A queda de Jesus e outros dramas, horrores e tragédias
O expoente do drama, mais do que na mais verosímil representação teatral ou cinematográfica, surge sempre das imagens da vida real e Jesus, a cair de joelhos, fulminado pelo tiro do improvável e inestético Kelvin corre bem o risco de se tornar um ícone. Será, independentemente até de qualquer outro desfecho que venha ocorrer no campeonato, uma imagem que perdurará. Uma imagem ilegendável porque há nela muito mais do que mil palavras: a dor, a frustração, o anúncio da morte de um título ocorre em simultâneo com a exultação e o júbilo em pano de fundo.
Como Sportinguista já tive muito mais "disto" do que julgava ser a quota de sofrimento que um adepto pode ser capaz de aguentar. Muito mais do que merece, seguramente. Por isso a última coisa que pretendo neste post é por sal na ferida dos benfiquistas nesta manhã, muito menos convocá-los para aqui despejarem a ira e a natural frustração. Há quem diga que vivem hoje algo semelhante ao que nos foi servido em 2005. Não é bem assim,há diferenças e substanciais.
A primeira é que a Taça UEFA é ainda possível e mesmo que a percam não doerá mais do que perdê-la em casa perante os adeptos. Só os benfiquistas que viveram momento igual com o Anderlecht (olha, de Vercauteren) lhe conhecerão o sabor.
A segunda, e que marca uma grande diferença entre nós e muitos dos adeptos mais notórios dos nossos rivais é que em 2005 não festejamos antecipadamente, não reservamos o Marquês, não fizemos conferências de imprensa patéticas a tresandar a mau ganhar.
Uma última palavra sobre Jesus. Ainda não perdeu o campeonato mas pode muito bem retirar do jogo de ontem a lição de humildade que ainda lhe falta para se tornar um treinador ainda melhor do que indiscutivelmente já é. Não me esqueço da comparação jocosa que fez no final do derby. Mas se o jogo de ontem ditar a perda do campeonato bem se pode perguntar do que lhe valeu abdicar da identidade da sua equipa para acabar por perder. A forma como sofre o segundo golo comprova o erro, por mais tracção atrás que pusesse os seus jogadores não estavam preparados para jogar assim. Uma derrota assim será sempre mais dolorosa, porque não se perde apenas os 3 pontos,o campeonato,perde-se também a face.
Uma palavra para Vítor Pereira. Um underdog que, apesar das vitórias, não consegue ser visto de outra forma pela maioria dos seus adeptos, dos quais o Miguel Sousa Tavares é dos mais risíveis. O que escreverá ele na sua próxima crónica? A performance do Porto, e do seu treinador em particular, merece todo o destaque. Tratado com desprezo, vendo-se consecutivamente condicionado pela perda de valores sem substituição à altura. Basta olhar para o que era ontem o banco que tinha à disposição e que era o do adversário. Ninguém sabe onde meteram tanto dinheiro recebido com a catadupa de transferências milionárias para serem obrigados a negócios de ocasião de duvidoso acerto como Liedson e Izmailov. Vítor Pereira, que sintomaticamente celebrou sozinho o golo da vitória, teve ainda o bom senso de perceber que não ganhou nada sem ganhar ao Paços. O golpe de teatro é possível e ele sabe-o. A acontecer, talvez introduzisse alguma justiça para uma equipa que geralmente foi mais brilhante, mas o equilíbrio é o que normalmente faz os campeões, e essa é uma característica da sua equipa e não há como não lhe reconhecer o mérito.
Há outra razão, e de fundo, pela qual não encontro nenhuma vontade de me rir da empáfia dos lampiões ou do sofrimentos dos benfiquistas. Não que alguns dos primeiros não preferissem neste momento, trocar de posição comigo. É provavelmente mais fácil lidar com a frustração de não ir à Europa do que perder um campeonato desta forma e viver com a angústia de não saber o que fazer de uma equipa destroçada que tem uma final pela frente. Essa razão de fundo não se limita apenas à ausência das competições europeias mas à consciência de que, quando o próximo campeonato começar eles - FCP e SLB - estarão na Liga dos Campeões, têm um plantel valorizado e, consequentemente mais possibilidades de se refazerem dos desaires. Logo, ainda mais longe de nós.
Há duas formas de encarar isto. Com frustração e miserabilismo, destilando ódios. Outra é perceber que, tal como em 1975/76, em que também ficamos de fora da Europa,o Sporting não acabou. Talvez esta seja a altura de perceber que não é o tempo de virar as costas mas de dizer presente. Porque, como diz o aforismo, cair todos caem. A forma como te levantas é que faz toda a diferença.
















