Não se infira pelo titulo que já está encontrado o campeão nacional. Neste momento há ainda três candidatos, embora desse lote só dois me parecem em condições reais de chegar o título.
O FC Porto é o que se encontra na pior situação porque a distância ao primeiro é muito grande. Para o segundo é ainda razoável, mesmo atendendo a que tem ainda a possibilidade de diminuir a distância para o Sporting. Mas o pior para as suas pretensões é já não depender de si e ainda ter que esperar que os dois rivais falhem. É muito pouco provável.
Quem está em melhor situação é indiscutivelmente o SL Benfica, por depender apenas de si e ainda por cima ter, em teoria, o calendário mais fácil dos três. A par disso, vive o melhor momento da época, com um poder de concretização verdadeiramente notável. Ficará em um dois primeiros lugares-
O Sporting depende de um deslize do SL Benfica para poder chegar ao título. Contudo, a sua principal preocupação deveria ser neste momento, e face às circunstâncias, a de consolidação do segundo lugar, ganhando jogo a jogo, sem se perder muito com o que não pode controlar. Essa é a única forma de se habilitar a estar apto para chegar a primeiro, caso o tal deslize ocorra.
Mas seguramente que muito que é a situação em que hoje se encontra o campeonato tem o Braga como denominador comum. Obviamente que todos os jogos contam, mas os dois que os actuais comandantes realizaram com o SC Braga parecem-me momentos determinantes, parecendo que a história de ambos os jogos tiveram um argumentista comum.
O jogo em Braga iria marcar a arrancada do SL Benfica até ao comando do campeonato. A equipa que chega a esse jogo é uma equipa sob fogo, a sete pontos do comando. O treinador era acossado e o presidente colocado em causa pela forma como perdeu o anterior técnico, assistindo de camarote a um arranque demolidor do Sporting. Para agravar a situação, os três jogos com o Sporting saldaram-se por três derrotas categóricas, sem a exibição de argumentos para as contrariar.
Certamente que de lá para cá uma das tarefas que retirou mais tempo a alguns adeptos benfiquistas deve ter sido a de apagar os comentários nas redes sociais contra os jogadores, o treinador e o presidente. Mas quem não sofre de amnésia ou alguma doença degenerativa do sistema nervoso central ainda tem memória, tal eram os impropérios e tão ruidosa e até era a contestação então.
A viragem aconteceria em Braga, com a oferta de um autogolo de Kritsyuk, seguido de outra em que ficou toda a gente na área à espera que Lisandro fizesse o óbvio. Quando o Braga quis mudar o curso do resultado já a equipa de Rui Vitória estava mais confiante e limitou-se a gerir o tempo e o resultado.
Ontem a história foi semelhante. O Braga foi a melhor equipa até sofrer o golo e a que mais perigo produziu, podendo ter inaugurado o marcador pelo menos por duas vezes. Não contente por não o fazer, acabou por conceder nova oferta, desta vez em perda de bola Mauro. Logo a seguir um penalty que não existe consolida a vantagem. Em ambos os jogos Rui Vitória ganha, tendo a seu favor muita sorte, ante a equipa que, a seguir aos rivais, mais a faria sofrer, mas acabou a ganhar de forma algo fácil.
Faço aqui um parêntesis para assegurar que não pretendo levar a discussão habitual sobre as razões que levaram o árbitro a marcar o penalty. Se bem que nem sempre o critério tenha sido igual (tão decidido, esclarecido e benevolente) também nós já beneficiamos de penalty's em situações iguais. O que se passa hoje é que os árbitros para se defenderem marcam sempre que a bola vai à mão, subvertendo o que deveria ser uma punição para um acto voluntário. O que não foi o caso de ontem, por mais que os actuais experts das redes sociais, que provavelmente nunca jogaram à bola e nem conhecem as regras do jogo, o assegurem.
Devo confessar que por altura do primeiro jogo com o Braga não esperava ver este ano o SL Benfica como o principal candidato. As três derrotas que já coleccionava (Arouca, Sporting e FCPorto) desviaram a atenção para a principal virtude da equipa que então já se vinha desenhando, a capacidade concretizadora. É ela que lhe tem valido para ganhar os jogos com as equipas pequenas e são os resultados com essas equipas que agora fazem a diferença no campeonato.
Não sou ingénuo e é evidente que há muita anormalidade em alguns dados estatísticos do campeonato do SLBenfica, tais como as punições disciplinares e as penalidades. Mas não esgoto a observação aí, estendo-a também ao que fizemos e ao que devíamos ter feito, porque é sobretudo a nossa acção que determinam o nosso destino. Essa - a auto-critica - é também a única forma de crescermos com os nossos erros e avançarmos. Ficar pelas lamurias miserabilistas é o primeiro passo para o conformismo e autocomiseração. Neste sentido apontaria dois erros do nosso lado: um de planeamento desportivo e outro de comunicação.
Do lado do planeamento desportivo a gestão do caso Carrillo. Parece passar despercebido mas, apesar das contratações feitas, o Sporting não preveniu essa possibilidade nem a perda de Nani. O arrastar da novela "Mitroglu" que, a ter sido fechado, teria uma influência grande na produção dos dois primeiros classificados, também é importante. A opção por Teo está longe de ser um sucesso e a falta de capacidade de improviso individual para quando o colectivo não consegue resolver é a marca dos jogos em que perdemos pontos com equipas pequenas.
Do lado da comunicação sirvo-me de uma opinião que não é minha mas com a qual concordo. Li-a no Lateral Esquerdo, o seu autor é também o autor do
Posse de Bola, uma das minhas leituras assíduas na blogosfera. Dizia ele então (
LINK)
"Sobre a agora tão evidente união RV, com os jogadores, com a estrutura. Essa "união", para mim, resulta também de um imponderável chamado Sporting. Ou melhor, Bruno de Carvalho e sobretudo Jorge Jesus. Eles, na minha opinião, são os principais responsáveis pela forma como os jogadores focaram e quiseram mostrar que o maior mérito era deles, e não do "cérebro". Se o Sporting tem sabido estar calado o Benfica ter-se-ia afundado sobre o seu próprio ruído. Externo, e sobretudo interno. Não há ninguém na "estrutura" que não tenha dado Rui Vitória como "morto". Não há nenhum jogador que não o tenha feito. E mesmo os adeptos, que o defenderam durante tanto tempo, também o estavam a matar na sua maioria. Acontece que o Sporting fala muito e por esse motivo os jogadores unem-se ao treinador. E por arrasto a estrutura e os adeptos"
Sobre isto adiantaria ainda que o menosprezo a que se votou o actual treinador do SL Benfica resultou de um erro de avaliação. Não se percebeu que, mais do que o treinador, era Luís Filipe Vieira e toda a entourage que estavam a ser colocados em causa. Como muito bem diz o autor do comentário "Se o Sporting tem sabido estar calado o Benfica ter-se-ia afundado sobre o seu próprio ruído. Externo, e sobretudo interno. Não há ninguém na "estrutura" que não tenha dado Rui Vitória como "morto". Outro erro terá sido também não se perceber o valor individual e as soluções à disposição do treinador.
O que aconteceu a seguir foi o tudo por tudo literal para não perder a face perante os seus adeptos, uma vez que, tendo sendo sido sua a escolha, era a cabeça de Luis Filipe Vieira que estava no cepo. A história deste campeonato passa muito por aí, por uma demonstração de poder que está muito para lá do que é possível ver ao comum dos adeptos. E ao que sei, o Sporting não tem força para se opor a esse poder e vamos ver o que acontecerá se FC Porto pensar que consegue chegar ao segundo lugar.