O mundo muda pela acção e exemplo de homens bons, poucos. A maioria é inercia ou contrapeso
Nelson Rolihlahla Mandela tem hoje 94 anos e luta com dificuldade para completar mais um ano de vida, o que ocorrerá a 18 de Julho próximo. Compreendo porque uma nação inteira reze hoje para que os seus dias se prolonguem. Eu, que não rezo, peço que tenha finalmente o merecido descanso. Se o fizesse, rezaria para que o seu exemplo frutificasse o que, sabemo-lo bem, será muito difícil. Pelo menos ao nível daqueles que o sucederem nessa notável nação que é a África do Sul. Notável na sua riqueza e nos seus contrastes.
Desses 94 anos uns foram passados na clandestinidade, 27 totalmente privado de liberdade. Alguns dos quais na ilha Robben, numa cela cujas paredes podiam ser alcançadas pelos dois braços abertos. Nesse período perdeu o seu filho mais velho, amigos e viu o seu casamento começar a desmoronar-se. Quando lhe foi finalmente devolvida a liberdade Mandela assumiu a vontade expressa de não se deixar consumir pelo ódio pelos seus carcereiros, o que, segundo ele, seria o equivalente a permanecer preso.
Seria aquele o mote para a reconciliação de uma nação, quando muitos esperariam que Mandela saísse da prisão para ajustar contas antigas. A Comissão de Verdade e Reconciliação perpetuou a memória, procurou reparar os erros sem fins persecutórios ou punitivos. Mais do que o passado que já não podia ser alterado, contra a desconfiança de correlegionários e adversários políticos, Mandela alterou um destino terrível quase certo, pela possibilidade de um futuro. De construção difícil e demorada, mas ainda assim possível. A opção por um caminho melhor permanece em aberto e isso é muito mais e muito melhor do que existia anteriormente.
"Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da
sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e,
se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é
mais natural no coração humano do que o seu oposto."
--- / ---
Nelson Mandela é sócio de mérito do Sporting Clube de Portugal desde 28 de Julho de 1997. Uma ideia feliz, levada a cabo pelo então presidente José Roquette. Tê-lo como um de nós é um acrescido motivo de orgulho.
Este post não cai agora para, de forma oportunista, capturar o foco que incide sobre a situação difícil em que vive Mandela. Ele estava já alinhavado desde o final do período eleitoral e independentemente de quem ganhasse as eleições. De então para cá a pertinência e o sentido não se esgotou, antes recrudesceu. O titulo é por isso personalizado no actual presidente do Sporting.
Bruno de Carvalho herdou um clube profundamente dividido. O número de Sportinguistas que não se pronunciaram e
estavam em condições de o fazer foi tão grande como os que foram às
urnas. Essa opção pelo silêncio de um número tão elevado, a que se junta
o número baixo de sócios com as quotas em dia, não pode passar
despercebido, merece reflexão.
Neste momento o presidente beneficia de uma base de apoio que se manteve estável de há dois anos para cá, a que viu acrescer o número suficiente para ganhar as eleições com algum conforto. Além desse apoio expresso beneficiará de outro mais tácito, o chamado beneficio da dúvida, a que se somarão também as desconfianças e rejeições também evidentes. Numa contabilização mais ou menos intuitiva, entre apoios e dúvidas e antagonismos, creio que a maioria dos Sportinguistas estão com o seu presidente, mesmo que muitos aguardem por sinais mais claros para perceber melhor o caminho que escolherá.
Pode sentir-se tentado ao conforto de gerir o clube a favor de um núcleo duro que o apoiará sempre "porque sim" a que chamaria os "bruninguistas". Aprenderam pouco com o passado, têm exactamente os mesmos tiques dos que, durante muito tempo, foram incapazes de dizer uma palavra sobre os erros cometidos por direcções anteriores. Alguns terão que ser os mesmos, pois os 90% de votos da eleição de Bettencourt e o seu discurso "anti-terrorista" não podem ter sido extraídos de Marte. A favor leia-se usando a mesma retórica binária dos verdadeiros contra os falsos sportinguistas. Foi sobretudo a pensar neles que terá saído o célebre "O Sporting é nosso outra vez" na noite das eleições. Foram muitos os que o secundaram no grito, mas muito poucos, se tido em conta o universo Sporting.
Pode sentir-se tentando a governar contra os que o hostilizam de forma deliberada, os "não, porque sim", que também os haverá. Seria ceder a uma tentação primária, redutora para a sua magistratura, o que o tornaria tão igual a esses e a uma clique, também reduzida, mas muito participativa nas redes sociais, que procura "sangue e justiça".
Há outro caminho. O de olhar para o Sporting e cuidar de potenciar o seu maior património, os Sportinguistas. Considerar cada um como o último reduto, o bem inalienável, porque sem Sportinguistas não há Sporting. Ser inclusivo, abrangente, transparente e verdadeiro mas sem se deter na procura de consensos paralisantes, porque há muito caminho para ser feito. Algum dele doloroso, mas necessário. Como é necessário esventrar a terra para novas sementeiras ou podar a vinha para esta rebentar outra vez e proporcionar colheitas memoráveis.