Começo pelo fim: a triste rábula de Nicolae a que todos fomos assistindo ontem é a demonstração clara e que organização administrativa do Sporting está muito longe de estar à altura da história do clube. Essa é uma fragilidade há muito detectada mas sempre irresolvida . Dessa forma, ao invés de fornecer soluções é mais um problema a potenciar a tomada de más decisões, expondo ao ridículo o clube, de sócios a dirigentes por atacado. Como ainda se viu esta semanas, erros todos cometem, até os mais excelsos e incensados departamentos de futebol. Aqueles porém de têm que constituir excepções e não regras repetitivas.
Somada à impossibilidade de pagar tanto como a concorrência esta declarada incompetência afasta os melhores profissionais. No post anterior falei da última equipa campeã e, olhando para a sua constituição, percebe-se que eram os melhores da altura. Sem os melhores o Sporting travará uma dura luta para igualar a concorrência. Alguém fica surpreendido que o Kléber - que até está longe de ser um valor incontestado - não tenha querido vir? O que pensará hoje Jesualdo? E que repercussões terá este triste episódio no seio do balneário?
E, como um mal nunca vem só, a sessão de esclarecimento realizada pela MAG contribuiu para mais uma entrada para o álbum dos horrores do nosso clube. O comportamento exibido, de forma premeditada, por alguns dos participantes, com arremessos de objectos e insultos à mistura, merecem total e inequívoca reprovação.
Devo dizer contudo que tal não me surpreendeu. Face ao momento, cada individuo responde conforme a formatação conferida pela sua condição e por isso não será de estranhar que elementos ligados a uma claque assim se manifestem. Só estranho é a surpresa e a indignação de quem, no dia a dia, nas redes sociais e nos mais diversos fóruns, usa o insulto e as provocações com igual facilidade para dirimir naturais diferenças de opinião. E não vi igual reacção em situações idênticas ou com ameaças físicas bem mais evidentes.
Mas não ficaram por aqui as surpresas desagradáveis. Daniel Sampaio não conseguiu resistir a deixar alguns remoques que indiciam parcialidade numa matéria em que tem que dar cumprimento aos estatutos, mas não apenas ao requerimento que foi apresentado por alguns associados. A MAG não pode prescindir de representar TODOS os sócios, sob pena de alienar o que é de mais nobre na função que lhes foi confiada.
É-me também difícil de perceber as razões que podem justificar a pressa desta A.G., de forma a que ela decorra no Estádio em pleno inverno, quando poderia acontecer num pavilhão no dia 2 de Março, como foi dito. É certo que, para dar cumprimento aos estatutos, a AG deve decorrer após os 30 dias depois de verificadas a existência de todas as condições. Esta não deveria ser uma delas?
Se o grande lema por trás da realização da AG é "ouvir os sócios" - poderíamos discutir se num evento do género e sob o actual condicionalismo há condições para tal... - porque razão se marca a AG para as 10:30 da manhã? Para a MAG serão porventura coisas comezinhas mas, se até para quem mora em Lisboa o horário é despropositado, para os muitos Sportinguistas que moram longe é um completo absurdo. E não apenas porque têm, uns mais do que outros, de prescindir de horas de descanso, mas porque o evento seguramente que entrará pela hora de almoço dentro e prosseguirá durante a tarde. A AG é do Sporting Clube de Portugal ou apenas o de Lisboa?
Mas não é tudo. Nas explicações referentes à escolha do local, Daniel Sampaio deu conta que a MAG procurava desde Outubro um local para a realização de uma AG. Interpelado por um sócio que o confrontou com o facto de o requerimento ter sido apenas entregue em Janeiro, indagando a razão da procura em Outubro, Daniel Sampaio desmentiu-se de uma forma plácida mas indecorosa. Quem da mesa veio em seu auxilio acabou por o desmentir novamente, deixando entender a existência desses contactos prévios.
A pressa e a falta de transparência deste processo dão razões para aos que pensam estarmos na presença senão de um "putsch", para colocar algum delfim no poder, pelo menos a um ajuste contas pessoal ou relacionado ao pedaço de mais recente da nossa história, iniciado nas eleições de 26 de Março de 2011. É que os rumores de conspirações não estão exclusivamente indexados ao CD, conhecem-se várias movimentações de elementos da MAG, quer nos "apelos à luta" quer para os momentos "post AG".
Dos argumentos/acusações mais estúpidos que tenho sido sujeito é a de que as minhas posições indiciam conformismo ou até satisfação face situação do clube. E isso é quase tão estúpido como fazer crer que essa situação se resolverá melhor fazendo cair a direcção, deixando o clube entregue a uma comissão de gestão. Sabendo que o Sporting precisa mensalmente de 4 milhões de euros para satisfazer os seus compromissos mais prementes e da fragilidade que representa uma figura gestionária tão precária, fazer juizos destes é muito mais do que temerário, roça a inconsciência.
Disto nos têm alertado várias personalidades que, pelo que fazem na vida, deveriam ser consideradas idóneas e insuspeitas. Ou também são avençados de GL?
António Pires de Lima dizia há dias:
A única coisa que digo é que do ponto de vista do interesse da instituição e como associado defendo que uma avaliação desta direcção só devia ser feita em AG no fim da época. E se for feita, como parece ser um facto assumido pelo presidente da mesa da AG, já em fevereiro, vamos ser forçados, mesmo aqueles que não se revêem totalmente na direcção do eng. Godinho Lopes, a apoiá-lo, pois o Sporting não pode ficar ingovernável, o Sporting não pode ter como única alternativa um vazio completo que ainda por cima pode atirar o clube para um aventureirismo que pode ser mortal."
Trataram logo de ir buscar uma fotografia dele ao lado de Pinto da Costa, com uma camisola à Porto, numa acção de campanha da empresa, da qual é CEO, considerada um modelo na sua área. Isto, claro, para não ter que discutir o essencial das suas afirmações.
Pedro Guerreiro, director do jornal de negócios:
É uma guerra. Uma guerra de guerrilha. A sublevação da assembleia geral do Sporting, um movimento liderado por Daniel Sampaio, contra a direcção do clube, de Godinho Lopes, é um golpe institucional. Possivelmente, a lei impedirá o "movimento" da assembleia geral. Mas também não impedirá o movimento de desagregação do clube.
Já aqui escrevi: o problema do Sporting não foi causado por Godinho Lopes, que herdou uma situação financeira e desportiva descontrolada. Mas o presidente foi incapaz de resolver o problema, revelando ademais falta de capacidade de liderança. Dito isto, é difícil de compreender que se queira defenestrar Godinho Lopes do Sporting violando a letra e provavelmente o espírito dos estatutos do clube, começando pela falta de equidistância que supostamente a assembleia geral tem de representar. Contra a falta de golpe de asa de Godinho, uma golpada da assembleia geral?
Tudo isto acontece numa altura aparece um plano B no Sporting. No relvado, a equipa parece ter começado a ganhar tino.Nas finanças, há um projecto que inclui um perdão de dívida pela banca. Um perdão de 60 milhões, além de uma nova extensão de prazos e baixa do juro cobrado. Caído do céu. Mas dependente de uma injecção de 40 milhões. Isto quer dizer que o projecto de encontrar um investidor que trouxesse 100 milhões de euros fracassou. O mesmo valor será conseguido de outra forma, se o for: 60 milhões perdoados, 40 milhões investidos. Alguém investe?
Veremos. O rumo do Sporting continua sinuoso. Godinho Lopes tem rédea solta e vida curta, que só poderá estender se, além de ter encontrado Jesualdo, encontrar um russo ou um árabe que passe cheques. Sem dinheiro, o Sporting está e continuará em maus lençóis. E passará da assembleia geral para a assembleia de credores.
O Sporting está neste momento sob uma tempestade perfeita em que, como tantas vezes sucede, vários dos seus intervenientes têm falhado os seus timings. De um lado, a actuação de GL na condução desportiva tem dado um novo significado à lei de Murphy, tendo em simultâneo negligenciado a necessidade de esclarecer a sua base de apoio, convocando eleições. Do outro lado uma MAG que de há muito tem procurado, mais do que soluções, capitalizar o descontentamento geral.
Uns alinham-se de um lado ou de outro e outros, creio que muitos, olham atónitos e ficam preocupados, e com sérias razões para assim estar.