Atendendo à particularidade do momento da vida do clube e até do ineditismo do caso que levou ao processo de rescisão, só levarei a sério a noticia do "regresso" de Bruno Fernandes quando ele for mesmo apresentado. Mas é uma oportunidade para reflectir sobre qual o procedimento adequado por parte do clube no sentido de melhor defender os seus interesses.
De todas as actuações a considerar a pior de todas seria não fazer nada e deixar cair para a litigância todos os processos. É que se é verdade que o Sporting pode obter a totalidade de decisões favoráveis em última instância, o contrário também o é, pelo que a tentativa de resolução pela negociação visaria a redução do risco de perder de uma parte substancial dos pilares da sua equipa da época transacta.
A situação assemelha-se a um jogo de poker e a possibilidade de fazer recuar um ou mais jogadores equivaleria ao virar de uma carta favorável entre várias outras que por ora estão no escuro e não se sabe quem favorecerão. Concorreria para a ideia de que as condições que levaram à rescisão foram excepcionais e estariam afastadas em definitivo. É isso que o regresso de Bruno Fernandes poderá representar e que significaria uma nova postura e novas abordagens pelos clubes que se venham a interessar pelos jogadores que decidiram rescindir.
Como é evidente os casos não são todos iguais. Não é por acaso que os jogadores de mais baixo salário, como Podence e Rafael Leão, tendem a ser os mais que mais rapidamente se definirão. Os seus futuros clubes também fazem contas como nós e devem ter entendido que o risco compensava face a uma penalização futura. A excepção aqui foi Rui Patrício, que quanto a mim se precipitou quer quanto ao timing quer quanto ao clube escolhido. Mas será também, a par de William e Bas Dost, dos jogadores com mais possibilidade de ver uma decisão final que o favoreça.
Há que considerar contudo que o Sporting não tem uma posição negocial confortável. Para todos os efeitos os jogadores deixaram de ser seus e terá que concorrer com outros clubes que estão nestes momentos a considerar a possibilidade de os contratar. Depois há também que levar em linha de conta que talvez à excepção precisamente de Bruno Fernandes, nenhum jogador se valorizou especialmente. E mesmo este acabou por passar pelo palco do Mundial praticamente sob anonimato, à semelhança de Patrício, William, Coates e Acuña.
Isto é, são jogadores interessantes a custo zero, mas nenhum clube se aproximará dos valores que, em circunstâncias normais, estariam dispostos a oferecer e que poderiam andar perto das cláusulas de rescisão. A semelhança com o jogar no escuro do poker aplica-se aqui também e a ambas as partes: ao Sporting, que joga com a possibilidade de ganhar e ser ressarcido de verbas importantes, mas sabes também que cada decisão desfavorável significará o inverso. Os clubes que venham a contratar os jogadores sabem o mesmo e jogam da mesma forma.
Desta forma é claro que andaremos longe dos negócios ideais ou mesmo de negócios que perspectivávamos ainda há pouco tempo. Daí que acordos como o que parece estar prestes a acontecer com Bruno Fernandes, revertendo a rescisão, são os ideais porque permitem ao clube vir a negociar no futuro numa posição de maior conforto e autoridade, sem estar sujeito a pressões ou ao espectro de uma decisão desfavorável e tudo o que ela acarretaria.
O que é dito no parágrafo acima é válido em qualquer circunstância. Isto é, mesmo que o anterior CD estivesse ainda em funções. Foi isso que Carlos Vieira reconheceu de forma implícita
na entrevista que deu ao DN, nem sequer negando a existência de negociações. Porém, pessoalmente não acredito que com aquele executivo houvesse retrocesso nas rescisões por razões óbvias.
Há outro factor de monta a concorrer para a negociação mesmo que de jogadores que não queiram regressar. O modelo de governação que tem estado em vigor na SAD obriga à venda de regular de activos para o equilíbrio das contas. Como é reconhecido na mesma entrevista por Carlos Vieira. Tal assentimento nem era necessário por ser uma evidência em todos os clubes e que a reconhecida falta de liquidez confirmava.
Fica apenas mais uma nota pessoal: não vejo com bons olhos o aproveitamento das rescisões para obtenção de melhorias contratuais. Mas também não veria com bons olhos as alternativas. Infelizmente o Sporting tem responsabilidades na situação em que se deixou cair por erros e omissões e inevitavelmente sofre agora as consequências. Independentemente do imprescindível apuramento de todas as responsabilidades e de lutar até ao último cêntimo pelo que é seu de direito, foram erros que foram nossos e que seremos nós a ter que saber sair deles mais fortes e melhor preparados.