Ir à final como quem vai ao Carnaval
Por uma questão de inteira justiça, qualquer crónica sobre a final da Taça de Portugal de 2025/2026 deve começar por endereçar os parabéns à equipa vencedora, o Sport Clube União Torreense. O seu feito ficará para a história. Para conseguir a vitória, o Torreense teve de superar não apenas o ex-bicampeão e último titular do troféu, mas também a diferença de qualidade individual e de traquejo entre as duas equipas e, pasme-se — para a organização do nosso futebolzinho tuga —, uma calendarização que os penalizou duplamente nas duas competições em que estão inseridos.
Para o conseguir, o Torreense foi tudo o que o Sporting preferiu não ser: aplicados, concentrados, abnegados e conscientes de que o primeiro fator decisivo para ganhar um jogo começa na vontade.
Se a equipa do Sporting teve vontade, não a deixou expressa em campo. Por norma, os adeptos chamam a isto falta de atitude; eu prefiro sempre a explicação da responsabilização pela liderança. O Sporting poderia ter perdido na mesma a final da Taça de Portugal por falta de sorte, mas nunca sem fazer o imprescindível: deixar tudo em campo. Ficou a sensação que a festa foi feita antes do jogo, Rui Borges esteve tão abúlico como os seus jogadores em campo e o pormenor do polo ameixa só pode ter sido mau agoiro.
O que o Sporting deixou no sempre impróprio relvado do Jamor foi em tudo semelhante ao que já havíamos visto em finais de resultado igualmente amargo e doloroso. Primeiro com a Académica: a desorganização, a mesma falta de esclarecimento e a ausência de liderança técnica capaz de inverter um golo madrugador do adversário. Depois, com o Aves, os mesmos problemas — agravados por um clube em avançado estado de decomposição interior.
A época encerrou ontem com zero títulos. Rui Borges “conseguiu” isso com o plantel mais valioso da Liga, depois de ter decidido “imprimir o seu cunho pessoal”. É verdade que conseguiu o bicampeonato e a dobradinha na época transata, mas com um plantel e um sistema de jogo cuja paternidade não lhe pertencia.
Do seu cunho pessoal resultou, este ano, um deserto de títulos e uma campanha brilhante na Liga dos Campeões que, contudo, não apaga a incapacidade de ganhar internamente aos mais fortes. A isso soma-se um trajeto absolutamente medíocre na Taça de Portugal, que nem a eliminação do FCP apaga. As prestações ante os “colossos” Paços de Ferreira, Aves e Santa Clara, agora fechadas com pesado chumbo do Torreense, deixam muito que pensar também.
A época de 2026/2027 ainda não começou, mas Rui Borges já entrou nela a perder.

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