segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

B SAD 1 - Sporting 2: é possível ser feliz no lamaçal nacional


Nota: todas as fotografias são da autoria da @Idzabela. É expressamente proibida a modificação e/ou reprodução destas fotografias sem autorização expressa da autora. (clique nas imagens para ampliar)

Com clarividência e humildade Rúben Amorim sintetizou na perfeição onde começaram as dificuldades do Sporting: na preparação e definição da estratégia para o jogo. Mérito total de Petit, que estudou bem a nossa equipa e, com outros argumentos individuais, teria provavelmente saído com um ou mesmo três pontos da gamela onde se disputou o jogo.


A estratégia do treinador adversário expôs muitas das nossas debilidades: dificuldade em defender a toda a largura por inferioridade numérica, beneficiando do condicionamento de Palhinha e da pouca agressividade e reacção na hora de defender de João Mário. Castigou o nosso lado esquerdo defensivo, onde Nuno Mendes foi muitas vezes batido, expondo a verdura de Gonçalo Inácio. Do outro lado Neto ia escondendo as dificuldades com muita entrega mas muito desacerto. Coates tentava apagar os fogos como podia e sabia. 

Um dos mérito de Petit foi criar a incerteza na forma como atacava: ora através de lançamentos longos, explorando as costas de  uma defesa onde a falta de rins e velocidade são uma evidência, ora através de combinações que deixavam os médios azuis nas costas de Palhinha e João Mário. Tal ia criando instabilidade e alarme na nossa defensiva. 

Dessa forma o B SAD rapidamente anulou a vantagem madrugadora obtida num lance de manual de TT, autor de uma primeira parte excepcional na entrega ao jogo e no acerto na execução. Foi ainda um TT eficaz  - e revelando uma sagacidade rara para um miúdo que ainda é júnior - que se responsabilizou pelo fecho do marcador sem ter decorrido a meia hora de jogo, construindo uma grande penalidade.

Antes e depois do golo vitorioso foi a altura de explicar em desenhos em forma de defesas a importância de um bom e experiente guarda-redes. Depois da falha que contribuiu para o malfadado empate de Famalicão, Adán devia ter tomado nota na sua agenda a necessidade de mostrar as razões da sua aquisição, em detrimento da continuação da aposta em Max. Foi assim que se tornou, a par de TT, no homem do jogo. Foi para isto que veio, pois claro. Que assim prossiga, amén.

A segunda parte não permitiu tantas veleidades ao ataque azul mas também demonstrou como fica curta a manta quando não conseguimos segurar a bola e dessa forma readquirir a tranquilidade suficiente para explorar e criar dificuldades aos adversários. Pote está sem pilhas e sem elas não há magia. A sua ausência de zonas de decisão e a falta de bola a que tem estado condenado, por sagacidade do adversário e por menor fulgor próprio, tem-no conduzido a um solstício de inverno: a sua participação no jogo tem sido cada vez mais breve e menos iluminada. 

Tabata, tal como a generalidade do nosso jogo pelas laterais, foi quase completamente engolido pelos defensores e centro-campistas azuis. Salvou-se a sua participação no golo inicial e pelos breves apontamentos técnicos.Terá sido provavelmente um dos que viu o seu jogo mais condicionado pelo lamaçal nacional.

Falar em lamaçal torna obrigatória uma genuflexão e duas avé-marias ao padre Rui Costa. Claramente um árbitro do sistema ou há muito que já só apitaria jogos de solteiros e casados bêbados. 

A primeira avé-maria de bradar aos céus vai para o critério disciplinar abstruso. As regras são para cumprir desde o minuto zero até ao final. De outra forma se eu for apanhado a conduzir ébrio logo à saída da mesa da consoada não posso alegar que estava só a começar. Bem, alegar posso, mas... 

A segunda avé-maria vai para o critério em voga há muito tempo e que já nos valeu a perda de dois pontos em Famalicão e sabe-se lá se outros dois com o FCP: na dúvida é contra o Sporting. Isto é: na dúvida não marcou fora-de-jogo, o que de facto é muito duvidoso e no choque a culpa é do Adán. Um lance que passa incólume no VAR (O que se pode aceitar, o árbitro é que tem que decidir) e explica bem ao que esta gente vem.  

É claro que fomos felizes mas não menos felizes que outros rivais que também com muita sorte à mistura e que com muito mais argumentos não se revelam mais merecedores do que nós do lugar de líder. 

domingo, 20 de dezembro de 2020

Sporting 1- Farense 0: Antes de ser Boa Esperança o cabo foi das Tormentas



Nota: todas as fotografias são da autoria da @Idzabela. É expressamente proibida a modificação e/ou reprodução destas fotografias sem autorização expressa da autora. (clique nas imagens para ampliar

 O jogo com o Farense é apenas mais de um de muitos exemplos em que a Glória só vem depois de muita dedicação, esforço e a indispensável sorte. Esta, que tantas vezes nos tem perdido por falta de comparência ontem esteve presente num lance de penalty que caiu do céu, já com o pano a descer sobre o palco. É verdade que não foi merecida pelo lado da qualidade de jogo, mas sim apenas pelo esforço e pela perseverança.


Há muito mérito do Farense nas dificuldades sentidas. Pode-se dizer em seu desfavor que nunca quiseram muito mais do que o empate, mas é preciso ter em conta o seu trajecto no campeonato - muito difícil - agravado pelas dificuldades habituais de um recém-promovido. A isso deve-se somar a postura muito conservadora de Rúben Amorim, que nunca abdicou do controle total do jogo, apesar do tempo ficar cada vez mais escasso e o resultado permanecer imóvel em nosso desfavor.


A verdade é que a estratégia de Sérgio Vieira é bem capaz de ser uma espécie de mapa do tesouro para os adversários e um avisado guia de resolução de problemas para Rúben Amorim para o que nos espera. A receita parece ser simples: recuar as linhas para um bloco baixo, metendo assim areia entre as peças fulcrais da nossa engrenagem, impedindo a ligação entre si e, isolando-as, contribuindo para a sua baixa produção. Parar ou reduzir a produção do nosso sector mais forte e homogéneo - o meio-campo - é uma boa receita. Para o conseguir é preciso trabalhar muito e ser solidário - e isso o Farense conseguiu - e contar com a nossa menor inspiração e jogo sem grande risco, o que também aconteceu. 


Como sector mais recuado e os últimos com a missão de impedir as investidas à baliza de Adan, os defesas chegaram e sobraram para as encomendas. Com o posicionamento baixo do adversário não havia costas para explorar em lançamentos longos e fazer chegar a bola dentro do bloco quase nunca foi uma tarefa bem sucedida, por o adversário condicionar a recepção da bola de costas a João Mário, Pote e Nuno Santos. Os laterais não conseguiam dar profundidade por encontrarem sempre a passagem de nível fechada pelos extremos adversários.


Por isso não houve o ouro habitual dentro de Pote, João Mário não conseguiu ser maestro, Nuno Santos foi estóico, mas não teve quem o acompanhasse. As jogadas repetiam-se vezes sem conta, quase sempre com o mesmo resultado inglório. Pedia-se gente capaz de tirar da manga lances de magia que criassem desequilíbrios ou pressão suficiente para obrigar o adversário a recorrer à falta e, a partir de lances de bola parada, chegar ao golo. E assim foi, já quase no apito final.

Não vou discutir o lance do penalty. Ele divide as opiniões, uns porque não sabem mais, outros porque não lhes apetece ou não dá jeito concordar ou discordar do árbitro. Se o lance não tivesse o dramatismo de ter ocorrido naquele contexto - estivesse o jogo decidido para qualquer dos contendores - e quase não se falaria dele. Mais importante do que isso será perceber o que fará o CA de arbitragem a este seu elemento, por comparação com o sucedido, por exemplo, com Luis Godinho que, depois de espalhar a sua magia em Famalicão, ainda foi dar uma mãozinha ao SC Braga contra o Estoril.

E assim chegamos ao Natal em primeiro lugar. É verdade que não ganhamos nada, mas não é menos verdade que é bom não ter adversários a impedir-nos a vista para o horizonte tão desejado. Vamos ter que dobrar muitas vezes este cabo das tormentas para poder lembrarmo-nos dele como o da Boa Esperança.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Sporting 2 - Mafra 0 - Memorial do Jardim de Infância


Se Saramago fosse vivo e gostasse de futebol provavelmente já se teria sido tentado a escrever um memorial do nosso jardim-de-infância, tendo como personagens centrais esta miudagem cheia de personalidade que ontem foi chamada à titularidade para defrontar a equipa representativa da cidade cujo monumento está na base da sua obra-prima.

Quando olhei para a equipa inicial rapidamente me lembrei do sucedido o ano passado na precoce eliminação da Taça de Portugal. Então, Silas a acabar de chegar correu um risco em tudo semelhante ao de Rúben Amorim ontem, ao colocar em campo uma espécie de equipa B. As diferenças de então para hoje são abissais. Não é apenas o bom momento da equipa, até porque esse vem de um onze titular que ontem não estava lá. Vem da matéria prima: um treinador com ideias seguras, com o plantel na palma da mão e um naipe de miúdos cheio de talento e não menos personalidade. 

Não de depreenda que foi fácil, porque não foi. A primeira parte foi um excelente exemplo em como é difícil fazer jogar uma equipa junta pela primeira vez, quaisquer que sejam as indicações dadas no treino. A equipa de Mafra foi um excelente adversário para este teste, obviamente, porque sendo uma equipa muito bem orientada, o suficiente para criar dificuldades mas  não possui argumentos individuais para impor a sua autoridade. Assim, com paciência, nem sempre bem, nem sempre com eficácia, mas sempre sem tremer. O suficiente para atingir o objectivo proposto: a Final Four da Taça da Liga.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Taça servida com personalidade e nota artística

Nota: todas as fotografias são da autoria da @Idzabela. É expressamente proibida a modificação e/ou reprodução destas fotografias sem autorização expressa da autora. (clique nas imagens para ampliar)

Pode-se dizer, com algum exagero, mas com alguma propriedade, que este jogo da eliminatória da Taça de Portugal começou a jogar-se no final do jogo de Famalicão. Ficava no ar se o trabalhinho encomendado (não é difícil de perceber por quem, basta ligar os pontos...) e muito bem executado por Godinho & Cia ia fazer chegar o Natal à sexta-feira, isto é ontem. 

Foi também pelo sucedido em Famalicão que se começou a desenhar mais uma reacção de amor incondicional ao nosso clube. Uma reacção natural e espontânea, sem qualquer outra pretensão que não fosse dizer aos jogadores e todo o staff que não caminham sozinhos nas quelhas obscuras e bolorentas do futebol português. Podem contar connosco!


Se este jogo era então um teste, uma espécie de exame de aptidão esta equipa saiu a poder exibir com orgulho um certificado de habilitações, tal foi a exibição de querer e personalidade, ante um adversário difícil que soube transformar em fácil. Mas, como diz o aforismo, o sucesso só vem à frente do trabalho no dicionário. No campo é preciso trabalhar, trabalhar muito, ser competente, para nos superiorizarmos aos adversários. E foi isso que nos foi dado a assistir durante os noventa minutos.

A forma como o Sporting se soube superiorizar ao Paços de Ferreira, vulgarizando-os, pode ter lançado a dúvida sobre a qualidade de uma das melhores equipas do campeonato até agora. O próximo jogo, para a Taça da Liga, ajudará a desmistificar a questão. Mas, a menos que o Paços de Ferreira tenha entrado numa curva descendente, esta é uma equipa muito bem orientada, com um treinador esclarecido e plantel equilibrado, capaz por isso de ombrear com o historial de algumas que a precederam no clube e deixaram a sua marca.

Dois factos a atestar a grande qualidade da exibição colectiva:

a validação por parte do treinador adversário, Pepa, de forma elogiosa sem quaisquer rodeios.

A dificuldade em eleger o melhor em campo. Porro, Palhinha, Tabata, Nuno Santos, Tiago Tomás?

De assinalar a serenidade e equilíbrio patente no jogo do Sporting desde o começo do encontro. A confirmação de personalidade que se esperava para responder às duvidas do jogo de Famalicão. Sem apressar o seu jogo, nomeadamente para sair a jogar, a equipa soube procurar a profundidade com a mesma calma com que conduzia o jogo por dentro. Calma essa que pode funcionar mal para o adepto impaciente, mas que parece resultar da segurança e conhecimento do processo preconizado por Rúben Amorim.

Algumas notas individuais:


Porro está em grande forma, juntando força e velocidade à subida de qualidade nas execuções. Falta-lhe melhorar os cruzamentos (quase sempre rasteiros) e, talvez o mais dificil, o jogo de cabeça.


Coates está um Sr. Capitão. Foi seu o lançamento que haveria de acabar no fundo da baliza e desbloquear o jogo. Dominador no jogo aéreo em qualquer área, falta-lhe afinar a pontaria.


Palhinha está imperial, varre tudo à sua volta, não deixa crescer nada à sua volta. Como prémio merecido ainda marcou um golo que acaba com qualquer veleidade pacense.


Nuno Santos contribuiu para mais uma assistência de forma tão subtil como cheia de categoria. Jogo competente, apesar de discrição habitual.


Tabata tem pinta de craque, pela condução excepcional como conduz e pela habilidade que demonstra no um para um. Ainda por cima faz golos como aquele que nos foi dado ver, um verdadeiro primor. Tem tudo para ser um joker para o treinador.


TT é dos jogadores mais surpreendentes deste plantel. Com idade para andar ainda pela academia, apareceu ontem em grande nível e finalizando com enorme categoria, justificando assim a aposta do treinador.


Neto é um outro capitão em campo. Trabalhador incansável oculta assim as limitações individuais e menor apetência para jogar neste sistema.


Nuno Mendes está claramente a viver um período de eclipse, depois de exibições de grande fulgor e maturidade. Certamente que a lesão sofrida recentemente pode estar a condicionar o regresso ao patamar que nos habituou.


Sporar está sem confiança, tarda em encontrar o seu caminho.  O problema é que o banco não é o lugar  mais indicado para ganhar confiança e esse parece ser o lugar para onde TT o parece querer enviar.

Não gostando de falar sobre o tema tenho que dizer o seguinte do árbitro João Pinheiro: exibição serena, sem grandes complicações, que o jogo não as teve. Mas nos pormenores deixou a sua marca de incompetência e mediocridade. Um árbitro que, como quase todos, é um dos homens de mão do sistema, tais como os colegas do jogo anterior, Manuel Mota, Rui Costa, Tiago Martins, Nuno Almeida e outros sucessores naturais dos seus predecessores dos anos 80 e anos 90.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Famalicão 2 - Sporting 2: Já dizia Camões: erros nossos, má fortuna e a roubalheira do costume


Devíamos estar a celebrar hoje um vitória épica, daquelas para guardar na memória e contar aos netos. Daquelas que se põe no álbum da família a ilustrar o exemplo de um  familiar (leia-se uma equipa) cuja raça a impede de sucumbir aos seus próprios erros e aos azares que só quem não joga não tem. Ao invés disso estamos há horas entre o torpor e raiva de quem foi espoliado mais uma vez. Mais uma vez a manobra habitual, sempre que demonstramos que devem contar connosco: "há que lhes cortar as pernas antes que possam entrar na corrida. O resto do trabalho eles mesmos encarregam-se de fazer em forma de haraquiri."

Sem dúvida que ontem cometemos erros e que esses erros penalizaram-nos sempre. Erros dos quais soubemos sempre procurar a redenção, numa manifestação notável de entrega e compromisso. Não pode então haver compreensão para os erros da arbitragem, missão reconhecidamente complexa e difícil? Não, obviamente que não, quando os principais erros foram sempre contra a mesma equipa. Erros na marcação de faltas, critério disciplinar dual e conivência na utilização de jogo e linguagem com níveis de agressividade fora o âmbito que as leis permitem, sem a devida punição. Quanto ao golo anulado, tinha que ser. Trata-se de um árbitro cuja melhor qualidade que se lhe pode reconhecer é a coerência do critério: na dúvida é contra o Sporting.

Como adepto do Sporting partilho da ideia de muitos de nós de que tudo o que sucedeu antes e depois do jogo resultou não de mera encenação, azelhice mas de um trabalhinho bem urdido, competente. Começou ainda na inicio da semana com a pressão de um dos responsáveis da comunicação azul-e-branco, continuou na nomeação da equipa de arbitragem de campo e VAR e culminou na originalidade doentia, a tresandar a conluio, de um comunicado do Conselho de Arbitragem feito certamente de pijama e depois de pancadinhas nas costas do inepto Luis Godinho. Já nem pudor têm em exibir a sua falta de pudor. O árbitro sente-se autorizado e intocável, premiado até, pelo luxo da exibição do jogo com o FCPorto na reicidência da nomeação em apenas 8 jornadas. O CA sente-se intocável também, apesar do desfilar despida de credibilidade pela conivência com a ditadura da mediocridade. 

Após todos estes anos a vermo-nos arredados por erros nossos, má fortuna e a roubalheira do costume o sentimento de impotência, frustração e desorientação instala-se. Já tentamos de tudo, nem sempre com a melhor estratégia, nem sempre com a indispensável perseverança. A pescadinha de rabo na boca é prato único na ementa de um clube em permanente agitação e instabilidade. E desse espectáculo se alimentam os escribas, cartilheiros, fazedores de opinião e até a exibição velada ou expressa de ambiciosos projectos de poder sempre perfeitos no papel até serem as próximas vitimas.

Como adepto adiro de alma e coração à ideia de "onde vai um vai todos". Esta  equipa merece o nosso carinho e o nosso amparo. Não podemos estar no estádio com eles, mas eles vão sentir que não estão sozinhos. Onde eles forem nós vamos também, sempre!

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