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terça-feira, 30 de junho de 2026

Ronaldo e a Selecção


Ao contrário do que parecia ser a expectativa dominante, o percurso da selecção portuguesa no Mundial de 2026 está longe de constituir uma surpresa. A equipa já havia dado sinais preocupantes ao longo da qualificação, com exibições tão pobres como algumas das registadas  como na goleada aos pobres azerbaijanses. Pobres em futebol, entenda-se, porque em riqueza material os azerbaijaneses estão longe da condição destes pobres lusitanos que habitam este rectângulo à beira do Atlântico.

Grande parte do debate centra-se hoje em Cristiano Ronaldo e na sua utilidade para a selecção. Mas quando, numa modalidade colectiva, toda a discussão gira em torno de um único jogador, talvez se esteja a procurar a resposta no sítio errado.

É difícil negar que Ronaldo se tornou um problema para a selecção. Porém, é-o mais como consequência do contexto do que como a sua causa principal. Ou, em certa medida, vítima de si próprio. A determinação e a ambição que o retiraram do anonimato e o conduziram ao topo do futebol mundial parecem hoje dificultar-lhe a lucidez, diminuido-lhe a capacidade de reconhecer os limites naturais impostos pelo tempo. A perseguição ao marco simbólico dos mil golos corre o risco de desgastar a imagem daquele que foi um dos mais extraordinários goleadores da história do futebol.

Mas, tal como acontece com Ronaldo, também o talento da selecção parece aprisionado debaixo da careca de Roberto Martínez. Cristiano já não é o jogador que foi, mas uma gestão criteriosa da sua utilização poderia preservar o seu contributo desportivo e, simultaneamente, proteger o seu legado.

O verdadeiro problema reside na liderança técnica. Mais do que construir uma equipa, Martínez parece concentrado na sua tarefa de ser o melhor relações públicas de si mesmo. Tão concentrado que se acaba por expor ao ridículo com as suas análises irrealistas. Portugal continua a apresentar um conjunto de individualidades de enorme qualidade, mas raramente se apresenta como uma verdadeira equipa. O talento individual dissolve-se num conjunto de escolhas difíceis de compreender, desde as convocatórias aos onze iniciais, passando pelas funções atribuídas aos jogadores e pelo seu posicionamento em campo e acabando nas substituições.

Oxalá os sinais deixados por uma qualificação marcada pela irregularidade se revelem enganadores. No entanto, tudo indica que Martínez poderá repetir em Portugal aquilo que muitos lhe apontam na Bélgica: o desperdício de uma das gerações mais talentosas da história de uma selecção nacional.

Quanto a Cristiano Ronaldo, o contexto atual coloca-o simbolicamente em três "clubes".

O primeiro é o dos detratores, que nunca conseguiram dissociar a análise ao jogador de preconceitos antigos. Ronaldo tem o pecado original de ser um produto da academia com o seu nome. Para esse grupo existe sempre um "mas" quando o assunto é Ronaldo.

No extremo oposto estão os admiradores incondicionais, incapazes de distinguir entre o legado extraordinário construído ao longo de duas décadas e o rendimento que o jogador ainda pode oferecer hoje. Muitos também contaminados pelo facto de ser um jogador um jogador nascido em Alvalade, o que chega a impedir de desfrutar do facto de serem contemporâneos e por isso testemunhas do valor inestimável que é ver Messi jogar. 

Entre ambos encontra-se, provavelmente, a maioria: aqueles que reconhecem que o tempo aproxima inevitavelmente Ronaldo da condição dos restantes atletas, sem que isso diminua em nada a dimensão histórica do seu percurso. Continua a ser o maior jogador da história do futebol português e um dos maiores atletas de todos os tempos. 

Ronaldo só é um problema para a selecção porque existe quem decida mantê-lo em campo durante praticamente todos os minutos. Essa decisão pertence ao seleccionador. Se o jogador não reconhece que essa exposição permanente prejudica o seu rendimento e a sua imagem, acaba por contribuir para o seu próprio desgaste e da imagem que tanto lhe custou a criar. Mas quem tem a obrigação de proteger simultaneamente a equipa e o atleta é quem dirige a selecção.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Trincão, o salva-vidas


Foi uma chapada de luva verde a que Trincão deu ao seleccionador ao, com a sua entrada e acções no jogo, mudar completamente o sentido a favor da equipa das quinas. Uma chapada que foi também um suporte avançado de vida para um seleccionador incapaz de mostrar uma ideia ou rumo para a selecção, que assim sobrevive da entrega dos jogadores e inspiração individual. 

Claro que os dois golos obtidos trouxeram Trincão para a ribalta. Mas há mais de um ano que  Trincão deixa à vista de todos quão injusto é ser consecutivamente ignorado ou "esquecido". Tempo esse em que esteve na sua melhor forma para agora, fatigado por ter que carregar o Sporting, deixar à vista de todos que é um jogador tão grande como é a cegueira ou o comprometimento com outros interesses de quem toma as decisões. O mesmo se poderia dizer de Pedro Gonçalves, que infelizmente está ausente por lesão desde o dia 10 de novembro, mas cujos números e rendimento o tornam no melhor jogador português nos relvados da Primeira Liga. Só pode ser azar de Pote e Trincão.

Já todos percebemos que a selecção é mãe para uns madrasta para outros. Para uns é o local para celebrar as internacionalizações, para "receberem carinho", para outros é apenas lugar para fazerem número e aprenderem. Mais do que a representação nacional, aquela que deveria ser a equipa " de todos nós" é muitas vezes uma seleção de interesses de alguns, quase sempre os mesmos, sejam eles clubes ou agentes. O surpreendente é o carinho que os portugueses ainda lhe devotam, enchendo os estádios em todos os locais onde a seleção joga.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Isto não é depressão, é mesmo indigência

A exibição da selecção nacional ante a Dinamarca foi um espelho da confusão que grassa na cabeça do seleccionador. A mesma confusão que levou a deixar de fora Tomás Araújo por causa de uma "lesão crónica" que afinal era só um dói-dói, (mas foi Sérgio Conceição que, se não está lesionado, acaba de sair de lesão) o Gonçalo Ramos foi para a bancada porque nunca jogou na competição (!) e o pior de tudo as justificações após o jogo: a seleção não jogava há cinco meses (o adversário também não, tal como a maioria das suas congéneres) e culpa não era do plano mas sim da falta de intensidade dos jogadores. Só por milagre é que o nosso capitão Hjulmand não regressa a Alvalade com um registo histórico favorável à sua selecção. Os jornais desportivos equiparavam a "depressão Martinho" à depressão Martinez mas o que vimos foi mesmo de uma pobreza franciscana.
 
Se não bastasse a exibição indigente e o plano inclinado exibicional geral que tem caracterizado a generalidade dos jogos, estas declarações por si só obrigariam Pedro Proença, o recém-eleito presidente da FPF, a perguntar ao seu  director para a área a área financeira quanto é que fica por o ainda senhor selecionador a fazer a travessia de Vilar Formoso para Fontes de Onor, sem bilhete regresso. 
 
Quanto aos jogadores do Sporting, arriscam-se a ser os reis das assistências, mas a partir do banco. Compreendo que os jogadores gostem e mereçam a internacionalização mas, com este futebol indigente, arriscam-se mais a perder tempo e valor.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Robertito, já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar


Concordo com Roberto Martinez. “Quenda é um jogador, com magia, bla, bla, bla.”. Estas afirmações foram proferidas na véspera do jogo da selecção com a Croácia e apontavam, mais uma vez, para a estreia do jovem jogador. A suceder, tal constituiria um recorde pessoal a ostentar pelo jogador até chegar a hora de entregar a outro o “galardão” recebido metaforicamente das mãos de Futre. 

A minha concordância com o seleccionador termina por aí. No mais, a gestão feita por Martinez  tem-se focado essencialmente no “respeitinho é bonito” pelos estatutos dos jogadores mais cotados e por uma gestão de imagem pessoal, com sorrisinhos e falinhas mansas que, ao final do dia, significam zero para o objectivo final: aproveitar o talento disponível, que é dos melhores de sempre, para obter resultados. 

O parágrafo anterior é uma apreciação global, se esta for feita tendo em conta a forma como tem gerido a participação dos jogadores os Sporting nas selecções é difícil não ver um enorme elefante no meio da sala: os jogadores do Sporting parecem não contar tanto como os demais. O caso mais evidente é do Pote. Os respectivos números falam por ele. É o melhor jogador português a jogar no campeonato nacional e tem praticamente os mesmos tempos de jogo do agora descoberto Fábio Silva. E menos chamadas que o… Toti. O caso absurdo agora criado com as chamadas inúteis de Quenda agravam e confirmam esse sentimento, que já vem de longe com a ostracização de Trincão, quando este se encontrava na melhor das formas.

Pote antes e Quenda agora são meros exemplos de uma gestão que diz objectivamente aos jogadores do Sporting que o seu caminho para a selecção é mais estreito do que para os demais. Por respeito aos jogadores adversários e para poupar espaço a este post já longo não vou citar nomes de outras origens que pouco precisaram de fazer para chegar às internacionalizações. E pelas mesmas razões não vou buscar o histórico de capas laudatórias de jogadores de quem depressa esquecemos o nome, mas que foram ferramentas promocionais para os levar ao colo até à internacionalização e, consequentemente, a transferências chorudas para os seus clubes. Enquanto isso, os nossos jogadores colecionam elogios, e até títulos, mas o caminho da selecção continua estreito, íngreme e sinuoso. Martinez assemelha-se mais a um cuidador destes interesses obscuros.

Este é uma das questões mais importantes que nós, Sportinguistas, vamos vendo com alguma miopia, ao concentrar a nossa visão no jogo do próximo fim-de-semana, acabando por sancionar uma prática que nos prejudica: “ainda bem que x não jogou, está mais fresco para jogar por nós”. 

Ora, os jogadores gostam de jogar na seleção da mesma forma que os outros atletas gostam de ir aos jogos olímpicos, por exemplo. Conseguir fazê-lo é visto como um prémio. Ser internacional é importante para o seu currículo e para a sua promoção pessoal, reforçando assim os níveis de confiança, determinante para a melhoria duradoura dos seus desempenhos. Essa valorização é também determinante para o seu valor de mercado, logo é importante também para o Sporting que os seus atletas atinjam a internacionalização.

Acresce que os nossos jogadores, tal como os clubes, concorrem com os demais. E essa sensação de maior dificuldade para chegar à internacionalização no Sporting aumenta as nossas dificuldades em concorrer na hora de contratar jogadores nacionais. Essa é uma das razões que leva a que o Inácio demore mais do que qualquer colega dos rivais a chegar à seleção. Ou que o Quenda ande a conhecer aeroportos, mas não jogue. Não podemos cair no jogo de quem nos prejudica. 

Vejamos o caso presente: Quenda. Não é a justificação do record perdido que é o mais importante. Porque os records são feitos para serem batidos. É forma como foram geridas as suas duas convocações: em ambas as ocasiões Martinez promoveu a sua imagem de seccionador atento e renovador para, depois, na prática, sucumbir novamente à tentação de tentar encaixar todos os nomes com estatuto, prejudicando dessa forma a prestação da equipa. Ao ter resgatado propositadamente Quenda aos sub21 para depois não lhe dar sequer um minuto, que mais não fez Martinez senão apoucar o jovem jogador? 

Não se percebem as razões do selecionador para adiar o futuro, que será certamente de Quenda. Aí provavelmente ninguém se lembrará de Martinez e das suas justificações absurdas.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Selecção nacional: uma perda de tempo e de valor


Depois de muitas críticas, o seleccionador acabou por convocar para esta campanha Pote e Trincão mas, depois de os ter ignorado ao longe no Sporting, acabou por ignorá-los ao seu lado no banco. Não terá sido surpresa para ninguém que, dos jogadores selecionados por Martinez, apenas Pote tenha jogado, ainda que escassos minutos. Infelizmente nem os próprios terão estranhado, talvez nem mesmo Quenda, com idade em que os sonhos se devem confundir com uma realidade que se instala de forma meteórica.

Martinez nunca olhou para os jogadores do Sporting como uma possível mais-valia para a equipa que comanda. Apenas Inácio tem beneficiado de chamadas mais frequentes, mas a forma como é utilizado está longe de ser no sentido de lhe conferir grande segurança, estivesse ele no momento de forma que estivesse. Só os mais ingénuos não perceberam que a sua presença era para cumprir a quota do Sporting.

Convocá-los não passou de uma operação de relações publicas para acalmar as críticas cada vez mais sonoras após a desilusão do europeu porque, na verdade, Martinez nunca soube muito bem o que fazer com eles. Se a convocação de Trincão só agora se justificaria, há muito que a produção de alto nível de Pote o deveriam ter transformado num imprescindível.

Mas para isso era preciso que o seleccionador tivesse uma ideia para o futebol a praticar pela seleccção. Ao invés de ser selecionador primeiro e depois treinador, Martinez é um mero agente de relações públicas da sua própria imagem. Vive dos fogachos individuais, desperdiçando o que o talento de cada um dos jogadores de uma das mais virtuosas gerações nacionais poderia aportar ao colectivo. 

Foi assim nesta jornada da liga das Nações e assim continuará a ser no futuro próximo. A ida dos jogadores do Sporting à selecçao nacional continuará a ser um atraso para as suas vidas e uma desvalorização dos activos do clube.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

O azar de Pote e Trincão

O selecionador Martinez pode ser um óptimo relações publicas, mas ainda assim não conseguiu esconder a sua intolerância ao verde Sporting. Como ficou evidente para todos, por trás das palavras simpáticas, o espanhol nunca contou com Trincão e muito menos com Pote, funcionando as lesões ocorridas na convocatória de março como o alibi que lhe caiu no colo para agora justificar as respectivas ausências na convocatória. 

O argumento usado é lamentavelmente néscio. O caso de Pote ressalta acima de todos. Falamos de um jogador permanentemente ausente das convocatórias há cerca de três anos, apesar dos números que regista nesse período: 53 golos e 39 assistências. Além da regularidade na produção acresce uma época assinalada por 18 golos e 16 assistências.

A verdadeira face de Martinez, aparece quando lamenta a ausência de Ricardo Horta, o único a quem terá telefonado, para acrescentar mais tarde os lamentos por não poder contar com Toti (!), João Mário, Mateus Nunes (um jogador que representaria uma oferta de algo diferente ao que já existe), Bruma e, pasme-se, J. Silva.

Já vimos isto anteriormente com João Mário, William Carvalho, Adrien e Palhinha. Para chegar à selecção nacional ser do Sporting a folha de candidatura tem parâmetros mais exigentes que os demais e que ser acompanhada de cartas de recomendações e declarações abonatórias. 

O azar de Pote e Trincão sabemos bem qual é.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Fernando Santos foi-se, quem se seguirá?


Sem grande surpresa chegou ao fim o tempo de Fernando Santos na Selecção Nacional.

O que há a dizer em primeiro lugar é que o agora ex-seleccionador nacional deixou uma marca indelével na sua passagem pela FPF. A conquista do Campeonato Europeu na final de Paris em 2016 da Taça das Nações no Porto em 2019 são os maiores feitos de sempre do futebol de selecções de Portugal. Feitos inéditos e não se estranharia de todo que se tornassem únicos e irrepetíveis. Era pelo menos assim até Fernando Santos conquistar o seu lugar na história do futebol nacional.

Parece-me também claro que o futebol jogado pelas suas equipas alternou boas mas raras exibições com um futebol tão enfadonho como aquele ar de urso obrigado a sair de um longo período de hibernação para cumprir a obrigação de estar presente nas conferências imprensa. A ideia de que o talento disponível raras vezes foi aproveitado na sua plenitude foi a imagem que registei.

Ainda assim o que conseguiu, há que voltar a referir, foi um feito enorme! Há que o dizer com toda a clareza: não foi por falta de talento que os seus antecessores falharam na obtenção de títulos. A sorte que sorriu ao improvável Éder não esteve com Chalana, Jordão, Néné ou Gomes também em França. Ou com Paulo Sousa, João Pinto ou Pauleta na Bélgica em 2000. Já em 2004 não foi apenas sorte a falhar, a recente eliminação com Marrocos fez lembrar o bloqueio táctico em que Scolari encurralou os artistas Deco, Figo, Ronaldo e Pauleta.

É por lembrar o falhanço de Portugal com o campeão do Mundo que a substituição de Fernando Santos é importante. O curriculo dos treinadores é sobretudo um registo histórico e não o resultado de uma avaliação exaustiva sobre o que uma selecção de Portugal precisa. É assim que vejo a solução José Mourinho. 

Pelo curriculum a contratação não oferece qualquer dúvida. Mas, analisado o que têm sido as prestações recentes das equipas sob seu comando, as suas propostas de jogo e até a sua liderança a existir, a oferta, a existir, parece mais um proposta de tratamento de reabilitação do treinador do que uma promessa de sucesso para a selecção. Na despedida Fernando Santos não o disse, mas certamente que se permitiu pensar: atrás de mim virá quem de mim virá quem de mim bom fará. 


No que ao Sporting diz respeito, dificilmente o substituto de Fernando Santos poderá ser mais adversativo. Mas os recordes foram feitos para ser batidos... Se Mourinho vier a ser confirmado como seleccionador tem uma vantagem: sempre que lhe apetecer rasgar a camisola do Rui Jorge é só telefonar ao contínuo da FPF.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

É preciso Catar para ver Sporting na selecção de Santos


A ausência de jogadores do Sporting na convocatória para uma fase final de um campeonato do Mundo é inédita mas não é surpreendente. Neste momento não há nenhum jogador português do nosso plantel que viva um momento de forma que o torne num indiscutível na lista de Fernando Santos. O mesmo não quer dizer que Gonçalo Inácio, Pote ou até o sempre ignorado Nuno Santos fariam pior que alguns que têm bilhete para o Catar. 

Se aceita, por isso, o critério do seleccionador nesta convocatória, já não se percebe porque ignorou Inácio na época do título e adoptou o mesmo comportamento relativamente a Pote, o melhor marcador do campeonato. Mas talvez mais intrigante seja o que aconteceu com João Mário, a quem bastou mudar para o outro lado da estrada para voltar a ser convocado.

Há quem entenda que, para o actual momento, o melhor que poderia acontecer  ao Sporting é que os jogadores portugueses permaneçam em Alcochete para uma espécie de "reset" à época, aproveitando a paragem do campeonato. À falta de alternativa melhor, que assim suceda. Porém a mensagem que fica é que para quem joga no Sporting é que as portas da selecção são muito mais difíceis de abrir do que para outros de outras origens e ainda que se apresentem na pré-reforma e ainda a coxear, como é o caso de Pepe.

A representação leonina deverá ser assegurada por Morita, Ugarte, Coates e Fatawu. Para ver Sporting na selecção de Santos é preciso catar até às suas origens. Não são dois ou três, como ontem, num canal um jornalista (!) se preparava para comentar, mas sim 8: Rui Patrício, William, Rafael Leão, Ronaldo, João Mário, Matheus, Nunes Nuno Mendes, Palhinha.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

O milagre de Santos


Fernando Santos realizou dois milagres à frente da selecção nacional ao conseguir o que nunca antes havia sido feito no escalão sénior: a conquista do Euro e da Taça das Nações. Feitos que o colocarão para sempre na história do futebol nacional, não sabendo nós sequer se alguma vez serão repetíveis, Se o histórico continuar a ser o padrão, os respectivos troféus continuarão por muito tempo sozinhos no pedestal mais alto da sala de troféus federativa.

Essas conquistas parecem cada vez mais longínquas e, a avaliar pelo desempenho da selecção de lá para cá, a sua repetição nem tem direito a sonho. Com excepção de um jogo aqui e acolá, os jogos das equipas do actual seleccionador bem que mereciam o alto patrocínio de uma marca do mais potente dos indutores do sono do mercado.

Se é por gratidão que Fernando Santos se mantém no cargo os valores e os juros entretanto já pagos em desperdício de talento e valor erodido concorrem para desgastar o que foi tão valorosamente ganho. Quem sabe um acordo FPF/Fisco não despoletaria no selecionador o desejo da reforma merecida. Neste momento assistimos ao terceiro milagre de Santos: ao contrário do milagre das Bodas de Caná, está a transformar em vinagre todo o precioso vinho que tem à sua disposição.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A selecção de todos eles

De forma completamente incompreensível do ponto de vista técnico e um erro crasso do ponto de vista "politico", os seleccionadores nacionais optaram por abdicar de jogadores do Sporting para representar a selecção nacional. 

Um, entre os muitos exemplos, é o caso de João Mário, pilar da equipa do Sporting que se sagrou campeã há duas épocas e que este seleccionar então optou por ignorar nas suas convocatórias. Ou estranho caso de Gonçalo Inácio, titular indiscutível há três épocas consecutivas mas com o triste pecúlio de QUATRO (!) internacionalizações sub-21. 

Ao contrário do que se pode pensar de forma primária, a não convocação para a selecção não é boa para descansar. Quando alguns dos nossos jogadores constantemente ignorados vêm os outros colegas ser chamados e a acumular internacionalizações (alguns deles só depois de sair do Sporting...) deve-lhes ocorrer que não só é mais difícil jogar no campo (veja-se o caso dos cartões amarelos, p.ex.) como também para a sua carreira pessoal. Parece ser essa a mensagem que os seleccionadores querem deixar, de uma forma cada vez menos subliminar.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

De entre as brumas para a memória

O futebol é fértil em surpresas e, como a generalidade do desporto, frequentemente dá-nos grandes lições. A vitória da selecção portuguesa no Campeonato Europeu em França foi seguramente ambas: surpresa e uma lição e este post hoje falará sobretudo disso.

Para os mais novos a presença da selecção nacional nas grandes competições é vista hoje com normalidade, mas para os da minha geração isso estava longe de ser um hábito. Depois da geração dos Magriços de 1966 foram necessários quase vinte anos para ver novamente a selecção numa fase final. Coincidentemente, foi em França (1984) que uma das melhores gerações de jogadores de que me lembro nos fez sonhar, até acabar em pesadelo numa véspera de S. João que nunca mais esquecerei. 

Jogadores notáveis como Eusébio, Coluna, Damas, Bento, Eurico, Diamantino, Chalana, Gomes, Jordão, Néné, Figo, Futre, Rui Costa, muito bem secundados por outros de enorme valor, não conseguiram o que esta agora acaba de alcançar: um título colectivo ao mais alto nível. Com sinceridade, confesso que não esperava agora, depois de ver ficar de mãos vazias selecções mais dotadas de talento que a actual.

Um líder é isto
A grande diferença registada nesta selecção para as demais - pelo menos para as que vi jogar - esteve indiscutivelmente no líder e na forma como soube liderar o grupo de selecionados. Sóbrio em todos os momentos, pouco dado a estados de alma em quaisquer circunstâncias, foi o principal responsável pelo notável espírito de corpo e de missão, talvez as principais virtudes dos actuais campeões. Inevitavelmente terá que se estender os créditos a quem o foi buscar, num momento de profunda indefinição e ainda por cima com um castigo a pender-lhe sobre o pescoço.

Estou longe de ter grande apreço pela proposta de jogo de Fernando Santos, o que nem sequer é de agora. Mas uma das grandes lições que fica desta conquista é que para chegar à vitória não há apenas um caminho. E este, não sendo o que mais me agrada, não pode deixar de ser registado como tendo sido alcançado sem derrotas.

Momentos
Se fomos suficientemente audazes a sorte - que tantas vezes se alheou de nós em competições anteriores - fez questão de nos acompanhar em momentos chave, alguns deles sem intervenção directa. Por exemplo, o golo dos islandeses no último jogo da fase de grupos, já depois da hora, teria repercussões decisivas no emparelhamento com os adversários, teoricamente mais acessíveis na fase a eliminar. O golo do Quaresma e o penalty defendido por Patrício são também momentos incontornáveis no percurso até à tribuna de honra do Stade de France.

Fado
Soubemos merecer este titulo, partindo de um nível aparentemente baixo para acabar em grande. O percurso das equipas haveria de nos dizer que o empate com a Islândia não foi assim tão mau como pareceu na altura. Esse terá sido o jogo com a Hungria onde, paradoxalmente, fomos uma equipa vulnerável, precisamente a antítese da imagem de que a Europa registou do actual campeão. Talvez tenha sido aí o jogo em que tivemos azar de forma reiterada. Mas o que representaria noutras ocasiões um evento como a lesão de Ronaldo, senão uma súbita síncope e capitulação? A forma como superamos o infortúnio, ainda por cima perante um poderoso anfitrião, é matéria da qual se constroem os heróis e as lendas.

Capitão 
Se nenhum profissional de futebol merece passar pela provação a que Ronaldo foi submetido, o que lhe aconteceu acabou por ser a revelação, como se preciso fosse, do compromisso dele com a camisola que veste, a bandeira que representa e com os colegas que capitaneia. Que exemplo!

O herói improvável
O golo do Éder é o momento que ficará eternizado na memória de um povo. Porque esta vitória não é apenas de quem gosta de futebol. É uma vitória de todos nós, pequenos como somos, mas cujos horizontes nunca aceitamos confinarem-se entre os espanhóis nas costas e o medo da imensidão do mar. E quem melhor do que um protagonista com a história de vida pessoal e profissional dele para protagonizar o grito de afirmação e de revolta destes lusitanos nos confins da Ibéria que não se governam nem se deixam governar? E logo com a França...

P.S. - Tenho pena dos que sofrem de clubite aguda e para quem o maior triunfo do futebol português até hoje tenha sido vivido como uma mera extensão das diatribes do nosso campeonato. 

domingo, 26 de junho de 2016

Depois de muita penitência apareceu... Quaresma

A primeira consideração a fazer é que Portugal eliminou uma selecção que, globalmente, não só foi melhor neste jogo como estava a ser melhor que nós no torneio.  E diga-se em justiça que aparentava poder contribuir muito mais para a qualidade geral do evento do que nós parecemos habilitados e até interessados em ser. Serve isto para dizer que, se há mérito nesta eliminação, ela correspondeu a uma abordagem ao jogo que está longe de me agradar. Mais, esta postura excessivamente conservadora de Fernando Santos só tem justificação possível perante a obtenção de resultados. Ela é afinal isso mesmo, resultadista. 

Não vou entrar no jogo dos "ses" agora que ganhamos porque também não gosto de o fazer quando perdemos. Mas quero apenas dar conta com estas observações que estivemos várias vezes e demasiado tempo à mercê do adversário e do jogo para merecer a sorte que acabou por nos sorrir momentos finais. Não acontecerá muitas vezes neste registo, estou certo.

Uma das notas principais do jogo foram as alterações realizadas na equipa inicial. Devagarinho e talvez impostas pelo aperto de ser um jogo de resultado único para a continuidade da equipa, o seleccionador lá foi pondo os melhores nos seus lugares, excepção feita à ausência de Ricardo Carvalho por não estar em boas condições físicas. 

Cédric esteve quase sempre impecável, muitos furos acima de Vieirinha nos jogos anteriores, particularmente no jogo com a Hungria, onde esteve várias vezes à beira do desastre, no que foi então "bem" secundado por Eliseu. Adrien foi de uma generosidade e entrega total e se o seu jogo não foi mais ousado no que diz respeito às iniciativas atacantes é porque o modelo não o prevê e os croatas não estavam para brincadeiras. Creio mesmo que a sua titularidade se justificaria mesmo que Moutinho estivesse em forma porque ainda assim teria primazia sobre André Gomes que, sendo um potencial titular, parece estar muito longe da boa forma física.

Um parágrafo especial para Renato Sanches. Se é um fiel seguidor da nova seita religiosa renatosanchista que se debate ferozmente contra qualquer infiel, não o leia porque não encontrará adjectivos ou encómios suficientes. 

Mas estamos a falar de um jogador especial, não apenas pelo elevado potencial que tem mas também pelo que já consegue fazer aos dezoito anos. E depois tem a sorte e o mérito de ter estado no momento decisivo do jogo. Sorte porque o lance já tinha praticamente morrido quando a bola chegou a Nani. Não fosse o estranho bico deste fazer chegar a bola a Ronaldo (que, também mal, decide rematar e quando quer ele quer Nani deviam ter servido Quaresma) e esta ter cai milagrosamente cai em Quaresma e ninguém se lembraria dele pelo que fez no resto do jogo. Mérito pela forma como arrisca e sai da camisa de forças que é concepção securitária do seleccionador, resumindo o nosso futebol e os nossos jogadores meros funcionários diligentes, sem qualquer capacidade criativa.

Não se pense que esta vitória me deixa triste. Mas a forma como é obtida é demasiado sofrida e penitente que se afasta da forma como olho para o futebol. Obviamente que os grandes resultados se obtêm pela aplicação total e pelo rigor do desempenho de todos. Para mim esse rigor não pode ficar apenas pelas tarefas defensivas e só por acaso ir à baliza adversária uma vez no final de 120 minutos.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Portugal - Islândia: depois da cagança o empate sem pujança

Não se pode dizer que haja razão para grandes estupefacções perante o empate da selecção portuguesa ante a Islândia. Para perceber este resultado, e antes de olhar para o jogo em si, há que olhar para o percurso recente das equipas e não para todo o seu historial. E aí verificamos que já em 2014 a qualificação da Islândia para o campeonato do Mundo foi esticada até ao play-off com a Croácia, conseguindo este ano pela primeira vez participar num torneio de selecções ao mais alto nível, neste Europeu de França. 

O jogo de ontem só veio confirmar que já não há equipas fáceis de bater bem como as nossas tradicionais dificuldades com equipas com abordagem mais defensiva. Mas talvez o mais importante seja a confirmação daquilo que já todos devíamos saber e parece que poucos apreenderam ainda: Portugal é uma selecção mediana com um grande jogador, pelo que afirmações sobre favoritismos ou candidaturas da nossa parte são um rotundo exagero.

Sobre o jogo propriamente dito, vou fugir um pouco à tentação de sobrepor a minha opinião pessoal à do seleccionador, no que diz respeito à escolha deste ou daquele jogador. Mas aproveito a titularidade de Danilo como um exemplo prático da mentalidade conservadora de Fernando Santos Prefere a segurança a todo o custo, sem qualquer ousadia ou atrevimento. O mais que ganhou foi expor as limitações daquele jogador e, ao invés de potenciar o melhor dos outros, limitou-os ou até os atrofiou.

Por isso é que a discussão à volta de "quem devia ter jogado no lugar de quem" me parece estéril ou apenas se justificar para dar curso às tradicionais clivagens clubisticas. O problema começa na cabeça do seleccionador, no que é agravado pela mediania, em termos individuais, dos nossos jogadores, excepção feita a Ronaldo, claro está. 

O futebol "à engenheiro", muito certinho mas pouco audaz de Fernando Santos é particularmente insuficiente ante equipas que se encolhem atrás. Ora, passar um jogo a privilegiar os cruzamentos pelo ar ante uma equipa recheada de directos descendentes dos altos e espadaúdos vikings é reciclar a táctica da fé na Srª do Caravágio. Não foi por acaso que o nosso único golo nasce de uma jogada em que a bola circula pelo chão. É por aí que as qualidades técnicas dos nossos jogadores ganham poder diferenciador sobre as melhores capacidades atléticas dos demais. 

Infelizmente não me recordo de nenhuma tentativa de fazer circular a bola pelo chão e dentro do bloco defensivo dos islandeses. Ou de nenhuma jogada pensada com o intuito de desposicionar a sua defesa. Movimentos dos alas (laterais ou extremos) para interior com bola ou em desmarcação para receber também não, ou de alguém aí colocado para oferecer uma linha de passe, para progressão. Ora para jogar em correrias pelas laterais não é a João Mário ou André Gomes que se tal se deve pedir. Desta forma, o melhor que se consegue é tornar Ronaldo, sem espaços, num jogador vulgar e frequentemente dado ao desespero de sentir a obrigação de fazer tudo sozinho.

Não há também razões para o pessimismo lusitano, que tradicionalmente se segue ao confronto com realidade. Mas não duvido que a qualificação, perfeitamente ao nosso alcance, se tido em conta o valor dos adversários que restam, poderá ser complicada. Quer a Hungria quer a Áustria têm mais argumentos tecnicos que os islandeses mas a mesma disposição de jogar lá atrás, à espera de um erro nosso. É bem possível que a contratação de um matemático, sempre esquecida, se confirme mais uma vez necessária.

terça-feira, 14 de junho de 2016

O Ronaldo, o Europeu

O Europeu, cuja disputa Portugal hoje inicia, é uma competição de equipas e não um torneio individual. Porém, há jogadores que, pela sua preponderância, têm o seu desempenho umbilicalmente ligado ao sucesso das equipas que representam. 

É o caso de Ronaldo. Se ele se conseguir apresentar na plenitude dos seus recursos e conseguir formar com os restantes companheiros uma verdadeira equipa, este poderá ser o seu Europeu. Basta olhar para estes números para o perceber:

- A um golo de se tornar o primeiro jogador de sempre a marcar em quatro campeonatos europeus. 

- Se marcar três golos torna-se no jogador com mais golos marcados na competição. Tem actualmente seis golos, Platini lidera com nove.

- Com a internacionalização que mais logo coleccionará, tornar-se-á no jogador mais internacional de sempre, com 127 jogos. Dessa forma igualará Figo, ficando ainda com anos pela frente para deixar uma marca única, à altura do seu valor.

- Faltam-lhe apenas dois jogos para igualar a marca dos jogadores com mais jogos disputados na competição. Esse titulo é repartido actualmente "ex-aequo" entre Van der Sar e Lilian Thuran.

Já a possibilidade de poder ser o nosso Europeu, o de todos nós, parece-me haver demasiada euforia e algum irrealismo. Um pouco como pensar que a Liga Inglesa possa algum dia ser ganha por clubes como o Leicester. Ah, ora deixa cá ver...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Selecção Nacional: Promessas, dúvidas e certezas

O campeonato europeu de futebol está à porta e por isso a nossa atenção recairá nessa competição nas próximas semanas. Tendo a selecção realizado dois jogos particulares, é já possível reunir algumas ideias sobre a equipa que nos vai representar em França.

A selecção e os portugueses
A relação dos portugueses com a sua selecção é um verdadeiro caso de estudo. Embora sem ter por base nenhum relatório que o sustente, parece-me que os portugueses em geral gostam da sua selecção, como em geral do seu País. Mas, talvez por calculismo, desenvolveram uma relação cínica com a sua equipa.  Estou em crer que, à semelhança do que se viu noutros anos, se a campanha for em crescendo de resultados, os portugueses manifestarão o seu apoio. O inverso é capaz também de suceder, caso a campanha seja mais uma entre as muitas decepcções que os portugueses têm coleccionado.  

Obviamente que a afeição dos portugueses à sua selecção não se compara à que nutrem pelos seus clubes. Não creio sequer que isso seja motivo de grandes análises. O mesmo não se pode dizer dos que se deixam contaminar por um clubismo doentio, vendo toda e qualquer acção mais uma razão para prolongar as clivagens que sobraram do campeonato. Neste sentido, o aparecimento das redes sociais só parece ter agravado esta tendência. Tentarei aqui não cair no mesmo erro.

As promessas
Renato Sanchez
Aquando da convocatória pareceu-me haver alguma injustiça para com Pizzi que, pela idade, poucas mais oportunidades terá para estar numa competição do género. O que o pouco tempo de jogo que o futuro jogador do Bayern deixou perceber é que a sua presença pode ter alguma utilidade, especialmente se for preciso agitar os ritmos de jogo.

Quaresma
É do lote dos mais velhos, pelo que a sua colocação neste parágrafo parece um erro ou engano. Mas a sua capacidade de improviso é a melhor promessa de quebra da monotonia. Pena é a sua fiabilidade. Mas, até pelo que se vai vendo de Nani, parece que vamos mesmo que o ter em conta.

As dúvidas
A veterania
Não vejo como as escolhas do selecionador poderiam ser substancialmente diferentes mas a veterania deste lote de convocados é por demais evidente. Veremos, com o decurso da prova se a idade já pesa em excesso em algumas das pernas. Por si só, não vejo aqui um problema, o critério de convocar os que no momento ofereçam mais garantias, independentemente da idade, parece-me correcto. A questão da renovação pode ser levantada, embora este ano haja competições em praticamente todos os escalões, de forma a permitir rodar a quase todos. Mas quando assim é a corda não pode rebentar precisamente onde mais se deveria esperar da experiência, como aconteceu ontem com Bruno Alves.

Ronaldo
A forma do nosso melhor jogador, pela amostra deixada na final da Liga dos Campeões, é a grande interrogação. A selecção precisa de um grande Ronaldo e ele também precisa de o ser para as suas ambições pessoais de consagração, mais uma vez, como melhor do mundo.

Moutinho
É fácil perceber que não está em forma e, por essa via, a sua titularidade compreende-se, uma vez que o ritmo perdido pelo grande tempo de paragem por lesão não lhe ia surgir sentado no banco. Mas, a manter-se como está, terá que ceder o passo a Adrien, ou mesmo a André Gomes.

Nani
Parece ter perdido já algum fulgor, um pouco à semelhança do que já havia sido a época de regresso temporário ao Sporting. Parece ter-se tornado num jogador de fogachos, com perda para consistência das suas acções.

Danilo ou William
Na cabeça de Fernando Santos a decisão parece estar já tomada. O que ontem foi dado ver é que não deveria estar. Danilo saiu muitas vezes do estilo de "recupera , entrega" que o seleccionador parece preferir para a posição. Quem sabe por se sentir acossado pela sombra de William, que oferece muito mais soluções para ter uma circulação de bola mais eficiente.

Como é que a bola vai chegar à frente?
Foram apenas pouco mais de trinta minutos o tempo em que jogamos em igualdade numérica, mas até pareceu um alivio para a equipa e em particular para o selecionar a expulsão de Bruno Alves. É com menos deixamos de ter a obrigação ou mesmo o incómodo de ter que chegar à baliza inglesa. Ou as ideias não passaram ou está ainda muito mal trabalhadas as soluções para o ataque. E sem bola na frente não há Ronaldo nem milagres.

Certezas

Centrais
Se Pepe e Carvalho já pareciam titulares, Bruno Alves encarregou-se de ajudar à escolha. Não que Pepe dê muito mais garantias no aspecto disciplinar, mas aquele episódio deixou o seleccionador sem grande escolha. Já no jogo anterior, a forma como Fonte se deixou antecipar por um adversário já tinha produzido efeitos semelhantes. E, convenhamos, Carvalho é o melhor de todos. 

Os laterais
O valor entre si equivale-se, pelo que, embora a escolha não pareça definitiva, qualquer um parece dar garantias ao sono tranquilo do seleccionador. Pelo menos até à hora de escolher.


João Mário
Para quem quiser perceber a importância de um treinador na carreira de um jogador vai ser curioso segui-lo nesta competição. A ele que foi dos melhores por cá, no campeonato. Sem saber jogar mal, perderá muito se a dinâmica do nosso jogo e em particular a circulação e posse de bola se pautar pela amostra de ontem. 

Vamo-nos ver gregos
Quem viu o que foram as prestações a selecção grega sob o comando de Fernando Santos já pode adivinhar mais ou menos como vai ser o nosso jogo. Conservadorismo táctico, muita rigidez e pouco previlègio para a criatividade e improviso. O que é que isso quer dizer quanto às nossas possibilidades e até candidatura ao titulo, com muitos reclamam? Absolutamente nada. Mas, para já é preciso qualificar para a fase a eliminar. Sem isso, tudo o mais são tretas, como diz a música.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Apenas mais 50 cêntimos para a "aposta na formação"

Sporting e Portugal como denominadores comuns (Imagem FPF)
Uma breve reflexão, sem grande profundidade, na sequência da jornada europeia de selecções. Esta abrangeu também as selecções sub-21, concorrendo para que o Sporting contasse com uma mobilização, em ambos escalões, de 19 (!) jogadores cuja formação foi da sua responsabilidade. A saber:

Nos sub-21: Ié, Ilori, Bruma, Mané, Esgaio, Iuri, Ricardo e Tobias. Os 3 primeiros seriam excluídos por lesão e o último, Tobias, acabaria por entrar na convocatória posteriormente.

Nos AA: Patrício, Beto, Cédric, Fonte, Moutinho, Nani, João Mário, William, Adrien, Ronaldo, Quaresma.

O prestigio - Por muito que custe admitir a muitos, especialmente por razões de alergia clubista primária, o Sporting tornou-se no principal criador de jogadores de selecção.  Esse facto é reconhecido internacionalmente de forma frequente, embora por cá não pareça merecer o mesmo destaque.

A evidência de uma aposta - O presente lote de jogadores deve ser considerado circunstancial, porque tanto inclui jogadores de "lugar cativo" na selecção, como outros que estão de passagem. Isto tanto quer dizer que o número de jogadores pode ser menor ou até maior, não sendo o mais importante agora. Mais importante que o número, é a disseminação de jogadores de diversas gerações em cujas pontas do leque estão Beto e João Mário, completando 11 anos de diferença de diferença entre si.

Não estendo a análise aos sub-21 pois, neste escalão, é ainda demasiado cedo para falarmos em certezas. Ainda assim atrevo-me a dizer que Ilori, Bruma, Mané, Esgaio, Ricardo e Tobias têm tudo o que é preciso para nos obrigarem a fixar os seus nomes pela próxima década ou quase. No meio ficam jogadores como Patrício e William a assegurar a manutenção do nome do Sporting para lá da fase final do Europeu de 2016, com Nani, Moutinho, Ronaldo e eventualmente Quaresma a constituírem nomes incontornáveis pelo menos até lá. Para não tornar a análise demasiado especulativa, fico-me pelo critério do seleccionador que presidiu à actual escolha, abstendo-me assim de apontar outros nomes, mesmo que evidentes, a poder entrar para a actual selecção.

O que estes números revelam, e que me parece acima de qualquer contestação, é que o trabalho de prospecção, criação e de incubadora do departamento de formação do Sporting há pelo menos duas décadas consecutivas se elevou a um nível elevado, superando os seus concorrentes directos neste capitulo. Repare-se que mesmo os mais novos de idade são já quase veteranos no clube. Mané, por exemplo, tem apenas 20 anos, mas está no clube desde 2001, há 13 anos, portanto. O que perfaz mais de metade da sua ainda curta vida, sendo por isso um dado incontornável e absolutamente notável!

Campanha de apuramento invicta (imagem FPF)


No aproveitar é que está o ganho. Ou o prejuízo - Se olharmos para os dezanove jogadores da amostra rapidamente se conclui que apenas dez representam ainda o Sporting, sendo que um deles (Nani) o faz de forma episódica. Dos restantes nove que não possuem já ligação, quatro estão já definitivamente com um pé fora de Alvalade, apesar de pertencerem ainda aos sub-21. Precisamente aqueles que apontaríamos como os melhores da respectiva geração. Um dado a merecer reflexão, para se perceber se estamos a olhar para um mero episódio ou para uma tendência. 

Obviamente que um clube que todos os anos lança para o mercado um plantel inteiro de jogadores acabados de chegar a seniores tem que se conformar com o facto de não poder ser infalível nas suas estimativas, quanto ao futuro dos jogadores. Assim como se deve (re)conciliar com ideia de que não pode impedir os jogadores que forma de quererem mais - seja isso dinheiro, notoriedade, campeonatos mais competitivos, etc - do que o clube pode oferecer. Neste capítulo o Sporting só pode fazer duas coisas: (i) procurar o ressarcimento do investimento feito no jogador e, num futuro tão breve quanto possível (ii) tornar-se ainda mais atractivo como projecto de carreira para os seus formandos. O que, por muito que nos custe admitir, poucas vezes o tem sido. 

Necessidade ou convicção? - Duas razões me parecem acima de contestação para justificar o sucesso da formação do clube: (i) a elevada qualidade dos jogadores que forma, tornando-os apetecíveis aos olhos de quem tem disponibilidade para pagar o que eles valem. Olhe-se, se preciso fosse, para os clubes que representam. E o facto de o clube (ii) incorporar diversos jogadores no seu plantel principal com origem na sua academia, o que o distingue claramente dos seus rivais. 

Falta saber se o faz por necessidade - seja ela por falta de mais recursos, seja ela ditada por motivações eleitoralistas - ou por convicção. É que sempre que parece haver um pouquinho mais de dinheiro para gastar a convicção parece perder força e os jogadores da casa lá têm que correr mais do que os outros, ganhando quase sempre menos, para, quase sempre, e com grande facilidade, fazerem mais e melhor do que os "forasteiros".

O que dizem as bolas de cristal sobre o futuro? - Alguns dados recentes, como sejam a falta de títulos - cujo valor indicativo é ligeiramente significativo, mas é apenas "um dos"- o número de jogadores nas selecções jovens, os resultados gerais e os especificios com os rivais e clubes que melhor formam como, por exemplo, Vitória(s), Braga, etc, etc, já fizeram soar várias campainhas. Ora isto são apenas resultados que ocorrem quase nunca por acaso mas, como a palavra indica, como corolário do trabalho da prospecção, da qualidade dos técnicos e dos dirigentes. 

Mais do que um libelo definitivo, ditado por ocorrências esparsas, é necessária reflexão. Dispensam-se excesso de optimismo ou pessimismo militante, que a realidade se encarrega de desmistificar. Até porque as transformações estruturais, e por isso basilares, raras vezes são detectadas a "olho nu" requerem demorada digestão e compilação de factos. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O regresso da Selecção: mesmo com Santos não haverá milagres

A escolha
Não haveria muitos treinadores com perfil para caberem no restrito lote de seleccionadores nacionais. Neste não faria muito sentido incluir um técnico estrangeiro: nem os que estariam disponíveis constituíam uma opção aliciante, nem o apertado calendário recomendava uma opção por alguém que tivesse que vir e aprender quase tudo sobre o futebol português e os jogadores que teria que liderar. A escolha acabou por recair sobre Fernando Santos, treinador com curriculum de seleccionador, mas com um castigo por cumprir que, confirmado pouco depois da sua nomeação, fará com que não se sente no banco para jogos oficias praticamente toda a fase de qualificação que ainda resta. Não parece uma decisão prudente, sobretudo tendo em conta que, com o tempo escasso que um seleccionador tem para o treino, a sua função ficará praticamente limitada à escolha dos jogadores. Uma decisão de teor altamente discutível.

O critério pareceu ser o da figura consensual. Como já anteriormente havia sido quando se procuraram os serviços de Paulo Bento, escolha então tão elogiada como foi agora Fernando Santos. A FPF mais uma vez parece mais preocupada com os frágeis equilíbrios do que com o essencial, acabando por cair neste absurdo de ter contratado apenas "meio" seleccionador. Não fora esse importante pormenor e a escolha não mereceria qualquer contestação, mesmo sem entusiasmar - na verdade nenhum o faria - Fernando Santos seria uma escolha natural.

Teorias da conspiração
A chegada de Fernando Santos permitirá descobrir alguns "ovos de colombo" do futebol português: (i) a qualidade à disposição é reduzida, e que não há muitas alternativas ao grosso do que que eram as escolhas de Paulo Bento. (ii) A maioria dos jogadores seleccionados continuarão a sair do lote de jogadores agenciados por Jorge Mendes sem que isso signifique menor honestidade ou independência do seleccionador. Não foi por aí que falhou Paulo Bento porque é uma inevitabilidade a participação maioritária daquele empresário e porque não creio que haja, entre os seus colegas de profissão, quem lhe possa dar lições nesta matéria. Foi essa independência e desassombro que o levaram a afrontar Pinto da Costa, com as célebres "postas de pescada" e, quem sabe, muito concorreram para actual escolha de Fernando Santos, de quem não se esperam afrontas idênticas.

Milagres que não estão ao alcance de Santos
Não será preciso ter dons milagreiros para alcançar a qualificação apesar da hecatombe da jornada inicial. Bastará algum bom-senso, que não parece faltar a Santos mas que já parecia ter saído debaixo dos pés a Paulo Bento. Mas o trabalho pela frente será muito e difícil, uma vez que não poderá contar com a sorte de alguns que o antecederam no cargo, especialmente Humberto, Oliveira, Scolari e ainda que em menor grau, Queiroz. Estes antepassados não ficaram famosos pela qualidade e profundidade do seu trabalho, não deixando mais do que uma colecção de resultados quase obrigatórios, atendendo que a quantidade e qualidade era a que era então. Mas ideias estruturantes, estratégia e planeamento que contrariasse a habitual falta de visão, inércia e conformismo das direcções de Madaíl e que deixasse outro legado que aquele que escorreu com o passar do tempo não se viram. Confesso que as minhas expectativas para o mandato de Fernando Santos não são mais nem melhores considerando que, no imediato, devolver a selecção à razoabilidade de escolhas e exibições, voltando-a a colocar no caminho da qualificação será a principal preocupação.

Renovação ou revolução?
Renovação e a falta dela foi o chavão escolhido para justificar a triste presença em terras brasileiras. E parece que essa obrigação continua a ser exigida agora a Fernando Santos. A primeira convocatória permite perceber que Fernando Santos não se deixa levar pelos cantos das sereias. Fazer regressar Tiago e Carvalho, a que juntaria Quaresma, Bruno Alves e José Fonte demonstra que essa é a menor das suas preocupações. Estes nomes não merecem tratamento idêntico, mas remetem-nos para a realidade: a "geração de estrangeiros", composta por jogadores de qualidade e experiência - seja lá a importância que esse aspecto terá - onde a selecção alicerçou muito do seu sucesso, algum dele relativo, está no limiar da extinção do seu prazo de validade. Não há ainda valores seguros nos seus sucessores e Fernando Santos em Portugal terá que se contentar também com valores emergentes mas longe de oferecer a segurança dos há muito idos Figo, Rui Costa, Couto, Paulo Sousa, João Pinto, Nuno Gomes, Pauleta e outros. Não haverá milagres.

Nota importante: Este é o primeiro texto de uma parceria hoje iniciada com o Portal Bola na Rede. Apesar de me debater com imensas dificuldades em actualizar os conteúdos do "A Norte de Alvalade", não consegui resistir ao convite que me foi feito, porque é uma honra ver o meu nome associado a um projecto de qualidade acima da média.
O Bola na Rede "é um portal de opinião desportiva, cuja plataforma de distribuição de conteúdo é o online. Fundado a 28 de outubro de 2010, o projecto começou por ser apenas um programa de rádio dedicado ao debate semanal sobre a jornada desportiva.
Com a sua evolução gradual, o Bola na Rede começou a atrair convidados de renome no universo desportivo nacional para participar nas suas emissões semanais. De entre os vários nomes, destacam-se Bruno de Carvalho, Luís Freitas Lobo, Toni, Carlos Daniel ou Fernando Santos.
Depois de ter atingido um patamar de referência no panorama universitário, o programa acabou por avançar para uma nova plataforma no dia 2 de Outubro de 2013: o online. Conjugando um vasto leque de colaboradores ligados às mais variadas áreas do desporto, o projecto reestruturou-se, dando origem a uma inovadora conexão entre rádio e imprensa. A voz uniu-se à escrita e o resultado foi a criação de um website de opinião e debate ligado às mais variadas áreas do desporto nacional e internacional.
O Bola na Rede assume-se agora como um portal online, com objectivos claros de continuar a oferecer os melhores artigos e exclusivos de opinião desportiva aos seus leitores."

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

E depois de Paulo Bento? Jesualdo Ferreira!


Paulo Bento cumpriu o destino que o resultado com a Albânia Ddeixou traçado e já não é o seleccionador nacional. Muitos nomes foram já lançados mas um que não vi invocado seria a minha escolha: Jesualdo Ferreira.


Por exclusão de partes não acredito que Rui Jorge ocupe o lugar deixado vago por Paulo Bento sobretudo pela ligação pessoal que existe entre os dois. E depois porque no que às competências diz respeito não nenhum ganho evidente, acrescendo a desfavor do actual treinador da selecção sub-21 a sua limitada experiência e "peso". Sem qualquer garantia de significar uma mais-valia no escalão acima, será aconselhável interromper a senda de bons resultados do seu grupo de trabalho?

Nomes como Manuel José representam o passado, a água já há muito passou debaixo daquelas pontes. 

Fernando Santos tem experiência e "peso". A sua entrada na selecção representaria com muita probabilidade o regresso de alguma estabilidade e segurança ao futebol da selecção. Porém não foi por aí que Paulo Bento falhou. Duvido que o homem da linha representasse o rasgo e audácia que Paulo Bento só esporadicamente alcançou. O facto de ter um longo castigo por cumprir não ajuda muito a sua candidatura.

Vitor Pereira é um bom nome se o horizonte for o resultado imediato, isto é, a qualificação para o próximo europeu. A selecção ficaria bem servida mas creio que precisa de algo mais.

Pode por isso parecer uma contradição nomear um treinador como Jesualdo Ferreira, mais ou menos da mesma geração de Manuel José. Mas não é. O passado documenta percursos diferentes, a passagem por projectos ligados à formação de jogadores é um deles. Mais importante parece-me a competência e capacidade de planeamento, mesmo que isso representasse menor preocupação com o resultado imediato. Não significa com isto abdicar do objectivo imediato, a qualificação para o Europeu.

Recordo-me das palavras recentes de um responsável do futebol alemão, lembrando que a humilhação sofrida perante Portugal foi o catalisador para um projecto de reorganização cujos resultados, após 10 anos, estão à mostra. O campeonato do Mundo no Brasil foi apenas uma amostra, o futebol alemão, quer a nível de selecções ou de clubes, é uma promessa de hegemonia cada vez mais concreta.

O futebol nacional, nas selecções e não só, precisa de ser repensado e projectado para lá do próximo jogo e da próxima qualificação. Jesualdo Ferreira é, dentro dos treinadores disponíveis, o que tem perfil mais adequado para o fazer e conhece os cantos à casa do futebol português. Seria a minha aposta.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A competência e a falta dela. (Na selecção e no Sporting)

Passe o exagero, o dia futebolístico de hoje deve-se assemelhar ao dia em que se conheceu a noticia da derrota em Alcácer-Quibir: Um desastre nacional! É pelo menos assim que amanheceram a generalidade das reacções à derrota no jogo de estreia com uma selecção sem outro historial que não seja perder jogo sim, jogo sim, e de vez em quando não.

Paulo Bento é o réu já no patíbulo, falta saber a que horas a guilhotina começará a viagem descendente. Aqui, o maior erro do ainda seleccionador é não ter percebido que a sua morte para a função já havia ocorrido ainda no Brasil e ter continuado a acreditar na sua própria ressurreição. Quando olhou para o os compromissos já calendarizados provavelmente achou que ela era facilmente alcançável. Agora, a ocorrer, será apenas ao segundo jogo...

Falar em morte é referir-me à sua credibilidade, importante para definir a relação de confiança com os adeptos, e através dela a ligação indispensável com a equipa. Ao falhanço rotundo na excursão ao Brasil - definição particularmente benévola - seguiu-se uma "corajosa" assumpção de culpas próprias, mesmo que em modo de português suave. As aspas estão ali para lembrar que se tratou de um acto pouco comum entre responsáveis do que quer seja, que deveria ser o hábito e não a excepção.

A falência da confiança em torno de Paulo Bento não é tão importante como a da sua competência técnica. Não me parece que a possa ter perdido com o passar dos meses, como se de ar de um furo lento num pneu se trate. Mas é incontestável que já nada resta das promessas deixadas pela goleada épica aos "nuestros hermanos", ainda estes viviam dos juros da sequência dos títulos alcançados. Dizer hoje que a selecção não joga um caracol é não gostar de nenhuma das formas que estes são conhecidos, seja num pires com uma loira, seja nos cabelos dessa mesmo... Esse é principal problema de Paulo Bento e da selecção, mais do que jogar este ou aquele naquela posição, daquele ou deste empresário, porque até não há assim tanto por onde escolher.

Sem ilibar as responsabilidades do seleccionador - porque a selecção tem que ser capaz de muito melhor ante os albaneses ou cipriotas desta vida - há que constatar que a qualidade humana e mesmo o espectro de recrutamento de Paulo Bento diminuiu drasticamente desde que a Albânia, há 6 anos, nos pré-anunciou o que ontem concretizou. Mas não é de todo de esquecer que nesse dia em Braga jogaram Ronaldo, Nani e Quaresma que, juntamente com Miguel, Pepe, Bruno Alves, Moutinho, Almeida, Danny, eram 6 anos mais novos. Paulo Ferreira, Miguel e Nuno Gomes ainda jogavam, o que emprestava a Carlos Queiroz muito maior qualidade que hoje Paulo Bento tem à disposição. Isto sem falar em Bosingwa, Carvalho, Simão que, à altura, estavam lesionados.

O apuramento está longe de estar comprometido por causa da perda de um ponto, se se quiser fazer o paralelismo com o resultado de 2008, com realce para o facto de a qualificação para o Mundial que então se disputava ser muito mais contingente que a mesma fase do Europeu que agora começa. Se é indiscutível que é impossível fazer pior, não será difícil constatar também que venha quem vier tem possibilidades diminutas de igualar o que fez nos anos mais recentes, nomeadamente os segundos lugares dos europeus que, Lisboa 2004 à parte, pareceram significar sonhos acima das nossas possibilidades futebolísticas.

Muito do que hoje somos (in)capazes de fazer já não está no jogo em cima do tabuleiro do seleccionador. A célebre geração de ouro de Queiroz já deixou de render dividendos há muito, a que se veio a somar uma geração de ouro azul e branco (Mourinho e as suas equipas que ergueram a Taça UEFA e dos Campeões Europeus), onde se sustentaram as vitórias do clube da Invicta e último estertor de uma selecção capaz de navegar no mar dos big five dos rankings. De lá para cá vivemos da nulidade do trabalho que deixou de ser feito no fomento do futebol jovem com a saída de Queiroz e com a chegada em jeito de contentores de jogadores estrangeiros à volta dos quais se vão construindo as equipas dos clubes grandes.

O Sporting tem sido mais ou menos a excepção nesse movimento, processo que agora apregoa querer regressar, depois da passagem de Bettencourt e Godinho Lopes pela presidência terem significado um importante desvio numa aposta que até vinha parecendo assumir um crescimento sustentado. Coincidência das coincidências, protagonizado pelo mesmo Paulo Bento.

Falta ainda saber o real impacto da chegada de tanto jogador jovem para competir com jovens. A sua real importância só a conseguiremos perceber daqui a alguns anos, tal como está o país futebolístico a perceber agora os resultados da falta de planeamento. Obviamente que o desfecho não tem que ser igual, o que se pretende é prevenir que, acima das discussões mais ou menos acaloradas sobre a aposta na formação e falta dela, as verdadeiras consequências estão ainda fora do alcance dos nossos olhos.

Como é fácil de perceber pelo que aqui escrevo, tenho muitas dúvidas no modelo que vem sendo seguido. Não me parece fazer sentido apostar em jogadores que, pelas primeiras impressões, nada acrescentam em qualidade aos lugares para que pareciam destinados, a primeira equipa, acabando por se acotovelar na B "para ganhar experiência".  A grande vantagem é que este meu "delito de opinião" não traçará o destino de sucesso ou continuação de falta dele para a principal equipa do Sporting.

Quanto a mim o insucesso que se regista há anos, e que a falta de troféus recentes documenta, deve-se à falta de competência exibida pelas diversas equipas dirigentes, consubstanciada numa compreensão deficiente das exigências do futebol profissional. Debilidades acentuadas pela instabilidade interna em que o clube tem vivido e que os nossos adversários/inimigos têm sabido aproveitar e potenciar nos momentos certos.

Apesar disso, ao contrário do que parece ser um movimento de opinião crescente, não é a acção dos jornalistas, dos dirigentes disto e daquilo, a responsável principal pela nossa anemia competitiva. As principais razões deverão ser procuradas internamente e, como em tudo na vida, a situação actual é o resultado de escolhas feitas e da qualidade ou falta dela que daí resultou. Tal como as de hoje serão no futuro a médio/longo prazo.

Para exemplificar nada melhor do que olhar para o que se vem fazendo no futsal. Os adversários/inimigos são mais ou menos os mesmos, as suas acções também. Vale assinalar que a concorrência menor,  por falta do FCP, também seja determinante, porque não é o mesmo que competir a 2 ou a 3.

Mesmo com ajustes nos orçamentos, saídas de jogadores importantes, o Sporting mantém a hegemonia da modalidade, como ainda no passado fim-de-semana fez questão de demonstrar. Seguramente que os resultados alcançados espelham a qualidade do trabalho realizado. Até mesmo nos anos em que não se consegue ganhar as equipas do Sporting não deixam de ser referências na modalidade. Mesmo percebendo as diferenças de contexto, talvez o futebol deva olhar mais vezes ao que se faz de bem à sua volta, no clube.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Paulo Bento (e com ele, muitos) parece não ter aprendido com o Sporting



As razões de Paulo Bento
O que leva um homem experimentado como Paulo Bento, com décadas nas pernas e na cabeça a lembrar-lhe que no futebol não há "amanhãs" a proferir a frase infeliz que proferiu, o tal " aconteça o que acontecer, não me demito"? 

Infeliz por que aconteceram já demasiadas coisas para o seu trabalho se poder furtar a uma avaliação aberta a qualquer decisão. E porque, infelizmente, a equipa que comanda tem dado de si mesma uma imagem de confrangedora e inesperada fragilidade - trata-se de um grupo em que a opção pela experiência sacrificou outras opções - está longe de dar garantias de o resultado do último jogo deste Mundial não faça recrudescer entre o público as ganas de o ver pelas costas.

A resposta à pergunta formulada no primeiro parágrafo parece-me justificar-se em duas razões: a questão da sua continuidade foi aberta no dia anterior por um superior hierárquico, o vice Humberto Coelho. E com demasiada amplitude, parece-me, deixando Paulo Bento sem a sustentação necessária. Ora Paulo Bento sabe muito bem que  o pior que pode acontecer a um treinador é o balneário ser contaminado pelo odor a debandada e fim de ciclo. Não há clarividência táctica que se oponha a descredibilização de um líder. Tudo o que Paulo Bento não precisava para acrescer às dificuldades do jogo com o Gana e que permitam uma saída honrosa do Brasil. 

A abertura de Humberto Coelho na véspera introduziu a dúvida da sua continuidade, que mais não foi do que uma tentativa patética de apagar a fogueira atirando-lhe gasolina. Os balanços fazem-se depois da travessia e não quando o barco navega pelos rápidos e, aparentemente, ao sabor dos elementos.

A hora dos profetas do passado e dos especialistas do dia seguinte
Sem dúvida que os resultados da selecção nacional, e particularmente as exibições frágeis da selecção, apanharam de surpresa a generalidade dos portugueses. Creio, contudo, que grande parte das reacções, em particular as dirigidas a Paulo Bento, primaram pelo exagero e pelo destempero. E com uma contradição de assinalar: a generalidade dos comentários sustentam-se em afirmações de repórteres a quem não se atribui grande credibilidade, embora se repitam até à exaustão os seus argumentos.  De repente ficamos a saber que Portugal é um país de especialistas em climatologia, que muitos conhecem melhor o Brasil sem dele ter visto mais de um país semi-continental que umas quantas telenovelas. Isto sem descurar que em cada um de nós vive um treinador que acertaria no totobola... todas as terças-feiras.

As culpas de Paulo Bento
Muito do que temos visto e que tanto nos tem desgostado na prestação da selecção escapou ao controlo de Paulo Bento, como escaparia ao controlo de qualquer outro treinador. A atitude de Pepe, as lesões de Patrício, Coentrão e de Hugo Almeida foram contrariedades a mais a um jogo que até não estava a correr mal. Porém aquelas contribuíram para um resultado que nos deixou demasiado expostos. O volume do resultado, entenda-se, não a derrota com a Alemanha. Um costume, se atendermos ao histórico.

Não foram também as decisões de carácter individual que determinaram os desfechos negativos. Podemos discutir se William não fazia melhor do que Veloso (o que parece uma evidência, mas não com o desnível que se quer fazer crer), se Almeida devia sequer estar ali (não foi tão mau como o pintam). Podemos discutir se Meireles, Bruno Alves e Postiga merecem ainda a convocatória mas, como muito bem me lembrou um caro amigo, o que se diria hoje se não tivessem jogado e os resultados fossem mais ou menos os mesmos...

O que me parece acima de qualquer discussão foi a fragilidade revelada ante os Estados Unidos e essa sim determinante para a situação de malas feitas em que nos encontramos. E essa é uma matéria em que um treinador inevitavelmente tem de ver o seu trabalho questionado. Um jogo terrível, de total incapacidade de controlo de uma equipa  vulgar - não há jogos nem adversários fáceis num Mundial - transformando-o numa espécie de rodeio yankee, em que nós fizemos a figura do vaqueiro sempre no chão, no meio do pó. A ilusão de facilidades do golo madrugador do Nani também me parece ter ajudado pouco. A tragédia no Brasil tem sido a total ausência de uma equipa e de um grupo incapaz de se opor às contrariedades.

O abismo de Ronaldo
Quem sai mais beliscado deste naufrágio à vista é indiscutivelmente quem mais tinha a perder: Ronaldo. Do lugar que alcançou há um enorme abismo a separá-lo do resto dos colegas. Ser-lhe-ia muito mais vantajoso esquivar-se, o que não está na sua natureza. Mas é também indiscutível que não vive os seus melhores momentos, o que já se arrasta desde Madrid. O que podia ser disfarçado com o suporte de uma equipa que, porém, não tem existido. Já Ronaldo fazer sozinho o que compete a uma equipa nunca seria impossível. O mais que se vai dizendo sobre o jogador são comentários de gente ressabiada pela sua ligação ao Sporting, origens que não renega, ou pela atávica inveja tuga sobre os que triunfam. Mas esse é capaz de ser o menor dos problemas, Ronaldo é um exemplo de superação e voltará a aparecer forte, quem sabe ainda mais forte.

Paulo Bento, sim ou não?
Quer ele queira quer não o assunto vai estar na actualidade nos próximos tempos. Com sorte, as atenções voltam-se a centrar nos clubes e até às primeiras convocatórias, ninguém se vai lembrar dele. Até porque, ao que parece, os portugueses lembram-se mais da selecção quando ela ganha. 

Ouvir falar em Fernando Santos - parece-me haver algum spin... - é motivo de sorriso. Em matéria de competência a figura de Paulo Bento sai agora diminuída pelo insucesso, naturalmente. Mas não me parece que possa haver ganhos evidentes aí, que é onde a decisão se deve centrar. Já em questões de seriedade e carácter equivalem-se.

Houve algo que aprendi na passagem de Paulo Bento pelo Sporting: mudar por mudar não é um bom negócio. Nem Paulo Bento era então tão mau nem hoje tão bom que não possa ser substituído. Mas  parece-me consensual hoje que ele e a equipa que então lhe dava suporte no Sporting - técnica e directiva - não soube fazer a necessária autocrítica e em tempo útil, deixando-se cair de maduro, até apodrecer no chão. Talvez Paulo Bento deva hoje lembrar-se disse e demonstrar que aprendeu alguma coisa com o passado.

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