoResultado
24/05/2026Taça de Portugal – FinalSporting 🆚 Torreense1–2 ❌
16/05/2026LigaSporting 🆚 Gil Vicente3–0 ✅
11/05/2026LigaRio Ave 🆚 Sporting1–4 ✅
04/05/2026LigaSporting 🆚 Vitória SC5–1 ✅
29/04/2026LigaSporting 🆚 Tondela2–2 🤝
26/04/2026LigaAFS       🆚 Sporting1–1 🤝
22/04/2026Taça de Portugal – meia-finalFCP       🆚 Sporting0–0 🤝
19/04/2026LigaSporting 🆚 Benfica1–2 ❌
15/04/2026Champions League – quartos-de-finalArsenal  🆚 Sporting0–0 🤝
11/04/2026LigaEstrela   🆚 Sporting0–1 ✅

Balanço dos últimos 10

  • 🟢 4 vitórias
  • 🟡 4 empates
  • 🔴 2 derrotas
  • ⚽ 17 golos marcados
  • ⚽ 9 sofridos
  • 4 jogos sem sofrer golos 

Vamos ver do que é capaz, este ano, Rui Borges. Sendo verdade que "isto é como acaba e não como começa", também o é que "candeia que vai à frente alumia duas vezes". Neste momento, só Rui Borges pode salvar Rui Borges — isto é, compete ao treinador acrescentar mais datas ao seu prazo de validade. Não que alguém na SAD tenha dado qualquer indicação de que a cabeça do treinador está no cepo. Mas, depois de tamanha revolução, com a consequente perda de talento e de jogadores carismáticos, tem de haver resultados que legitimem a operação. E, quando estes não surgem, é o treinador que fica sempre mais exposto. Mas também a SAD — isto é, Frederico Varandas — poderá sair chamuscada.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ir à final como quem vai ao Carnaval


Por uma questão de inteira justiça, qualquer crónica sobre a final da Taça de Portugal de 2025/2026 deve começar por endereçar os parabéns à equipa vencedora, o Sport Clube União Torreense. O seu feito ficará para a história. Para conseguir a vitória, o Torreense teve de superar não apenas o ex-bicampeão e último titular do troféu, mas também a diferença de qualidade individual e de traquejo entre as duas equipas e, pasme-se — para a organização do nosso futebolzinho tuga —, uma calendarização que os penalizou duplamente nas duas competições em que estão inseridos. 

Para o conseguir, o Torreense foi tudo o que o Sporting preferiu não ser: aplicados, concentrados, abnegados e conscientes de que o primeiro fator decisivo para ganhar um jogo começa na vontade.

Se a equipa do Sporting teve vontade, não a deixou expressa em campo. Por norma, os adeptos chamam a isto falta de atitude; eu prefiro sempre a explicação da responsabilização pela liderança. O Sporting poderia ter perdido na mesma a final da Taça de Portugal por falta de sorte, mas nunca sem fazer o imprescindível: deixar tudo em campo. Ficou a sensação que a festa foi feita antes do jogo, Rui Borges esteve tão abúlico como os seus jogadores em campo e o pormenor do polo ameixa só pode ter sido mau agoiro.

O que o Sporting deixou no sempre impróprio relvado do Jamor foi em tudo semelhante ao que já havíamos visto em finais de resultado igualmente amargo e doloroso. Primeiro com a Académica: a desorganização, a mesma falta de esclarecimento e a ausência de liderança técnica capaz de inverter um golo madrugador do adversário. Depois, com o Aves, os mesmos problemas — agravados por um clube em avançado estado de decomposição interior.

A época encerrou ontem com zero títulos. Rui Borges “conseguiu” isso com o plantel mais valioso da Liga, depois de ter decidido “imprimir o seu cunho pessoal”. É verdade que conseguiu o bicampeonato e a dobradinha na época transata, mas com um plantel e um sistema de jogo cuja paternidade não lhe pertencia.

Do seu cunho pessoal resultou, este ano, um deserto de títulos e uma campanha brilhante na Liga dos Campeões que, contudo, não apaga a incapacidade de ganhar internamente aos mais fortes. A isso soma-se um trajeto absolutamente medíocre na Taça de Portugal, que nem a eliminação do FCP apaga. As prestações ante os “colossos” Paços de Ferreira, Aves e Santa Clara, agora fechadas com pesado chumbo do Torreense, deixam muito que pensar também.

A época de 2026/2027 ainda não começou, mas Rui Borges já entrou nela a perder.

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Bodo Glint 3 - Sporting 0: eclipse total


O Sporting viajou até à Noruega com ambição europeia, mas acabou perdido no frio do Ártico, incapaz de reagir dentro de campo ou a partir do banco.

O Sporting apresentava-se na Noruega com ambições de prolongar o seu passeio europeu, depois de ter conseguido conquistar um lugar de distinção no restrito e exigente lote dos oito melhores classificados. Quem esperava uma aurora boreal marcada em tons de verde acabou por assistir a um eclipse total, onde o Sporting foi apenas uma pálida sombra de si próprio.

É verdade que a equipa até nem entrou mal no jogo, mas foi sol de pouca dura. Rapidamente se instalou o desnorte completo, permitindo todo o tipo de veleidades a Berg, Hauge, Høg e até aos defesas-centrais amarelos. O penálti “à portuguesa” apenas ajudou a acelerar o que se tornava cada vez mais evidente: a abordagem do Sporting ao jogo foi abaixo de medíocre.

Fica por saber que jogos dos adversários foram visionados pela equipa técnica e se o filme que viam nos tablets era idêntico ao que passou na generalidade dos ecrãs. Rui Borges foi completamente incapaz de introduzir qualquer alteração, quer através de instruções quer através de substituições. Foi particularmente confrangedora a forma como deixou a equipa esbracejar no meio do mar norueguês até se afogar completamente.

Mais do que a atuação dos jogadores, foi a incapacidade da equipa técnica de ler o que estava a acontecer no relvado e de produzir uma mudança que proporcionasse, pelo menos, uma pequena amostra do que esta equipa pode — e já conseguiu — realizar.

Espero estar errado, mas fica também uma certa sensação de alguma soberba na forma como foi olhado o adversário. Talvez o cenário minimalista, comparado com as grandes metrópoles dos grandes estádios, possa ter influenciado essa disposição, a ter existido.

Ao invés de trazer um belo e luzidio bacalhau norueguês, os leões saíram frios e demolhados de Bodø e já praticamente fora da competição que tanto almejávamos, com o sonho de voltar aos quartos de final a ficar muito comprometido.

A menos que os noruegueses devolvam a gentileza que lhes proporcionámos — a de jogar à vontade e de cadeirinha em Alvalade — Champions agora só para o ano.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

At. Bilbau 2 - Sporting 3: Na primeira parte fomos às tapas, na segunda fomos ao Guggenheim deixar uma obra histórica


O Sporting alcançou uma proeza inédita para si e para o futebol português ao garantir um lugar no restrito Grupo dos Oito, assegurando assim o apuramento direto para os oitavos de final da Liga dos Campeões.

A entrada em jogo esteve longe de ser a desejada. O Sporting revelou grandes dificuldades para sair da pressão do adversário e para gerir a posse de bola com eficácia, acumulando passes falhados que acabariam por resultar na assistência involuntária de Hjulmand para o golo madrugador do Atlético. Por momentos, o cenário ensombrou-se e pareceu regressar o espectro de antigas noites europeias. Ainda assim, o Sporting recompôs-se, reequilibrou a partida e chegou ao empate, dando a sensação de que tinha o jogo sob controlo — até ao erro infeliz de Matheus Reis, um lance evitável e desajustado ao nível competitivo da prova.

Na segunda parte, Rui Borges leu bem o encontro e interveio no momento certo. As entradas de Pedro Gonçalves, Morita e Eduardo Quaresma alteraram a dinâmica da equipa, trazendo intensidade, maior capacidade nos duelos e um critério renovado com bola. O Sporting apresentava-se transformado. Mais tarde, juntar-se-ia à narrativa o homem do jogo: Alisson, decisivo e novamente determinante na caminhada europeia dos leões.

No momento que poderia ter sido fatal, os sinais pareciam apontar para um desfecho cruel: Suárez desperdiçou uma ocasião soberana, Alisson escorregou quando o golo parecia iminente e o sonho ficou por instantes suspenso. Desta vez, porém, a bola entrou e dessa forma o Sporting contrariou o fatalismo de outros tempos e escreveu um capítulo pioneiro na sua história — e na do futebol português — com uma exibição de maturidade europeia, evidenciando resiliência nos momentos de maior pressão e qualidade para impor o seu jogo em palcos de máxima exigência.

Apesar do caráter épico da conquista, importa não ignorar os sinais de alerta. A este nível competitivo, raramente é possível corrigir erros individuais como alguns dos que marcaram o encontro, ainda para mais perante um adversário condicionado por ausências relevantes. As decisões técnicas também merecem reflexão, nomeadamente a utilização de Bragança sem ritmo competitivo num jogo de intensidade tão elevada.

Agora é esperar o que a sorte ditará sexta-feira. O nome do Sporting aparecerá pelo segundo ano consecutivo no sorteio dos oitavos de final da melhor e mais feérica competição de clubes do mundo. Foi com isto que nós sempre sonhamos e que esteve presente no coração e mente dos nossos fundadores.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Dérby mostra um Sporting que promete e um que desaparece

 
Os primeiros vinte e cinco minutos do Sporting no dérbi foram uma promessa que o resto do encontro deixou irremediavelmente por cumprir. O início fulgurante, construído sobre uma pressão alta coordenada, linhas compactas e uma agressividade inteligente sobre o portador da bola, permitiu aos leões asfixiar o adversário e, por momentos, transformar o Estádio da Luz num espaço silencioso. O Benfica parecia atordoado, incapaz de ligar três passes consecutivos, enquanto o Sporting recuperava bolas em zonas adiantadas, criava desequilíbrios constantes nos corredores laterais e impunha um ritmo que só uma equipa muito confiante e bem preparada consegue imprimir num dérbi.


A verdade, porém, é que esse Sporting autoritário e demolidor marcou apenas um golo — insuficiente para capitalizar tamanha superioridade — e desapareceu para parte incerta após sofrer o empate. O golo sofrido, tal como o que colocara os leões em vantagem, nasce de um erro individual evitável, expondo uma vulnerabilidade que vem sendo recorrente sempre que a equipa é obrigada a reagir à adversidade. O que terá acontecido dentro daquela meia hora para assistirmos a duas versões tão contrastantes do Sporting, e numa transição tão abrupta, é a pergunta de um milhão de dólares. E é precisamente em torno dessa dualidade que importa centrar a análise.

Para compreender a queda de rendimento, convém começar por relativizar a exuberância inicial. Aquele Sporting demolidor não se tem revelado uma constante, e o adversário, apesar de todos os seus defeitos exibicionais ao longo da época, não é o equivalente contemporâneo do velho Salgueiros ou Arrentela. Houve momentos em que a fragilidade encarnada fez parecer que estávamos perante algo desse género, mas a verdade é que não estávamos.

Rui Borges tentouna segunda parte, dentro do possível, reequilibrar a equipa quando percebeu que o ímpeto inicial estava a dissipar-se. Mas Quenda esteve particularmente infeliz: falhou receções simples, quebrou a fluidez do jogo, tomou más decisões no momento do passe e acabou por se tornar um corpo estranho dentro da dinâmica da equipa. Simões, por sua vez, ficou completamente abafado no meio do trio ultradefensivo que o Benfica montou no corredor central. Sem conseguir receber entre linhas, raramente tocou na bola em zonas de criação. Já as entradas de Ioannidis e Alisson, demasiado tardias, tinham sempre poucas probabilidades de alterar o rumo dos acontecimentos — seria preciso um daqueles acasos milagreiro que a bola tantas vezes recusa conceder.

Este novo empate — e o facto de estar prestes a completar um ano sem vencer qualquer um dos principais rivais — reacendeu o debate sobre Rui Borges. As opiniões dividem-se de forma vincada. Há quem sublinhe, com inteira justiça, que estamos a falar do treinador responsável pelo bicampeonato e pela tão celebrada dobradinha, alguém que não só estabilizou o clube num momento de particular fragilidade, por via da fuga de Amorim, como lhe devolveu identidade competitiva. E nunca é demais recordar que foi precisamente contra este rival que Rui Borges venceu no jogo da sua estreia, num desafio que, na altura, parecia prenunciar um ciclo de afirmação incontestável.

Por outro lado, existe a sensação — alimentada por dérbis e clássicos recentes — de que a equipa revela demasiado cedo um certo conformismo competitivo. Não se pode afirmar que tenha sido o treinador a "mandar baixar linhas" ou a instruir a equipa a contentar-se com o empate; isso seria simplificar demasiado. Mas também não se pode ignorar que este padrão deixou de ser episódico. Repetiu-se, consolidou-se e tornou-se parte da narrativa que envolve cada grande jogo do Sporting. E quando a repetição é frequente, o foco sobre o treinador deixa de ser uma escolha: passa a ser inevitável.

Importa ainda situar o empate dentro do contexto estratégico da época. Em teoria, empatar na casa de um concorrente direto nunca pode ser considerado um desastre. Há equipas campeãs que construíram títulos com base em empates fora com os rivais e vitórias regulares em casa. Mas esta situação é diferente. No ano passado, o empate na Luz serviu para garantir o título; este ano, fruto dos pontos desperdiçados em Alvalade, o resultado permite ao FCP consolidar-se no primeiro lugar. E se os portistas cumprirem o esperado frente ao Tondela, o Sporting poderá ver-se numa situação desconfortável: antes de sequer chegar ao meio da temporada, deixará de depender apenas de si para alcançar o ambicionado tricampeonato.

E isto torna-se ainda mais frustrante quando se avalia o adversário do dérbi. O Benfica tem um plantel cheio de talento individual, é verdade, mas tem estado muito longe do que se espera de um candidato ao título. Essa discrepância entre o potencial e o rendimento encarnado torna ainda mais difícil de aceitar que o Sporting não tenha conseguido transformar o excelente início num triunfo que poderia ter alterado por completo a narrativa da Liga. Pior ainda, que não tenha sequer tentado.

Os próximos compromissos — incluindo a participação na final four da Taça da Liga — podem ajudar a perceber se estamos perante um problema conjuntural ou estrutural. Será que a equipa tem realmente capacidade para se impor contra rivais diretos nos momentos decisivos? a resposta é importante num ano que os jogos entre candidatos pode assumir uma importância determinante.  Veremos que respostas nos serão dadas nos próximos jogos. Muitas delas poderão determinar o rumo não só da presente temporada, mas do próprio legado do treinador no Sporting.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Sporting 5 - Alverca 1: Cinco estrelas para a coragem de Rui Borges


Na competição “maldita” — pela forma negligente como é tratada pelo promotor — o Sporting venceu com autoridade, sem necessidade de imprimir grande intensidade. A equipa leonina controlou o jogo do início ao fim, perante um adversário que pouco conseguiu contrariar. Rui Borges apostou na juventude e foi recompensado com uma exibição segura e cheia de personalidade.

A primeira referência individual de hoje tem de ir, por isso mesmo, para Rui Borges. Não me recordo de alguém, nas suas funções, assumir com tanta coragem uma mudança tão drástica que represente uma verdadeira aposta na formação. E se há competição onde se pode — e deve — fazê-lo, é precisamente a Taça da Liga. A sua decisão de lançar vários jovens da formação — incluindo Salvador Blopa, Geovany Quenda e outros da equipa B — foi mais do que uma rotação de plantel: foi uma declaração de princípios. E a Taça da Liga, tantas vezes tratada como um parente pobre do calendário, revelou-se o cenário ideal para essa revolução tranquila.


Claro que, a esta hora, os holofotes estão centrados em Salvador Blopa, um miúdo de 18 anos que, até agora, era mais conhecido pela sua estatura e movimentação algo desengonçada. O seu bis é importante para ele, mas ultrapassa em muito o âmbito pessoal. É um sinal claro da atenção que começa a ser depositada numa geração que está a realizar um campeonato extraordinário na II Liga — algo que ninguém previa, atendendo à média de idades e à correspondente ausência de experiência generalizada.

Mas quem me encheu as medidas foi precisamente Fotis Ioannidis. E isto é dito mesmo sem contar com o magnífico golo apontado com o seu pé menos dotado — certamente um golo de raiva, por ver aproximar-se o final do jogo sem conseguir obter um muito merecido tento. O Sporting perdeu o seu melhor avançado em muitas décadas, mas parece ter trocado por talvez a melhor dupla também em muitos anos. Fotis demonstra ter quase tudo o que é necessário para a posição e, mesmo sem ser tão explosivo e potente como o sueco, oferece-se muito bem aos colegas para explorar a profundidade. Um extra sobre Suárez, com quem parece certo que irá disputar a titularidade — e os gostos dos adeptos.

Quanto ao jogo propriamente dito, foi muito interessante observar a forma como Rui Borges colocou os laterais em posições interiores e os extremos a dar largura total, abrindo uma frente de ataque ampla que, por vezes, contou com cinco ou seis elementos. Como quem dança sem pressa, o Sporting deslizou pelo relvado com serenidade e domínio absoluto. Não foi preciso correr — apenas saber jogar. Rui Borges, com olhar atento e confiança nos mais novos, viu os seus pupilos responderem com maturidade e brilho.

Segue-se agora um interessante tira-teimas com o FC Porto. Não fiquei nada convencido com o resultado registado para a Liga e, sendo verdade que esse desfecho já não pode ser revertido, será importante verificar se se justifica a crença instituída entre os comentadores de que são a melhor equipa cá do burgo.

Nota Playmaker: Desde que há Campeonato Nacional de Juniores, 1938/39, nunca um jogador da formação do Sporting tinha bisado na estreia. Blopa sucedeu a Peyroteo, como o mais jovem de sempre a bisar na estreia pelo Sporting: 

1937/38 Peyroteo vs Casa Pia (19A, 7M)   

2025/26 Blopa vs FC Alverca (18A, 5M) 

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Sporting 1- Braga 1: Desperdício de pontos e oportunidade


Não foi bonito de se ver o jogo que o Sporting fez na recepção a Braga e pior ainda foi o resultado, se atendermos à perda dos dois pontos, acrescidos do desperdício de oportunidade de ganhar pontos aos seus rivais. Olhando para o que já havia sucedido ante o Estoril, a equipa deixou ficar sinais muito preocupantes.

A atenção mediática está neste momento na forma penosa com que lidamos com as dificuldades que as equipas melhor apetrechadas em qualidade individual e técnico-tática nos impõem. O treinador está pois na linha de mira e justificadamente, por mais que queira desvalorizar o momento. Mais ainda quando o faz de forma completamente desmoralizadora e desmobilizadora, quando afirma que até pode ser campeão mesmo perdendo os jogos chamados grandes.

O Sporting voltou a evidenciar dificuldades perante uma equipa com capacidade para construir com critério e pressionar de forma eficaz a sua saída de bola, sem se vislumbrar grande rasgo ou iniciativa para mudar o estado de coisas. Com os caminhos fechados ao centro, o Sporting ao invés de procurar a largura para obrigar o adversário a abrir espaços, abusa dos pontapés para a frente, normalmente mal direcionados e precipitados, facilitando a tarefa defensiva dos arsenalistas.

Quando obrigado a defender não conseguiu durante todo o jogo a melhor forma de pressionar os adversários, falhando com marcações individuais nada criteriosas ou consequentes. A qualidade da reacção à perda diminui assim de forma drástica. Isso fez com que a equipa fosse ficando muitas vezes desorganizada, não conseguindo assim contrariar as constantes mudanças promovidas pelas rápidas trocas de bola entre os  jogadores adversários. É verdade que estes poucas vezes conseguiram chegar à baliza de Rui Silva, mas o muito tempo que lhes era permitido ter a bola deu-lhes confiança e conforto e o sentimento inverso à nossa equipa e aos adeptos.

Embora tenha resultado de um erro inadmissível de Hjulmand (o jogador a quem puxa a camisola nem conseguiria disputar a bola) ninguém ficou propriamente surpreendido com o empate, houve noventa minutos para, com o que era dado observar, nos prepararmos para essa eventualidade.

As alterações promovidas pelo treinador não lograram grande mudança, com excepção da maior acutilâncias emprestada ao lado esquerdo por Alisson, que vem justificando a aposta. Ioniadis continuaria tão isolado e perdido da equipa como já havia sucedido a Suarez. Por compreender fica a ausência de João Simões que, pelas suas características, justificava pelo menos estar entre os convocados para o jogo. 

O resultado, sendo um desperdício de pontos e oportunidade de abreviar ou expandir distâncias para os rivais, acaba por ter de ser considerado justo. Por tudo o que se passou, estes pontos ficam na coluna do deve do treinador.

Uma nota final para os equipamentos apresentados pelo Sporting. Há muitas formas de lutar por uma boa causa sem que com isso se tenha de prescindir de toda a identidade de um clube. Para ser simpático, este equipamento é medonho. 

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