O legado da loucura: dois pássaros a voar
Publicação parcial de um artigo "o esférico" na sua página do Facebook sobre a evolução dos processos das rescisões
(...) Como estratégia negocial, o arrastar das negociações por parte dos clubes envolvidos visou apenas explorar a expectativa plausível de que o caso ainda parisse mais do que umas dúzias de ultras desvairados. Com a detenção de Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, essa estratégia dá agora os seus frutos. E entra pelas portas do clube adentro — com estrondo e indiscriminada desonra. Passámos do domínio da especulação para o domínio da realidade gangster. Da teoria do hooliganismo desdentado para um golpe urdido na — ou com o beneplácito da — "cúpula."
Estou surpreendido? Lamentavelmente, não. Quase sempre o que parece é. E, independentemente do que mais a investigação vier a apanhar nas suas redes, este desenvolvimento, por si só, é já quatro palmos de terra sobre as aspirações jurídico-negociais do Sporting. Numa altura em que o presidente se prestava para fechar algumas negociações vitais, esta notícia terá o efeito imediato de congelar qualquer entrada de dinheiro nos nossos famélicos cofres. Nesta guerra de desgaste, o tempo — e a justiça — corre a favor dos outros.
Ironicamente, chegará em breve o dia em que aqueles que clamavam pela lapidação dos atletas serão os que, de futuro, abençoarão a estratégia da mão estendida. Mão estendida, não para que nos dêem qualquer coisinha, mas para que nos perdoem as indemnizações que nos são exigidas. A longo prazo, talvez seja isso o melhor que conseguiremos extrair de todo este escabroso 'affair.'
Perder os eventuais lucros com a saída dos jogadores é péssimo. Somar a isso dívidas milionárias é catastrófico. Por isso mesmo, esperava maior solidariedade e consciência de alguns sectores da massa adepta, num clube que fez da exclusividade a imagem de marca dos seus apoiantes. Confundir interesses sectários com os interesses do Sporting é um equívoco crónico por estas bandas. No limite, conduzir-nos-á à perda da maioria na SAD.
Entendo agora a velha máxima. Sim, o Sporting tem de facto adeptos especiais. Alguns até são especialmente palermas. Porque, mais do que as 'débacles' financeiras, o clube não sobrevive é a isto. O clube não sobrevive a adeptos que, à 7ª jornada, exigem a cabeça do treinador. Não sobrevive à bipolaridade doentia. Não sobrevive ao "sportinguismo" mercenário de bloggers de brega, facebookers de vão de escada e 'camisas negras', cujos reais intentos se manifestam vivamente nos desaires que o clube sofre.
Tal como não sobrevive a ex-candidatos que, passado um mês sobre as eleições, acham-se ainda em campanha. Bem, sobreviver, até pode sobreviver. Mas nunca triunfará. E se a acção destes não supõe contributo melhor do que queimar o clube na fogueira da sua esquizofrenia, então melhor seria que se afastassem do Sporting. Num mundo em que a maioria silenciosa se remete a uma bolha de comodismo e as minorias histéricas são quem mais influencia o processo decisório, está nas mãos de todos nós — a maioria — espezinhar a cultura do fratricídio e devolvê-la ao ralo infecto de onde saiu. Porque, seja qual for a causa que aqueles julgam estar a servir, essa causa não é a do Sporting.
É este o legado da loucura. Dois pássaros a voar.




