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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Um Sporting maduro e uma geração que pede passagem


Há jogos que, mais do que pelos golos ou pela estatística, valem pelo que revelam sobre o estado de uma equipa. A vitória do Sporting frente ao Marinhense enquadra-se exatamente nessa categoria: um teste controlado, quase académico, mas cheio de sinais que confirmam o momento sólido que o clube vive — e a profundidade crescente de um plantel que, esta época, parece finalmente preparado para resistir a tempestades.

Rui Borges voltou a apresentar o seu já identificado 3+2 na construção, com Vagiannidis recuado para completar a linha de três e garantir superioridade na fase inicial do jogo. Não era preciso muito para perceber que o plano estava bem oleado: Mangas e Blopa abriram o campo até ao limite e, repetidamente, o Sporting atraiu por um lado para procurar o lado oposto. 

Mas o que verdadeiramente marca este jogo não é a tática, mas sim a coragem de mexer. Rui Borges não fez uma revolução completa, mas arriscou o suficiente para percebermos que, hoje, o Sporting tem estofo para navegar por entre lesões, desgaste ou calendários densos. A diferença para a época passada é gritante: o banco já não é um lugar vazio de soluções, mas sim um viveiro de alternativas reais.

Muito desse salto qualitativo explica-se por Alcochete. A equipa B, rejuvenescida mas mais madura, está a competir num ambiente mais duro e exigente — a Segunda Liga — e isso nota-se na forma como os jovens sobem ao palco principal. Não chegam tímidos, chegam preparados. E isso, para um clube que vive tanto da formação, é ouro.

Rodrigo Ribeiro é o exemplo perfeito da importância da paciência. Aos 20 anos, carrega nas pernas mais histórias do que pode parecer a alguém com tão tenra idade. Os empréstimos falhados a Inglaterra e Aves atrasaram-lhe a afirmação, mas o talento parece intacto. Hoje está mais solto, mais leve, mais sénior. Não se sabe ainda a posição onde mais renderá — referência, segundo avançado, — mas percebe-se claramente que voltou a acreditar no seu próprio jogo. E quando um talento acredita, o resto vem por arrasto.

Salvador Blopa parece ter acelerado etapas. Tem um perfil fisico diferenciado do que se espera de um extremo e uma forma também diferente de interpretar o jogo. Flávio Gonçalves, por seu lado, foi lançado num jogo já mais morno e por isso não pôde mostrar cabalmente do que é capaz. Alguma cautela nas comparações com Pedro Gonçalves não fariam mal, mas parece ter talento para se poder contar com ele no futuro.

No fundo, o jogo foi sempre do Sporting. Foi resolvido cedo e gerido com serenidade, sem perder foco nem qualidade. E isso, mais do que qualquer goleada, é o sinal de uma equipa adulta: faz o que tem de fazer, sem barulho nem hesitações.

Noite perfeita para testar, rodar, crescer e confirmar que Alcochete continua a ser o motor silencioso que prepara o futuro de Alvalade.

Agora, fecha-se o capítulo da Taça. A Champions espera — e este Sporting, tão profundo como maduro, parece preparado para a chamada.

terça-feira, 21 de junho de 2022

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Para afixar nos balneários em Alcochete

Por vezes não se consegue perceber o que leva um jogador talentoso e cheio de potencial acabar por se perder na imensidão de grandes jogadores que nunca o chegaram a ser. Muitas vezes nem sequer conseguem ser profissionais de futebol. 

O miúdo da foto acima (de 2014) é o miúdo das fotos actuais e, numa magnifica entrevista ao The Player's Tribune, onde cheguei através do site Trivela, ajuda a explicar como é que se escolhe o caminho, como se pode estabelecer a diferença. E ainda assim deixa ficar subentendido que a ideia que se chega lá cima facilmente só acontece nos filmes e nos romances.~

Um belo pedaço de prosa que devia ser lido por todos os craques em potencial e, não menos importante, pelos pais e educadores, por vezes tão ou mais sonhadores e ambiciosos que os futuros craques.

Sempre que eu marco um gol pelo Manchester City, minha mãe liga para mim. Assim que a bola balança no fundo da rede, o telefone toca.

Não importa se ela está em casa, no Brasil ou no estádio me assistindo jogar. Ela me liga todas as vezes. Então, eu corro até a bandeirinha do escanteio, coloco a mão no meu ouvido e digo: “Alô, Mãe”.

Quando eu cheguei no City, as pessoas acharam isso muito engraçado, e eles viviam me perguntando o que aquilo significava.

Tem uma resposta rápida: amo minha mãe e ela está sempre me ligando.

E tem uma resposta longa, que começa quando eu ainda era um menino com um sonho.

É claro que no Brasil existem milhões de meninos com um sonho. Mas eu tive sorte, porque no meio do caminho eu pude conhecer alguns super-heróis.

Não ria. É verdade. Eu vou provar para você.


Eu cresci num bairro chamado Jardim Peri, na Zona Norte de São Paulo, e para algumas pessoas que moram lá a vida é uma luta. Mas eu tive minha mãe. Que trabalhava muito duro e garantia sempre à nossa família comida na mesa. Mas para muitos garotos com os quais eu cresci era mais difícil. Às vezes, eles só tinham uma única refeição no dia, e essa era a que eles recebiam dentro do clube. Para ser sincero, muitos deles nem mesmo apareciam para jogar. Eles só vinham para se encontrar e comer de graça um sanduíche de mortadela com refrigerante. Era sempre pão com mortadela e uma lata de refrigerante.


Às vezes, era só refrigerante. E isso tinha que durar até o fim do dia.

Para mim, todos os meus sonhos, todas as coisas que eu tenho agora – tudo isso começa com o Pequeninos. Na verdade, é mais do que um clube de futebol. Não pense nas praias e todo esse tipo de coisa. Nosso campo era do lado de fora de uma prisão militar. No lugar onde era para ter o gramado, só havia sujeira e estava cercado por grandes pinheiros. As únicas pessoas que jogavam lá além das crianças eram os policiais dessa prisão.

Quando eu tinha nove anos de idade, eu apareci lá com meu amigo Fabinho, para ver se nós podíamos jogar pelo time. Nós andamos pela mata com as nossas chuteiras de futebol embaixo do braço. E foi então que nós conhecemos o cara que mudou nossas vidas – José Francisco Mamede, técnico do time mais novo. E ele disse pra gente “Com certeza, vocês podem jogar na próxima partida”.

Não tinha nenhum papel para assinar, nada. Porque este clube não era do tipo que tentava fazer crianças se transformarem em lucro – tem a ver com mostrar para essas crianças algo positivo, e dar a elas alguma coisa para comer e mantê-los longe das ruas. O Pequeninos não é um clube grande, então provavelmente você nunca ouviu a respeito. Mas eu tenho de dizer, eles fazem milagres por lá.

Era engraçado porque o técnico Mamede tinha um velho fusca branco – devia ser anos 70– e ele levava todos os garotos nele, e nós éramos tão pequeninhos que ele fazia caber 9 ou 10 dentro do carro, mais as chuteiras, as bolas, as cestas básicas e todo o resto.

Cara… o que esse clube faz por aqueles meninos, é incrível.

No Brasil, nós temos um nome para pessoas como Mamede: heróis desconhecidos.

E foi isso que ele representou para muitos garotos. Ele e outros técnicos… Eles  deram pra gente uma chance na vida.

Para mim, o amor pela bola era tudo. O treino pelo Pequeninos acontecia somente duas vezes por semana, então, se eu não estava lá, eu estava jogando nas ruas do Jardim Peri. Às vezes, eu ficava jogando bola com os meus amigos até meia noite – depois, nós ficávamos na rua falando sobre as meninas e tirando um com a cara do outro até as duas da manhã.

Em casa, não tinha muita coisa para fazer. Meu pai deixou a família logo depois que eu nasci, então minha mãe trabalhava todo o santo dia para sustentar a mim e a meus irmãos. Ela era faxineira na cidade, e quando ela voltava para casa no fim do dia, ela tinha que dividir a cama comigo e com um dos meus irmãos.

Alguns garotos têm videogame. Eu tinha a bola e a minha imaginação. E foi legal porque eu tive uma infância de verdade. Havia esses grandes torneios de futebol em que cada rua tinha um time, e o troféu era uma garrafa de refrigerante. Cara, era uma guerra por aquele refrigerante. É tudo o que você tem, sabe? Na real, aquilo era mais importante pra gente do que uma Copa Libertadores.

Se você ganhou o título, você passava a garrafa ao redor, e é diferente de tudo que você já provou antes. Todo mundo podia dar um gole e passar pra frente. O troféu de refrigerante é dez vezes melhor do que a champagne. Dez vezes melhor.

Quando eu tinha 13 anos de idade, aconteceu uma coisa que realmente me marcou. Nosso time, Pequeninos, entrou num campeonato importante em São Paulo, e, cara, nós éramos bons. Nos jogos das primeiras rodadas, nós vencemos clubes maiores por 12 ou 13 gols. Mas quando chegamos na final nós tínhamos pela frente a Portuguesa de Desportos, que é um clube profissional. A única razão pela qual os clubes grandes entravam no campeonato é que eles podiam selecionar os jogadores dos times menores. E, você sabe, é como nos filmes. Nós éramos o time pequeno que jogava do lado de fora da prisão, e eles eram do clube profissional com equipamento e todo o resto. Mas eu e meus amigos falamos assim: “Ah, a gente vai ganhar essa. Deixa com a gente.”

Então, veio uma tempestade. Na noite anterior ao jogo, choveu tão forte que quando amanheceu as pessoas estavam falando em talvez cancelar a partida final.

Na hora em que demos o pontapé inicial, o campo todo era uma lama só. Esse dia foi louco. Nós começávamos a correr e nós caíamos pelo campo. Ninguém no nosso time conseguia ficar em pé. Mas de alguma maneira os jogadores da Portuguesa estavam bem. Eles ficavam em pé.

Eles tinham chuteiras de trava de metal. Aquelas que você pode usar na chuva.

Nossas chuteiras eram aquelas das mais baratas, com travas de borracha. Elas estavam todas gastas. Nós não tínhamos dinheiro para comprar as chuteiras mais caras.

E eu me lembro, naquele momento, de pensar algo tipo “não é justo… mas a vida continua.”

Mesmo assim, nós demos a vida para vencer aquele jogo. Mas nós acabamos perdendo por 4-2. Eu nunca vou me esquecer de ver a Portuguesa comemorando com o troféu. Foi uma lição muito boa para mim. Futebol é como tudo na vida. Não é justo. Então, você tem que dar um jeito, mesmo não parecendo justo.

Foi uma lição perfeita, porque os próximos anos da minha vida seriam muito difíceis. No Brasil, se você tem sonho de se tornar um jogador profissional, você geralmente está na Academia de um grande clube aos 12 ou 13 anos. Mas, por alguma razão, as coisas não estavam funcionando para mim. Eu fiz um teste no São Paulo Futebol Clube, e eles gostaram de mim, mas então me disseram que não poderiam me oferecer um quarto na Academia, que era muito longe da minha casa. Se eu fosse de ônibus para lá todos os dias, eu teria que largar a escola e minha mãe… hahaha… certamente não aceitaria isso. Ela era totalmente a favor da escola.

Eu devo tudo para minha mãe principalmente nessa fase da minha vida. Porque muitos garotos no Brasil, quando são de origem mais humilde, têm de começar a trabalhar quando fazem 14 anos de idade para ajudar a família. Eles não podem jogar futebol, ir para a escola e trabalhar ao mesmo tempo. Então, o sonho deles morre nesse momento.

Mas minha mãe… cara, ela acreditou em mim. Seja qual for a razão, ela acreditou. Ela falou para eu continuar, não importando o que eu tivesse que fazer.

Então, aos 13 anos de idade, eu comecei a jogar com os caras mais velhos na várzea.

OK – todos em São Paulo sabem do que estou falando agora (e provavelmente já começaram a rir). Mas para todos aqueles que não sabem do que estou falando, vou explicar.

A várzea é como o basquete de rua nos Estados Unidos, ou como a Liga semiprofissional de futebol na Europa. Os campos são todos esburacados e você joga contra os marmanjos – os caras casca grossa. A várzea é conhecida por ser de extremo contato físico. Tinha muita coisa pesada acontecendo no campo.

Eu nunca vou me esquecer de um momento…

Nós estávamos jogando uma partida importante contra um time grande. Eles sempre tiveram uma das melhores equipes da várzea, mas eles estavam fora da Liga por alguns anos por causa de algo que fizeram depois de um jogo, e eu não quero entrar em detalhes porque provavelmente tem criança lendo isso aqui

eu vou quebrar as tuas pernas se você tentar me driblar de novo”.

Então, esse era o primeiro ano deles de volta à Liga, e eles estavam jogando contra nós uma partida para classificar para um campeonato maior. Eu me lembro de todos os jogadores deles olhando para mim antes do jogo: “Quem é esse moleque? Isso é sério?”

E era sério!

Aos quatro minutos de jogo, eu driblei o melhor zagueiro do time deles e marquei um gol, e eu me lembro de todos eles olhando para mim, tipo “Ok, moleque, nós vamos fazer da sua vida um inferno”.

Foi a partir daí que eles começaram a me bater todas as vezes que eu tocava na bola. Eles ficaram muito loucos – como se eles tivessem vindo atrás de mim para me machucar. Tinha um baixinho no meio de campo deles que era conhecido por ser um valentão, e ele ficava me dizendo: “eu vou quebrar as tuas pernas se você tentar me driblar de novo”.

Então, eu peguei a bola… e o driblei novamente.

Foi um lance como na NBA. Quebrei a espinha dele. Deixei no chão.

Eles mais uma vez fixaram os olhos em mim como se fossem realmente me matar.

Mas… o que eu posso dizer? Quando eu tenho a bola aos meus pés, vivencio um mundo diferente. Então eu peguei a bola de novo e, sem olhar, dei um passe para um companheiro de time marcar um gol.

A torcida que acompanhava o jogo estava indo a loucura.

A partida terminou em 2-2, e nós vencemos nas cobranças de pênaltis. Eles ficaram revoltados. No apito final, o valentão virou pra mim e disse: “ Eu falei que ia quebrar as tuas pernas, moleque. Te espero no estacionamento”.

Ele estava sério. Foi tenso. Eu me lembro de pensar “já era… Eu posso não sair daqui.”

Mas, por sorte, meus colegas de time me protegeram. Todos eles ficaram em volta de mim e me levaram até o estacionamento, e só assim consegui chegar em casa em segurança.

Mas esse está longe de ser o fim da história. No Natal do ano passado, eu fui para casa para ver minha família, e tive de ir ao banco para resolver alguns problemas burocráticos. Fui pegar meu carro no estacionamento… e o cara que cuida dos tickets no guichê me deu aquela olhada, como se ele me conhecesse.

Ele devolveu o ticket.

Mas seguiu fixando o olhar em mim.

Então ele diz “Ei, garoto”.

Estou olhando para ele, tipo, Huh?

Ele diz: “Lembra de mim? Da várzea, mano! Eu ia quebrar as tuas pernas!”

E eu assim: Oh meu Deus. Eu não sabia o que ele ia fazer.

E então ele diz: “Cara, eu ia mesmo quebrar as suas pernas. Você acredita nisso?”

E eu tentando manter a tranquilidade, tipo: “Que isso, mano. Você não ia fazer isso, não. Eu sei que você só estava brincando”.

Mas ele segue afirmando: “Não, mano. Não. Eu ia mesmo quebrar as suas pernas. E agora você está jogando pelo meu time, cara! Eu te amo, mano! Eu não posso acreditar nisso. Você consegue imaginar se eu tivesse quebrado as tuas pernas?”

A gente riu, e eu tirei uma foto com ele.

Existe uma expressão no Brasil, e é a única forma de descrever o que aconteceu comigo. Minha vida mudou da água pro vinho. Cinco anos atrás, eu estava jogando na várzea, apenas tentando sobreviver, apenas tentando chegar num clube grande no Brasil. A várzea me deu uma boa perspectiva. Eu joguei com grandes jogadores que hoje são motoristas de ônibus, ou trabalham no supermercado, ou são pedreiros. E não foi porque eles não eram bons jogadores ou porque não se esforçavam. O que conta nessas horas é a sorte e a oportunidade. Algumas pessoas têm que ir atrás do seu sustento e não podem ficar correndo atrás dos seus sonhos.

Se eu não tivesse o apoio da minha mãe, eu provavelmente estaria no mesmo caminho desses outros jogadores da várzea.

Mas, em vez disso, eu tive a oportunidade de fazer um teste para o Palmeiras quando eu tinha 15 anos, e tudo decolou a partir dali. Acho que não consigo nem explicar. Foi como destino, de certa forma. Deus escreveu tudo perfeitamente.

Eu fiquei com o time júnior e assinei o meu primeiro contrato de verdade. De lá para cá, o tempo passou voando… Fui para o time principal, consegui me destacar e, para minha surpresa, cheguei até a Seleção Brasileira e pude participar dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Quando recebi a ligação, foi uma emoção inexplicável.

Para fazer você entender o que esse momento significou para mim… apenas dois anos antes, eu estava nas ruas do Jardim Peri pintando as calçadas de verde e amarelo para a Copa do Mundo de 2014. Os caras da vizinhança que desenhavam muito bem fizeram grandes murais – com os rostos dos jogadores brasileiros, como David Luiz e Neymar – e nós estávamos ajudando a deixar tudo aquilo colorido.

Esse torneio em 2016 foi bastante especial para os brasileiros, porque a medalha de ouro olímpica era a única conquista que o país do futebol jamais tinha vencido. Eu lembro que o peso daquele campeonato era muito grande – não apenas porque era no nosso país, mas pelo que aconteceu na última Copa do Mundo. Depois que nós não jogamos bem as duas primeiras partidas, a crítica ficou muito intensa, especialmente contra o Neymar. Eu realmente admiro o Neymar pelo modo como ele lidou com tudo isso e pela maneira que ele conseguiu liderar nosso time.

Antes do campeonato, eu era apenas mais um fã do Neymar, como tantas outras pessoas. Ele é um jogador de futebol incrível, que todo muito conhece. Mas ter a chance de saber quem ele é de verdade durante esse período…foi especial, por causa do jeito dele. A forma que ele trata todo mundo me surpreendeu bastante – porque mesmo no curto período de tempo que eu vivi no futebol, eu vi tantos caras que nem são grandes jogadores, que não ganharam nada, serem mascarados. Mas o Neymar trata todo mundo como se fosse irmão dele. Ele foi a grande razão pela qual a gente foi capaz de se unir e ignorar a pressão e jogar um para o outro.

Quando a gente ganhou a medalha de ouro, foi um momento incrível para o time, e também para o país. Antes dos Jogos, o Neymar fez uma tatuagem, e eu me inspirei nele para fazer uma parecida, porque realmente diz tudo o que isso representou para mim: uma criança pequena, que está de pé no fundo de um morro, olhando para as favelas, segurando apenas uma bola de futebol debaixo do braço e sonhando com seu momento.

Não sou somente eu, e não é apenas Neymar. São tantos brasileiros. E isso é o que aquele ouro significou pra gente.

Eu quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance para fazer parte da equipe da Copa do Mundo de 2018, e eu sei que há muita disputa para ver quem será convocado. Essa foi a grande razão pela qual eu decidi vir para o Manchester City. Eu sei que eu preciso continuar me desenvolvendo como jogador.

Eu vou dizer pra você, aqui é muito diferente do Brasil. Você não vê muito do sol… Cheguei a receber algumas ofertas para ir para outros clubes, de lugares mais quentes, por exemplo. Mas, para mim, a decisão de vir para o Manchester City tinha um peso maior por poder jogar sob o comando de Pep Guardiola.

Esta é minha primeira vez num país que é realmente muito frio e onde eu não falo a língua. É um desafio ser compreendido, e pode ser solitário nesse sentido. No entanto, quando Guardiola me ligou enquanto eu decidia para qual clube eu ia jogar, ele disse que estava contando comigo. Eu posso dizer que o Guardiola estava sendo verdadeiro – e no futebol isso significa muito.

Quando ele disse isso, eu não pensei duas vezes. Minha decisão estava tomada. Era o City.

Mas antes de eu ir para o Manchester City, eu tinha uma última coisa a fazer. Eu tinha de encerrar um capítulo da minha vida.

Então eu voltei para o campo onde os Pequeninos jogam, com as chuteiras debaixo do braço, como quando eu tinha 9 anos de idade. Mas desta vez um pouquinho diferente. Eu tinha 250 pares de chuteiras realmente boas para os garotos.

Agora, quando qualquer um dos grandes clubes jogar contra o Pequeninos num campo molhado, é melhor tomarem cuidado. Daqui em diante, não tem mais essa desculpa.

Sabe, não vou mentir. Quando eu vim para o Manchester City pela primeira vez, eu me senti perdido. Minha mãe estava indo e vindo da Inglaterra para o Brasil, e era extremamente difícil ficar longe dela, porque ela é tudo para mim. Ela foi ao mesmo tempo pai e mãe para mim quando eu estava crescendo. Me lembro que, quando estava jogando pelo Pequeninos, eu via algumas crianças depois dos jogos com os seus pais, e eu estava sozinho. Aquilo foi pesado para mim. Me marcou. Mas agora, quando alguém pergunta do meu pai, eu digo que minha mãe é meu pai. Ela fez tudo por mim e pelos meus irmãos.

Ela foi outra heroína desconhecida.

Quando eu faço um gol, mesmo quando ela não está no estádio, eu “pego o telefone” e falo com ela.

Quando a gente era criança, a minha mãe ficava ligando o tempo todo para descobrir onde é que eu estava, e se eu não atendesse, ela começava a ligar para todos os meus amigos. Era apenas uma piada entre a gente.

“Alô, Mãe!”

Quando eu pego o telefone é em homenagem à minha mãe e à nossa luta. Mas também é uma homenagem aos meus amigos e à minha família, e também ao técnico Mamede e a todas as pessoas no Brasil que me ajudaram a chegar até aqui.

Eu sempre fui um sonhador. Mas mesmo nos meus melhores sonhos, eu não pensei que estaria vivendo o que estou hoje. Sei que existem muitos garotos que vão pintar as ruas, que não jogam por um grande clube e que as pessoas têm dito que eles não vão conseguir chegar lá.

Eu diria para eles nunca pararem de lutar.

Quatro anos antes de eu andar pelo túnel do estádio Etihad, eu ainda estava jogando na várzea – e os caras estavam falando que iam quebrar minhas pernas num estacionamento.

Sua vida agora pode ser apenas sanduíche de mortadela com refrigerante.

Mas se você continuar a correr atrás dos seus sonhos, cara… quem é que sabe o que pode acontecer?!?

A água pode se transformar em vinho…

Então, para todas as crianças. Se você chegou até aqui na minha história, eu tenho uma mensagem final, e isso é realmente importante.

Jamais parem de sonhar.

Ah, façam mais uma coisa por mim. Liguem pra Mãe. Ela sente saudade.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Obrigado Adrien, boa sorte e desculpa lá qualquer coisinha

Tudo indica que a transferência de Adrien para o Leicester se irá concretizar, faltando "apenas" a validação por parte da F. A. e FIFA. Falta igualmente confirmar os números envolvidos que, situando-se entre os 25 milhões e 30 milhões de euros me parece não só aceitável como um bom negócio. Inferior, bem sabemos, aos 35 milhões da época passada mas, como bem sabemos, a água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte. É uma sorte até que volte a passar outra em quantidade aproximada...

O Sporting perde assim o seu capitão e um profissional de mão cheia, cuja dedicação e empenho permitiram superar todos os maus augúrios e sentenças condenatórias que tantos se apressaram proferir sobre as suas qualidades e carreira. Até mesmo o mau planeamento, da qual a dispensa para Israel é a caricatura perfeita de má gestão.

Não me surpreende que muitas das piores criticas sejam precisamente de adeptos do seu próprio clube. Os Sportinguistas continuam a ter uma relação estranha com os jogadores da sua Academia, que depressa passam de bestas as bestiais e vice-versa. Por ser um bom profissional cobra-se-lhe o facto de ter cumprido o seu dever como atleta ao serviço da Académica. Por querer o melhor para a sua carreira (jogar num dos melhores campeonatos do mundo de clubes) e por querer oferecer a si e aos seus um futuro melhor acusa-se de só pensar em dinheiro. 

Bons são quase sempre os outros que fazem precisamente o mesmo com os seus clubes de origem para poderem jogar pelo Sporting. E quando se vão embora levam sempre um obrigado.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Matheus Pereira & Francisco Geraldes: como não gerir o talento

Matheus Pereira e Francisco Geraldes são dois exemplos de como atrasar a progressão e afirmação de um jogador. O jogador de origem brasileira é apontado frequentemente como possuidor de grande talento e potencial mas até agora as possibilidades de o demonstrar e afirmar ficaram-se por jogos no escalão secundário e uns breves fogachos na equipa principal. Com 21 anos de idade tem uma reduzida experiência competitiva ao mais alto nível, o que dificilmente lhe proporciona situações que o desafiem e em consequência o obriguem a crescer. Vai finalmente poder rodar numa equipa de primeira divisão, algo que já podia e devia ter acontecido há pelo menos um par de anos.

Francisco Geraldes já teve essa oportunidade, que só não correu melhor porque lhe foi retirado o tapete de forma abrupta debaixo dos pés. Mas os poucos meses em Moreira de Cénegos serviram para mostrar um jogador cheio de um talento muito escasso: a inteligência. É por isso que as suas acções com ou sem bola revelam quase sempre intenção e têm consequência. A ideia de que o jogador "não tem intensidade" só pode vir de quem não o seguiu com atenção no Moreirense e até perdeu a final da Taça da Liga. Melhor seria falarem de lagares de azeite, ou dos fogos, em que há sempre especialistas.

Só há uma forma de impedir a afirmação de um jogador como ele: não o deixar jogar, que foi afinal aquilo a que o clube o sujeitou nos últimos meses da época e também nesta pré-época. Tivesse ele a sorte de Picinni ou Matheus Oliveira... Veremos o que lhe vai ser proporcionado para o inicio desta época, é difícil de prever que possa ser pior do que teve à disposição até agora. Mas um jogador como ele não precisará de muito para pelo menos se destacar dos restantes, mesmo que o projecto de que fará parte não seja o que este momento da carreira exige. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

No day-after de mais uma Bola de Ouro, uma importante reflexão sobre a formação no Sporting

Ronaldo é o expoente máximo da formação do Sporting
No day-after da conquista de mais uma Bola de Ouro por um atleta formado no Sporting, parece-me fazer todo o sentido falar novamente sobre a formação do Sporting. Uma reflexão que é ainda mais oportuna num momento em que existem alguns sinais que justificam pelo menos a preocupação, exigem questões e respectivas respostas. Para tal elaborei um questionário muito simples, de quatro perguntas apenas (a bold), que André Carreira de Figueiredo* se disponibilizou para responder.

- Os resultados deste ano lançaram o alarme sobre a formação, que a recente não qualificação dos juvenis veio acentuar. Os resultados dos jogos, sobretudo os títulos, na formação são assim tão importantes ou deve ser feita uma leitura mais abrangente, como exibições, valores emergentes, etc?

Falar em "a melhor formação" é muito subjectivo e por vezes depende daquilo que é conveniente para os adeptos e "máquinas de relações públicas" valorizarem após uma determinada vitória ou derrota, mas há que ter em conta vários factores:

1) Produzir individualidades para a equipa principal, portanto, formar jogadores (e não colectivos) e fazer um aproveitamento dos mesmos no "período pós-formação", ou seja, quando terminam a sua época Sub-19.

2) Conquistar títulos para incutir aos jogadores desde cedo uma "cultura de vitória" e a capacidade de sobressaírem no contexto de um colectivo.

3) Formar homens pois, sem um desenvolvimento social e emocional adequado, muitos jogadores não desenvolvem a maturidade necessária ou uma personalidade forte que lhes permita sobreviver às "depressões" que podem estar associadas a um empréstimo fora da "casa mãe" ou de uma passagem prolongada pelo banco de suplentes ou pela bancada.

Em termos de aproveitamento de individualidades da sua formação na equipa principal, o Sporting tem tido indiscutivelmente a "melhor pós-formação" (e tem recebido justificadamente a melhor imprensa) nos últimos 15 anos, mas, há que ter em conta que é mais fácil um jovem conseguir entrar num XI sénior como o do Sporting do que num XI mais competitivo como é o do Benfica. Portanto, a aposta em jovens  por parte do Sporting nos passados 10-35 anos passa muito pelo facto de o Sporting ter quase sempre um orçamento mais reduzido que o do seu rival da 2ª Circular, e ter, na maioria das vezes, um XI titular menos competitivo na sua equipa sénior onde, portanto, é mais fácil os jovens conseguirem afirmar-se.

Há igualmente que ter em conta que os jovens da formação que o Sporting tem no seu plantel sénior são o resultado de um trabalho/investimento que vem de há muitos anos e que lentamente deu frutos, e não do trabalho desenvolvido nos tempos mais recentes.

Rui Patrício chegou ao Sporting há 17 anos descoberto pelo ex-Observador Técnico Sr. Artur Garrett, Nani chegou ao Sporting há 12 anos descoberto pelo Observador Técnico Sr. Carlos Braz, Cédric Soares chegou ao Sporting com 6 ou 7 anos de idade no final dos anos 90 quando o irmão mais velho (Kevin Soares) o trouxe para treinar, Adrien Silva chegou ao Sporting há 12 anos descoberto pelo Observador Técnico Sr. Gomes Ribeiro (que também descobriu Simão Sabrosa), William Carvalho chegou há 10 anos e chegou porque é um grande Sportinguista, pois tinha Bruno Maruta em sua casa com papéis para ele assinar pelo Benfica e William segredou ao seu então treinador (Ricardo Nascimento) no Mira-Sintra que preferia ir para o "seu" Sporting.

André Martins chegou há 12 anos descoberto pelo ex-observador técnico Coronel José Santos, João Mário Eduardo foi a Mãe dele a Srª Lídia Costa que o trouxe para o Sporting há 12 anos, Eric Dier foi a Mãe que o levou para o Sporting há 12 anos, Filipe Chaby é outro grande Sportinguista que foi descoberto para o Sporting pelo ex-Observador Técnico Sr. João Ruas há 9 anos. Francisco Geraldes é um jovem Sportinguista de 19 anos que está no Sporting há 12 anos.

Mesmo falando dos casos mais recentes de jovens que conseguiram algum espaço na equipa principal, o Carlos Mané está no Sporting há 14 anos, o Daniel Podence foi descoberto pelo Observador Técnico Sr. Carlos Braz no Belenenses, Tobias Figueiredo chegou ao Sporting há 10 anos, Ricardo Esgaio chegou da Nazaré há 11 anos e a avó dele vinha ver os jogos dele a Pina Manique e a Alcochete, Rúben Semedo, com idade Sub-16, foi observado pelo Mister Luís Dias num jogo de Juvenis A do "Fofó", onde eu também estava presente há 7 anos.

Mica Pinto chegou há 8 anos e jogou em pelo menos 3 posições (médio defensivo, avançado-centro e lateral esquerdo), Iuri Medeiros chegou há 11 anos, etc. Em suma, os atletas que hoje em dia vão surgindo da formação são o resultado de um "investimento" que foi feito há 6-18 anos nas estruturas de Prospecção e Formação.

Quando olhamos para um jogador temos que ter em conta dois aspectos, o seu valor desportivo actual e avaliar qual será o seu potencial a curto, médio e longo prazo. Enquanto o valor actual é relativamente fácil de aquilatar com a elaboração de um relatório técnico de avaliação, já o potencial a longo prazo depende de muitos factores, mas na minha opinião o mais importante é o psicológico. Por exemplo, depende da mentalidade dos atletas e como a mesma poderá mudar durante a puberdade, a personalidade dos seus encarregados de educação que poderão dar-nos uma indicação de como vai ser o jogador em termos de traços da sua personalidade, a potenciação física, técnica e psicológica que os profissionais da instituição poderão realizar com o atleta quer na Fase de Iniciação quer na Fase de Especialização, e hoje em dia também quando passam pelo Sporting B, etc.

Mas, não se pode confundir o valor desportivo ou o potencial com o momento de  forma, pois há jogadores ou equipas que podem ter más exibições, mas as mesmas serem uma simples anomalia ou causada por factores exógenos, questões de Locus de Controle Externo (sorte, azar, incompetência ou falta de seriedade de terceiros, etc). No entanto, se os jogadores e planteis têm qualidade e se o treinador é competente e profissional, e os adversários são de igual ou inferior valia, é natural esperarem-se vitórias, títulos, e não apenas a potenciação das individualidades mais promissoras.

Tendo dito isto, o rendimento da geração de 1996 (actuais juniores) ao longo dos últimos 2 anos não reflecte o real valor desse lote de atletas nem eles evoluíram o que seria perfeitamente razoável esperar deles nestes passados 21 meses. Não são uma geração fabulosa de jogadores, nunca foram e isso já era óbvio quando eram Infantis, mas são claramente jogadores em nítido sub-rendimento nestes últimos dois anos, sobretudo na presente época, mas quem conhece estes jogadores sabe que eles valem MUITO mais do que  isto, basta ver o seu historial entre 2008 e 2012. Em Janeiro de 2013 estavam à frente do Benfica, até há 2 anos nunca ficaram abaixo do 2º lugar quer em competições Nacionais quer em Distritais, inclusive foram campeões há pouco mais de 4 anos com o treinador Pedro Gonçalves. O “descalabro” verificou-se nos últimos 2 anos, é factual e incontornável.

Sempre achei que seria irrealista esperar o título nacional destes jogadores esta época, mas, era normal que se esperasse MUITO mais deste grupo de trabalho (e que obviamente envolve a estrutura) do que aquilo que têm produzido nos passados 2 anos e sobretudo na presente temporada. Não são "fracos" nem medíocres em termos de talento, mas realisticamente, o grupo (jogadores e não só) tem sido medíocres esta época, e bons jogadores entre 2008 e 2012 não desaprendem a jogar em 2013, 2014 e 2015. Há da parte dos "adultos" responsáveis que tirar ilações, algumas delas particularmente introspectivas.

Relativamente à geração de 1998 (actuais juvenis), sempre fui da opinião que eram uma boa geração, mas não excepcional (e alertei há 18 meses que não havia espaço para deslumbramentos), e na qual eu via talvez 3 jogadores (Telmo Costa no início de época falou em 5 ou 6) com capacidade para chegar aos seniores a seu tempo. Os restantes eram incógnitas, pois a sua evolução para mim dependia de demasiados factores. É verdade que foram campeões nacionais com relativa facilidade há 2 anos, mas, como se costuma dizer, "só podemos vencer quem aparece à nossa frente", ou seja, a equipa era melhor que os adversários, mas, nunca achei que fossem uma "Super-Equipa" como muitos julgavam pelos resultados (e título), enquanto eu me limitava a avaliar a qualidade e potencial a longo prazo dos jogadores.

Foi uma equipa que sofreu alguma “delapidação” nos passados 2 anos e que em parte por causa desse "empobrecimento", ao fim de 3 anos consecutivos a conquistar títulos, acaba de assinar a pior época alguma vez registada por uma equipa Sub-17 do Sporting na já longa história desta competição. Mas, não é por causa deste "fiasco" que este lote de jogadores de 1998 deixa desportivamente de valer menos do que valia há 6 meses, da mesma forma que para mim não valiam mais depois de serem campeões nacionais em 2013.

Esta época registou-se claramente algum sub-rendimento por parte destes jogadores, eles poderão arcar com alguma "culpa", mas nunca com toda. São um bom plantel, que não rendeu o que seria de esperar deles, mas, tal como com os de 1996, também não me parece que a culpa seja única e exclusivamente dos jogadores e equipas técnicas. Poderão haver muitos factores, desde quebra psicológica, mau ambiente de trabalho devido a alguma opressão social que possam sentir, falta de gratificação (questões económicas) comparadas com colegas, falta de motivação, falta de auto-confiança, falta de empatia para com quem os rodeia, desânimo, falta de organização (na equipa e fora dela), etc.

Se o único factor a ter em conta para a próxima época for a qualidade dos jogadores (em vez da equipa técnica, estrutura, condições de trabalho, acompanhamento, etc) não acredito que a equipa de Juniores seja muito mais competitiva que as dos últimos 2 anos, pois ao longo dos passados 6-8 anos a Geração de 1997 não deu indicações de que fosse superior à Geração de 1996.

Quanto à Geração de 2000 que presentemente competem nos Sub-15 e terminaram a 1ª Fase 9 pontos na retaguarda do Benfica, se formos a julgar unicamente pela qualidade dos jogadores, temos claramente qualidade para sermos campeões nacionais. Mas, exactamente o mesmo podia ser dito (e foi, por mim) sobre a Geração de 1999 que na época transacta passou pelos Iniciados A e nada conquistou. E em ambos os casos estamos a falar de gerações campeoníssimas, com 7 títulos conquistados antes de chegarem aos Sub-15.

-  Estes resultados são meramente circunstanciais e coincidentes ou são  sinais que evidenciam problemas?

De forma alguma são circunstanciais ou fruto do azar. Eles evidenciam problemas de ordem estrutural, organizativa e de falta de competência, experiência e sensibilidade em posições chave, sobretudo na gestão dos recursos humanos. Claramente, as Gerações de 1996, 1998 e 1999 foram todas elas afectadas nos passados 2 anos. É uma questão estrutural e que está relacionada com questões de competência, experiência e sensibilidade para o trato com os jovens, desorganização, excessiva acumulação de  cargos, alguns deles por pessoas de competência "amadora", e isto resulta de dois factores: a menor folga orçamental e a má/insensata gestão de recursos humanos.

- Quais são os problemas que identificaria como sendo específicos de cada escalão e quais os que resultam da própria organização?

O Sporting necessita de um Director Geral da Formação que conheça o meio em que se movimenta, que conheça os jogadores e treinadores (dentro e fora do Sporting), que seja sobretudo um agregador de competências, que saiba liderar, que saiba criar e gerir uma dinâmica social que permita extrair o máximo potencial profissional de todos os seus colaboradores, e não obstante ser ele o líder máximo, que dê valor à opinião das pessoas competentes que o rodeiam. As Hiperlideranças “asfixiam” quem as rodeiam, e só funcionam quando o Hiper Líder é alguém de inquestionável competência.

O Sporting necessita de um Coordenador Técnico da Formação que para além da competência possua capacidade de liderança (e algum carisma) para se impor e ser respeitado pelos seus superiores hierárquicos e consequentemente conquistar a sua autonomia dentro da estrutura.

O Sporting tem que apostar nos melhores treinadores, nos José Limas, nos Pedros Gonçalves,  nos Tiagos Capazes, nos Tiagos Fernandes, nos Nunos Lourenços (é inconcebível que esteja a treinar os Sub-13 quando tem mais capacidade e experiência do que alguns em Alcochete), os Pedros Pontes, etc. Tem que ser capaz de atrair os Brunos Lages, os Luíses Nascimento, talvez um Luís Araújo, de trazer de volta o Bruno Freitas, de potenciar um Bernardo Bruschy, de ir buscar as 4 ou 8 pedras basilares que lhe permitam reerguer o seu Departamento de Recrutamento para os níveis em que estavam em 2005-2007, etc.

Relativamente ao Professor João Couto que agora regressa ao Sporting, gostaria de dizer algumas coisas. É um amigo, é um Sportinguista com "S" grande, é um Homem com "H" grande e, em condições ideais, é um treinador muito acima da média.

O Professor João Couto foi Professor de Educação Física na minha velha Alma Mater, o Colégio São João de Brito, é alguém que foi campeão nacional de Juvenis duas vezes pelo Sporting (em 2004/05 com a geração de 1988 e em 2005/06 com a geração de 1989), bem como campeão nacional de juvenis pelo Benfica em 2007/08 com a geração de 1991.

Mas, do passado vivem os museus, e o Professor terá que demonstrar nestes novos tempos, com outros constrangimentos (orçamentais e não só) e com outros jogadores, o que consegue fazer. Na globalidade ele é um grande reforço, não apenas pela sua qualidade enquanto treinador, mas igualmente como ser humano, é uma pessoa afável, amiga dos jogadores, disciplinador quando necessário, é um bom psicólogo, e é um Mister que sabe ter os jogadores com ele.

Espero que os Sportinguistas não queiram fazer do João Couto um "São João", ele é em condições normais INQUESTIONAVELMENTE uma mais-valia, mas ele sozinho não fará milagres. Esqueçam isso, ele não tem nenhuma varinha mágica, ele é apenas mais uma peça (neste caso, uma boa peça) na engrenagem, mas os Sportinguistas não se podem esquecer que os Joões Coutos e os Luíses Martins foram campeões com gerações de jogadores muito acima da média, não foi com jogadores medianos nem com coordenadores medianos.

O João Couto tem qualidade, mas necessita igualmente que lhe dêem qualidade para ser trabalhada e necessita de estar rodeado na estrutura de outros elementos de qualidade. Para mim, o Professor João Couto é indiscutivelmente uma referência, tal como é o Mister Luís Martins, o Mister Bruno Lage, o Mister José Lima, e outros que também têm muita qualidade profissional e humana, mas que infelizmente nem sempre recebem o reconhecimento que tanto mereciam.

- Quer apontar algumas medidas de curto prazo que tomaria para devolver alguma normalidade já na próxima época a este sector tão querido dos Sportinguistas?

Muitas vezes se tem falado que "o Sporting forma bons jogadores, mas não forma bons homens" e em relação a isso gostaria de dizer o seguinte, que tanto uma formação como a outra não é complicada de se atingir, desde que os jovens tenham em seu redor os profissionais e as personalidades certas.

Como se formam os bons jogadores?

Antes de mais, é necessário ter boa matéria prima e é aí que entra um bom Departamento de Recrutamento e cujo trabalho (bom ou mau) nunca pode ser descurado e que pode ter repercussões (positivas ou negativas) que só se sentirão 5-12 anos no futuro. Tendo já jovens talentos, para formar bons jogadores é imperativo essencialmente ter os melhores treinadores, os melhores nutricionistas, os melhores especialistas em treino de força e em Prevenção/Reabilitação de lesões, os melhores psicólogos e as melhores infra-estruturas. É tão simples quanto isso, os melhores nas suas respectivas áreas para potenciar a melhor matéria prima aplicando-lhe as três traves mestras; o Treino, a Nutrição, e o Repouso.

Como se formam os bons homens?

Quando um jovem do sexo masculino entra na adolescência está numa fase em que a sua personalidade se começa a afirmar, e a sua personalidade será um reflexo das pessoas que o rodeiam. Todos os jovens necessitam de um forte exemplo masculino (o Pai) e um forte exemplo feminino (a Mãe) nas suas vidas, mas quando os jovens passam muito tempo longe dos encarregados de educação, é importante que tenham em seu redor homens sérios, homens leais, homens corajosos, homens íntegros, homens trabalhadores, homens sociáveis, todos eles valores importantes que os jovens possam assimilar.

Agora, se um jovem entre os 13 e os 19 anos estiver rodeado de homens introvertidos, intelectualmente desonestos, cobardes, nervosos, ansiosos, bajuladores, ordinários, sexistas, tabagistas, alcoólicos, narcisistas, etc, obviamente que esses maus exemplos mais do que provavelmente irão afectar negativamente o desenvolvimento da personalidade do jovem.

Isto aplica-se a qualquer colaborador que possa entrar em contacto com os jovens atletas, mas focando-me mais agora nos treinadores, os atletas precisam de treinadores que para além de competência e profissionalismo, precisam que esses treinadores sejam homens exemplares, pois quer tenham consciência disso ou não, esses treinadores têm nas mãos uma enorme responsabilidade, pois estão a ter um profundo impacto na formação da personalidade desses jovens.

Eu prefiro que atletas entre os 7 e os 12 anos sejam acompanhados por psicólogas e de preferência psicólogas relativamente jovens, com idades compreendidas entre os 25 e 35, e que para além da ciência da psicologia, que venham igualmente dotadas de humanismo. Mas, para acompanhar jogadores adolescentes ou adultos prefiro que esse acompanhamento seja feito unicamente por psicólogos. Não faz qualquer sentido um jogador de 14-17 anos andar a ser acompanhado por uma mulher de 20-35 anos, para mim isso é uma "farsa". A capacidade de empatia é reduzida, e as psicólogas nunca poderão nem deverão tentar assumir o papel pouco ético de "mães substitutas".

Quando falo em psicólogos e psicólogas, estou obviamente a falar dos melhores e não de profissionais medianos ou medíocres, pois esses apenas representam mais um nome e mais um "peso" na folha salarial e pouco ou nada têm a oferecer em termos de contribuição para a formação do homem ou do atleta. Se alguma coisa, estarão a acrescentar o nome “Sporting Clube de Portugal” ao seu CV, para que mais tarde possam tentar monetizar essa experiência acumulada  ao serviço da instituição.

Que fique claro que considero que existem boas psicólogas e com capacidade para lidarem com adolescentes do sexo masculino e com homens mas, com o devido respeito, essas na sua maioria são profissionais com 25-30 anos de carreira. Estamos a falar das melhores, portanto, profissionais que devido ao seu talento e experiência já possuem capacidade para entender a psique masculina de um adolescente.

Tendo dito isto, continuo a acreditar que o "Psicólogo Primário" deve ser sempre o treinador, e esta é uma área em que obviamente alguns treinadores têm maior sensibilidade do que outros, e que tem tanto a ver com conhecimentos adquiridos em Pós-Graduações em Psicologia, como tem a ver com a própria personalidade dos treinadores, pois há quem tire todos os cursos possíveis sobre Psicologia ou Psiquiatria, mas falta-lhes o humanismo ou as competências sociais necessárias para conseguirem compreender os seus “pacientes“.

Acredito igualmente que os jovens mais do que sessões de psicanálise enfadonhas e intrusivas ou de "elogios gratuitos", deviam ter a oportunidade de participar no maior número possível de actividades sociais e culturais. Na adolescência necessitam sobretudo de socializar, de fazer  amizades, de arranjarem namoradas e de aprenderem por experiência própria a controlar as suas emoções, para evitar que mais tarde sejam adultos que sofram de desequilíbrios ou descontroles emocionais que, muitas vezes são interpretadas como sinal de imaturidade e revelam-se como um obstáculo intransponível para a sua afirmação no futebol ao mais alto nível. Estamos a tentar formar homens e não "robots" anti-sociais.

A medida primária que tomaria seria a criação de uma estrutura capaz de governar a Formação e Prospecção do Sporting, uma estrutura que reuniria competências diversas e que tornaria a  estrutura mais flexível, moderna e pedagógica, com capacidade de se adaptar às contingências da Formação e Prospecção moderna, com gestão substancialmente mais lúcida, democrática e meritocrática dos recursos humanos disponíveis, e o desenvolvimento de uma verdadeira estratégia de optimização do Sporting B como plataforma competitiva intermédia.

Para que isto fosse possível seria necessária uma reestruturação de recursos humanos que envolveria a dispensa de vários colaboradores que não estivessem 100% comprometidos com o espírito do novo projecto, e seria igualmente necessária a entrada de profissionais de inequívoca competência e experiência nas áreas onde seriam chamados a intervir.

Post-Scriptum: O Sporting necessita rever o seu projecto "Férias Academia". É certo que o Sporting encara esse projecto mais pela vertente comercial, e os jovens que o frequentam mais pela vertente social, ou seja, nenhuma das partes está necessariamente interessada em formar jogadores ou em incutir bons hábitos que permitam a um jovem aspirar a ser jogador, mas, é inaceitável que alguns dos treinadores responsáveis pelos treinos estejam obesos (não estão gordos, estão obesos, e alguns nem 30 anos devem ter).

Há igualmente que ter maior atenção à forma dos jovens quando executam os exercícios durante os treinos de modo a evitar lesões. Mas o pior, é sem dúvida a alimentação que permitem a essas crianças e adolescentes; pequenos-almoços com Chocapic e Coca-Cola, almoços com bifes de vaca "encharcados" de molhos e acompanhados de batatas fritas e doces, e jantares em que podem consumir doses industriais de hidratos de carbono (será que isto os conduzirá a uma boa higiene de sono?), em suma uma alimentação péssima a todos os níveis e que pode ajudar a tornar esses jovens em futuros diabéticos quando atingirem a meia-idade. Irresponsável e inaceitável.

Saudações Leoninas,

André Carreira de Figueiredo.

*André Carreira de Figueiredo é o director do jornal desportivo online "Academia de Talentos e que há vários anos acompanha a formação do Sporting.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Formação: de Daniel Carriço a Eric Dier*

*Este artigo foi escrito para o A Norte de Alvalade por André Carreira de Figueiredo, jornalista, que acompanha há muitos anos a formação do Sporting, responsável pelo projecto Academia de Talentos e hoje director do sitio Noticias de Futebol.




Lembrando Daniel Carriço

Em tempos (há 8 anos) Daniel Carriço era a maior certeza na Academia de Alcochete. Como jogador tinha sido Campeão Nacional de Iniciados, Juvenis e Juniores, e para além dos títulos, era um jogador claramente acima da média e o seu comportamento fora dos relvados era igualmente motivo de orgulho na Academia.

Eu sinceramente, nunca fui um grande adepto do Daniel Carriço enquanto jogador, enquanto pessoa nunca fomos muito chegados e eu respeito isso.

Eu penso que muitos adeptos hoje em dia olham para um Júnior ou até para um atleta Sub-17 e dizem que ele vai ser atleta para a equipa principal. Eu penso que se pode pensar muita coisa, pode-se desejar muita coisa, mas, saber no nosso íntimo que este ou aquele vai ser jogador de certeza, bom, isso na última década só o "senti" duas vezes, uma foi com o Eric Dier em idade Sub-13 e outra foi com o João Mário Eduardo em idade Sub-14. Aliás, disse-o nessa altura, que João Mário um dia iria ser Capitão da Selecção Nacional A, era completíssimo.

Quase todos os restantes jogadores, posso ver neles estas qualidades, estes "defeitos", este talento, aquela mentalidade, e é possível tentar adivinhar, mas raramente com certezas.

A forma como os adeptos dizem que este ou aquele atleta Sub-17, Sub-18 ou Sub-19 vai ser craque, fazem-me lembrar a forma como alguns atletas no Futebol Americano a nível universitário fazem carreiras fabulosas, conquistam o troféu Heisman, mas depois, quando fazem a transição para a NFL, muitos apercebem-se que estão num mundo diferente, em termos de intensidade de jogo, em termos de cultura táctica, em termos de capacidade de leitura de jogo, e em termos de "skills" que nunca necessitaram a nível universitário, mas que subitamente são necessários para sobreviver na NFL. O que aconteceu a Tim Tebow, o que irá acontecer a Johnny Manziel, etc?

Quem fala da NFL, pode igualmente falar de Basquetebol a nível universitário onde um Michael Wiggins, um Jabari Parker, um Julius Randle, um Doug McDermott ou um Joel Embiid todos eles podem ter carreiras fulgurantes, mas ninguém sabe como o seu jogo se irá transferir para a NBA.

Irá a idade de McDermot colocar um limite na sua evolução? Será Wiggins apenas um bom atleta? Será Parker apenas um jogador fisicamente mais forte que os universitários mas que na NBA perderá essa vantagem? Há muitas variáveis e diferenças entre a Formação (ou Universidade) e os Profissionais.

É crucial criar plataformas que permitam uma adaptação entre as duas realidades competitivas. Em Portugal criaram-se as equipas B, enquanto na NBA, obrigam agora os atletas a cumprirem pelo menos um ano de basquetebol universitário antes de fazerem a transição para a NBA.

Relativamente a Carriço, recordo-me bem da sua última época na Formação em 2006/07. Era (e continua a ser) um grande Sportinguista, era um grande capitão (tal como o tinha sido nas Selecções Nacionais e Distritais), estava sempre em excelente forma física, dava sempre tudo o que tinha. Mas, confesso, sempre olhei para ele com grandes dúvidas em relação ao futebol profissional.

Nesse final de época, a defesa era constituída por João Gonçalves, Daniel Carriço, Marco Lança e Tiago Pinto, e dos 4, Carriço era o melhor na Formação e aquele que parecia reunir mais qualidades para singrar nos seniores. Mas... não era particularmente alto (estive várias vezes ao seu lado, e a minha estimativa é de que ele teria 1,81), era por vezes excessivamente impetuoso nas faltas e cortes que fazia, e por último, achava-o demasiado ansioso a jogar, ele dava tudo o que tinha, mas por vezes num misto de garra e de desespero. Um líder (seja ele o Capitão ou o Treinador ou o Presidente) nunca pode mostrar ansiedade perante os seus comandados. Muitas vezes me questionei como reagiria Carriço nos seniores onde indubitavelmente perderia mais jogos do que na Formação.

A adaptação de Carriço aos seniores foi razoável, primeiro foi emprestado (juntamente com João Martins) ao Olhanense, onde alegadamente, Álvaro Magalhães terá dito que Carriço nunca seria central na vida. A segunda metade de 2007/08 foi passada no AEL Limassol onde se afirmou e rapidamente se tornou um ídolo.

Em 2008/09 esteve no Sporting, onde debaixo da estabilidade emocional de Paulo Bento e a liderança forte de Filipe Soares Franco, Daniel Carriço finalmente num palco grande teve a oportunidade de mostrar o seu valor e diria que esteve bem, não foi fabuloso, mas com 20-21 anos de idade assinou uma bela época.

Entre 2009 e 2013 o Sporting mergulhou nas trevas sob a liderança fraca e instável de José Eduardo Bettencourt e de Luiz Godinho Lopes. Liderança fraca essa que permitiu a utilização de 11 (ONZE!!!) treinadores diferentes no espaço de 4 anos.

Depois de 2009 o Sporting perdeu muita da sua competitividade desportiva, e o ainda jovem Daniel Carriço sofreu com isso. A partir de 2011 começou a sofrer ainda mais com a chegada de novos jogadores. Até que em Janeiro de 2012, Carriço saiu por uma bagatela para o Reading, tinha batido no fundo (e o Sporting também).

Claramente, houve um Carriço em 2008/09, uma versão inferior em 2009-2011, e uma versão "triste" em 2011/12.

Muitas vezes me questiono se Bettencourt e Godinho Lopes terão arruinado Daniel Carriço ao destruírem a estabilidade em seu redor entre os 21 e 24 anos, ou se Carriço era um jogador limitado? A verdade deve estar algures no meio destas duas hipóteses.

Não tenho dúvidas de que Carriço foi muito prejudicado pela ante-penúltima e sobretudo pela penúltima administração do Sporting que durante 3 anos, não lhe proporcionaram um ambiente apropriado para a sua evolução. Mas, confesso que tenho algumas dúvidas de que Carriço atendendo às suas limitações (supramencionadas) se seria capaz de ser titular no Sporting desta última época.

Daniel Carriço foi adaptado a "trinco" e tem obtido algum sucesso ao serviço do Sevilha. É verdade que não se afirmou plenamente ao serviço do seu Clube do Coração, é verdade que teve azar com os dirigentes e estruturas que teve em seu redor, mas, suspeito que para Daniel Carriço... simplesmente não estava destinado a ter sucesso em Alvalade. Daniel Carriço não tinha (e não por culpa dele) qualidade suficiente para ser titular num Sporting que quer lutar para ser Campeão.

Quem sabe (eu não sei), se calhar daqui por dois ou três anos até perceberemos que foi curiosa a utilização dos nomes de Daniel Carriço e de Johnny Manziel neste texto, pois eles possuem algumas características em comum.

Melhor que Carriço é Eric Dier, e quando digo melhor, não estou a querer dizer que Dier seja melhor que Carriço em todos os aspectos, mas na globalidade, Eric é o melhor central formado no Sporting nesta última década.

Há 6 meses que pressinto que Dier está para o verão de 2014 como Tiago Ilori esteve para o verão de 2013, mas espero estar enganado. "Culpados" há muitos, há o jogador, há o seu pai, há a Sporting SAD, mas à margem de todos esses "pormenores" dos quais ninguém se lembrará no futuro, está um jogador de enorme qualidade, e que infelizmente estagnou durante os últimos 13 meses.

Eric Dier tem potencial para ser central de nível mundial, mas ele precisa do Sporting para lá chegar, da mesma forma, que e o Sporting precisa de o manter para o ajudar a chegar a esse nível. Se e quando Dier atingir um determinado patamar de excelência, o Sporting poderá tirar partido de todas as recompensas desportivas e económicas que estiverem ao seu alcance do atleta.

Há quem diga que a Sporting SAD não vende os jogadores que deseja manter, e essas mesmas pessoas dizem antes que o Sporting ou deixa os jogadores sair porque não os queria, ou então, que os vendeu (em vez de os perder).

É importante clarificar que há casos e casos, e muitas vezes, os adeptos agrupam tudo, confundido jogadores dispensados pelo Sporting com jogadores que se recusaram a ficar no Sporting.

Para quem diz que o Sporting não queria este, ou que não perdeu aquele, mas sim que o vendeu... nem sempre são esses os casos, pois houve situações em que o Sporting negociou durante 4-6 meses para manter os jogadores e os jogadores recusaram-se a ficar, enquanto noutros casos, o Sporting não vendeu os jogadores por vontade própria, vendeu-os porque não tinha outra escolha, ou os vendia, ou iria perder esses mesmos jogadores meses depois. Não negociou essas vendas a partir de uma "posição de força".

Tanto no Futebol Profissional como na Formação, há vários jogadores descontentes nestes últimos 13 meses, e o dinheiro é uma das razões desse descontentamento, mas está longe de ser a única. O Sporting pode não ter mais dinheiro para dar aos seus atletas e funcionários, mas pode melhorar a relação que tem para com eles de outras formas. Profissionalmente, depois do dinheiro, não há nada mais importante do que o respeito, a confiança e a lealdade.

Saudações Leoninas.

André Carreira de Figueiredo (ACF).

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Perseverança, Coragem e Ousadia a marca da Geração Academia

Portugal tem esta semana um dos mais importantes desafios de sempre da sua história quando encontrar nas meias-finais a toda-poderosa Espanha. Derrotar aquela que é  a actual campeã mundial, actual titular da competição e a grande favorita é uma tarefa que poucos acreditarão ser possível realizar. Mas "impossível" devia ser um vocábulo já abolido no futebol e de certeza que até os mais cépticos ou os que estão à margem do fenómeno futebolístico acalentam no seu íntimo uma secreta esperança de levar de vencida aquela que é talvez, a este nível, a grande potencia mundial. A questão do sentimento nacional também não pode ser ignorada, a nossa história foi construída a contrariar as probabilidades e os embates com os vizinhos a leste têm assumem sempre um carácter muito particular para nós.

Com pouca ou nenhuma matéria de fundo sobre o tema na imprensa nacional, não passou despercebido lá fora (pelo menos em Espanha e em Inglaterra) o facto da selecção portuguesa ter na sua composição uma maioria significativa de jogadores oriundos da nossa academia. Da equipa técnica aos jogadores, (Patrício, Beto, Moutinho, Hugo Viana, Veloso, Quaresma, Varela, Nani, Custódio) dos quais Ronaldo é la creme de la creme, há um passado com raízes leoninas que não devia ser ignorado nem negligenciado. Estes dados são a confirmação, se preciso fosse, que estão ai os resultados de 10 anos de Academia Sporting. Academia que é hoje um selo de garantia , tendo-se tornado numa marca de valor seguro e inestimável. 

Estes dados são também o resultado do trabalho de uma equipa muito vasta, composta por figuras de renome e gente anónima, e cujo trabalho, que se renova a cada ano que passa, encontra agora o reconhecimento público. Por vezes é preciso esse reconhecimento para validarmos uma boa ideia e, se preciso fosse, os Sportinguistas encontram nesta selecção razões para se orgulharem do que o seu clube é capaz de fazer, construindo de raiz e do seu exclusivo esforço aquilo que muitos tiveram oferecido em bandeja.

São apenas 10 anos em que, pese os resultados indiscutíveis, erros foram cometidos. O mais evidente de todos está na dispersão de muitos desses valores por clubes com que temos que disputar pontos. Assacar esses erros apenas à gestão desportiva é uma forma de, como adeptos, nos desresponsabilizarmos pelas frustrações muitas vezes mal canalizadas e que levaram alguns desses atletas a procurarem outros projectos onde se sentissem mais seguros, mais valorizados e onde pudessem progredir profissionalmente. Não podemos mudar os últimos 10 anos mas podemos orgulharmo-nos deles e aprender com os erros cometidos para fazermos dos próximos 10 a década do regresso do grande Sporting. O futuro corre a nosso favor.

Terá que ser com muita perseverança, coragem e ousadia que a Selecção Nacional terá que enfrentar os nossos vizinhos espanhóis. Alguns dos jogadores que a compõem sabem de cor o que isso é, cresceram anos a fio a ouvir e a praticar o  "Esforço, Dedicação, Devoção e Glória" que temos na bandeira. Foi por acreditar que nada era impossível que há mais de 100 anos se fez do nada um dos maiores clubes entre os maiores. Há uma marca do Sporting nesta selecção e no futebol português. Como diz a música "Se outros calam, cantemos nós!". 

Nota: "Geração Academia" é uma expressão feliz que um leitor deste blogue deixou na caixa de comentários e que merecia não ser deixada cair. Para todos os Sportinguistas que estão nas redes sociais e estejam na disposição de divulgar esta importante marca Sporting aqui fica o desafio.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

As grandes decisões a grande velocidade

Há 4 dias escrevia que o Sporting dispõe do mesmo tempo que os restantes adversários para  completar o seu plantel, isto é, até ao final da época de transferências. Isto porque a porta do mercado está aberta nos dois sentidos, tanto podem entrar como sair jogadores. Mas é óbvio que o ideal, ou perto disso, seria que o núcleo duro do plantel tivesse já definido, o que está longe de acontecer. Há ainda decisões básicas que estão por tomar, como por exemplo o local de estágio e o número, locais e adversários dos jogos de pré-época. Terão que ser 12 dias supersónicos para deixar tudo em "su sitio". Julgo que em Alvalade ninguém o ignora.

Excedentários
Para lá dos jogadores que irão rodar nenhum dos casos considerados bicudos (precisamente os que mais peso têm na tesouraria) têm ainda solução conhecida e não são assim tão poucos como isso. Se, no momento da apresentação da equipa for constituída uma lista de excedentários, o que parece inevitável, a capacidade negocial do clube e o valor de mercado dos jogadores que a integrem descerá vertiginosamente.

Reforços
Julgo ser mais ou menos pacifico entender que, neste momento apenas Rodriguez e Schaars, pelo seu percurso, podem ser considerados reforços no imediato. Carrillo, Arias e Wolfswinkel não passam de "wannabe´s", mais os primeiros que o último. Faltam extremos, faltarão defesas, seguindo uma linha que parece ter traçado fim de Vuk, Torsiglieri, Maniche, Grimi. Falta preencher o lugar deixado vago por Liedson.

Nota: Não vi ninguém ainda dizê-lo mas não deixo de notar que o discurso de GL e de Domingos pareceu algo desencontrado. O presidente afirmou que "faltavam poucos jogadores", o treinador declarou que se "poderia mexer em todos os sectores" incluindo a baliza, o que não deixa de ser algo contraditório.

Decisões de fundo
Com a chegada de Luís Duque à Academia esperam-se decisões fracturantes com o passado. A revelação hoje feita que Vidigal assume a coordenação técnica é à primeira vista estranha pois não se conhecem especiais aptidões ou habilitações para o cargo. E advinham-se mudanças no comando técnico nos mais diversos escalões. Embora o tempo disponível seja maior é também já tempo de se começar a perceber qual é o desenho deste "novo projecto". Na altura das eleições declarei o meu receio por me parecer que se estavam a criar condições para "arranjar lugares para pessoas" e não "pessoas para os lugares", critica que foi transversal a quase todas as candidaturas

Acontecimentos recentes na Academia (a desqualificação de uma equipa e o castigo de um jogador, ambos de natureza administrativa, por desrespeito das regras) e outros que há pouco tempo vieram a público indicam que a reflexão e eventuais ajustamentos se tornam necessários. Por outro lado a presença de um considerável número de jogadores do clube nas selecções de formação indicam que nem tudo está mal.

Sopesar devidamente todas as variantes, perceber o que é bem feito e por isso para aprimorar, compreender onde estão os vícios, o conformismo, o que é necessário cortar  para tomar as decisões adequadas é a tarefa que se segue e que, a bem deste sector tão importante, não se deveria falhar. Contrariar o que o senso comum nos ensinou, - depressa e bem... - é também um grande desafio.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entradas e saídas: a porta já gira

Dayro Moreno parece ser a próxima aquisição para o ataque do Sporting. Idolatrado no Once-Caldas, e que os brasileiros apelidaram de "Neymar colombiano", é um jogador de 25 anos que no seu trajecto tem já 2 experiências com pouco sucesso no estrangeiro. Uma no Brasil, no At. Paranaense em 2007, e outra por 3 épocas no Steua de Bucareste, entre 2007 e 2010. Considerado um enfant-terrible, com gosto pela vida nocturna, parece ter acalmado após mudar do clube dos solteiros para os casados. Declarações entretanto tornadas públicas dão conta que o jogador procura agora a afirmação definitiva. Moreno é um descrito como um avançado móvel, que pode jogar quer ao centro, quer sobre as alas e que "deixa a pele em campo". 

Fabian Rinaudo teve uma actuação muito elogiada na sua chamada à selecção argentina. Do pouco que vi parece-me um cromo repetido na nossa colecção, o que implicará provavelmente saídas. Surpreende-me que a opção de Domingos não seja por um perfil mais próximo de Vandinho.

Rui Fonte foi adquirido em definitivo pelo Español de Barcelona, por 2 anos, dando assim sequência ao seu percurso nos "periquitos" de Mauricio Pochetino, que após o ter ido buscar à equipa B, lhe foi dando minutos de confiança na 1ª equipa. Percurso a seguir com atenção. Boa sorte Rui.

Pereirinha e Adrien parecem não dispor de espaço no Sporting de Domingos, não deixando de me intrigar que nem sequer mereçam observação por parte do treinador. Quanto a mim são 2 jovens valores que o Sporting deve manter com ligação ao clube e que na última época acabaram abandonados à sua sorte que, por sinal, não foi muita. Fala-se agora do empréstimo de ambos à Académica ou Marítimo. Pereirinha tem apenas mais um ano de contrato. Ambos são agenciados por Pina Zahavi...

Quem está de saída ou apenas de mudança de cadeira é Pedro Mil-Homens. A retirada da responsabilidade da Academia e a proposta da gestão do projecto internacional das academias assemelha-se a uma  "reforma dourada"que não creio que venha a aceitar. Com muitos anticorpos juntos dos adeptos pela sua origem benfiquista, a sua partida significa o fim de uma era. Do meu ponto de vista espero que esta mudança radique em critérios bem claros da procura da eficiência e não mera operação de cosmética.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Izmailov e outras renovações em curso

Simon Vukcevic e Marat Izmailov têm sido dos mais aclamados “reforços” dos últimos anos, mas tardam em justificar esse estatuto. Potencial não lhes parece faltar mas, cada um pelas suas razões, ficam sempre muito aquém do que prometem. Assim se chega, após o conhecimento da renovação do contrato do russo, a mais uma onda de entusiasmo por uma decisão que deve ter por base a famosa lei webster, que determina que  “é possível a ruptura unilateral de um contrato por parte de um atleta com mais de 28 anos, desde que tenha cumprido dois anos do acordo e o clube seja recompensado com o valor remanescente estipulado.” Era essa a situação que se encontrava o jogador russo pelo que me parece uma boa medida. Veremos mais adiante se a este novo contrato de Izmailov corresponde também uma verdadeira renovação, longe de lesões e casos que o afastem do rendimento consistente que tanto necessitamos, ou esta é apenas uma medida para acautelar mais-valias numa futura venda.

Em renovação está também o empréstimo obrigacionista contraído pela SAD do Sporting, uma medida que não me parece ter alternativa viável. Esta será, se não estou em erro, a 2ª renovação, após a sua criação ao tempo de Soares Franco. A (não)alternativa seria o Sporting entregar aos que investiram no produto financeiro os 20 milhões que lhe foram emprestados, dinheiro esse que o Sporting não tem e dele precisa para muitas outras rubricas urgentes. Ainda em relação à SAD é interessante verificar as 2 filosofias seguidas em paralelo: por um lado a manutenção dos “nomes do costume” João Mello Franco e José Maria Ricciardi, a repescagem de Salema Garção, todos para o Conselho Fiscal da sociedade, de Filipe Soares Franco para a Comissão de Accionistas e surpresa da abertura da Mesa da A.G. a 2 elementos de listas concorrentes: Marcelo Rebanda, membro dos corpos sociais de Bettencourt e integrante da lista de Dias Ferreira, e de Maria de Fátima Abrantes Mendes, esposa do candidato Abrantes Mendes.

Acompanhei ontem com algum interesse a participação de Eric Dier no derby Sub-18 de Liverpool que os “toffees” venceram por 2-0, tendo o marcador sido inaugurado precisamente pelo jovem Eric, num lance resultante de um canto. O meu amigo Pedro Varela faz também hoje referência à noticia, à qual chegamos graças a Ben Shave do Cahiersdusport.  Ainda sem perceber quais as razões que justificaram a venda de 50% do seu passe e o posterior empréstimo ao clube inglês, por razões já anteriormente faladas aqui e aqui, temo que se possa ser já tarde para reparar um erro colossal que é vender os ovos ainda dentro da galinha. 

A  Academia do Sporting vive um momento peculiar: por um lado vê premiado a sua capacidade de formar jogadores, ao ser convidado para participar no "Next Generation Tournament", no que dizem ser uma espécie de Liga dos Campeões dos pequeninos, por outro parece ver renovar o seu quadro de técnicos com a chegada de Beto, Sá Pinto (?) Vidigal, Manuel Fernandes e Nélson, ao mesmo tempo que se nota pelo menos no último escalão de formação uma derrapagem na qualidade do futebol jogado e um desperdício do talento à disposição. Por outro lado, e a confirmar-se este rumor, as alterações em Alcochete serão substanciais.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fonte de desperdício

O Real Madrid acaba de vencer um jogo bastante difícil na cidade condal, ao derrotar por 1-0 o Español jogando praticamente todo o encontro em inferioridade numérica, por expulsão de Cassillas logo aos 2m de jogo. Mas a razão desta meia dúzia de linhas é dar conta da estreia de Rui Fonte pela equipa de Mauricio Pochetino, aos 81m de jogo. Foram apenas 10m, sem oportunidades de mostrar muito mas é um facto digno de nota, lembrando também a estranheza que o empréstimo de um jogador que termina o vinculo com o clube no final da época, estando por isso livre para assinar por qualquer clube. 

Não sei se Rui Fonte poderá vir a ser ou não um grande jogador  e com 20 anos ninguém o poderá garantir ou desmentir. Mas esta estreia num dos campeonatos mais competitivos do mundo, numa das equipas sensação e que segue em lugares que dão acesso às competições europeias é pelo menos um atestado de confiança nas suas capacidades, que pelos vistos não foram reconhecidas pelo clube que o formou. Atendendo ao seu percurso nas selecções nacionais e quer no Sporting quer no Arsenal, onde esteve emprestado, era capaz de merecer outro cuidado. É que nem só de grandes jogadores se fazem as equipas de futebol e o Sporting tem dado provas de ser capaz de formar bons jogadores que acaba por não aproveitar a sua valia, acabando a gastar dinheiro em jogadores mais caros e nem sempre de igual valia. Uma fonte que parece tão inesgotável como desperdiçada.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pedido de esclarecimento

O Sporting Clube de Portugal comunicou hoje à CMVM o trespasse da Academia Sporting Puma à SPORTING - Sociedade Desportiva de Futebol, SAD (Sporting SAD). Aparentemente tudo ficou na mesma: foi do Sporting clube para o Sporting SAD. Mas apenas aparentemente, e pelo menos enquanto o capital da dita sociedade for detida em maioria pelo clube.

Para os mais atentos da vida do clube e para os conhecedores dos estatutos do clube, lanço o seguinte pedido de esclarecimento:

Se a Academia é um bem imóvel, e se sobre a alienação deste tipo de bens está disposto nos estatutos a necessidade de uma maioria de 2/3 dos votos *, em que Assembleia Geral ocorreu tal votação que autorizou a alienação da Academia?

E enquanto dão que fazer aos neurónios eu lembro a justificação dada há um ano atrás pela transferência da participação do clube na Sporting Comércio e Serviços, e em tudo semelhante a imensas outras operações do género já realizadas desde a criação da SAD, nas quais se inclui a justificação para a operação agora comunicada à CMVM:

Analisados os resultados práticos destas operações de nomes pomposos, mas que mais não são do que fugas para frente à procura de ganhar tempo, pergunto-me se os Sportinguistas também cuidam de forma tão imprudente e acrítica do património pessoal como parecem cuidar do património do clube. Isto é, seriam capazes de repetidamente entregar o destino dos seus bens a quem repetidamente o desbarataria?

*Dos estatutos do Sporting Clube de Portugal
Secção II – Assembleia Geral
Artigo 44º,
n) Autorizar, mediante proposta fundamentada do Conselho Directivo, a aquisição ou alienação de bens imóveis, bem como garantias que onerem bens imóveis ou consignem rendimentos afectos ao Clube, verificadas as demais condições estatutárias e regulamentares.
Ponto 3 - Salvo disposição em contrário da lei ou dos presentes estatutos, as deliberações da Assembleia Geral são tomados por maioria absoluta de votos dos associados presentes; todavia, as deliberações relativas à alienação ou oneração de imóveis ou de participações sociais exigem maioria de, pelo menos, dois terços dos votos…)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O que fizeste no verão passado?

É incontestável que o início de época, com a revolução no plantel, está a agradar aos adeptos. Quem não se lembra do que vivíamos há precisamente um ano? Se Bettencourt foi então eleito como o “presidente – adepto” é agora que actua exactamente como um vulgar e anónimo adepto faria se estivesse sentado no seu lugar. Tem toda a legitimidade para actuar como bem entende e com o que lhe parece ser o melhor para o Sporting. Mas, no exercício prático da política desportiva para o futebol – aquisições, vendas e dispensas e suas consequências na competitividade da equipa e implicações financeiras – tenho dúvidas, muitas até, que esta postura populista seja a que melhor defende o interesse do clube. Faremos as contas na próxima primavera, e nessa altura ainda nos lembraremos, estou certo, do que andamos a dizer, a fazer e a escrever no verão entretanto passado…

Tendo em conta este ambiente de relativa paz e satisfação dos adeptos Sportinguistas, não encontro razões para que muitos dos que se afastaram não voltem agora a Alvalade. Se no que diz respeito a aquisições o clube foi de encontro ao que exigiam – excluo obviamente aqueles que achavam possível competir com ingleses, espanhóis ou italianos no mercado de transferências, porque isso só pode ser entendido com a frequência de um curso de psiquiatria… - está na altura agora de cumprirem com a sua parte, respaldando a equipa na bancada. E se, e quando as coisas não correrem bem, imolar Costinha, Bettencourt ou até Paulo Sérgio pode até ser conveniente para o aliviar de muitas consciências e para esquecer a quota-parte de responsabilidade que cada tem nos resultados, mas será com certeza pouco honesto.

A verdade é que a estratégia mudou, como é reconhecido, lamentavelmente, pelo próprio director da Academia Sporting. A forma como revê a história recente, que apenas visa justificar a viragem, não tem em conta o que realmente aconteceu. Dizer que “a integração dos jovens da Academia não tem tido o sucesso esperado” é, além de uma falta de respeito com a verdade, descartar para cima desses mesmos jovens o odioso do falhanço desportivo dos últimos anos, alijando responsabilidades de quem contratou e desbaratou rios de dinheiro com jogadores que tinham por missão equilibrar em valor e experiência, ajudando a integrar esses mesmos jovens.Ou de quem nunca cuidou de contratar um treinador capaz para as exigências do Sporting.

Patricio, Carriço, Moutinho, Veloso, Djaló, Nani, só foram titulares porque Stojkovic, Gladstone, Tonel, Polga, Rochemback, João Alves, Tiuí, Purovic e tantos outros, só acrescentaram valor… ao passivo. Ao invés Nani, Veloso, Moutinho renderam perto de 50 milhões de euros. Ora, o que seria se a sua integração fosse bem sucedida? A estratégia mudou, é um facto, e a venda de Veloso e Moutinho serviu para financiar essa nova estratégia, porque eram os únicos jogadores a que o mercado reconhecia valor. O que Mil-homens não disse é que os nossos estagiários tiveram que entrevistar vários primeiros-ministros, aqui e na Europa, porque os que eram pagos para o fazer, ou faziam igual ou faziam pior.

Dito isto, estranho o silêncio que se instalou subitamente no seio de alguns sectores do clube e fico sem saber como o interpretar. Tirando uma declaração avulsa de Vicente de Moura, em que se revelava “inquieto e desapontado com o momento do clube”, não se conhecem quaisquer outras declarações que revelem pelo menos dúvidas ou receios. Serão isto tréguas, silêncios cúmplices, ou mera estratégia para ver no que “param as modas”?   Sou levado a pensar que é um pouco de tudo.

Nisto tudo há duas coisas que parecem preocupantes: que da excessiva contestação se passe ao unanimismo, tão perigoso um como a outra. E que não haja no Sporting quem corporize uma ideia coerente e autorizada sobre a política desportiva que melhor sirva o clube. E quem não fala agora não está legitimado para criticar depois. Como naquela célebre frase nos casamentos…

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