Intenções de voto
É ainda cedo para definir a minha intenção de voto, mas se as eleições fossem hoje não sentiria segurança para votar em qualquer candidatura. Num erro de análise, julguei que Carlos Severino não fosse até à apresentação das listas, pelo que não lhe prestei grande atenção, sabendo pouco do que propõe. A lista de Couceiro foi apresentada no último dia e não lhe conheço o programa, apenas as pessoas que a compõem. Bruno de Carvalho é o que tem tudo pronto mas, à semelhança do que aconteceu nas eleições passadas, continua a não merecer a minha confiança. Ou, se quisermos continua a ter a minha desconfiança, que sai ainda mais reforçada depois da leitura do seu programa.
Programas
Não dou muita importância aos programas, o verdadeiro programa de governo de um clube é ditado pela imposição da realidade e essa constrói-se através ou muito influenciada pelos resultados desportivos. Não adianta discutir se deve ou não ser assim, é um facto. De forma simplista pode-se dizer que, num clube como o Sporting, pode-se fazer tudo muito bem feito em todas as áreas, mas todas sucumbirão sob a ditadura dos maus resultados: estes trarão contestação, esta trará instabilidade. A falta de resultados encolhe a receita e esta, tornando-se pequena encolhe também a nossa capacidade de concorrer com os melhores apetrechados. O foco tem de estar na gestão desportiva, porque o Sporting é um clube e a sua actividade principal é a actividade desportiva e é por aí que todos os castelos se têm começado a desmoronar.
Também é um facto que quase ninguém se dá ao trabalho de ler os programas, o que no mínimo é lamentável, quer da parte dos associados quer até da comunicação social. Isto conclui-se pela ausência de análise e debate que estes suscitam, quer nos fóruns quer na dita comunicação social. Esta ausência critica leva-me a pensar que "o programa" existe não para ser discutido ou para o mérito e exequibilidade do que propõe ser analisado, mas para ser agitado como um trunfo eleitoral: eu apresentei um programa de x número de medidas. Na verdade ninguém se preocupa muito com os programas se os resultados desportivos forem os melhores, este só começa a ser invocado como arma de arremesso quando as coisas começam a correr mal.
Mas um programa diz-nos muito sobre a capacidade de quem o escreve. Não me interessam muito as considerações pessoais, ou sobre sintaxe ou semântica, mas o seu conteúdo. No programa de Bruno de Carvalho vejo elencadas um declaração de intenções, isto é, com o foco no resultado final, sem explicar muito bem o "quando" e o "como".
Disse já aqui que centraria a minha atenção nas medidas e nas pessoas que estarão ligadas à gestão desportiva e da leitura rápida do programa que tenho à frente muitas me suscitam dúvidas e outras perplexidade:
A constituição das equipas técnicas será da responsabilidade do treinador principal ou estará a cargo da direcção? Que treinador aceita a intrusão numa área tão sensível da sua competência ou na definição de do preparador físico ou
de um ou dois modelos base de jogo que permitam o desenvolvimento uniforme e positivo dos atletas desde as camadas de formação à equipa principal.
ou na
Polivalência de jogadores. O plantel do Sporting Clube de Portugal será sempre preparado com atletas que permitam a evolução de um ou dois sistemas táticos definidos e sobre os quais se fará um trabalho uniforme e homogéneo desde a formação à equipa principal.
É sensato preconizar a formação de um departamento médico transversal a todas as modalidades do clube, quando tanto se fala na necessidade da especialização? Isto é sequer exequível sem um autêntico terramoto entre os diversos departamentos e a troco de que ganhos?
Como se vai reforçar a equipa com "cinco ou seis jogadores", na actual conjuntura, se for "proibido aumentar o passivo da SAD por via da compra de passes de jogadores, investindo recursos que não estejam disponíveis"?
Como é se transformam "Jogadores estrangeiros não adaptados ao futebol português" em "mais-valias claras."?
E podíamos continuar, mas não me pretendo substituir ao juízo individual que cada um deverá fazer.
Deixo de fora as questões financeiras onde, mais do que soluções concretas, são elencados objectivos, alguns deles de difícil concretização em apenas um mandato. (P.ex) limitação dos gastos operacionais a uma percentagem dos rendimentos estimados (não incluindo valores de ganhos com alienação de ativos) entre 60% (objetivo) e 90%, no prazo de dois anos).
Figuras, figurinhas e figurões
Nestas eleições falar-se-á muito mais de pessoas do que de ideias. É uma tentação em que dificilmente nos deixamos cair. Estive até em tempos para publicar aqui um post dando conta de que listas onde constassem alguns nomes seriam imediatamente banidas das minhas intenções. Ora, sabendo que no Sporting o que não faltam são figuras, figurinhas e figurões, se fossemos por aí - isto é, dar-lhes a importância que tanto buscam - acabávamos por nos desligar do essencial.
Nos processos de constituição de listas há, desde sempre, uma tentação pela busca da personalidade mais conhecida, sem cuidar muito da sua adequação para a função. Aquilo que vulgarmente e de forma depreciativa se chamam os "notáveis". Veja-se o que foi e continua a ser a acção de Eduardo Barroso.
Podemos optar censurar os autores das escolhas, mas estes limitam-se a satisfazer a procura: na hora de votar os Sportinguistas preferem os mais conhecidos, ouvindo-se muitas vezes alegar que se desconhecem quem se propõe como alternativa.
Há pelo menos uma forma de fornecer aos sócios uma informação que os ajudaria a fazer as suas escolhas: a publicação dos "curriculum vitae" de todos os candidatos. No fundo o que cada um nós tem que fazer sempre que se candidata a qualquer função. E talvez não fosse de todo despropositado acompanhá-lo das últimas declarações de IRS. Estas seriam importantes para a definição dos vencimentos dos eleitos que venham a requerer remunerações resultantes do exercício das suas funções.
Se estas me parecem naturais, e aqui justifiquei, também me parece sensato que estabelecer um critério de razoabilidade, provavelmente indexando-as a uma percentagem máxima do que foram os melhores rendimentos de cada eleito, num determinado período.