Não há tempo que passe que ajude a esquecer desaires a raiar o absurdo como os que presenciamos em Guimarães. O tempo ajuda apenas a atenuar a dor e fornecer o distanciamento adequado para reflectir sobre o sucedido. O post de hoje deixará aqui algumas dessas ideias.
Gostar de futebol e do Sorting, sempre!
Começo com um pequeno aparte: se não estivesse envolvido o nome do meu, nosso, Sporting, não faltariam os elogios ao futebol, dando como exemplo o jogo de Guimarães. Não será por desaires assim que deixarei de gostar do futebol. E também não será o facto de, infelizmente, parecer que estamos fadados para sermos protagonistas de surpresas como estas, vezes sem conta (e só este ano, com a época no seu dealbar já vamos em três, Madrid, Rio Ave, Guimarães) que deixarei de gostar do Sporting.
Mais do que me zangar com o futebol ou com o Sporting, estes episódios servem para nos lembrar que ainda não somos a grande equipa que precisamos ser para ser campeões. E só essa tomada de consciência nos permitirá crescer para aí chegarmos.
Sem desculpas ou álibis
Esse crescimento nunca chegará com os "nhénhénhés" habituais nas desculpas, desresponsabilizando jogadores e equipa técnica do sucedido, porque são sempre eles os intervenientes. Nem os erros de arbitragem, que os houve, podem ser invocados, pois estes sucederam para os dois lados e de igual gravidade, o que contraria a ideia do "serviço" habitualmente prestado.
Uma vantagem de três golos mandadas às malvas em cerca de quinze minutos tem de ser bem compreendida e assimilada para que não se volte a repetir. Quem sabe se esse foco, ao invés de estar centrado na exibição e não no resultado, tivesse acontecido logo após o jogo de Madrid, em que também perdemos uma vantagem em escassos minutos, não poderíamos estar agora a falar de outras coisas.
O que é que realmente está a acontecer?
A pergunta é inevitável. Depois da forma como terminamos a época passada e tendo havido poucas mexidas na titularidade, a que acresceu uma significativa melhoria quantitativa e (espera-se...) qualitativa do plantel, como explicar o que está a suceder? O problema é não apenas o terceiro lugar para onde caímos (poderia ser psicologicamente pior se o Braga tem ganho...) mas também a enormidade de golos sofridos (9) registados até ao momento, que já vem da pré-época e que não parecem assim estar resolvidos.
Há um fio condutor entre o que sucedeu em Guimarães, Vila do Conde e Madrid? E estaremos a não dar importância ao que sucedeu em jogos que acabamos por ganhar, mas onde alguns indícios preocupantes já estiveram presentes, como o jogo com o Légia e Estoril? Não posso responder com segurança a esta pergunta, mas é indiscutível que, tirando o jogo com o Légia e o Rio Ave, a equipa produziu futebol de bom nível, dando testemunho de continuar dentro dos princípios que o treinador defende e que tornaram a nossa equipa numa referência no ano passado.
Faz então sentido questionar a preparação física? Ou estamos sobretudo a sofrer de falta de confiança? Sem certezas, deixarei alguns destes temas para o capitulo Jorge Jesus mais abaixo, mas ainda assim parece-me estar por acontecer a integração dos jogadores que chegaram mais tarde, bem como alguma continuidade em algumas apostas, que parecem estar a suceder de forma errática e não sistemática.
A culpa de Bruno de Carvalho
De forma muito desajeitada, o presidente tentou chamar a si a culpa do sucedido até agora, sendo óbvia a tentativa de desviar as atenções dos jogadores e sobretudo do treinador. Ora, goste-se ou não dele, é indiscutível que fez tudo ao seu alcance para dar ao treinador o que este entendia o que precisava. Portanto, a menos que aquele lhe tenha pedido um par de laterais "em condições", ou que falte nas condições de treino, viagens, alojamento, pagamentos atempados, etc, etc, não há culpas que lhe possam ser atribuídas.
Outra coisa seria se falássemos de responsabilidade e essa normalmente é avaliada nas prestações de contas em A.G.'s, ordinárias, extraordinárias e eleitorais, contas que só poderão feitas mais tarde. É por isso que me espanta e entristece que alguém que não tem oposição constituída e, a manter-se a actual conjuntura, se apresta a ser reeleito com facilidade, denotando um nível de aprovação elevado, se sinta acossado ao ponto de repetir um dos piores erros do tempo de alguns que o antecederam na cadeira. Refiro-me à evocação dos "
ratos" feita em sede de última A.G. Ele que vinte e quatro horas antes havia dito que "
Temos de ser tolerantes, não quero voltar a ver no Sporting o que vi nas
primeiras e depois nas segundas eleições [a que concorri], um Sporting
sem tolerância e que não deixa os sócios falar. Espero que estas
eleições tenham elevação".
Problemas de memória, que o estejam a impedir de se lembrar
do que
disse no dia anterior e de quanto era prolífico na opinião antes de chegar ao poder? Ou é o poder que lhe mudou a percepção sobre o direito à opinião?
A culpa de Jesus
Aqui terei que usar da mesma linha de pensamento que usei no parágrafo anterior: uma coisa é culpa, outra é a responsabilidade. Centrando-me unicamente no jogo de Guimarães por agora (até porque o post já vai muito longo) creio que tem havido uma pontinha de injustiça relativamente ao seu papel na perda dos dois pontos - mas até parece que foram três, não foi? - em Guimarães. O papel de um treinador é sobretudo relevante em tudo o que acontece até à bola começar o rolar no relvado. Aí, e mesmo até nas substituições, cuja importância papel é frequentemente sobrevalorizada, é sobretudo o reino dos jogadores. São eles que jogam, são eles que têm nos pés a possibilidade de desenhar o destino do resultado.
E foram erros destes, que habitualmente não vemos em equipas de Jorge Jesus, que acabaram por definir os resultados, agravados por dois golos de rajada. Ao penalty meio infantilóide de William seguiu-se quase imediatamente um novo golo, colocando o empate ao alcance. Ambas as equipas sentiram essa possibilidade e a nossa não conseguiu reagir. Os posicionamentos de Schelotto e a falta de Marvin, na linha do penalty de William ditaram o resultado. Pensar que um treinador a partir do banco podia alterar esta sequência de eventos ou pode fazer muito para alterar a postura de desconfiança de uma equipa em si mesma é crer excessivamente num poder que não tem.
Como é evidente não ter Adrien foi importante, sobretudo para necessidade de voltar a ter bola. Mas em Vila do Conde ele estava em campo e foi o que se sabe. Jesus optou por meter Bruno César - e Ruiz e Gélson tinham já também estoirado há muito - que não pegou no jogo por uma razão muito clara: o Vitória apostava tudo no poderio físico de Marega e Soares, colocando directamente aí o jogo e explorando a profundidade, tornou irrelevante a presença do brasileiro.
Jesus poderia ter colocado Paulo Oliveira, embora me pareça que era alguém como Petrovic que deveria ser chamado. Ele que havia devolvido a estabilidade ao meio campo no jogo anterior, libertando William, e que lidaria melhor com o jogo físico do adversário, mas tinha ficado em Lisboa. É sobretudo aqui que a leitura de Jorge Jesus me parece merecer criticas, a que acrescentaria a excessiva e até agora penalizadora rotação de jogadores, em particular dos laterais. Havendo tempo, voltarei a este tema em proximo post.