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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Um Sporting maduro e uma geração que pede passagem


Há jogos que, mais do que pelos golos ou pela estatística, valem pelo que revelam sobre o estado de uma equipa. A vitória do Sporting frente ao Marinhense enquadra-se exatamente nessa categoria: um teste controlado, quase académico, mas cheio de sinais que confirmam o momento sólido que o clube vive — e a profundidade crescente de um plantel que, esta época, parece finalmente preparado para resistir a tempestades.

Rui Borges voltou a apresentar o seu já identificado 3+2 na construção, com Vagiannidis recuado para completar a linha de três e garantir superioridade na fase inicial do jogo. Não era preciso muito para perceber que o plano estava bem oleado: Mangas e Blopa abriram o campo até ao limite e, repetidamente, o Sporting atraiu por um lado para procurar o lado oposto. 

Mas o que verdadeiramente marca este jogo não é a tática, mas sim a coragem de mexer. Rui Borges não fez uma revolução completa, mas arriscou o suficiente para percebermos que, hoje, o Sporting tem estofo para navegar por entre lesões, desgaste ou calendários densos. A diferença para a época passada é gritante: o banco já não é um lugar vazio de soluções, mas sim um viveiro de alternativas reais.

Muito desse salto qualitativo explica-se por Alcochete. A equipa B, rejuvenescida mas mais madura, está a competir num ambiente mais duro e exigente — a Segunda Liga — e isso nota-se na forma como os jovens sobem ao palco principal. Não chegam tímidos, chegam preparados. E isso, para um clube que vive tanto da formação, é ouro.

Rodrigo Ribeiro é o exemplo perfeito da importância da paciência. Aos 20 anos, carrega nas pernas mais histórias do que pode parecer a alguém com tão tenra idade. Os empréstimos falhados a Inglaterra e Aves atrasaram-lhe a afirmação, mas o talento parece intacto. Hoje está mais solto, mais leve, mais sénior. Não se sabe ainda a posição onde mais renderá — referência, segundo avançado, — mas percebe-se claramente que voltou a acreditar no seu próprio jogo. E quando um talento acredita, o resto vem por arrasto.

Já Salvador Blopa parece ter acelerado etapas. Tem um perfil fisico diferenciado do que se espera de um extremo e uma forma também diferente de interpretar o jogo. Flávio Gonçalves, por seu lado, foi lançado num jogo já mais morno e por isso não pôde mostrar cabalmente do que é capaz. Alguma cautela nas comparações com Pedro Gonçalves não fariam mal, mas parece ter talento para se poder contar com ele no futuro.

No fundo, o jogo foi sempre do Sporting. Foi resolvido cedo e gerido com serenidade, sem perder foco nem qualidade. E isso, mais do que qualquer goleada, é o sinal de uma equipa adulta: faz o que tem de fazer, sem barulho nem hesitações.

Noite perfeita para testar, rodar, crescer e confirmar que Alcochete continua a ser o motor silencioso que prepara o futuro de Alvalade.

Agora, fecha-se o capítulo da Taça. A Champions espera — e este Sporting, tão profundo como maduro, parece preparado para a chamada.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

A homenagem que Aurélio Pereira merece

Aurélio Pereira vai hoje a enterrar e a melhor forma de o homenagear é manter vivo o seu legado. Com ele o Sporting não deu apenas ao futebol nacional e mundial, Futre, Figo, Quaresma, Nani e o universal Cristiano Ronaldo. Graças a ele também - e ao Sporting que acolheu as suas ideias - o futebol nacional construiu as bases da equipa que se tornaria campeã europeia. Mas, talvez menos notório, mas igualmente importante, é o processo de construção de atletas que, ainda que desprovidos da genialidade dos exemplos acima citados, resulta na criação de uma legião de futebolistas que são também embaixadores do nome do Sporting como um dos melhores clubes a formar jogadores de futebol.
 
Ao contrário do que já ouvi dizer, e que até já corre petição pública, não faz qualquer sentido substituir por Aurélio Pereira o nome da Academia Cristiano Ronaldo. Além de ser um acto hostil ao expoente máximo do trabalho do próprio Aurélio Pereira, tal deitaria por terra o objectivo que presidiu à iniciativa: colocar no mapa do futebol internacional o trabalho de ourivesaria que o Sporting realiza diariamente em Alcochete. Dar visibilidade ao seu trabalho de décadas, usando como veículo a exposição mediática que o nome de Cristiano confere, é também uma forma de o homenagear e eternizar o nome de Aurélio Pereira. Estou certo que o próprio seria o primeiro a perceber e a defender a manutenção do nome de Cristiano Ronaldo na Academia em Alcochete.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Sporting 2 - Mafra 0 - Memorial do Jardim de Infância


Se Saramago fosse vivo e gostasse de futebol provavelmente já se teria sido tentado a escrever um memorial do nosso jardim-de-infância, tendo como personagens centrais esta miudagem cheia de personalidade que ontem foi chamada à titularidade para defrontar a equipa representativa da cidade cujo monumento está na base da sua obra-prima.

Quando olhei para a equipa inicial rapidamente me lembrei do sucedido o ano passado na precoce eliminação da Taça de Portugal. Então, Silas a acabar de chegar correu um risco em tudo semelhante ao de Rúben Amorim ontem, ao colocar em campo uma espécie de equipa B. As diferenças de então para hoje são abissais. Não é apenas o bom momento da equipa, até porque esse vem de um onze titular que ontem não estava lá. Vem da matéria prima: um treinador com ideias seguras, com o plantel na palma da mão e um naipe de miúdos cheio de talento e não menos personalidade. 

Não de depreenda que foi fácil, porque não foi. A primeira parte foi um excelente exemplo em como é difícil fazer jogar uma equipa junta pela primeira vez, quaisquer que sejam as indicações dadas no treino. A equipa de Mafra foi um excelente adversário para este teste, obviamente, porque sendo uma equipa muito bem orientada, o suficiente para criar dificuldades mas  não possui argumentos individuais para impor a sua autoridade. Assim, com paciência, nem sempre bem, nem sempre com eficácia, mas sempre sem tremer. O suficiente para atingir o objectivo proposto: a Final Four da Taça da Liga.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Ele diverte-se, nós divertimo-nos e eles divertem-se.

Não sei, na verdade ninguém sabe, se a proposta de jogo de Marcel Keizer vai acabar traduzida em títulos. Mas já se pode afirmar com segurança que ela incorpora muito daquilo que a nós, adeptos, agrada: qualidade futebolística, futebol de ataque que assume claramente a vontade de ganhar, sem se esconder. Com isso os melhores jogadores voltaram a parecer bons e até a formação foi resgatada do limbo para onde foi atirada na era D.C. Depois de Jesus, bem entendido, porque os cristos fomos nós.

A base para o sucesso está lançada, mesmo carecendo de afinações e de provas mais complicadas, como serão as que se seguirão em breve, não apenas com os rivais directos mas com a próxima eliminatória  . Afinal estamos a falar de um treinador que ainda não deve ter tido tempo para pousar as malas e arranjar casa. Ter conseguido o que conseguiu até agora, com tão pouco tempo decorrido, diz muito da qualidade do seu trabalho.

A equipa do Sporting tem agora uma ideia de jogo, sob a qual os jogadores operam de forma colectiva, deixando a equipa deixe de estar tão dependente da inspiração e rasgo dos seus melhores. Mas são os melhores que fazem a diferença, passe a "la paliçada". Esses, como o são Nani, Bruno Fernandes, Bas Dost, são agora tão bons como o melhor que já sabíamos deles. E as expectativas para o regresso de Raphinha são por isso ainda maiores do que já eram, depois de o termos visto jogar, ainda que numa equipa frágil e incipiente.Quanto valerá o jovem brasileiro numa equipa personalizada, que sabe o que quer, que gere bem os tempos e que descobre sempre o caminho para o próximo passe até descobrir a baliza?

Nesse entretanto teve já o tempo para olhar para o que tinha à sua disposição no viveiro de Alcochete. E se é disso que os miúdos mais precisam - que alguém tenha de tempo de olhar para eles - ele teve também a coragem de lhes dar um outro tempo que é essencial: o tempo de jogo ao mais alto nível. Tempo de qualidade num momento certo, pela sua baixa complexidade: estava em jogo o prestigio mas já não a necessidade do resultado.

Para quem não percebe o "aperto" que se vive nestes momentos no intimo dos jogadores, é preciso estar atento às declarações dos miúdos:

Estava um bocado ansioso, mas é muito importante jogar aqui (Thierry Correia)
Terminamos com seis jogadores em campo oriundos da formação e desses vamos ter que nos habituar a ouvir os nomes de Miguel Luís, Pedro Marques, Bruno Paz e do já citado Thierry Correia e a quem talvez se venha a juntar em breve Daniel Bragança. Jovane Cabral e Mané são nomes já sabemos de cor.

A forma como Keizer descomplica chega a ser desconcertante para os atónitos jornalistas nas conferências de imprensa:

"Se marcarmos mais, não é problema. Para mim, o futebol é marcar golos. Prefiro ganhar por 3-2 do que por 1-0. Pode haver quem tenha uma opinião diferente"

"Sofrer não é um problema quando se marca muitos golos. Ganhar é a coisa mais importante. Se me perguntarem, prefiro ganhar 3-2 do que 1-0. Queremos atacar e fizemos isso hoje."
No fundo a receita até não é assim tão nova. Keizer devolveu a confiança e alegria aos jogadores devolvendo-lhes a bola. Com ela a andar de pé para pé a equipa sente-se confortável e joga com o espírito de quem se diverte. Ele diverte-se, nós divertimo-nos e eles divertem-se.

Muita pena pela entrada assassina que lesiona Montero, que estava a ter um regresso em cheio.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

"Porque secou a torneira de Alcochete"

Partilho hoje a reportagem do dia do jornal "A Bola" sobre o há muito debatido declínio da nossa  formação. Faço-o não por me rever inteiramente no artigo, mas servido-me dele como ponto de reflexão. A torneira de Alcochete certamente que não secou, mas que o fluxo é bem menor é uma evidência. Há várias razões que explicam esse declínio e o pior que se pode fazer é continuar o estado de negação em que se mergulhou nos últimos anos e que contribuíu para o estado em que nos encontramos.

Quando me refiro aos últimos anos refiro-me muito em particular aos últimos cinco, especialmente pela ausência de debate sobre esta e outras matérias, uma vez que a ideia de debate era imediatamente relacionada com a de heresia e contestação injusta à liderança iluminada e acima de qualquer contestação. Deu no que deu. Mas obviamente que para o actual estado da nossa formação concorreram lideranças anteriores e especialmente a degradação de poder que se instalou há muitos anos, especialmente a partir do mandato de Eduardo Bettencourt. 

Sem soberba e com realismo, há também que admitir que os nossos rivais directos e demais concorrentes diminuíram as distâncias que nos separavam, por dedicarem hoje mais tempo e mais recursos físicos, humanos e financeiros aos seus departamentos. E isso se deve também ao reconhecimento do sucesso do nosso modelo, que lhes serviu de mote e que foram aperfeiçoando. 

Hoje o Sporting não tem equipa B. A equipa sub-23 vive em dificuldade expressa em resultados e exibições. Os nomes dos nossos jogadores mais jovens quase desapareceram das convocatórias das selecções e quase nenhum de nós lhes sabe os nomes. E se tal ausência se pode dever ao menor poder de influência da nossa parte - o que também não abona em nosso favor... - é indiscutível que o valor disponível baixou drasticamente. Ambas concorrem contra nós, porque era impossível há anos atrás ver nomes como Patricio, Cédric, Carriço, Carlos Martins, Moutinho, Veloso, Bruma e muitos outros afastados de uma convocatória das selecções mais jovens. 

Há vários problemas a resolver e, como vários outros que se foram instalando no clube, de forma gradual mas inexorável como a ferrugem, não se resolverão com um simples estalar de dedos. No caso da formação seguramente que precisará de muitos anos. E esses serão tantos ou tão poucos como venham a ser tomadas as medidas certas. Mas serão as pessoas que venham a ser chamadas a assumir responsabilidades no futuro que se pretende de retoma a ditar a diferença. 

O Sporting não tinha condições físicas de treino modelares quando, ainda no centro de estágio, debaixo da antiga bancada nova lançou para o mundo dois dos ícones da sua formação e do futebol mundial, como foram Luís Figo e ainda hoje é Ronaldo. Foram as pessoas de então, pelas suas qualidades humanas e profissionais que, instituindo as melhores práticas e suscitando a confiança de centenas de famílias ao ponto de lhes confiaram o melhor de si - os seus filhos - à sua guarda. Terá de ser por aí que iniciaremos o regresso a uma escola modelar em que o mundo punha os olhos.






sexta-feira, 16 de março de 2018

O fim anunciado de um projecto de sucesso: a equipa B do Sporting

Não se pode dizer que não tenha havido pré-aviso, uma vez que desde rumores até algumas declarações a indiciar a decisão, mas não deixa de ser surpreendente a decisão já anunciada oficialmente - André Geraldes assumiu-o recentemente - que o Sporting iria acabar com a sua equipa B para se inscrever num campeonato de sub-23, a iniciar já na próxima época.

Uma decisão surpreendente se tivermos em conta a importância que teve até agora para o clube a criação daquela estrutura e dos resultados obtidos. Num breve relance pelos nomes que passaram pelos diversos plantéis que constituíram a equipa B encontramos uma pléiade de nomes que vão desde promessas a desilusões mas que, feitas as contas do deve e haver, se revelou altamente compensatório, quer em resultados desportivos, quer em proveitos financeiros.
Vitor Golas, Edilino Ié, Santiago Arias, Cédric Soares, Tiago Ilori, Rúben Semedo, Pedro Mendes, Mauro Riquicho, Mica Pinto, Tobias Figueiredo, André Martins, Filipe Chaby, Eric Dier, Ricardo Esgaio, Podence, Bruma, Iuri Medeiros, Carlos Mané, Francisco Geraldes, Farley Rosa, Nii Plange, Diego Rubio, Valentin Viola, Cristian Ponde, Nuno Reis, Wallyson Malmann, Palhinha, João Mário, Ousmane Dramé, Ryan Gauld, André Geraldes, Gelson Martins, Hadi Sacko, Matheus Pereira, Rafael Leão.
A criação de uma equipa B era um passo considerado fundamental num clube que "aposta na formação". Este novo escalão afigurava-se fundamental como tempo de estágio que não interrompesse abruptamente o crescimento dos jogadores logo após o final do período de formação e os lançasse às feras logo após os júniores. Um pouco como acontece quando um aluno termina a sua formação superior e só poucos estão efectivamente preparados para entrar no mercado de trabalho. Por essa razão entendemos que a equipa B devia ser ainda considerado como um escalão de formação. Como o terá obrigatoriamente que ser a equipa sub-23.

A decisão é ainda mais surpreendente se tivermos em linha de conta que ela foi anunciada ainda sem se saber qual o modelo competitivo da futura liga sub-23 e, pior, sem ser ainda claro o que pretenderiam fazer os principais clubes como os rivais FC Porto, SL Benfica - principalmente - mas também SC Braga, Vitórias de Setúbal e Guimarães e pouco mais. 

E pouco mais porquê?

Por uma razão muito simples: a da competitividade. Basta olhar para o que é a miséria competitiva nos escalões de formação, onde raramente um clube fora dos chamados "3 grandes" consegue interromper a hegemonia em títulos, em número de jogadores seleccionáveis ou apetecíveis para o mercado. A criação de um campeonato sub-23 tem tudo para significar o prolongamento da redoma em que vivem os jogadores nos seus clubes até ao choque frontal com a difícil realidade. Era esse estágio que a equipa B lhes oferecia e que agora se esfuma: competição  com jogadores de todas as idades, índices físicos e níveis de experiência.

Não é também por acaso que vários clubes primodivisionários não conseguem aguentar as suas equipas B na II Liga. A competição é fisicamente dura e obriga a um nível de planeamento aturado. A subida pura e simples de escalão júnior para sénior dos seus jogadores não é suficiente para dotar os plantéis de níveis mínimos que lhes permitam a manutenção. É necessário antecipar os ciclos e perceber quando é necessário recompor os plantéis, o que nem sempre é exequível financeiramente. Pelo que têm sido as últimas duas épocas é também um pouco isto que parece estar a faltar ao Sporting e que vem como produto do insucesso no recrutamento de elementos sem qualquer valor para se poderem considerar alternativas ao que o Sporting era já capaz de produzir. Tão nefasto como as megalomanias que haviam dado origem às aquisições pouco criteriosas de Gael Etock ou Diego Rúbio:

Ousmane Dramé, Everton Tiziu, Samba, Lewis Enoh, Matías Pérez, Hugo Sousa, Diogo Sousa, Mama Baldé, Tiago Palancha, Paulo Lima, Al Hassan Lamin, André Serra Jorge Silva, Hadi Sacko  Aya Diouf, Paulo Borges, Zhang Lingfeng, David Tavares, Rúben Varela, Luís Elói, Gil Santos,  Bernardo Moura, Rafa Benevides, Olávio Gomes, Diogo Barbosa, José Correia, Abou Touré, Abdoulaye Dialló, Ever Peralta, Bruno Pais, Khadime Ndiaye, Bruno Wilson, Jorge Santos, Sérgio Santos, Muhamed Djamanca, Luis Caicedo, Murilo de Souza, João Coelho, Gabriel Pajé, Francisco Sousa, Zé Pedro Oliveira, Sérgio Félix, Tomás Rukas, Betinho, Neymar Canhembe.

A evolução e consequente afirmação de um jogador não é um processo mecânico nem linear, depende sempre do universo muito exclusivo e particular que é um individuo e as suas circunstâncias. A existência de um novo patamar até aos sub-23 prolonga a permanência numa redoma que oferecerá aos jogadores a possibilidade de continuar a evoluir em condições técnicas e beneficiar de infraestruturas altamente vantajosas que não serão facilmente igualáveis noutras paragens. Por isso este modelo irá beneficiar em primeiro lugar os menos aptos num determinado momento, retirando daí também proveitos o próprio clube. Mas poderá prolongar os problemas de inserção e adptação aos que estão em estádios mais avançados e a precisar de desafios mais exigentes. É certo que alguns, os predestinados, continuarão a conseguir furar o bloqueio, havendo ou não equipa B ou sub-23, sempre assim foi e assim continuará a ser. A uns e a outros que venham a ser integrados neste novo projecto tenderá a protelar a entrada na realidade para a qual querem estar preparados o mais depressa possível.

E - a questão é obrigatória - será que as duas equipas poderiam coexistir? 

Este é um cenário que parece estar a ser equacionado por alguns clubes, entre os quais o FC Porto e SL Benfica. É aquele que mais sentido faz para quem quer apostar efectivamente na formação. Mas, por exclusão de partes, e porque a existência de ambas se pode tornar muito onerosa, é a equipa B e o contexto onde está inserida actualmente aquela que parece oferecer o melhor cenário aos propósitos que a sua criação pretende significar. Na questão do custos ficam por avaliar valores intangíveis como o que se ganha e perde cada vez que um jogador dos nossos quadros se perder, se atrasar ou voar para outras paragens.

Nesta análise não podia obviamente também faltar a questão politica. A criação do campeonato sub-23 parece ser a resposta à pressão que alguns clubes da II Liga relativamente às verbas a distribuir, parecendo, aos clubes que agora se parecem retirar, que aqueles estão a com mais apetite do que a comida que conseguem reunir. Veremos o que o futuro dirá, até porque na maior parte dos casos os resultados / consequências não são imediatos. Esses pareciam ser já bem visíveis após quase uma década de equipas B, não só ao nível da sustentabilidade dos clubes, pelo que os jogadores oriundos da equipa B representaram em rendimento desportivo e económico-financeiro. Mas mas também nos melhores recursos das selecções mais jovens do futebol sénior. Neste momento, e deste ponto de observação, este salto da B para um plano C é claramente um salto no escuro. Veremos onde é que os pés vão encontrar o chão.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Para afixar nos balneários em Alcochete

Por vezes não se consegue perceber o que leva um jogador talentoso e cheio de potencial acabar por se perder na imensidão de grandes jogadores que nunca o chegaram a ser. Muitas vezes nem sequer conseguem ser profissionais de futebol. 

O miúdo da foto acima (de 2014) é o miúdo das fotos actuais e, numa magnifica entrevista ao The Player's Tribune, onde cheguei através do site Trivela, ajuda a explicar como é que se escolhe o caminho, como se pode estabelecer a diferença. E ainda assim deixa ficar subentendido que a ideia que se chega lá cima facilmente só acontece nos filmes e nos romances.~

Um belo pedaço de prosa que devia ser lido por todos os craques em potencial e, não menos importante, pelos pais e educadores, por vezes tão ou mais sonhadores e ambiciosos que os futuros craques.

Sempre que eu marco um gol pelo Manchester City, minha mãe liga para mim. Assim que a bola balança no fundo da rede, o telefone toca.

Não importa se ela está em casa, no Brasil ou no estádio me assistindo jogar. Ela me liga todas as vezes. Então, eu corro até a bandeirinha do escanteio, coloco a mão no meu ouvido e digo: “Alô, Mãe”.

Quando eu cheguei no City, as pessoas acharam isso muito engraçado, e eles viviam me perguntando o que aquilo significava.

Tem uma resposta rápida: amo minha mãe e ela está sempre me ligando.

E tem uma resposta longa, que começa quando eu ainda era um menino com um sonho.

É claro que no Brasil existem milhões de meninos com um sonho. Mas eu tive sorte, porque no meio do caminho eu pude conhecer alguns super-heróis.

Não ria. É verdade. Eu vou provar para você.


Eu cresci num bairro chamado Jardim Peri, na Zona Norte de São Paulo, e para algumas pessoas que moram lá a vida é uma luta. Mas eu tive minha mãe. Que trabalhava muito duro e garantia sempre à nossa família comida na mesa. Mas para muitos garotos com os quais eu cresci era mais difícil. Às vezes, eles só tinham uma única refeição no dia, e essa era a que eles recebiam dentro do clube. Para ser sincero, muitos deles nem mesmo apareciam para jogar. Eles só vinham para se encontrar e comer de graça um sanduíche de mortadela com refrigerante. Era sempre pão com mortadela e uma lata de refrigerante.


Às vezes, era só refrigerante. E isso tinha que durar até o fim do dia.

Para mim, todos os meus sonhos, todas as coisas que eu tenho agora – tudo isso começa com o Pequeninos. Na verdade, é mais do que um clube de futebol. Não pense nas praias e todo esse tipo de coisa. Nosso campo era do lado de fora de uma prisão militar. No lugar onde era para ter o gramado, só havia sujeira e estava cercado por grandes pinheiros. As únicas pessoas que jogavam lá além das crianças eram os policiais dessa prisão.

Quando eu tinha nove anos de idade, eu apareci lá com meu amigo Fabinho, para ver se nós podíamos jogar pelo time. Nós andamos pela mata com as nossas chuteiras de futebol embaixo do braço. E foi então que nós conhecemos o cara que mudou nossas vidas – José Francisco Mamede, técnico do time mais novo. E ele disse pra gente “Com certeza, vocês podem jogar na próxima partida”.

Não tinha nenhum papel para assinar, nada. Porque este clube não era do tipo que tentava fazer crianças se transformarem em lucro – tem a ver com mostrar para essas crianças algo positivo, e dar a elas alguma coisa para comer e mantê-los longe das ruas. O Pequeninos não é um clube grande, então provavelmente você nunca ouviu a respeito. Mas eu tenho de dizer, eles fazem milagres por lá.

Era engraçado porque o técnico Mamede tinha um velho fusca branco – devia ser anos 70– e ele levava todos os garotos nele, e nós éramos tão pequeninhos que ele fazia caber 9 ou 10 dentro do carro, mais as chuteiras, as bolas, as cestas básicas e todo o resto.

Cara… o que esse clube faz por aqueles meninos, é incrível.

No Brasil, nós temos um nome para pessoas como Mamede: heróis desconhecidos.

E foi isso que ele representou para muitos garotos. Ele e outros técnicos… Eles  deram pra gente uma chance na vida.

Para mim, o amor pela bola era tudo. O treino pelo Pequeninos acontecia somente duas vezes por semana, então, se eu não estava lá, eu estava jogando nas ruas do Jardim Peri. Às vezes, eu ficava jogando bola com os meus amigos até meia noite – depois, nós ficávamos na rua falando sobre as meninas e tirando um com a cara do outro até as duas da manhã.

Em casa, não tinha muita coisa para fazer. Meu pai deixou a família logo depois que eu nasci, então minha mãe trabalhava todo o santo dia para sustentar a mim e a meus irmãos. Ela era faxineira na cidade, e quando ela voltava para casa no fim do dia, ela tinha que dividir a cama comigo e com um dos meus irmãos.

Alguns garotos têm videogame. Eu tinha a bola e a minha imaginação. E foi legal porque eu tive uma infância de verdade. Havia esses grandes torneios de futebol em que cada rua tinha um time, e o troféu era uma garrafa de refrigerante. Cara, era uma guerra por aquele refrigerante. É tudo o que você tem, sabe? Na real, aquilo era mais importante pra gente do que uma Copa Libertadores.

Se você ganhou o título, você passava a garrafa ao redor, e é diferente de tudo que você já provou antes. Todo mundo podia dar um gole e passar pra frente. O troféu de refrigerante é dez vezes melhor do que a champagne. Dez vezes melhor.

Quando eu tinha 13 anos de idade, aconteceu uma coisa que realmente me marcou. Nosso time, Pequeninos, entrou num campeonato importante em São Paulo, e, cara, nós éramos bons. Nos jogos das primeiras rodadas, nós vencemos clubes maiores por 12 ou 13 gols. Mas quando chegamos na final nós tínhamos pela frente a Portuguesa de Desportos, que é um clube profissional. A única razão pela qual os clubes grandes entravam no campeonato é que eles podiam selecionar os jogadores dos times menores. E, você sabe, é como nos filmes. Nós éramos o time pequeno que jogava do lado de fora da prisão, e eles eram do clube profissional com equipamento e todo o resto. Mas eu e meus amigos falamos assim: “Ah, a gente vai ganhar essa. Deixa com a gente.”

Então, veio uma tempestade. Na noite anterior ao jogo, choveu tão forte que quando amanheceu as pessoas estavam falando em talvez cancelar a partida final.

Na hora em que demos o pontapé inicial, o campo todo era uma lama só. Esse dia foi louco. Nós começávamos a correr e nós caíamos pelo campo. Ninguém no nosso time conseguia ficar em pé. Mas de alguma maneira os jogadores da Portuguesa estavam bem. Eles ficavam em pé.

Eles tinham chuteiras de trava de metal. Aquelas que você pode usar na chuva.

Nossas chuteiras eram aquelas das mais baratas, com travas de borracha. Elas estavam todas gastas. Nós não tínhamos dinheiro para comprar as chuteiras mais caras.

E eu me lembro, naquele momento, de pensar algo tipo “não é justo… mas a vida continua.”

Mesmo assim, nós demos a vida para vencer aquele jogo. Mas nós acabamos perdendo por 4-2. Eu nunca vou me esquecer de ver a Portuguesa comemorando com o troféu. Foi uma lição muito boa para mim. Futebol é como tudo na vida. Não é justo. Então, você tem que dar um jeito, mesmo não parecendo justo.

Foi uma lição perfeita, porque os próximos anos da minha vida seriam muito difíceis. No Brasil, se você tem sonho de se tornar um jogador profissional, você geralmente está na Academia de um grande clube aos 12 ou 13 anos. Mas, por alguma razão, as coisas não estavam funcionando para mim. Eu fiz um teste no São Paulo Futebol Clube, e eles gostaram de mim, mas então me disseram que não poderiam me oferecer um quarto na Academia, que era muito longe da minha casa. Se eu fosse de ônibus para lá todos os dias, eu teria que largar a escola e minha mãe… hahaha… certamente não aceitaria isso. Ela era totalmente a favor da escola.

Eu devo tudo para minha mãe principalmente nessa fase da minha vida. Porque muitos garotos no Brasil, quando são de origem mais humilde, têm de começar a trabalhar quando fazem 14 anos de idade para ajudar a família. Eles não podem jogar futebol, ir para a escola e trabalhar ao mesmo tempo. Então, o sonho deles morre nesse momento.

Mas minha mãe… cara, ela acreditou em mim. Seja qual for a razão, ela acreditou. Ela falou para eu continuar, não importando o que eu tivesse que fazer.

Então, aos 13 anos de idade, eu comecei a jogar com os caras mais velhos na várzea.

OK – todos em São Paulo sabem do que estou falando agora (e provavelmente já começaram a rir). Mas para todos aqueles que não sabem do que estou falando, vou explicar.

A várzea é como o basquete de rua nos Estados Unidos, ou como a Liga semiprofissional de futebol na Europa. Os campos são todos esburacados e você joga contra os marmanjos – os caras casca grossa. A várzea é conhecida por ser de extremo contato físico. Tinha muita coisa pesada acontecendo no campo.

Eu nunca vou me esquecer de um momento…

Nós estávamos jogando uma partida importante contra um time grande. Eles sempre tiveram uma das melhores equipes da várzea, mas eles estavam fora da Liga por alguns anos por causa de algo que fizeram depois de um jogo, e eu não quero entrar em detalhes porque provavelmente tem criança lendo isso aqui

“eu vou quebrar as tuas pernas se você tentar me driblar de novo”.

Então, esse era o primeiro ano deles de volta à Liga, e eles estavam jogando contra nós uma partida para classificar para um campeonato maior. Eu me lembro de todos os jogadores deles olhando para mim antes do jogo: “Quem é esse moleque? Isso é sério?”

E era sério!

Aos quatro minutos de jogo, eu driblei o melhor zagueiro do time deles e marquei um gol, e eu me lembro de todos eles olhando para mim, tipo “Ok, moleque, nós vamos fazer da sua vida um inferno”.

Foi a partir daí que eles começaram a me bater todas as vezes que eu tocava na bola. Eles ficaram muito loucos – como se eles tivessem vindo atrás de mim para me machucar. Tinha um baixinho no meio de campo deles que era conhecido por ser um valentão, e ele ficava me dizendo: “eu vou quebrar as tuas pernas se você tentar me driblar de novo”.

Então, eu peguei a bola… e o driblei novamente.

Foi um lance como na NBA. Quebrei a espinha dele. Deixei no chão.

Eles mais uma vez fixaram os olhos em mim como se fossem realmente me matar.

Mas… o que eu posso dizer? Quando eu tenho a bola aos meus pés, vivencio um mundo diferente. Então eu peguei a bola de novo e, sem olhar, dei um passe para um companheiro de time marcar um gol.

A torcida que acompanhava o jogo estava indo a loucura.

A partida terminou em 2-2, e nós vencemos nas cobranças de pênaltis. Eles ficaram revoltados. No apito final, o valentão virou pra mim e disse: “ Eu falei que ia quebrar as tuas pernas, moleque. Te espero no estacionamento”.

Ele estava sério. Foi tenso. Eu me lembro de pensar “já era… Eu posso não sair daqui.”

Mas, por sorte, meus colegas de time me protegeram. Todos eles ficaram em volta de mim e me levaram até o estacionamento, e só assim consegui chegar em casa em segurança.

Mas esse está longe de ser o fim da história. No Natal do ano passado, eu fui para casa para ver minha família, e tive de ir ao banco para resolver alguns problemas burocráticos. Fui pegar meu carro no estacionamento… e o cara que cuida dos tickets no guichê me deu aquela olhada, como se ele me conhecesse.

Ele devolveu o ticket.

Mas seguiu fixando o olhar em mim.

Então ele diz “Ei, garoto”.

Estou olhando para ele, tipo, Huh?

Ele diz: “Lembra de mim? Da várzea, mano! Eu ia quebrar as tuas pernas!”

E eu assim: Oh meu Deus. Eu não sabia o que ele ia fazer.

E então ele diz: “Cara, eu ia mesmo quebrar as suas pernas. Você acredita nisso?”

E eu tentando manter a tranquilidade, tipo: “Que isso, mano. Você não ia fazer isso, não. Eu sei que você só estava brincando”.

Mas ele segue afirmando: “Não, mano. Não. Eu ia mesmo quebrar as suas pernas. E agora você está jogando pelo meu time, cara! Eu te amo, mano! Eu não posso acreditar nisso. Você consegue imaginar se eu tivesse quebrado as tuas pernas?”

A gente riu, e eu tirei uma foto com ele.

Existe uma expressão no Brasil, e é a única forma de descrever o que aconteceu comigo. Minha vida mudou da água pro vinho. Cinco anos atrás, eu estava jogando na várzea, apenas tentando sobreviver, apenas tentando chegar num clube grande no Brasil. A várzea me deu uma boa perspectiva. Eu joguei com grandes jogadores que hoje são motoristas de ônibus, ou trabalham no supermercado, ou são pedreiros. E não foi porque eles não eram bons jogadores ou porque não se esforçavam. O que conta nessas horas é a sorte e a oportunidade. Algumas pessoas têm que ir atrás do seu sustento e não podem ficar correndo atrás dos seus sonhos.

Se eu não tivesse o apoio da minha mãe, eu provavelmente estaria no mesmo caminho desses outros jogadores da várzea.

Mas, em vez disso, eu tive a oportunidade de fazer um teste para o Palmeiras quando eu tinha 15 anos, e tudo decolou a partir dali. Acho que não consigo nem explicar. Foi como destino, de certa forma. Deus escreveu tudo perfeitamente.

Eu fiquei com o time júnior e assinei o meu primeiro contrato de verdade. De lá para cá, o tempo passou voando… Fui para o time principal, consegui me destacar e, para minha surpresa, cheguei até a Seleção Brasileira e pude participar dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Quando recebi a ligação, foi uma emoção inexplicável.

Para fazer você entender o que esse momento significou para mim… apenas dois anos antes, eu estava nas ruas do Jardim Peri pintando as calçadas de verde e amarelo para a Copa do Mundo de 2014. Os caras da vizinhança que desenhavam muito bem fizeram grandes murais – com os rostos dos jogadores brasileiros, como David Luiz e Neymar – e nós estávamos ajudando a deixar tudo aquilo colorido.

Esse torneio em 2016 foi bastante especial para os brasileiros, porque a medalha de ouro olímpica era a única conquista que o país do futebol jamais tinha vencido. Eu lembro que o peso daquele campeonato era muito grande – não apenas porque era no nosso país, mas pelo que aconteceu na última Copa do Mundo. Depois que nós não jogamos bem as duas primeiras partidas, a crítica ficou muito intensa, especialmente contra o Neymar. Eu realmente admiro o Neymar pelo modo como ele lidou com tudo isso e pela maneira que ele conseguiu liderar nosso time.

Antes do campeonato, eu era apenas mais um fã do Neymar, como tantas outras pessoas. Ele é um jogador de futebol incrível, que todo muito conhece. Mas ter a chance de saber quem ele é de verdade durante esse período…foi especial, por causa do jeito dele. A forma que ele trata todo mundo me surpreendeu bastante – porque mesmo no curto período de tempo que eu vivi no futebol, eu vi tantos caras que nem são grandes jogadores, que não ganharam nada, serem mascarados. Mas o Neymar trata todo mundo como se fosse irmão dele. Ele foi a grande razão pela qual a gente foi capaz de se unir e ignorar a pressão e jogar um para o outro.

Quando a gente ganhou a medalha de ouro, foi um momento incrível para o time, e também para o país. Antes dos Jogos, o Neymar fez uma tatuagem, e eu me inspirei nele para fazer uma parecida, porque realmente diz tudo o que isso representou para mim: uma criança pequena, que está de pé no fundo de um morro, olhando para as favelas, segurando apenas uma bola de futebol debaixo do braço e sonhando com seu momento.

Não sou somente eu, e não é apenas Neymar. São tantos brasileiros. E isso é o que aquele ouro significou pra gente.

Eu quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance para fazer parte da equipe da Copa do Mundo de 2018, e eu sei que há muita disputa para ver quem será convocado. Essa foi a grande razão pela qual eu decidi vir para o Manchester City. Eu sei que eu preciso continuar me desenvolvendo como jogador.

Eu vou dizer pra você, aqui é muito diferente do Brasil. Você não vê muito do sol… Cheguei a receber algumas ofertas para ir para outros clubes, de lugares mais quentes, por exemplo. Mas, para mim, a decisão de vir para o Manchester City tinha um peso maior por poder jogar sob o comando de Pep Guardiola.

Esta é minha primeira vez num país que é realmente muito frio e onde eu não falo a língua. É um desafio ser compreendido, e pode ser solitário nesse sentido. No entanto, quando Guardiola me ligou enquanto eu decidia para qual clube eu ia jogar, ele disse que estava contando comigo. Eu posso dizer que o Guardiola estava sendo verdadeiro – e no futebol isso significa muito.

Quando ele disse isso, eu não pensei duas vezes. Minha decisão estava tomada. Era o City.

Mas antes de eu ir para o Manchester City, eu tinha uma última coisa a fazer. Eu tinha de encerrar um capítulo da minha vida.

Então eu voltei para o campo onde os Pequeninos jogam, com as chuteiras debaixo do braço, como quando eu tinha 9 anos de idade. Mas desta vez um pouquinho diferente. Eu tinha 250 pares de chuteiras realmente boas para os garotos.

Agora, quando qualquer um dos grandes clubes jogar contra o Pequeninos num campo molhado, é melhor tomarem cuidado. Daqui em diante, não tem mais essa desculpa.

Sabe, não vou mentir. Quando eu vim para o Manchester City pela primeira vez, eu me senti perdido. Minha mãe estava indo e vindo da Inglaterra para o Brasil, e era extremamente difícil ficar longe dela, porque ela é tudo para mim. Ela foi ao mesmo tempo pai e mãe para mim quando eu estava crescendo. Me lembro que, quando estava jogando pelo Pequeninos, eu via algumas crianças depois dos jogos com os seus pais, e eu estava sozinho. Aquilo foi pesado para mim. Me marcou. Mas agora, quando alguém pergunta do meu pai, eu digo que minha mãe é meu pai. Ela fez tudo por mim e pelos meus irmãos.

Ela foi outra heroína desconhecida.

Quando eu faço um gol, mesmo quando ela não está no estádio, eu “pego o telefone” e falo com ela.

Quando a gente era criança, a minha mãe ficava ligando o tempo todo para descobrir onde é que eu estava, e se eu não atendesse, ela começava a ligar para todos os meus amigos. Era apenas uma piada entre a gente.

“Alô, Mãe!”

Quando eu pego o telefone é em homenagem à minha mãe e à nossa luta. Mas também é uma homenagem aos meus amigos e à minha família, e também ao técnico Mamede e a todas as pessoas no Brasil que me ajudaram a chegar até aqui.

Eu sempre fui um sonhador. Mas mesmo nos meus melhores sonhos, eu não pensei que estaria vivendo o que estou hoje. Sei que existem muitos garotos que vão pintar as ruas, que não jogam por um grande clube e que as pessoas têm dito que eles não vão conseguir chegar lá.

Eu diria para eles nunca pararem de lutar.

Quatro anos antes de eu andar pelo túnel do estádio Etihad, eu ainda estava jogando na várzea – e os caras estavam falando que iam quebrar minhas pernas num estacionamento.

Sua vida agora pode ser apenas sanduíche de mortadela com refrigerante.

Mas se você continuar a correr atrás dos seus sonhos, cara… quem é que sabe o que pode acontecer?!?

A água pode se transformar em vinho…

Então, para todas as crianças. Se você chegou até aqui na minha história, eu tenho uma mensagem final, e isso é realmente importante.

Jamais parem de sonhar.

Ah, façam mais uma coisa por mim. Liguem pra Mãe. Ela sente saudade.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Obrigado Adrien, boa sorte e desculpa lá qualquer coisinha

Tudo indica que a transferência de Adrien para o Leicester se irá concretizar, faltando "apenas" a validação por parte da F. A. e FIFA. Falta igualmente confirmar os números envolvidos que, situando-se entre os 25 milhões e 30 milhões de euros me parece não só aceitável como um bom negócio. Inferior, bem sabemos, aos 35 milhões da época passada mas, como bem sabemos, a água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte. É uma sorte até que volte a passar outra em quantidade aproximada...

O Sporting perde assim o seu capitão e um profissional de mão cheia, cuja dedicação e empenho permitiram superar todos os maus augúrios e sentenças condenatórias que tantos se apressaram proferir sobre as suas qualidades e carreira. Até mesmo o mau planeamento, da qual a dispensa para Israel é a caricatura perfeita de má gestão.

Não me surpreende que muitas das piores criticas sejam precisamente de adeptos do seu próprio clube. Os Sportinguistas continuam a ter uma relação estranha com os jogadores da sua Academia, que depressa passam de bestas as bestiais e vice-versa. Por ser um bom profissional cobra-se-lhe o facto de ter cumprido o seu dever como atleta ao serviço da Académica. Por querer o melhor para a sua carreira (jogar num dos melhores campeonatos do mundo de clubes) e por querer oferecer a si e aos seus um futuro melhor acusa-se de só pensar em dinheiro. 

Bons são quase sempre os outros que fazem precisamente o mesmo com os seus clubes de origem para poderem jogar pelo Sporting. E quando se vão embora levam sempre um obrigado.

segunda-feira, 13 de março de 2017

O que têm André, Petrovic, Ruiz, Meli, Markovic que não têm Podence, Geraldes, Palhinha, Matheus e mesmo Iuri?

A frase é de Jorge Jesus na conferência de imprensa que se seguiu ao jogo em Tondela, referindo-se a Matheus e Podence, mas onde outros nomes podem ser incluídos:

"Sei que o futebol tem coisas que eles ainda não têm. Tecnicamente têm muita qualidade, mas o futebol não é só isso. Para aprenderem eles têm de jogar e errar."

A afirmação do nosso treinador não tem nada de polémica, qualquer adepto minimamente atento é obrigado a concordar com ela. Porém, quando ela é devidamente contextualizada com a política de contratações seguidas no inicio da época, e até mesmo com as afirmações que, de forma cada vez mais frequente,o treinador vai fazendo sobre a formação e prospecção, a pergunta que titula o post ganha toda a pertinência. 

Traquejo, tarimba, experiência é certamente aquilo que faltará a estes jogadores. Mas, olhando para o lote dos jogadores pelos quais foram preteridos, será que os que chegaram as tinham? 

E, admitindo que sim, será que era a adequada às especificidades requisitadas pelas competições em que iriam estar envolvidos, nomeadamente nossa Liga e a Liga dos Campeões competições que, por razões diferentes, eram as mais importantes para nós?

Uma coisa sabemos já, e que vamos aprendendo à nossa própria custa, repetindo frequentemente os mesmos erros e equívocos (e com elevados custos, diga-se): tivéssemos confiado mais na qualidade da actual geração e dificilmente as coisas teriam resultado pior. 


Isto mesmo reconhecendo, como também me parece óbvio, que não podemos estar à altura dos nossos compromissos e ambições com plantéis exclusivamente constituídos pela formação. Mesmo reconhecendo também que jogar com o Tondela não é o mesmo que jogar com FCP, SLB, SCB ou Real Madrid ou demais "tubarões".

Porque razão demos a outros (por exemplo, Markovic e até mesmo Alan Ruiz) o tempo e o espaço que não demos a Podence, Geraldes, Palhinha, Matheus e mesmo Iuri? 

Faz sentido ter jogadores emprestados (Markovic, Campbell)  e ainda por cima dispendiosos para lugares onde temos jogadores de qualidade e até em quantidade apreciável? (Gelsón, Podence, Iuri)?

Se Francisco Geraldes é um jogador "tipo João Mário" e as funções deste estão ainda por encontrar sucessor porque se mandou o jogador dar uma volta ao bilhar grande primeiro para Moreira de Cónegos e depois para a bancada?

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Estará o "modelo Jesus" a acabar com o "modelo Sporting"?

O debate sobre as consequências das alterações produzidas pela chegada de Jorge Jesus ao Sporting está na ordem do dia mas quase sempre fomentado não pelas melhores razões. Como pano de fundo tem estado o ressabiamento provocado pelo final de uma relação mal resolvida entre o treinador e  o seu antigo clube. Jesus não parece esquecer e muito menos perdoar a forma como foi afastado. Do outro lado a surpresa pela decisão tomada pelo treinador continua ainda por digerir: pelos vistos não contaram que, ao invés de se deitar na cama que já lhe tinham feito, ele iria escolher o seu próprio caminho. O facto de ter "atravessado a estrada" é que funciona como agravo.

Como já todos "percebemos" Jorge Jesus apresta-se a fazer em fanicos a formação do Sporting tal como quase aconteceu com a formação no Seixal. Como "é claro" para todos, foi JJ que atou e enfiou num contentor uma série de jovens e promissores jogadores, à revelia dos dirigentes. Todos os bons jogadores contratados e valorizados nas cinco épocas foram obra da "estrutura", apesar da presença de Jesus. A força e a mestria dessa organização quase conseguiu evitar a perda de alguns campeonatos praticamente ganhos, bem como duas Ligas Europa, perdidos por demérito óbvio do treinador.

Enquanto eles se resolvem, olhemos para dentro de casa. A chegada de Jesus é vista pela generalidade dos adeptos como algo de importante, por muitos até decisivo para o crescimento competitivo da nossa equipa principal. O Sporting está há demasiado tempo afastado do titulo nacional e JJ parece ser o treinador indicado para conseguir por fim a esse hiato. Mesmo concordando com a ideia, tal não anula a necessidade de reflectir sobre as algumas opções tomadas,  por poder estar em causa um modelo no qual a generalidade dos Sportinguistas se revêm - a formação - e por ser cada vez mais consensual ser esse o modelo mais equilibrado para garantir a sustentabilidade da sua principal actividade, o futebol. 

Não adianta negar as evidências: o plantel do Sporting é hoje formado por menos jogadores da formação que no passado recente, numa alteração que já vinha do ano passado e que agora se consolida. Essa certeza parece recolher ainda mais significado quando se constata que não entrou para o actual plantel nenhum jogador da formação, todos os que dele fazem parte já dele constavam no ano passado. Acresce ainda diminuição do contingente oriundo da formação, com a saída de João Mário e André Martins.

Mas quer isso dizer que o Sporting deixou de apostar na formação como factor determinante para a formação do seu plantel? Tal não se pode concluir, se se considerar que oito desses jogadores (Patrício, Beto, Esgaio, Semedo, William, Adrien, Matheus e Gélson) são oriundos das nossas escolas, cinco deles são potenciais titulares e três deles o suporte identitário da equipa. E se é certo que um numeroso lote dos jogadores dispensados são produto "made in Alcochete" - Carlos Mané, Podence, Wallyson, Iuri Medeiros, Tobias Figueiredo, Carlos Mané, Geraldes, Filipe Chaby, Palhinha, Wallyson - todos eles mantêm ligação ao clube, embora Mané e Wallyson estejam já fora do nosso controlo, por termos prescindido do direito de opção em favor dos clubes onde agora militam.

Importa então perceber se as entradas de Joel Campbell, Bas Dost, Luc Castaignos, Douglas, Elias, Petrovic, Meli, André, Alan Ruiz, e Markovic põem em causa o modelo que vigorava anteriormente, ou significa pelo menos um mudança relevante. Afirmar, como ouvi e li, que o Sporting como clube formador estava extinto é manifestamente excessivo. A aposta na formação não só se mantém no imediato como continua a ser possível no curto médio / prazo. A questão aqui não é pois a  exequibilidade, mas está agora na vontade. O mais importante a perceber é qual é ideia de Jorge Jesus relativamente à aposta nos jogadores oriundos da Academia e até onde está disposta a SAD - leia-se Bruno de Carvalho  - a ir ou a deixar-se levar.

Aqui há que procurar analisar o passado de Jorge Jesus com justiça. O que ele fez até hoje em matéria de aposta na formação tem um valor relativo. Nenhum dos clubes por onde passou anteriormente possuía a identidade e qualidade que o Sporting hoje lhe oferece. Como treinador inteligente que é, ele não pode - ou não deve - ignorar esses valores. E cabe à direcção defendê-los e dizer ao treinador onde ficam as balizas e a linha de fundo.

Depois há que procurar perceber se a nossa tão famigerada "aposta na formação" tem sido um modelo executado com equilíbrio e aí a resposta óbvia parece-me negativa o que pode sair reforçado pelos resultados. Não porque a formação tenha falhado, mas sobretudo porque a capacidade/competência na hora de recrutar poucas nos tem valido. Paradoxalmente, têm sido os fiascos no recrutamento que têm "obrigado" aos jogadores da Academia a assumirem maiores responsabilidades, mais cedo, proporcionando-lhes assim a afirmação.

O que estamos agora a fazer com a aquisição de jogadores mais experientes e de valor confirmado parece-me mais adequado às ambições naturais do clube e que em nada obsta à aposta na formação. Como tentativas semelhantes já foram ensaiadas anteriormente sem sucesso, importa perceber se o que agora se está a fazer é o mais adequado, onde estão as nossas vulnerabilidades e onde os procedimentos são não apenas adequados mas também necessários. É isso que faremos num post a dedicado, com exemplos concretos.

Para finalizar, não gostaria que no futuro o Sporting se servisse de Jorge Jesus como álibi para justificar falhas que são exclusivas de quem tem que dirigir, como faz agora o nosso rival. Porque, se é certo que há futuro imediato para a nossa formação continuar a ser relevante na equipa principal, não é menos certo há indícios preocupantes - na equipa B principalmente, mas não só - sobre as consequências das muitas decisões tomadas num passado recente, onde o talento parece ter perdido importância para o peso, a altura e o resultado imediato e onde não se vê quem possa seguir no futuro o caminho trilhado por Adrien, João Mário, William, ou até mesmo Gélson ou Semedo.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A aquisição de Meli pode nem ser a melhor das noticias

A generalidade dos órgãos de comunicação social dão já como certa a aquisição de Marcelo Meli, centro-campista do Boca Júniores. O próprio já se despediu do clube e estará a viajar para Lisboa. Meli é um desejo antigo de Jorge Jesus, quando ainda trabalhava do outro lado da segunda circular. 

Como melhores qualidades deste jogador de meio-campo são apontadas a velocidade, capaz de transições rápidas defesa-ataque com acerto e ajudando a equipa a jogar quer conduzindo a bola, quer utilizando lançamentos longos ou passes curtos. Embora actue preferencialmente no corredor direito, pode jogar em qualquer dos lados do terreno. O seu estilo aguerrido, a velocidade das transições e a capacidade de ir à frente finalizar podem torná-lo num dos jogadores mais queridos da bancada. Ao seu melhor nível significará um reforço importante na concorrência pelo meio-campo, onde os recém chegados Adrien e João Mário jogam de lugar cativo.

Mas se a aquisição de Meli será a que mais vamos ouvir falar, o regresso de Luís Martins a casa pode muito bem ser quase a "não noticia" mais importante dos últimos tempos para o clube, em particular para a sua jóia da coroa, a formação. Quanto a mim, talvez a melhor decisão até agora da actual direcção pelo que a qualidade de Luís Martins como pessoa e técnico pode representar para o sector.


Luís Martins é um homem da casa. Foi atleta do clube nos escalões de formação e aí regressou como técnico, onde o seu trabalho deixou marcas. Foi campeão nacional pelos juvenis em 2003/04, onde orientou Patricio, Daniel Carriço, João Gonçalves (já abandonou, por lesões consecutivas), Fábio Paim (quase não jogou, por lesão) André Marques, Paulo Renato, David Caiado, Diogo Tavares. Na foto acima pode ver-se Luis Martins, como quase sempre discreto, ao centro e de costas, na celebração do título.

Quando em Outubro de 2005 Paulo Bento foi chamado a assumir a primeira equipa, Luís Martins (coadjuvado por Leonel Pontes) torna-se no treinador responsável pelos júniores, contribuindo para o pleno dos títulos na formação. Foi talvez a altura em que me recordo em que o Sporting trabalhava muito melhor que os demais e tinha dos melhores profissionais. Os títulos alcançados era por isso natural consequência mas, mais importante do que isso era a quantidade de jogadores de qualidade que despontavam nas nossas fileiras.

Saiu por, na altura da renovação do contrato com o clube, não ver reconhecida na proposta recebida a importância que entendia merecer. Na altura foi considerado uma perda importante que, somada a outras saídas, representou uma perda de qualidade na área técnica. 



Luís Martins substitui Paulo Leitão, cuja saída estava já decidida há muito. A chegada de Luís Martins significará seguramente que o Sporting continuará a apostar na formação de jogadores, um pilar importante da sua politica desportiva, talvez a que melhores dividendos lhe tem oferecido. 

Agora na coordenação, abandonando talvez em definitivo o trabalho de campo, o recém contratado director técnico tem pela frente muito trabalho. Encontrará nos rivais muito maior concorrência do que a que havia há uma década. E desde o recrutamento, à composição das equipas técnicas multidisciplinares, às condições de treino, à transição entre escalões não faltará áreas para intervir, reinvestir, aprimorar. Se tiver os meios e a confiança imprescindível para a tomada de decisões estou certo que Luís Martins saberá justificará plenamente a sua contratação.

Há depois esse pormaior, nem sempre relevante quando falamos de técnicos. Luís Martins é um Sportinguista como nós e é sempre bom ver reunidas as duas condições (amor pelo clube e conhecimento profissional) naqueles que trabalham no clube.

terça-feira, 14 de junho de 2016

O Ronaldo, o Europeu

O Europeu, cuja disputa Portugal hoje inicia, é uma competição de equipas e não um torneio individual. Porém, há jogadores que, pela sua preponderância, têm o seu desempenho umbilicalmente ligado ao sucesso das equipas que representam. 

É o caso de Ronaldo. Se ele se conseguir apresentar na plenitude dos seus recursos e conseguir formar com os restantes companheiros uma verdadeira equipa, este poderá ser o seu Europeu. Basta olhar para estes números para o perceber:

- A um golo de se tornar o primeiro jogador de sempre a marcar em quatro campeonatos europeus. 

- Se marcar três golos torna-se no jogador com mais golos marcados na competição. Tem actualmente seis golos, Platini lidera com nove.

- Com a internacionalização que mais logo coleccionará, tornar-se-á no jogador mais internacional de sempre, com 127 jogos. Dessa forma igualará Figo, ficando ainda com anos pela frente para deixar uma marca única, à altura do seu valor.

- Faltam-lhe apenas dois jogos para igualar a marca dos jogadores com mais jogos disputados na competição. Esse titulo é repartido actualmente "ex-aequo" entre Van der Sar e Lilian Thuran.

Já a possibilidade de poder ser o nosso Europeu, o de todos nós, parece-me haver demasiada euforia e algum irrealismo. Um pouco como pensar que a Liga Inglesa possa algum dia ser ganha por clubes como o Leicester. Ah, ora deixa cá ver...

segunda-feira, 23 de maio de 2016

"O Sporting tem de começar a pensar que hoje os nossos rivais já estão mais fortes que nós"

Da extensa entrevista de Jorge Jesus ao programa do Rui Santos na SIC sobressaiu a referência feita à Academia. Não é exactamente a mesma coisa "um qualquer" ou ser o próprio Jorge Jesus a trazer para cima da actualidade a qualidade do trabalho efectuado na formação. Para lá de Jesus ter do seu lado o conhecimento técnico que todos lhe reconhecem, acumula agora o conhecimento da realidade dos dois clubes, o que lhe reforça a autoridade para se pronunciar.

Um dos factores apontados por Jorge Jesus como razão de aproximação ao sucesso por parte dos rivais foi o maior poder financeiro. Ora isso não é nada de novo, o Sporting sempre lutou com menos meios, o que superava com uma bem montada rede de "scouting" no exterior, equipas técnicas competentes e uma ideia muito clara do que pretendia: mais do que resultados imediatos, o objectivo era formar jogadores para jogar na sua equipa principal. 

Infelizmente isso é algo que parece estar a mudar, com uma notória preocupação centrada cada vez mais no perfil físico dos jogadores, secundarizando a capacidade criativa e técnica. A par disso anos seguidos em constante mudança, registando uma acentuada perda de valor, com o Sporting a ver sair alguns dos seus melhores jogadores e treinadores para clubes competidores directos.

Há duas formas de olhar para o que Jesus disse: a primeira, a tradicional, que é assobiar para o ar e apontar para os frutos do trabalho desenvolvido no passado, ou cingirmo-nos aos resultados pontuais, tentando negar uma evidência cada vez mais factual. A segunda, a óbvia, é aproveitar o que foi dito por Jorge Jesus como ponto de partida para uma profunda reflexão sobre o que está a ser feito na Academia. 

Ainda sobre este tema foi também importante ouvir Jorge Jesus afirmar que Wallyson, Podence, Iuri e Palhinha farão parte dos trabalhos do inicio de época. Certamente que nem todos ficarão no plantel do próximo ano, mas é um passo importante para contarmos com eles no futuro.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O que dizer do Global Soccer Awards para a formação do SLB?

A Global Soccer Awards decidiu este ano atribuir o prémio de "Academia do Ano" ao nosso "estimado rival" SLBenfica. 

Não, não está enganado. Não foi ao Ajax de Amesterdão, que há anos domina o futebol holandês, com equipa formadas à base dos seus escalões de formação e com um longo historial a testemunhar o valor da sua Academia. 

Não, não foi ao Barcelona, que o ano passado levou mais um triplete para o seu sumptuoso museu, com uma equipa recheada de jogadores da sua formação, alguns deles conhecendo apenas a camisola azul-grená. 

Ah, e sim claro, o prémio não aterrou em Alvalade, apesar do aeroporto ali tão perto, num clube cujo histórico reporta um número invejável de "Bolas de Ouro" e várias gerações a servirem de base à Selecção Nacional, que nos últimos anos tem coleccionado os melhores resultados de sempre. 

Antes que pense que tenho mau perder tenho que dizer que dou os meus parabéns ao nosso  rival e considero que o prémio está muito bem entregue. Senão vejamos: não se conhecem anteriores prémios nesta categoria que aquela organização tenha atribuído, sendo por isso o prémio inteiramente merecido por uma formação que dá agora os primeiros frutos. Tão inédito que a referida organização não conseguiu ainda actualizar o seu sitio na Internet, onde não consta o prémio em causa. 

Ou seja é tão difícil como encontrar razões que justifiquem para esta distinção que não sejam as primeiras páginas de "A Bola" sobre o Renato Sanches ou os adjectivos superlativos do locutor da BTv sobre os jogadores da equipa B, que recentemente nos ganharam no Seixal por 1-0.

Não se infira pelo que é escrito acima que minimizo o trabalho que vem sendo executado na Academia do Seixal na formação. Os resultados falam por si, nos últimos anos começam a ser conhecidos os resultados de um vultuoso investimento que fará no próximo ano, a 22 de Setembro, dez anos. Este prémio é obviamente ainda prematuro e não será alheio certamente ao facto de a organização ser uma espécie de quintal das traseiras do agente Jorge Mendes. Basta ver a lista de vencedores, quase todos eles certamente na lista de speed-dial do bem sucedido agente.

É também mérito para a gestão de Luís Filipe Vieira, sobretudo no que ao lobying diz respeito. O mesmo mérito que é preciso reconhecer nos negócios com a NOS ou com a Emirates, precisamente do Dubai... Negá-lo é negar uma evidência, o que é tão patético como negar o potencial (veremos o que o futuro confirma...) de alguns dos jogadores que estão agora a aparecer, como o Renato Sanches, Gonçalo Guedes, Cancelo, Nélson Semedo ou dos já confirmados André Gomes ou Bernardo Silva.

Se atentarmos, está agora a suceder com o nosso rival o que aconteceu connosco, com o resultado do investimento feito na Academia em Alcochete em 2002. Foi ele que nos proporcionou a hegemonia na formação nos finais da primeira década deste século na formação, estendo-se até aos dias de hoje como o suporte da selecção nacional, no que à origem da formação diz respeito.

Essa hegemonia provavelmente está a desaparecer, por força do investimento que os rivais vêm realizando nas suas academias, assim como na prospecção. Ao invés, a formação do Sporting tem sofrido sucessivas revoluções e contra-revoluções pelo menos desde a presidência de Bettencourt até aos dias de hoje. A perda qualidade nos quadros técnicos e de colaboradores, bem como uma política de recrutamento de qualidade duvidosa e a diferença de meios vão ditando a sua lei. 

As consequências destas alterações no panorama da formação são uma realidade que obrigatoriamente temos que nos habituar a conviver. E, ao invés de nos provocar azedume, deveria ser o incentivo para nos obrigar a trabalhar ainda mais e ainda melhor. E obviamente a sermos mais exigentes e mais atentos ao que se faz em Alcochete.

Quanto ao prémio em si, poder-se-ia dizer, tentando minimizá-lo, que não tem a importância, prestigio ou reconhecimento de uma Bola de Ouro ou semelhantes. Não o vou fazer. Como Sportinguista aprendi a não minimizar os feitos alheios, porque querer fazer melhor que os melhores foi a letra de lei que nos fez grandes.

Depois, nos Globe Soccer Awards, o nome do Sporting continuará por muito tempo a ser incontornável e, calcule-se!, por via do seu melhor formando de sempre, Cristiano Ronaldo, vencedor por duas vezes de melhor jogador do ano. 

Que melhor referência poderia ser feita à Academia do Sporting?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Gestão do plantel. Dispensas: cada caso visto como tal

O Sporting conseguiu colocar cinco do seu vasto leque de excedentários, isto já depois de Sarr e Miguel Lopes já terem partido. Fica abaixo uma breve análise a cada um dos casos:

Betinho
Trata-se de um jogador interessante, que revela uma boa relação com o golo, mas cujo valor para o futuro me suscita muitas dúvidas. Estas até se podem prender com a sua juventude e o lugar difícil que ocupa. Daí que veja com alguma perplexidade a sua partida em definitivo e nos termos tornados públicos, desde logo por:

- Estrategicamente é uma decisão altamente questionável, se atendermos a que a Belenenses SAD tem sido uma parceira estratégica de um rival no campo e um acérrimo oponente fora dele. 

- Se existe, não foi referida qualquer cláusula de salvaguarda, pelo que, caso o valor do jogador se confirme, pode jogar em qualquer um dos rivais.

- Esta saída em definitivo contraria a ideia de valor subjacente à recente renovação de contrato e da cláusula de rescisão (60 milhões). A "oferta" ao Belenenses pelo menos cobre os respectivos custos?
Palhinha
Jogador com muito potencial, mas ainda algum caminho a percorrer para aspirar à titularidade. A possibilidade de jogar com frequência e ao mais alto nível em termos domésticos é um excelente desafio para ele, pelo que a decisão parece ser a que melhor defende os interesses das partes. Vai encontrar uma das equipas cujo desempenho mais me impressionou na época transacta, mais ainda se atendermos a que era recém-promovida e à escassez de recursos de um clube pequeno de um agregado populacional muito reduzido.

Rúben Semedo
Algo parecido com o que é dito acima. Estagiará um ano em Setúbal, o que só lhe poderá fazer bem, atendendo a que não teria muitas oportunidades de jogar este ano e a II divisão da equipa B já não lhe oferece o estímulo que precisa. 

Wallyson 
Mais uma decisão muito questionável por ser talvez o jogador com mais claras possibilidades de fazer imediatamente parte do plantel, com ganho para ele e para o clube. A saída para tão longe, e ainda por cima para um clube modesto, parece-me ser apenas vantajosa para a conta bancária do jogador, que seguramente ganhará mais do que emprestado a um clube nacional. Parecer-me-ia mais recomendável:

- Mantê-lo por perto, com empréstimo condicionado a reapreciação em Dezembro. Até porque no meio-campo há indefinições, como a disponibilidade de Aquilani ou a renovação de André Martins.

 - Parece-me também uma decisão extemporânea e temerária, atendendo ao estado de William Carvalho. E se, por exemplo, Adrien se lesiona com o Tondela, como se fecha o meio-campo?

- A cláusula de quinze milhões parece querer desafiar o destino. Muitos ainda hoje se interrogam como foi possível ter vendido parte do passe do William Carvalho a um fundo. Ora se em vez disso tivesse uma cláusula assim onde estaria neste momento? E se Wallysson confirma o valor que muitos lhe reconhecemos, quinze milhões não é uma pechincha?

Heldon
É um bom jogador para o seu actual clube, como havia sido para o Marítimo, sendo muito provável que dê nas vistas aqui e ali. Mas não o era para nós, pelo que o seu empréstimo não surpreende. O que me surpreendeu foi a sua aquisição, nas condições que foi, quando havia miúdos que poderiam ter ganho, e nós com isso, alguns minutos.

Slavchev
Enquanto não se vislumbram as razões da sua aquisição, fica pelo menos a satisfação que percebeu o clube onde está (No site MaisFutebol):

"Os adeptos são incríveis. É por isso que o Sporting é um grande clube."

"Não se pode dizer «Sporting» e «clube pequeno» na mesma frase."
Fica uma dúvida:
Se o jogador revela problemas de adaptação, não seria mais aconselhável tê-lo a jogar no nosso campeonato? Ou fazê-lo retornar ao seu país, onde se revelou cedo, para reganhar confiança?
Duas questões adicionais:
- Com estas dispensas têm a palavra os que o ano passado, em diferentes momentos da época, exigiram a titularidade de alguns destes jogadores.

- Quantos destes jogadores e outros da equipa B estarão em condições de, na(s) próxima(s) época(s), de integrar o plantel principal, de forma a assegurar que "o recurso a jovens criados na formação do Sporting deverá ser uma realidade, à semelhança do que sempre foi tradicional no clube"?

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Com quem contará Jesus?



O Sporting foi o principal fornecedor da selecção sub-21 que acabou de se sagrar vice-campeã europeia em Praga. Honrando assim uma já longa tradição de um dos principais fornecedor de jogadores para todos os escalões etários das diversas equipas das quinas, o Sporting tem novamente à disposição uma geração com valor suficiente para continuar a manter esse estatuto na principal selecção, mesmo que, alguns deles, possam já não vestir de verde e branco quando tal suceder.
Tendo o torneio terminado sem o tão almejado título principal a selecção regressou a casa com o sabor amargo de praticamente só não ter liderado a classificação final, uma vez que, quer nos destaques individuais quer nas estatísticas que documentam os comportamentos coletivos, o primeiro lugar foi quase sempre seu. O facto de todos os jogadores do Sporting terem acumulado minutos de jogo no torneio diz bem que a sua relevância não se ficou apenas pela soma aritmética mas também pelo que a sua qualidade individual ofereceu à equipa.
De uma forma sucinta analisarei de seguida a participação de cada um, procurando também perspectivar que tipo de contributo poderão dar no futuro ao clube.
Ricardo Esgaio
Confesso com pena que a sua participação me desiludiu. Esgaio não esteve mal a defender mas foi muitas vezes inconsequente a atacar, definindo quase sempre mal e sem convicção. Pareceu quase sempre pouco à vontade e retraído. É claramente um jogador prejudicado pela falta de desafios mais exigentes que marcaram os últimos anos da sua carreira. Não me parece à altura, neste momento, de uma equipa que tem que lutar pelo titulo de campeão, parecendo-me que melhor seria sair para continuar a jogar.
Paulo Oliveira
Um dos melhores jogadores da selecção. Excelente leitura de jogo, o que lhe conferiu um poder de antecipar as jogadas, estando sempre ou quase sempre no sitio certo  antes dos adversários. Dessa forma contrariou a menor velocidade que, associada às dificuldades em sair a jogar, são óbice a ser considerado um indiscutível. Mas é um nome a contar, não surpreendendo de todo que possa manter o estatuto de titular entretanto conquistado.
Tobias Figueiredo
Foi chamado de emergência, por lesão de Ilori e quer no que restou desse jogo quer do que realizou na totalidade cumpriu com distinção. Não parece que venha a ser a primeira escolha de JJ , precisa de continuar a jogar no próximo ano porque ainda denota alguma precipitação, talvez por imaturidade. Se ela é natural na idade, parece também ser-lhe intrínseca. Tem no entanto condições físicas para ser um grande central sendo determinante o que lhe vai ser proporcionado nos anos imediatos.
João Mário 
Um jogador com um enorme potencial mas que, por vezes, parece ficar aquém, muito aquém, do que esse potencial deixa advinhar. Fez no entanto um bom campeonato, foi dos melhores, mas alternou bons momentos com outros de largo eclipse, sendo o jogo de ontem um dos melhores exemplos, agravado pelo cansaço que se foi instalando. Muito dotado tecnicamente, o que lhe confere grande qualidade na recepção e no passe, precisa de aumentar quer a agressividade nas tarefas defensivas quer o grau de frieza no momento de finalizar. Quando, e se, o conseguir, será um jogador notável. É dos que auguro poder vir a crescer mais sob a batuta de JJ.
William Carvalho
Não foi por acaso que foi considerado o melhor jogador do torneio pela UEFA. A diferença para a generalidade dos demais foi muitos vezes abissal, sobretudo ao nível da segurança de execução, compreensão do jogo, qualidade técnica e visão. Mas, apesar de todos os elogios, inteiramente merecidos, não é ainda um jogador “fechado”. Sobretudo quando a equipa entra em transição defensiva William revela ora pouca agressividade, ora pouco acerto na ocupação dos espaços ou na contenção. Isso ontem foi ainda mais evidente após a intrigante decisão de Rui Jorge de Sérgio Oliveira, com quem articulou muito bem. Dificilmente JJ não o transformará no “monstro” que já deixa adivinhar.
Carlos Mané
Jogou pouco, o que se compreende pelas muitas opções que Rui Jorge tinha à disposição. Neste momento não é melhor que Cavaleiro em termos globais, mas tem tudo para o suplantar a breve trecho. Podia ter sido uma alternativa válida na final, atendendo ao fraco acerto daquele. É daqueles jogadores que parece estar no meio da ponte, onde de um lado está a banalidade e do outro um futuro promissor. Muita da sua sorte de decidirá nos passos que dará a breve trecho, compreendendo que o dinheiro e o chamamento do padrinho de baptismo (Leonardo Jardim) tenham um peso elevado na decisão que tomar.
Iuri Medeiros
Entrou sempre bem, sendo capaz de agitar o jogo, ficando por isso a dúvida se não poderia ter merecido a titularidade. Tenho que confessar a minha falta de isenção na apreciação deste miúdo talentoso. É por isso, por lhe reconhecer grande talento, que o imagino a poder ser titular ou participar com assiduidade na equipa principal. Talvez seja um exagero. Mas jogadores com a sua qualidade técnica e rapidez de execução não há muitos, sendo contudo notório que precisa ainda de crescer e para isso tem de enfrentar mais dificuldades e exigências que não encontra nem numa equipa B, nem mesmo num clube com as especificidades como as que encontrou em Arouca.  A ser dispensado, que seja escolhido um clube de forma criteriosa, sendo contemplada a possibilidade de ser revista a situação em Dezembro.

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