Na mensagem de Natal que deixei a todos os leitores do blogue terminei com uma das certezas mais intrigantes da minha vida: na hora de escolher um clube só me imagino Sportinguista. Intrigante por uma série de razões, que, dado o seu cariz pessoal, me tenho abstido de colocar em forma de post, embora ele esteja há muito escrito na minha cabeça e até no coração. De uma forma resumida posso afirmar que ter-me tornado Sportinguista nunca teve a ver com números de vitórias, de adeptos, por herança familiar ou por identificação regional. Ser do Sporting é mais do que tudo isso, é uma forma de estar, mesmo que nos seus piores momentos nos pareça uma noção perdida ou em vias disso. Por isso é que sustento que quem é do Sporting não podia ser outra coisa e me parece que ser de outro clube qualquer é mesmo isso: ser de outro clube qualquer, tenha muitos ou poucos adeptos, muitos ou poucos troféus, ganhe muito ou pouco.
A primeira vez que aqui falei sobre este tema foi por ocasião de uma entrevista dada pelo embaixador inglês Alexander Ellis, onde eles nos contava como se tornou Sportinguista. Alexander Ellis está de partida de Portugal e tornar-se-à em breve num dos muitos Sportinguistas espalhados pelo Mundo. Na sua crónica no "Expresso",
"um bife mal passado" deixou aos portugueses um "pedido" de 10 coisas que nunca deveriam mudar no nosso País, cuja leitura recomendo. Tenho pena que a palavra Sporting não tenha sido mencionada, como fazia em muitas das suas conferências por esse País fora, como várias vezes testemunhou o Bruno Martins, editor "desta casa". Mas julgo não me enganar que voltaremos a ver Richard Ellis na tribuna ou na bancada de Alvalade, quem sabe para festejar mais um título nacional. See you soon Mr. Richard Ellis!
Esta é a entrevista da Bola a que fiz referência e que
aqui publicamos em devido tempo:
Quem é do Sporting ponha o braço no ar. Sabe a data de inauguração do antigo Estádio de Alvalade? Se desconhece baixe o braço. Sugestão ridícula seguramente nem o levantou. Mas respondeu? A BOLA apresenta-lhe um adepto Sportinguista que tem essa resposta na ponta da língua. Essa e muitas mais. Venha daí conhecê-lo. Alexander Ellis podia ser um leão como tantos outros. Mas não se encontrarão assim tantos admiradores britânicos do Sporting que saibam tanto e tenham tão fortes recordações sobre os leões, a sua história, os jogos mais importantes, as suas figuras mais ilustres. E, já agora, que tenham carreira diplomática. Foi um bicho que me mordeu, justifica o embaixador, assim mesmo, num português perfeito.
Memórias de infância
Aiexander Ellis nasceu em Londres, perto de um grande templo do futebol mundial - Wembley - e a poucos quilómetros do Estádio de Highbury, palco antigo do Arsenal, transformado num condomínio de luxo. - Alexander Ellis é do Arsenal. Talvez por influência ou tradição familiar. O meu pai é do Arsenal e a minha tia é sócia vitalícia, conta, no hall VIP do Estádio de Alvalade.
Portugal e o Sporting
Gentil, cordial, elegante, sincero, combina os gestos extrovertidos com a gravidade diplomata enquanto nos conduz pelo percurso da sua vida, que o trouxe a Portugal em 1992. «Cheguei num fim-de-semana e não conhecia ninguém. Já percebia um pouco de português li num jornal que o Bobby Robson era O treinador do Sporting e que havia jogo. Fui ver e interessei-me pelo clube», recorda. Foi uma experiência incrível ver um jogo ao final da tarde, com o sol a bater no estádio e a beber cerveja. A sua professora de português encarregou-se de alimentar o interesse. «É uma Sportinguista profunda», esclarece. Depois, o «bicho mordeu» e ficou mesmo Sportinguista. Alexander Ellis evoca com admiração jogadores da época pré-Bosman., como Valckx, Balakov, Figo, Nélson, todos de «grande nível. O seu assistente da secção Política de Imprensa, Pedro Silva, pergunta: «E o Paulo Sousa?» O embaixador eleva os braços e responde: «ui, o Paulo Sousa, lembro-me muito bem (desse Verão quente). E ainda chegou a .Falar-se que o João Pinto também podia trocar o Benfica pelo Sporting. Como já se percebeu, o embaixador britânico ficou a saber muito bem quem era o tradutor de Robson no Sporking. Nem era preciso perguntar. «Mourinho, claro».
ROBSON e o 6-3
Como todos os britânicos, Alexander Ellis nutre especial por Bobby Robson. Imita o sotaque português do antigo treinador do Sporting e F.C. Porto. «João Pinto, graande jogador, graande jogador. Ainda não se conformou com a saída de Robson do Sporting. "Lembro-me bem do despedimento de Robson, depois de termos sido eliminados pelo Casino Salzburgo. Sofremos o 3ºgolo nos descontos (o Sporting tinha vencido2-0 em Lisboa, e perdeu 3-0 na Áustria, com o último golo aos 112minutos). Foi o desespero total, quase chorei.»
Mais tarde, já Robson era treinador do FC Porto, escreveu-lhe uma carta, convidando-o a vir a Lisboa para assistir a um jogo que Alexande Ellis e os amigos organizavam regularmente com a Casa do Gaiato. «Assim que recebeu a carta, telefonou-me logo. Pediu muita desculpa, porque não era possível vir a Lisboa. Era muito simpático. Tive pena por ter deixado o Sporting. Ele dizia: estávamos no piimeiro lugar, estávamos no primeiro lugar. Impressionante. Nunca tinha sido tratado assim. Em Inglaterra, a imprensa, por vezes, era dura com ele, mas nunca tinha sido despedido.» O embaixador entusiasma-se a falar de futebol. Corrija-se, dos Sporting.O pensamento segue veloz, sem rumo, e leva-o à derrota dos leões como Benfica, por 6-3. Começa por dizer que estava no estúdio, mas emenda, viu o jogo na TV em casa de um amigo, perto do estádio, num final de tarde e princípio de noite em que «chovia a potes». «Que frustração», desabafa. Mas o pior foi no dia seguinte. Provou do gozo adversário. «Entrei no carro, seriam umas sete e meia da manhã e recordo-me do locutor:Está triste? Tem problemas? Então ligue o 0800 63 63 63. Nunca mais esqueci.»
Como não esqueceu, anos mais tarde, o encontro improvável com Peter Schmeichel, quando estava de férias. Foi num supermercado em Cascais que deu de caras com o gigante dinamarquês, que acabara de chegar de Manchester. «VI um tipo enorme [abre os braços], a comprar o leite e o pão. Não era só alto, era mesmo enorme. Era o Schmeichel e percebi, nessa altura, que tínhamos hipóteses de sermos campeões» E foram mesmo. Alexander Ellis não estava em Portugal, mas acompanhou tudo à distância, em Bruxelas. Vi o jogo com o Salgueiros na televisão, com o meu bebé ao colo e um cachecol. Foi um dia glorioso, atira, com orgulho. Sempre que pode, Alexander Ellis vai ao estádio. Protegido pelo anonimato do público está mais à vontade para expressar os sentimentos. Quem sabe para dizer uns palavrões, não conseguimos confirmar. Alguns adjectivos, pouco recomendáveis, aprendeu-os «no futebol e no autocarro entre o Porto e Matosinhos a caminho da escola». Dos grandes jogos em Alvalade, escolhe o particular com o Manchester United, no dia da inauguração do novo estádio, quando Gary Neville passou um mau bocado com Cristiano Ronaldo. Na final da TaçaUEFA, contra CSKA, em 2005, estava acompanhado do sogro e lamenta a derrota por 3-2. «Foi uma pena. O golo do Rogério foi muito bom e ele esteve quase a marcar outro. Mas o CSKA tinha uma grande equipa, Daniel Carvalho e Wagner Love eram muito bons, resume.
A conversa com A BOLA, em tom informal, acaba pouco depois. Mário Casquilho, director do Museu do Sporting, e António Sousa Duarte, director de comunicação dos leões, chegam ao Hail VIP e conduzem o adepto especial numa viagem ao passado do Sporting, pelo Museu do clube. A reprodução da sala de reuniões da administração, de 1947 a 2002, logo a entrada, proporciona uma oportunidade para o embaixador fazer uso de finíssimo humor. «Foi aqui que despediram Robson?» O embaixador ficou a saber que o Sporting teve um fundador inglês (John H. Scarleti) e surpreendeu-se ainda mais quando viu que se jogou cricket no clube. O impressionante número de atletas olímpicos dos leões despertou a atenção do embaixador, quase tanto como a Taça das Taças, os Cinco Violinos ou Vítor Damas. «O museu mostra a grandeza de um clube que não é só futebol. É notável» observa, ainda antes de passar numa área em que é simulada a entrada no relvado, ao lado dos jogadores. «Olha o Paulo Bento», diz, com surpresa, quando surge a imagem do ex-treinador do Sporting. Finda a visita, José Eduardo Bettencourt esperava o embaixador. Recebeu-o em privado e ofereceu-lhe uma lembrança. O diplomata regressou à embaixada antes da hora de almoço. Ainda mais Sportinguista, arriscamos sem medo. Alexander Ellis é dos mais «ferrenhos», como ele próprio reconhece. Por exemplo, reagiu em menos de um segundo quando viu uma fotografia da inauguração do antigo estádio de Alvalade. « Foi em 1956». Está certo. Sabia?