Selecção Nacional: Orgulho e distinção (também na Geração Academia)
Terminou com honra e distinção a participação de Portugal no
Euro2012. Ao prolongar até ao último instante a indefinição do nome do primeiro
finalista da competição e fazê-lo ante a poderosa Espanha, actual titular e
campeã do Mundo, a equipa portuguesa não só recuperou o seu estatuto no
panorama do futebol mundial, depois de uma prestação cinzenta quer no
campeonato do Mundo, quer na fase de qualificação, como o reforçou. Não há
razão para que a frustração, a tristeza ou a dor da eliminação por penalty´s nos
roube o orgulho pelo que foi feito na Ucrânia e Polónia.
Algumas notas avulsas:
Paulo Bento é sem dúvida o principal responsável pelo feito,
como o seria se as coisas tivessem corrido mal. Pegou numa selecção
esfrangalhada, descaracterizada e sem liderança, arrancou-a da proximidade do precipício
que significaria uma não qualificação, para a apurar para as meias-finais,
quando o destino “certo” era não sobreviver às dificuldades do grupo da morte.
Tivesse a possibilidade de dispor da riqueza do
lote de jogadores que Bert van Marwijk dispôs, ou apenas das soluções de
banco que Del Bosque tinha ontem à disposição – repare-se que jogadores como
Mata ou Fernando Lorent não têm sequer um minuto de competição – e provavelmente
cantaria mais alto o galo de Barcelos do que hoje muge o touro espanhol. E
dizer isto é talvez o maior elogio que se pode fazer a um treinador: a
capacidade de liderar e retirar o melhor possível dos jogadores à sua
disposição.
Apesar disso não desisto do meu cargo de treinador de
bancada, (e da sua missão fácil que é analisar os jogos no conforto do sofá e depois
destes terem ocorrido). A estratégia para o jogo foi a mais correcta, tendo nós
beneficiado da surpresa frustrada que Del Bosque nos presenteou com Negredo. Mas
após a entrada de Fabregas, Navas e Pedrito Paulo Bento não reagiu nem agiu,
limitando-se a mudar as pedras. Ora se Hugo Almeida já estava apenas a fechar o
corredor esquerdo não se arranja ninguém melhor para a função do que o imberbe
Oliveira? Não teria sido melhor alterar a disposição táctica, procurando dar
mais presença e proximidade de apoios no meio-campo? Os últimos 40 minutos de
jogo deixaram a perceber que a nossa melhor chance estava nos penalty´s, quando
deixamos de ver a baliza de Cassillas. Baliza essa que esteve sempre muito bem
guardada, não apenas por que Casillas é quem é, mas também porque a vimos
apenas de esguelha. Muito mérito dos espanhóis em “oferecerem-nos” apenas as
laterais para rematar, ou a falta que Postiga fez para permitir as aproximações em
diagonal de Ronaldo ou Nani. E sem o talento de dois dos nossos melhores, ou
com ele tão distante, tudo é muito mais complicado.
O futebol é por vezes muito injusto e ontem foi-o duplamente
para Moutinho, o melhor jogador em campo. E a primeira injustiça foi
precisamente essa: que não lhe fosse atribuído pela UEFA o prémio que entregou
a Sérgio Ramos. A outra foi que o “obrigassem” a bater o penalty, num exercício
de falta de memória, ou teimosia temperada com muito wishfull thinking de Paulo
Bento, que do banco do Sporting já o tinha visto falhar vezes sem conta (e
precisamente da mesma forma como o fez ontem): fraco, denunciado, rematando
para o lado em que o seu remate perde força e precisão. A decisão por penalty´s não é apenas sorte, mesmo considerando que os espanhóis a tiveram e nós não: o remate de Bruno Alves bateu e saiu e sorte inversa teve o de Fabregas.
Falou-se aqui, no lançamento da meia-final de ontem, na
Geração Academia. Moutinho, a par de outros jogadores de que ouviremos falar no
futuro, é talvez o melhor exemplo da categoria da escola de formar jogadores
que é hoje o Sporting. O facto de hoje jogar num clube rival (sem esquecer o
episódio infeliz que o levou até lá, do qual ele é apenas um dos
intervenientes, e não o que tinha a faca e o queijo na mão…) não deve, não
deveria, concorrer para que se olhe para ele de outro modo.
Moutinho não
é hoje melhor do que era quando saiu de Alvalade, pese possa ter amadurecido. O
que ele faz hoje em campo já o fazia antes no Sporting. E até como ontem se viu a falhar penalty´s, Moutinho é o mesmo jogador, afastando os vaticínios de uma
famigerada infelicidade sportinguista que
o marcaria. Os 2 anos que leva de FCP até isso nada mudaram. Moutinho não é,
como num golpe de marketing meritório se quis fazer crer, um jogador “à Porto”. O que ele tem é a marca do que o Sporting faz melhor do que a maioria: formar, como poucos
sabem, jogadores de futebol.
Moutinho é hoje muito daquilo que o Sporting lhe deu: as
ferramentas para se tornar um jogador de futebol. Com as sua características e
noutro clube estaria hoje provavelmente a rodar pelo enésimo clube, ainda à
espera de uma oportunidade, que poderia nunca mais chegar. Embora as atenções
se concentrem na capacidade da nossa escola de descobrir talentos como Ronaldo,
Figo, Nani, não deixa de ser menos meritório a capacidade com que gemas de
menor quilate sejam paciente e paulatinamente lapidadas até figurarem, encastoadas,
apontando às pedras maiores.
Daqui a muitas décadas todos se lembrarão de Ronaldo e provavelmente jogadores como Moutinho serão esquecidos. Mas é de muitos jogadores assim que se fazem as grandes equipas, que se ganham títulos, Ronaldos acontecem poucas vezes em cada século. Uma lição a retirar em especial pelos Sportinguistas, que viram este Europeu confirmar a excelência da sua formação.
Daqui a muitas décadas todos se lembrarão de Ronaldo e provavelmente jogadores como Moutinho serão esquecidos. Mas é de muitos jogadores assim que se fazem as grandes equipas, que se ganham títulos, Ronaldos acontecem poucas vezes em cada século. Uma lição a retirar em especial pelos Sportinguistas, que viram este Europeu confirmar a excelência da sua formação.





