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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Freitas e Duque já eram

Godinho Lopes sucumbiu aos pedidos de sangue e acaba de demitir de uma só penada Carlos Freitas e Luis Duque. Um erro que pagará caro porque é o nome dele que se segue na lista uma vez que, com este desfecho, é natural que a legitimidade do cargo que ocupa seja colocada em causa. É que Luis Duque foi uma das suas bandeiras eleitorais e formava com Carlos Freitas os pilares da SAD. 

Apesar de já se adivinhar convenhamos que não é um espectáculo bonito de se ver.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A solidão de Sá Pinto


Palavras que o vento leva (e traz...)

Sá Pinto tem aparecido sozinho nas conferências de imprensa o que deu azo, e justificadamente, sobre a solidez da sua relação com os dirigentes, em particular com Luís Duque, com quem lida de forma mais próxima e até com Godinho Lopes.

Pude constatar que, no mesmo período, Mourinho vivia também um período complicado e também não vi Florentino Perez aparecer ao lado do treinador, o que me levou a estabelecer um paralelo com o sucedido no Sporting. Como devem os dirigentes comportarem-se perante situações de crise?

A resposta é "lapalissiana", cada caso é um caso. Por exemplo, Mourinho é um eucalipto de raízes bem fundadas, um "one man show" que, ao invés de alguém a seu lado, gere como ninguém as mais variadas situações em que um treinador tropeça ao longo da carreira. É também um treinador com muitos anos de estrada, muito diferente do que sucede com Sá Pinto.

Soube-se ontem que Sá Pinto, Luís Duque e Carlos Freitas jantaram juntos num restaurante em Lisboa. Nem o mais ingénuo dos mortais acredita que o acaso de se encontrarem jornalistas para o testemunhar foi um mero acaso. Assim presume-se que esta foi a resposta encontrada pelos responsáveis para atalhar os rumores cada vez mais crescentes de que Sá Pinto estaria transformado num general abandonado pelas cúpulas, entregue a si próprio.

Actos simbólicos como este valem o que valem. No futebol em particular, o seu prazo de validade extingue-se com o próprio acto. Antes este que nenhum, se com isso se conseguir devolver alguma tranquilidade ao grupo de trabalho que, não vivendo numa torre de marfim, vai lidando, cada um a seu modo, com as ondas de choque de ver o seu líder fragilizado.

Do meu ponto de vista, mais do que as refeições propaladas nos jornais um treinador deve ser respaldado nas conferências de imprensa que antecedem e sucedem aos piores momentos e de preferência não fora do meio natural: Alvalade ou Alcochete. Uma imagem dessas, presenciada por adeptos e sobretudo pelo grupo de trabalho, vale por mil jantares ou por comunicados com mais ou menos retórica.

Actualmente, nos clubes de topo do futebol português, só Pinto da Costa se pode dar ao luxo de poder ver naufragar um treinador sem que o seu esbracejar não o salpique ou, no extremo, o leve com ele. Talvez possamos incluir o Braga, face aos últimos resultados. No caso de uma direcção do Sporting, e desta em particular, o falhanço de um treinador dificilmente lhe permite escapar entre os grossos pingos da borrasca que se instalaria. Daí que qualquer manobra de distanciamento em relação ao treinador está condenada ao fracasso, as suas sortes estão umbilicalmente associadas. E, no caso concreto de um treinador a dar os primeiros passos, a falta de amparo tende a ser mais um factor de perturbação, a juntar ao acumular de maus resultados.

O general no seu labirinto

Só Sá Pinto poderá confirmar ou desmentir a falta de apoio de que se tem falado. Mas, como é bom de ver, admiti-lo é um cenário de pré-ruptura anunciada ou já consumada, havendo, caso suceda, pouco ou nada então a fazer.

Mas, sem poder confirmar ou desmentir as falhas da direcção no apoio ao treinador, e confirmando a ligação umbilical acima descrita, é por ora evidente que Sá Pinto também tem faltado a esta direcção, ao clube que confiou nele e, porque não dizê-lo, a ele mesmo como profissional que necessita de resultados para consolidar a sua carreira.

Como dizia ontem aqui um leitor não é possível olhar para a carreira do Braga sem concluir que, não apenas este ano, tem faltado um treinador que saiba potenciar e reverter num colectivo as qualidades individuais que possuímos hoje no plantel. De forma quase trágica mesmo os que acertaram no clube da cidade nortenha, Domingos, falham em Alvalade. A questão é que para o Braga até o terceiro lugar é bom, para o Sporting é um mal menor.

O que vi em Alvalade no passado sábado deixa-me preocupado e espero ver desmentido já amanhã, seja qual for o resultado. Tal como havia previsto após o jogo com o Gil Vicente, naquelas condições dificilmente voltaríamos a ganhar um jogo, não esperava é que tal se confirmaria tão cedo. Ao insistir num 4x2x4 o Sporting perde a tal segurança de posse que tanto Sá Pinto parecia perseguir e que, sendo um bom principio, não se percebe que possa agora ser abandonado. Dessa forma perde também muita da capacidade de reacção à perda de bola e, sem ela, podemos sofrer golos mas não os marcaremos de certeza.

O problema, no inicio de época, estava na anemia atacante. Agora somou-se a fragilidade defensiva, e a equipa assemelha-se a um sem-abrigo que não sabe se há-de puxar a manta para cima, para tapar a cabeça ao frio, ou para baixo, para tapar os pés gelados. Isto é um problema que compete ao treinador resolver e até ao momento, parece muito longe de o conseguir parecendo agora, nos actos, menos convicto da solução a adoptar. Mas quem tem nas suas fileiras Elias, Schaars, Rinaudo, Adrien, André Martins, Pranjic e Izmailov não devia, não podia, estar sujeito a tanta fragilidade.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sob o signo da irracionalidade

Assisti ontem à entrevista de Carlos Freitas à SportTv apenas de forma parcial. Tal como já havia acontecido na entrevista com Costinha o pivot despeja as perguntas sem exercer qualquer contraditório sobre as respostas tornando o programa desprovido de interesse para quem não tiver sido ainda lobotomizado.  Conta ainda com a preciosa ajuda do comentador residente, António Simões, que mais não faz que, a qualquer preço e sem respeito pela inteligência dos espectadores, destilar o  ressentimento por ter sido rejeitado pelo seu clube do coração. Foi por isso que a dada altura interrompi o visionamento do programa porque o tempo é um bem escasso e demasiado precioso para ser desperdiçado. Está lá a gravação para visionamento posterior, como registo histórico.

Mas o que vi foi o suficiente para perceber a importância do Sporting na vida de Carlos Freitas. Foi o Sporting que lhe deu nome e por isso o clube esteve sempre presente em toda a entrevista. Vi por isso Carlos Freitas atirar para o ar um número (que não tenho meios para confirmar), dando conta que de 2000 a 2008 o Sporting teria realizado, já se vê graças a ele, mais de 80 milhões de euros em receitas de venda de jogadores. Por si só isso seria suficiente para, e segundo os parâmetros que o próprio enunciou no programa, para dar conta da insuficiência da sua actuação, logo não justificando o tom impante que usou: "saí pelo meu pé", "entrei pelo meu pé", etc. E com a desfaçatez de ainda aduzir que o Sporting "«desaproveitou uma excelente fase de crescimento e bons resultados», como se alguém que tenha passado tanto tempo em cargo de tamanha relevância não tenha nada a ver com situação do clube. Se dividirmos os 80 milhões por 8 épocas ficamos com 10 milhões para cada ano o que explica sobejamente o crescimento do passivo. E Carlos Freitas esqueceu-se de explicar porquê que no grosso desses 80 milhões entram quase só jogadores da formação, não sabendo explicar como foram rentabilizados os muitos milhões gastos em contratações de jogadores e os prejuízos acumulados na sua gestão: só de 1999 a 2003 foram torrados 85,5 milhões, quase um quarto do actual passivo.

Obviamente que Freitas não é o único réu e o trabalho realizado em Braga deixa indicações que, numa organização com uma estrutura de decisão proficiente, que sabemos que de há muito não existe no Sporting, poderia ser uma opção válida. Mas longe de ser a excelência que a consideração por si próprio emana a cada palavra. Mas além do passivo histórico de irracionalidade nos gastos ficou ontem nítido que o ego de Carlos Freitas está hoje demasiado inflamado para um lugar que, mais ainda no Sporting, precisa de eficiência, resiliência e circunspecção.

Nota: Já depois de editado o post, e porque esta é uma questão recorrente quando se fala em Carlos Freitas, deixo uma lista das aquisições feitas sob sua responsabilidade. Para registo futuro e para que cada um faça o seu juízo alicerçado em dados concretos. E não termino sem lembrar que é ignorância ou desonestidade intelectual afirmar, como o faz Carlos Freitas, que na 1ª década deste século ganhámos 2 títulos.

2000/01: Hugo, Tello,Paulo Bento, Sá Pinto, João Pinto, Fabri, Kirovski, Mahon, Dimas, Bruno Caires, Cáceres, Horvath, Phil Bab.

2001/02: Quiroga, Rui Bento, Nicolae, Luis Filipe, Jardel, Nalitizis

2002/03: Marcos Paulo, Ricardo Fernandes, Danny, Toñito, Kutozov, Contreras

2003/04: Ricardo, Mário Sérgio, Clayton, Polga, Rochemback, Liedson, Silva, Tinga

2004/05: Danny, Douala, Pinilla, Enakharire

2006/07: Paredes, Farnerud, Ronny, Alecsandro, Bueno, Romagnoli, Caneira

2007/08: Gladstone, Izmailov, Derlei, Vukcevic, Purovic, Stojkovic, Pedro Silva, Had, Celsinho, Tiuí, Grimmi



E pronto Dias Ferreira lá foi empurrado. Desta vez por Olegário Benquerença, segundo palavras do próprio. No mínimo é estranho que a consciência do representante de todos os sócios tenha andado a fazer orelhas moucas a todos os apelos feitos durante quase 2 anos, e no entretanto tenha insultado alguns deles, para despertar ao som do apito de um incompetente. 

Dias Ferreira não representa apenas a continuidade de 2 anos de desvario, sobre o qual nunca se pronuciou, a não ser para absolver ou anuir. Dias Ferreira, pelo tempo que leva no clube, representa precisamente a deriva irracional que se instalou depois da sáida de João Rocha e que nos trouxe onde estamos e do qual todos temos responsabilidade, obviamente. Para quem o cita como referência não podia haver contraste mais evidente e estarrecedor. O que somos hoje e o que éramos então!

Dias Ferreira não representa o roquetismo, porque em algumas ocasiões se bateu contra algumas das opções então tomadas, mas cuja contestação prescindiu quando lhe foi conveniente. Representa o "continuismo" e o "zizaguear" daqueles que há muito acamparam no Sporting que, sobre o pretexto da vontade de servir, não mais querem do que satisfazer os seus sonhos e ambições pessoais. Para esses a simples condição de sócio de um clube ímpar é manifestamente pouco. Tal como Bettencourt, também Dias Ferreira acalenta o sonho de criança de ser presidente do Sporting. E tal como Bettencourt tem tudo para se tornar num pesadelo, quiçá maior.

Saúde-se pelo menos a hipótese, até 26 de Março, vermos o Sporting defendido por alguém capaz de algo mais do que uma linguagem cripitica, argumentação pobre e  atitude rude. Mas desenganem-se os que pensam que, pelo que se diz na blogosfera, Dias Ferreira é um caso arrumado. O calculismo que usou ao juntar-se a Bettencourt, mantendo o seu palanque semanal de forma pouco ética em função do lugar que ocupa, ética que agora evoca por conveniência, revela determinação que não pode ser negligenciada. E a televisão vende bem como sabemos e os Sportinguistas têm comprado sem grande critério nos últimos anos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

50 milhões de euros resolverão 50 milhões de problemas?

Subitamente o Sporting parece ter resolvido os seus problemas de liquidez. Dos dois candidatos que avançaram ambos se comprometeram já a apresentar aos Sportinguistas um fundo de 50 milhões de euros, supõe-se destinados a alavancar a próxima época com aquisições para a equipa principal do Sporting. Nem parece estarmos a falar do mesmo clube que se despediu de Liedson por, entre outras razões, ter dificuldades em pagar-lhe o vencimento que ainda há pouco havia contratado. Ou do mesmo Sporting que, na tentativa de substituir o seu melhor ponta-de-lança, não consegue melhor do que protelar para 2012 a primeira tranche de pagamento na proposta feita por Kléber. Como não coloco em causa o  amor ao clube dos dois candidatos, estou certo que, independentemente do resultado eleitoral que venham alcançar, qualquer um deles, ou outros que se venham a apresentar com propostas semelhantes, encaminharão as suas carteiras de investidores para a nova administração, de forma a que o Sporting veja resolvido aquele que muitos apontam como o principal problema do Sporting e de que Costinha foi apenas última voz conhecida: a falta de dinheiro face aos seus rivais. Por este andar ainda vamos acabar por concluir que o melhor era haver eleições todos os anos e com elas as soluções milagrosas cresceriam como cogumelos, sendo por isso fácil de estimar que, no final desta década, Abramovich (Chelsea) ou Khaldoon Al Mubarak (ManCity) sentir-se-iam incomodados pela pequenez dos seus números ao leram os nossos orçamentos.

Ironias à parte, e não querendo minimizar os méritos e a coragem dos dois consócios que já se deram como candidatos, temo que o tema dos 50 milhões acabe por ganhar uma preponderância perniciosa no debate sobre os méritos das candidaturas, acentuando a ideia de que existem soluções milagrosas. E esse perigo é agravado pelo carácter uninominal que estas eleições parecem querer assumir, como se um homem só pudesse ser a solução para os problemas do Sporting. Com 50 milhões de problemas para resolver o Sporting não mudará de rumo sem uma equipa dirigente a jogar ao mais alto nível nos diversos palcos onde se exigirá, mais do que nunca, dedicação e competência. Em termos mediáticos os primeiros passos dados por Braz da SIlva e Bruno de Carvalho foram dados isoladamente, veremos o que acontecerá nos próximos actos.

O que o argumento dos 50 milhões não tem em linha de conta é que o problema do Sporting nunca foi verdadeiramente o dinheiro mas a forma como ele é aplicado.  Sabe-se que, grosso modo, Bettencourt gastou quase 40 milhões de euros em menos de dois anos no que pretendia ser o reforço competitivo da equipa e resultado desse esforço: zero de progressos na competitividade, um plantel envelhecido, sem valorização dos seus activos e sem vislumbrar a realização das mais-valias necessárias à sua renovação. Com metade desse valor os nossos rivais Fabio Coentrão (1 milhão de euros), Gaitan (8,4 milhões) David Luis (2,4 milhões) Falcão (5,4 milhões, menos que Pongolle, tendo Purovic custado metade...) que, associados a João Pereira (3 milhões),  e com a manutenção de Veloso e Moutinho, constituiriam um  outro plantel, por comparação com o que hoje temos. Estes são nomes de recurso, não necessariamente os meus, mas de mais fácil entendimento para demonstrar o que aqui se pretende. Não estaria hoje o Sporting mais competitivo?

Obviamente que não, se a aposta fosse num treinador como Paulo Sérgio. Da mesma forma que o SLB investia muito e estaria condenado a não valorizar David Luiz e Di Maria como valorizou se mantivesse a aposta em Quique Flores. E seguramente que mesmo com um bom treinador o Sporting não assegurará o titulo, como pode acontecer este ano também ao SLB com Jesus, ou ao FCP com Vilas Boas, mas que, pelo que as suas equipas vão jogando, não deixam de valorizar os seus activos e de manter a fidelidade dos seus adeptos.

O Sporting precisa de, antes de qualquer outra medida, de se reconciliar com o bom futebol para voltar a contar com a paixão dos seus adeptos. Para isso é necessário fazer o uso da razão que lhe tem faltado na condução da actividade desportiva. Coisa que não conseguirá com velhas fórmulas e velhos actores. É isso que perspectivo com o regresso agora apregoado da dupla Duque / Freitas que, sem discutir se foram  bons a comprar, foram uma nulidade a vender sendo, em particular o 2º, pelo tempo que esteve como director desportivo, os pais de uma boa parte do passivo. Basta olhar para os prejuízos da SAD:  1998/99, 2 milhões e meio, em 1999/00, onze milhões e meio, em 2000/01, 21 milhões e meio, em 2001/02, 22 milhões e 700 mil euros, em 2002/03, o máximo de prejuízo de 27 milhões e 300 mil euros. Se for só para gastar até eu sirvo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

2001-2010: a história de uma viagem de montanha russa

Estamos em 2001. O Sporting vive ainda sob duplo efeito da conquista do mais ansiado titulo da sua história e a constatação que a sua renovação era impossível. O técnico campeão já havia sido despedido, Mourinho, então um treinador sem outro feito de relevância que não ter-nos goleado poucos dias antes, entra  e sai deixando menos vestígios que as traduções feitas para Bobby Robson anos antes. O Sporting começava a primeira década do actual século no mesmo estilo em que sempre viveu as 2 anteriores: em convulsão, sem uma estratégia desportiva definida, sem medidas sustentadas. Luís Duque, que de uma penada havia contratado Carlos Freitas e este um cabaz de Natal de luxo – André Cruz, Prates, Mpenza - acabaria por sair também no final da temporada. Esta não acabaria sem que Manuel Fernandes, de passagem pelo lugar de técnico principal, trouxesse uma Supertaça numa finalíssima disputada em Coimbra. Acosta, que abandonaria no final da época, despedia-se da mesma forma como sempre esteve no clube: discreto mas eficaz. Os dois golos marcados nos 3 jogos seriam da sua autoria.

Chegamos ao mais esplendoroso verão da década. Se havia petróleo em Alvalade não se sabe, mas o Sporting parecia determinado a voltar a ter as cinco quinas estampadas nas suas camisolas.  Carlos Freitas realiza o negócio do século: a troco de largos milhões, troca Jardel  pelos apagados Horvath, Spehar e Mpenza, junta-lhe o promissor Niculae,  que se vêm juntar a internacionais como Pedro Barbosa, Paulo Bento, Beto, André Cruz, Rui Jorge, Rui Bento, Dimas, Sá Pinto e João Pinto. Comandados por Lazslo Boloni, desconhecido treinador mas fabuloso 10 do não menos fabuloso Steua, que em Sevilla havia roubado de forma quase literal a Taça dos Campeões ao Barça. Boloni demorou a  afinar a estratégia e sobretudo a perceber que Jardel valia muito mais que a sua barriga de parturiente faria supor. Depois de desperdiçarmos os 3 pontos de uma surpreendente vitória nas Antas, tendo caído para um incrível 15º lugar após 4 jornadas, dobramos o meio campeonato na frente, pela primeira vez em muitos anos. Essa seria a posição final, parecendo que se cumpria o fabuloso destino que Roquete apontava poucos anos antes: ser campeão pelo menos 3 vezes em 5 anos. Faltava apenas um.

Andávamos entretidos a festejar a dobradinha, alcançada frente a um surpreendente Leixões de Carvalhal, pelo que ninguém percebeu os sinais de decadência de Jardel e  que este seria o título mais caro da nossa história. Apesar de Boloni ter lançado jovens talentosos como Quaresma e Viana, eram Pedro Barbosa, Paulo Bento, Prates, André Cruz, Dimas, João Pinto, Phill Bab e Jardel que  pressionavam perigosamente a tesouraria. O desequilíbrio entre entre o valor desportivo e o valor de mercado do plantel, apesar de evidente, passou despercebido. A precisar de receitas para manter o nível, o Sporting seria obrigado a vender os seus produtos da formação quase ainda em fraldas - Viana sai para o Newcastle - inaugurando uma tendência que fez escola e ainda hoje se mantém: comprar caro com pouco proveito e fazer depressa para vender como pode ainda mais rápido. Os jogadores consagrados acima citados haveriam de sair ou terminar a sua carreira sem proporcionar receitas equivalentes que sustentassem a sua substituição.

3 factores se  haveriam de conjugar maquiavelicamente para fechar um ciclo virtuoso que o Sporting não voltaria a fazer replicar. O tristemente célebre episódio da saída de Jardel marcaria o destino da época seguinte. Debilitado, o Sporting não teve argumentos para chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões, perdendo com o Inter. Boloni arrastou-se sem chama até final de contrato. Sairia como o melhor técnico da década, ganhando todos os troféus nacionais que disputou.O Sporting entraria numa letargia que só foi interrompida a meio do decénio. Nesse entretanto há 3 momentos a merecer destaque: a chegada de Liedson, a partida de João Pinto e a inauguração do Estádio de Alvalade XXI.

Apesar de não escapar a alguma controvérsia, ninguém regateará a Liedson um lugar na história do Sporting. Quem acompanha o "ANorte" saberá que não é "o meu jogador", reconhecendo-lhe porém a importância que lhe é devida.

João Pinto é o meu eleito como o melhor jogador da década. Profissional enorme, com uma atitude e aplicação inexcedível e com uma característica que distingue os grandes jogadores dos outros: o seu inegável talento sempre ao dispor da equipa. Talvez lhe tenha faltado a afirmação internacional, que podia ter logrado com os seus companheiros de geração quando, no Europeu de Inglaterra, se encontravam no zénite das suas carreiras. Desse tempo apenas o talento de Figo lhe poderá fazer sombra.

A 6 de Agosto de 2003 o Sporting inaugura sua nova casa. A milhares de quilómetros de casa, recolhido no meu quarto, chorei como uma criança ao som da música de Enio Morricone na voz de Dulce Pontes. Inebriado pela melodia, num misto de incredulidade e esperança cria que estava dado o último passo para a entrada numa era de modernidade e afirmação do clube. Como eu, certamente muitos Sportinguistas. Era ainda cedo para perceber todos os "ses" e "mas" em que assentou o projecto imobiliário que conduziu à demolição do velho Alvalade e  à construção do majestoso edifício Alvalade XXI. Hoje serão poucos os que conseguirão negar que a ideia que lhe esteve subjacente fracassou em quase toda a linha.

Ao contrário do projecto do anterior estádio, da autoria gratuita do Arq. Anselmo Fernandes, Sportinguista, o projecto do novo estádio foi entregue sem qualquer critério a um Arq. sobejamente controverso. Os azulejos exteriores estão longe de ser um exemplo de bom gosto. O fosso, as cadeiras e os problemas recorrentes no relvado são um atestado de incompetência ao projectista e um exemplo de demissão de responsabilidades a quem tinha por obrigação de olhar para o projecto e sua execução como quem olha para a sua própria casa. Do tal espaço alternativo para os nossos familiares que não gostam de futebol pouco mais se vislumbra do que os cinemas, sendo um embaraço para proprietários e uma vergonha para nós. O pavilhão encolheu, de pouco servindo. Na verdade o estádio que hoje julgamos como nosso, já não nos pertence na totalidade. Fracções como a Clinica Cuf e Holmes Place foram alienadas bem como o edificio Visconde de Alvalade. O Sporting, de proprietário passou a inquilino.E, para ficarmos com pouco mais do que as bancadas, acumulamos um passivo que nos espartilha, não sem antes termos alienado paulatinamente a totalidade do património imobiliário, fazendo-o em baixa num momento alto do mercado. São muitas as sombras de dúvida senão na legalidade pelo menos na ética como alguns negócios foram conduzidos. Os terrenos comprados pela MDC são a melhor ilustração deste facto. A casa que construímos para as próximas 5 décadas é também hoje um monumento à irresponsabilidade que enegrecerá a memória de todos nós junto das gerações vindouras.

Chegamos já a 2004/05.  Para trás ficam 2 anos de total esterilidade sob o comando de Fernando Santos. O nome de Peseiro surpreenderia, tal como a época que acabaria por realizar. Foi a melhor colheita da década no que à qualidade do futebol diz respeito. As semanas que antecederam o final temporada deitariam a perder uma época que poderia ter sido memorável. E apesar de a lembrança ser amarga não pode ser esquecida a final europeia alcançada. As meias- finais com o AZ-Alkmar são um momento inesquecível, bem como algumas das eliminatórias que as antecederam. O golo de Miguel Garcia na voz Jorge Perestrello ficarão para todo o sempre. Peseiro sairia pouco depois da época seguinte se iniciar.

O final da época ficaria também assinalado pela despedida de Pedro Barbosa. Se considero João Pinto o melhor jogador, o ex-capitão é o mais importante. Está presente em todas as conquistas alcançadas neste período. Jogador de enorme talento mas limitado pela inconstância. Tão genial como desesperante.

Seria o seu amigo Paulo Bento que marcaria a última metade do decénio. Contratado como treinador, chegando ao lugar principal depois de ter alcançado um título no último escalão da formação, foi muito mais que apenas isso. Por isso qualquer balanço que se faça da sua passagem estará longe de gerar consenso. É o segundo treinador com mais tempo de clube, embora já poucos sejam os restem que tenham testemunhado quem o suplanta. Marcou uma época, e, tendo deixado 2 Taças de Portugal e 2 Supertaças no museu, não logrou ser campeão. Um bocado à imagem da década em análise, Paulo Bento entrou em alta e saiu em baixa. Com a diferença de 2 temporadas o Sporting haveria de, na estreia de PB na Champions, bater o pé ao Bayern de Munique para ser 2 anos depois goleado de forma diluviana. 

À saída de Paulo Bento corresponde também o desmoronar de toda a estrutura do futebol, com a retirada de Miguel Ribeiro Telles, cuja importância estará muito para lá do que a sua circunspecta actuação deixa perceber. Na sua última entrevista, após o abandono, MRT avisa que "O Sporting ou aumenta as receitas ou tem de ter um investidor". E explica que "quando foi campeão (2001/02) tinha custos próximos dos seus opositores mas não conseguiu aumentar as receitas. E indica a filosofia seguida "O Sporting excede em pouco os 50% dos custos salariais face às receitas, a UEFA pretende que não ultrapasse os 60% por cento. É possível chegar ao titulo com esta filosofia." As saídas dos dirigentes juntamente com os treinadores já não era uma estreia. Dias da Cunha abandonou com Peseiro, Bettencourt só não o fez com PB porque não conseguiria explicar porque o faria, quando acabava de ser eleito com 90% dos votos. Esta lógica invertida leva a pensar quem no Sporting suporta quem.

Não é este o post indicado para abordar a história recente do dirigismo leonino. Mas uma análise da última década ficaria incompleta sem lembrar a profusão de gestores profissionais que passaram pelo Sporting sem deixar marcas mais visíveis do que as indemnizações a que tiveram direito, sem o apuramento de responsabilidades da sua acção directa. Rui Meireles é talvez o caso mais mediatizado, mas está longe de ter sido o único.

As eleições que conduziram o actual presidente ao cargo pareciam ter inaugurado um período de estabilidade e paz interna. A votação maciça em Bettencourt e a declaração do candidato vencido assim o faziam supor. A história é ainda recente pelo que, sendo uma tarefa dolorosa, me vou abster de enunciar os passos que nos conduziram a um estádio vazio, a 2 anos consecutivos de rotundos falhanços no futebol, que, por ter o peso que tem, nos arrastam para um dos piores momentos que a memória é capaz de  proporcionar. Vivemos o segundo maior jejum da nossa história, mas, ao contrário do primeiro, somos muito poucos os que se interessam. E isso sim, é o sinal mais preocupante e ao mesmo tempo desafiador para o decénio que agora começa.

Não posso terminar sem lembrar que um clube que conseguiu formar, no tempo em apreço, um lote invejável de jogadores como Quaresma, Carlos Martins, Ronaldo, João Moutinho, Hugo Viana, Miguel Veloso, Varela, Patricio, Nani, Carriço, Djaló não devia ter sobre o seu futuro uma enorme interrogação. Precisamos de perceber como chegamos até aqui para não voltar a repetir os erros que acumulamos. É necessário realismo para compreender que o Sporting não poderá continuar muito mais tempo na situação em que se encontra sem colocar em causa o estatuto que ainda detém, nem poderá, de um dia para outro refazer-se dos sucessivos erros cometidos. Mas é vital que se interrompa o plano inclinado em que nos encontramos para que a esperança de dias melhores volte a mobilizar os Sportinguistas. Neles começa e acaba o Sporting.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

«Fizemos com Paulo Bento o que Barça fez com Guardiola»

O que Carlos Freitas se esqueceu de dizer foi que, infelizmente para o Sporting, Paulo Bento não fez com o Sporting o que Guardiola conseguiu fazer com o Barcelona.

No mais a entrevista do ex-director desportivo é igual a tantas outras que se realizam diariamente na cada vez mais pobre imprensa desportiva. Carlos Freitas disse o que quis e bem lhe apeteceu num discurso livre, sem qualquer contraditório ou confrontação com a realidade.

Cada um faça o balanço que quiser da passagem de Carlos Freitas pelo Sporting. Mas um director desportivo que diz que Paulo Sérgio "é um dos bons treinadores portugueses" e que "em Guimarães colocou a equipa a jogar um futebol atractivo" não precisa de dizer mais nada para me permitir concluir que ainda bem que daqui à Grécia estão uns largos milhares de quilómetros de distância.

domingo, 8 de novembro de 2009

Interrogações e dúvidas




Desde a demissão de Paulo Bento, temos tido da parte de JEB, um comportamento perfeitamente inaceitável.

Com declarações inapropriadas, demonstrando que o critério para a manutenção do treinador era a amizade ao invés da competência e colocando de imediato um peso nos ombros do sucessor, assim como insultuosas e fracturantes. O presidente do SCP não pode ter um discurso divisionário, como faz cada vez que se refere aos 90%/10%, nem agressivo para com os adeptos e sócios.
Apelidar de cretinos quem não partilha da mesma visão, é a demonstração cabal de que neste momento, JEB devia entrar em blackout para se salvaguardar e nos poupar a todos da sua desorientação.

Vi hoje na capa d'O Jogo que se perfila como solução, a dupla Sá Pinto e Carlos Freitas. Ao contrário de muitos na blogosfera leonina que apoiam esta medida, não me sinto particularmente confiante no seu sucesso.

Sá Pinto foi um jogador carismático do Clube mas que competências tem ele na área do dirigismo? Não será a repetição do que se fez com Pedro Barbosa, caso seja ele o substituto de Barbosa? Retirando da equação a admiração, em alguns casos a adoração, que se tem por Sá Pinto, sobra algo de relevante para o desempenho do cargo?
Um dos aspectos mais criticados a Pedro Barbosa era o de não "ser conhecido lá fora". Acredito que esta crítica apenas existe devido ao papel que "o Rui" desempenha no rival. É que no fcp, o equivalente não é o "GK chorão".
É por ter jogado na Real Sociedad que Sá tem vantagem neste ponto? Não acredito. Conotado com o SCP, o único que tem esse "atributo" é Figo mas duvido que queira assumir qualquer cargo no SCP.
Sá Pinto poderá ser um bom elo de ligação entre o plantel e a Direcção mas não acho que deva ser mais do que isso.

Carlos Freitas será o substituto de MRT? Não faço ideia pois o pouco que sei acerca deste último, era que era considerado imprescindível apesar de não dispôr de tempo para o SCP. Talvez por isso, ainda hoje se aguarde pelas conclusões a retirar do desastre que foi a eliminatória com o Bayern de Munique.
Sendo assim parece-me que haverá uma divisão das responsabilidades de Pedro Barbosa entre Sá Pinto (ligação ao plantel) e Carlos Freitas (contratações). O que só demonstra que é melhor apostar no que se conhece, mesmo que com más memórias, do que no desconhecido, numa solução que traga um pouco de ar fresco.
Carlos Freitas saiu do SCP com uma péssima imagem, entretanto completamente renovada devido à boa carreira do Braga. O que não significa que melhorou em termos de competência.

Porque será que no SCP são sempre as mesmas caras, ainda por cima quando não são lembradas propriamente pelo sucesso alcançado? Falta de conhecimento? Medo de arriscar? Comodismo?

Gostava de ver Balakov associado ao SCP. Porque não como director desportivo?

PS: Depois de ter escrito este post, JEB teve novamente declarações infelizes:

"Não podemos mudar a nossa sede social mas sabemos que contamos com o apoio das gentes do norte. Entre os visigodos, os pais e as mães puxavam as orelhas aos filhos e resolviam tudo na hora. Com os mouros é diferente. É tudo mais lento, as coisas vão ardendo em lume brando. No norte é tudo mais rápido."

Podem ler aqui Bola Branca

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